Capítulo 22

Ao chegar em casa, encontrei meus pais sentados na sala de estar. Minha mãe foi a primeira a erguer os olhos para olhar diretamente para mim e, no mesmo instante, me perguntei se ela seria capaz de perceber algo de diferente na minha cara. Antes de girar a chave na fechadura para entrar, eu tinha checado o contorno da minha boca no espelhinho de bolsa exatamente duas vezes. Por alguma razão irracional, achei que os meus lábios estivessem visivelmente inchados pelo beijo. Não tinha certeza se era paranoia, mas confesso que me senti até um pouco decepcionada por não notar nada de extraordinário ou mágico no meu reflexo.

Impressionantemente, e em uma velocidade surpreendente, um sorriso aberto tomou conta dos lábios da minha mãe. Ela carregava uma expressão genuinamente feliz, e foi assombroso descobrir a diferença nítida entre o que eu via ali na minha frente e a fisionomia no rosto do garoto que eu estava beijando há poucos minutos. Era felicidade do mesmo jeito, claro, mas motivada por sentimentos totalmente diferentes.

— Ariana, querida! Como foi o passeio com a Cristina? — ela perguntou, ajeitando a almofada no sofá.

Mordi o meu próprio lábio inferior discretamente para conseguir disfarçar o enorme sorriso que eu guardava no peito e que gostaria de estar exibindo para o mundo.

— Foi bem bom, mãe.

— E como está a Cristina? — meu pai perguntou, girando o tronco na minha direção. Entretanto, embora ele fizesse um esforço visível para se virar, eu não consegui enxergar muita coisa das suas feições além do perfil do seu rosto sob a luz da luminária.

— Ah! Ela está ótima. Tem uma saúde de ferro, aquela ali!

— Isso é a mais pura verdade — minha mãe concordou, rindo baixo. — Você melhorou bastante com os anos, Ariana, mas quando vocês duas eram crianças, você era sempre a primeira da casa a pegar gripe no inverno.

— Eu me lembro bem disso — comentei, rindo junto devido às lembranças da minha infância com o nariz constantemente escorrendo no colégio.

— Bem, o seu prato do jantar já está guardado dentro do micro-ondas, querida. Nós dois já comemos há um tempo — disse minha mãe, que ainda mantinha resquícios daquele sorriso acolhedor na boca.

— Sim — desta vez o meu pai fez um esforço extra de postura para conseguir me encarar de frente. — Você demorou demais para voltar para casa hoje.

Não tinha a mais absoluta certeza se a minha imaginação adolescente estava sendo fértil demais ou se eu apenas estava me sentindo terrivelmente culpada por ter mentido sobre coisas importantes da tarde, mas o meu ouvido detectou um leve tom acusatório na fala dele.

— É que nós perdemos o ônibus, pai, e fomos obrigados a esperar uma hora inteira pelo próximo da linha. Havia muitos brinquedos e atrações na feira, e o tempo acabou passando voando sem a gente perceber

— Ah, sim. Isso é verdade. Quando nós estamos nos divertindo e distraídos, o tempo tem a mania de passar voando mesmo.

— Bem... já que eu vou acabar jantando sozinha hoje, posso comer lá no meu quarto?

— Pode sim. Mas — minha mãe ergueu o braço e apontou o dedo indicador na minha direção, em um alerta clássico — não vá inventar de largar o prato sujo em cima da escrivaninha do quarto, Ariana. Assim que terminar, traga-o direto para a pia da cozinha.

— Tá bom, mãe! Eu prometo!

Com o aval da minha mãe garantido, esquentei o meu prato no micro-ondas e caminhei a passos rápidos em direção ao quarto. Ao empurrar a porta, encontrei a Mirela com os olhos completamente vidrados na tela brilhante do computador, assistindo a algum anime que eu não fazia a menor ideia de como se pronunciava o nome. Acomodei-me confortavelmente na minha cama e liguei o aparelho da televisão para fazer um som de fundo.

Confesso que enfrentei um pequeno, mas barulhento conflito interno ali na cama. Uma parte de mim queria desesperadamente conversar com alguém sobre a noite perfeita que eu tinha acabado de viver, mas eu também morria de receio da reação imediata de qualquer uma das três mulheres que dominavam a minha vida, também conhecidas pelo meu cérebro como: minha mãe, minha irmã e a Cristina Era bem provável que a minha mãe fosse a pessoa que teria a reação mais madura e contida do trio; em compensação, as outras duas eram escandalosas demais, e eu não estava psicologicamente preparada para ter que lidar com a enxurrada de perguntas íntimas que viria a seguir.

A essa altura, eu já não fazia a menor ideia de qual episódio do seriado Eu, a Patroa e as Crianças estava passando na tela da TV, tamanha era a distração dos meus próprios pensamentos, que mudavam de rumo a cada segundo. Entretanto, percebi pelo canto do olho quando minha irmã tirou os fones de ouvido grandes das orelhas e se levantou da cadeira. Ela ergueu os dois braços para o alto, esticou a coluna e soltou um urro alto de pura preguiça.

Meus olhos fitaram as costas dela, que estavam cobertas pelo tecido grosso daquele pijama de flanela preferido dela. Quando a Mirela finalmente girou o corpo e me encarou de frente, a expressão em suas feições era de puro sono acumulado. Minha irmã mantinha uma rotina severa e disciplinada de descanso: por volta das vinte e uma horas e trinta minutos, ela invariavelmente começava o seu ritual noturno para conseguir estar deitada na cama, no mais tardar, às vinte e duas horas e trinta minutos. Fazia isso porque precisava estar de pé bem cedinho no dia seguinte para ir trabalhar e, embora o dia seguinte fosse o seu domingo de folga, ela preferia manter o relógio biológico funcionando do jeito de sempre.

A única coisa com que a Mirela definitivamente não contava para aquela noite era com a notícia bombástica que estava prestes a cair no colo dela. Ela tinha acabado de virar o corpo na minha direção, e seus olhos cansados passaram por cima da minha figura na cama sem me dar muita atenção; afinal, para ela, nada mais no universo importava além do seu merecido sono de descanso. Foi exatamente nesse milésimo de segundo de silêncio que abri a boca e deixei as palavras escorrerem de uma vez por entre os meus lábios, sem qualquer filtro:

— Hoje eu e o Guilherme tivemos um encontro romântico na feira e nós nos beijamos. E ele quer vir aqui em casa falar com os nossos pais para oficializar o nosso namoro. — Pronunciei absolutamente todas as palavras em um único e desesperado fôlego.

As palavras reverberam alto pelas paredes do quarto, tremendo no ar por alguns segundos de completo silêncio. Cheguei a quase rir da maneira mecânica como ela girou a cabeça na minha direção assim que o seu cérebro processou a enxurrada de informações. O movimento dela foi lento e totalmente robótico.

— O quê? — ela soltou.

Não tinha a certeza se a lerdeza impregnada no tom da voz dela tinha a ver com o sono pesado ou se era apenas um choque de pura incredulidade mesmo.

— É isso mesmo que você acabou de ouvir, Mirela — confirmei, firme.

Ao contrário do ritmo lento com que o raciocínio dela parecia estar operando no início, a expressão facial da minha irmã mudou da água para o vinho em uma velocidade assustadora. Então, seus pés deslizaram na minha direção com uma agilidade notável no piso do quarto; foi tão rápido que, em menos de três segundos, ela já estava sentada bem na ponta do colchão da minha cama, me encarando com os olhos estalados.

— Como foi que isso aconteceu, Ariana? Quando foi que vocês dois marcaram esse encontro secreto? Nossa... eu confesso que estou um pouco surpresa de verdade, porque mesmo sabendo que a química entre vocês dois sempre foi de puro romance, eu não achei que você fosse ceder tão fácil. Quer dizer, eu sabia que talvez você pudesse ceder se ele tomasse a iniciativa e desse o primeiro passo.

Movi a minha cabeça em um aceno afirmativo assim que ela terminou o monólogo, confirmando a teoria dela.

— Como assim? Ele se declarou para você no meio do parque?

— Sim. Caso contrário, eu nunca teria tido a coragem de admitir os meus sentimentos para ele — confirmei, sincera.

— O Guilherme tem bem mais coragem do que eu imaginei para peitar a sua marra — a garota refletiu, pensativa, cruzando as pernas no colchão. — Eu quero todos os detalhes agora! Como foi que tudo aconteceu?

Soltei um suspiro pesado, imaginando se a Mirela surtaria muito se eu contasse a história bem do início; mas a grande verdade era que eu não tinha muita alternativa de roteiro. Para conseguir explicar como tudo começou de fato, eu seria obrigada a falar sobre o armário do colégio.

— Você me promete que não vai surtar comigo, ok? Mas é que no Dia dos Namorados deixaram um desenho super lindo e realista dentro do meu armário da escola. Junto com a folha, havia um cartão marcando um encontro para hoje à tarde na feira Bem... eu fui até lá conferir e o tal admirador secreto era o Guilherme

Os olhos da minha irmã se arregalaram por completo na penumbra do quarto, tomados por uma surpresa monumental com a informação que tinha acabado de escutar.

— Espera aí, deixa eu ver se eu entendi bem toda essa loucura — as mãos dela começaram a balançar no ar em um gesto nitidamente nervoso de choque. — Você não só escondeu um segredo desse tamanho de mim por um mês inteiro, como também teve a audácia de ir a um encontro marcado com alguém que você teoricamente não conhecia? — Pressionei os meus lábios com força e franzi o cenho em silêncio, e imediatamente a Mirela pescou a verdade no meu rosto. — Você já sabia que era ele o autor, não sabia?

— Eu tinha fortes suspeitas, mas não tinha a certeza absoluta — confessei.

— Meu Deus do céu, Ariana! Como é que você conseguiu esconder uma coisa dessas de todo mundo por tanto tempo? Você agiu o mês inteiro como se absolutamente nada estivesse acontecendo na escola!

Dei de ombros, sem saber muito bem o que dizer em minha defesa. Teoricamente, aquela bronca dela tinha sido exatamente a mesma coisa que o Guilherme tinha apontado na feira, só que dita com outras palavras

— Eu só queria manter a ideia da surpresa viva no meu peito — e aquilo não era uma mentira descarada para ela. — Se eu contasse o que tinha acontecido no armário para qualquer uma de vocês duas, o elemento surpresa deixaria de existir. E mesmo assim, nós íamos nos encontrar em um parque de diversões público e movimentado, eu não estava correndo perigo nenhum na rua.

— Os seus argumentos de defesa são bons, eu admito, mas eu ainda continuo chateada por você ter escondido uma novidade dessas de mim.

— Se serve de algum consolo para o seu ego, Mirela, você está sendo oficialmente a primeira pessoa do mundo a saber da história Eu ainda não contei para mais ninguém. Nem mesmo para a mamãe e a Cristina.

Minha irmã deixou um meio sorriso orgulhoso desenhar-se nos lábios, claramente satisfeita e feliz por saber que tinha ficado por dentro dos detalhes antes da Cristina.

— Certo. Pensando por esse lado, isso melhora um pouco as coisas — a garota parou de falar por um instante, entretanto, eu pude ler com clareza na expressão dela que havia mais um milhão de perguntas íntimas que ela queria fazer sobre o beijo. Mas ela preferiu não verbalizar e eu também não fiz questão de insistir no assunto.

Bem naquele instante de silêncio, a tela de vidro do meu celular acendeu em cima do lençol, acompanhada por um sinal sonoro discreto de notificação. Havia uma mensagem nova de texto chegando no meu WhatsApp e nenhuma de nós duas precisou fazer o esforço de esticar o pescoço para adivinhar quem era o remetente; até porque já tinha se tornado um hábito corriqueiro da rotina receber mensagens de boa noite do Guilherme àquela hora

— Ah, minha irmã... — o tom de voz da Mirela mudou drasticamente de nuance. Havia uma pontada nítida de preocupação misturada a um sentimento de pena na fala dela. Eu confesso que não gostei nada daquele tom. Odiei a maneira como ela me encarou na cama; no entanto, eu sabia que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer a respeito, porque, no fundo, eu compartilhava exatamente da mesmíssima preocupação oculta que ela guardava — De todo o meu coração, Ariana... eu espero de verdade que essa história de vocês dois tenha um final feliz.

[...]

Fui uma completa imprudente ao ir dormir na noite anterior sem falar com os meus pais sobre a minha intenção de sair de novo no domingo. Geralmente, eu não enfrentava grandes problemas para passear nos dois dias do final de semana; contudo, era uma prática obrigatória e sagrada da nossa rotina comentar todos os detalhes desses passeios com eles antes de cruzar a porta. Para onde eu ia, quem ia comigo, que horas pretendo voltar... esse tipo de coisa.

Movida por uma onda de preocupação que logo resultou em ansiedade, acabei acordando bem mais cedo do que de costume. Depois de escovar os dentes e me ajeitar em frente ao espelho para que meu cabelo ficasse minimamente arrumado, fui de encontro aos meus pais, que já estavam na cozinha. Minha avó e os meus pais eram os únicos acordados e de pé àquela hora da manhã. Tentando ao máximo não transparecer o meu nervosismo interno, respirei fundo e comecei a falar:

— Me chamaram para sair de última hora hoje à tarde. Posso ir? É para um piquenique.

Meu pai continuou concentrado, passando manteiga na fatia de pão, mesmo erguendo o olhar sério na minha direção.

— Primeiramente, bom dia, Ariana — ele me repreendeu, com a voz mansa.

Encolhi os meus ombros no mesmo instante, totalmente envergonhada. Eu estava com a cabeça tão louca e cheia de flashes de ontem que acabei esquecendo o primordial: ser educada com a minha própria família.

— Ah... Me desculpem — olhei para o rosto de cada um ali na mesa antes de emendar: — Bom dia.

Senti um breve alívio no peito quando percebi o suave balançar de cabeça do meu pai, acompanhado por um singelo sorriso de canto. Então, veio a primeira pergunta daquele questionário de segurança que eu já conhecia de cor e salteado.

— E quem é que vai estar lá com você nesse piquenique? — minha mãe quis saber, enquanto organizava as xícaras.

Eu pigarreei uma vez para limpar a garganta antes de tomar coragem para responder.

— Seremos só eu e o Guilherme.

Vi o olhar dos três mudar de nuance no mesmo milésimo de segundo. Meus pais trocaram olhares significativos, cúmplices e totalmente silenciosos por cima da mesa. Os meus encontros a sós com o Guilherme nunca foram uma raridade na nossa rotina; na verdade, eles aconteciam com bastante frequência ao longo dos anos. Todavia, o contexto das situações em que saíamos só nós dois costumava ser bem diferente. Geralmente, isso acontecia quando eu era convidada pela mãe dele para fazer alguma refeição na casa deles, e nessas ocasiões nós sempre acabávamos ficando a sós no quarto dele jogando videogame. De resto, os únicos momentos em que passávamos de fato sozinhos eram o trajeto de volta da escola, as pedaladas até os encontros com a turma ou quando saíamos do colégio e resolvemos passar em algum lugar legal antes de voltar.

O que ninguém da nossa família sabia era que nós dois sempre chegamos aos compromissos muito antes do que todo mundo. Sempre esperávamos pelos nossos amigos completamente a sós, jogando conversa fora, contando piadas e nos divertindo sem pressa

— Vocês dois estão saindo... como namorados? — meu pai perguntou direto.

A expressão no rosto do meu progenitor era tranquila e serena, mas havia alguma coisa sutil na linha do seu maxilar que sutilmente denunciava a sua preocupação de pai. Talvez ele estivesse se esforçando tanto para parecer descontraído com a novidade que o resultado acabou ficando um tanto artificial.

— Sim — respondi sem rodeios ou desculpas. — E ele inclusive quer saber qual é o melhor dia da semana em que pode vir aqui em casa para conversar com vocês.

— Tão rápido assim?! — Os olhos arregalados de puro choque no rosto do meu pai facilmente teriam me feito rir alto, se eu estivesse em qualquer outra situação menos tensa.

— Não foi nada rápido, pai — retruquei. Só depois que a frase saiu da minha boca foi que me dei conta da possibilidade de que eles pudessem interpretar minhas palavras da maneira errada, então tratei de consertar: — Nós decidimos mudar o status do nosso relacionamento há pouquíssimo tempo — estalei os dedos no ar. — Tipo... uns dois dias atrás — menti descaradamente, respirando fundo logo em seguida por causa da nítida sensação de que eu não estava falando nada com nada de tanta vergonha.

— Pois para o meu relógio, dois dias é ser rápido demais — fui prontamente refutada por ele.

Minha mãe, que até então permanecia sem dizer uma única palavra, posicionou-se por trás da cadeira do esposo e pousou ambas as mãos com firmeza sobre os ombros dele. Eu conhecia bem aquela dinâmica: quando os dois estavam em perfeito acordo e compartilhando da mesmíssima opinião, minha mãe calava-se e deixava que meu pai assumisse a palavra e falasse em nome dos dois.

— Tudo bem — disse finalmente o meu pai, após um longo momento de silêncio em que fui minuciosamente avaliada e aprovada pelo senso crítico do casal. — Chame o Guilherme para almoçar aqui com a gente hoje. Depois que nós conversarmos, vocês dois podem sair para o tal piquenique de vocês.

— Certo. Obrigado, pai.

Eu estava genuinamente feliz com a permissão, no entanto, me sentia nervosa demais para que o sentimento pudesse mostrar qualquer uma de suas facetas alegres no meu rosto. Embora eu ostentasse um ótimo relacionamento de confiança com os meus pais, aquele era um assunto bastante complicado de digerir. Não deveria ser assim, penso eu. É uma transição totalmente natural da vida: os filhos crescem e começam a se relacionar amorosamente com alguém.

Movi-me pela cozinha e me sentei à mesa para tomar o café. Foi a primeira vez desde que entrei no cômodo que ergui o olhar na direção da minha avó, que tampouco tinha dito uma única palavra durante toda a arguição. Ela exibia um sorriso gigante de orelha a orelha enquanto mastigava calmamente um pedaço de pão.

— Finalmente uma coisa boa e emocionante aconteceu nesta casa — ela disparou no instante seguinte em que o alimento desapareceu da sua boca.

— Sabe o que seria uma coisa boa de verdade acontecendo por aqui, dona Benedita? — meu pai comentou, irônico. — Eu ganhar sozinho no prêmio acumulado do euro milhões.

— Deixa de ser ciumento e ranzinza, homem! Você deveria levantar as mãos para os céus e agradecer todos os dias que a sua filha não tem o dedo podre para escolher rapaz — a velha senhora rebateu, sem papas na língua.

— E quem foi que disse que eu não agradeço por isso? — os olhos do meu pai pousaram sobre mim de forma terna. — Tome logo o seu café da manhã antes de ligar para avisar o rapaz sobre o convite do almoço.

Assenti com a cabeça e trouxe para perto o saco com os pães franceses, assim como o pote de manteiga. Não precisei nem me levantar da cadeira para pegar a bebida, porque minha mãe trouxe até mim uma caneca fumegante com o café passado na hora.

Foi um momento bastante agradável, apesar de toda a tensão inicial do anúncio e, mesmo quando todo mundo já tinha terminado a refeição e limpado o balcão, a Mirela ainda não dava sinais de ter acordado. Como aquele domingo era o único dia de folga real da semana dela, ninguém na casa se atrevia a incomodá-la, e ela tinha o direito de se levantar na hora em que bem entendesse. Era super comum vê-la perambulando pela casa de pijama quase na hora do almoço.

Precisei esperar a manhã inteira passar devagar até que o relógio finalmente marcasse um horário confortável para que eu pudesse ligar para o Guilherme. Convenhamos que ligar antes das dez horas da manhã de um domingo de descanso é uma tremenda falta de noção com o sono alheio.

— Bom dia... — Guilherme atendeu ao terceiro toque, a voz saindo com um tom meloso e arrastado.

— Ih... por acaso eu acabei de te acordar? — perguntei, preocupada.

— Não, não, que nada. Eu acordei faz pouco tempo, na verdade. Já tomei meu café e estava aqui na sala conversando um pouco com a minha mãe.

— Ah, certo. É que... eu também acabei de conversar com os meus pais — disparei devagar, testando o terreno.

Houve um breve momento de silêncio absoluto do outro lado da linha, o que me fez questionar se ele teria mudado de ideia sobre o namoro ou se tinha achado que eu demoraria bem mais tempo para tomar coragem de dizer alguma coisa a eles.

— E o que foi que eles disseram sobre a novidade? — havia uma nota nítida de preocupação na voz dele.

— O meu pai quer que você venha almoçar com a gente aqui em casa hoje mesmo. Você acha que consegue vir, assim, tão em cima da hora?

— Com certeza. Sem problemas — ele respondeu de pronto, sem titubear por um único segundo.

— Aí nós conversamos com eles e podemos sair para o nosso piquenique depois.

— Ah, perfeito. E que horas vocês costumam almoçar aos domingos?

— Perto das treze horas.

— Certo. Então eu chego na sua casa um pouco antes do meio-dia. Assim, a gente faz tudo com bastante calma e conversa antes de sentar à mesa.

Eu soltei uma risada baixa, mas não era porque a situação de fato tinha alguma graça. Foi um riso puramente nervoso de quem estava com o estômago revirando. Eu queria tanto que as coisas fossem menos formais e complicadas entre nós. O meu pai precisava mesmo fazer toda essa convocação oficial de almoço?

— Eu espero não ter te assustado com essa pressa do meu pai.

— Não se preocupe com isso, Cenourinha. Para falar a verdade, eu até gosto que as coisas sejam feitas desse jeito, às claras. Deixa tudo bem esclarecido desde o começo e vai ajudar a acalmar as angústias de proteção do seu pai.

— Eu estou realmente surpresa com a maneira madura com que você está lidando com toda essa situação.

— Pois acredite: eu venho me preparando para esse momento há muito tempo.

Não soube o que dizer de volta. Minha garganta travou.

Ele estava me esperando há tanto tempo assim em segredo?, me perguntei, com o coração dando um sobressalto de amor

— Bem... agora eu preciso desligar para avisar a minha mãe de que eu não vou poder almoçar com ela hoje — ele continuou.

— Você... — Alguns segundos se passaram — chegou a contar para ela sobre nós dois?

— Sim, contei ontem à noite. Na verdade, ela já sabia sobre absolutamente tudo desde a época em que eu entreguei o desenho no seu armário, Ariana. Ontem ela só foi atualizada.

— Oh, meu Deus... Isso muda muita coisa! — exclamei, horrorizada com a vergonha.

Guilherme soltou uma gargalhada gostosa do outro lado da linha e, quando voltou a falar, ainda havia resquícios do riso na sua voz.

— Muda como, doida?

— É que eu devo ter encontrado a sua mãe umas duas vezes na rua durante esse mês.

— E daí? Não entendi o drama. Ela por acaso te tratou diferente?

— Não! Ela me tratou super bem, como sempre tratou. É só que ela já sabia de tudo e poderia estar me olhando e pensando: “Então essa aí é a menina por quem o meu filho está perdidamente apaixonado?”

Outra gargalhada alta e limpa explodiu do outro lado da linha. Desta vez, tive a nítida impressão de ter sido bem mais longa, forte e descontraída do que a primeira.

— Ariana, você sabe perfeitamente que isso não faz sentido nenhum na realidade. A minha mãe teve exatamente a mesma reação que todo mundo no nosso grupo vai ter quando descobrir: ela só ficou levemente surpresa porque, de resto, os meus sentimentos por você nunca foram segredo nenhum para ela.

Mordi o interior do meu lábio inferior, sem aplicar muita força para que não doesse tanto, mas sentindo o rosto ferver.

— Do jeito que você fala, parece até que eu sou uma completa tonta, já que fui literalmente a única pessoa do universo a não descobrir essa sua paixão secreta antes do encontro.

Do outro lado da linha, ouvi o Guilherme soltar um suspiro profundo e terno. Eu estava escondida no canto da área de serviço da casa, em pé bem debaixo do varal de roupas secas, enquanto agarrava o celular com força na orelha e olhava fixamente pela janela de vidro para o quintal.

— Tonta não, Cenourinha. Você só decidiu ignorar todos os sinais óbvios por medo — ele jogou a verdade direto na minha cara, com suavidade.

— Aish! Para com isso! — reclamei, fazendo bico no escuro.

— Meu amor, eu vou precisar desligar agora para me arrumar, certo? — ele se apressou, mudando o tom de voz para algo que fez meu estômago dar voltas completas com o apelido carinhoso.

— Tá bem... Beijinhos.

— Beijo. Até daqui a pouco.

E a ligação caiu.

[...]

Dei o melhor de mim para terminar todas as minhas tarefas domésticas na cozinha cedo o suficiente para conseguir ter tempo de subir e me arrumar adequadamente no quarto. Felizmente, fazia um sol radiante e limpo naquele domingo; portanto, metade dos meus problemas estéticos de beleza estavam resolvidos pelo simples fato de eu poder deixar o meu cabelo secar naturalmente com o vento, sem precisar enfrentar o secador. Escolhi vestir um vestido azul de tecido liso, fluido e com mangas bufantes bem delicadas. Quando voltei para o andar de baixo e pisei novamente na cozinha, minha mãe já havia terminado de preparar todos os acompanhamentos do almoço. Na verdade, ela nem estava mais no cômodo.

Olhei ao redor, estranhando o silêncio, e perguntei em voz alta para quem estivesse por perto:

— Cadê a mãe?

Meu pai sacolejou o jornal de papel que tinha nas mãos com um ruído seco, porque precisou desfazer a dobra da lombar daquele amontoado de páginas para encontrar as notícias do interior.

— Foi tomar banho — ele respondeu, com um tom de leve desdém brincalhão. — Até parece que nós vamos receber o próprio rei da Inglaterra aqui em casa para o almoço de domingo.

— Eu já sou da teoria de que a dona Fabiana faria exatamente a mesma coisa e correria para o chuveiro se fosse receber qualquer outro tipo de visita — ouvi a Mirela comentar, surgindo do corredor

Minha irmã já estava de pé pela casa, zanzando sem rumo entre os cômodos e enfiando um bago de uva atrás do outro na boca enquanto nos observava com diversão. Ela raramente ajudava em alguma tarefa doméstica da rotina, o que eu honestamente considerava um erro grave. Tudo bem que era terrivelmente cansativo trabalhar seis dias consecutivos no emprego, eu entendia o peso, mas ela podia pelo menos se dar ao trabalho de fazer um arroz para ajudar no almoço da família.

— Mas é óbvio que o almoço tem que ser todo especial hoje, pai, se a dona Fabiana vai receber oficialmente o novo genrinho dela — ela completou o raciocínio, após uma longa e calculada pausa dramática.

Minha única reação imediata foi virar o pescoço e encará-la com os olhos completamente esbugalhados de puro terror. Eu amava a minha mana com todas as minhas forças, entretanto, havia momentos em que eu simplesmente odiava o temperamento provocativo dela. Eu partia da ideia de que havia momentos e momentos na vida, e definitivamente não era nada legal ficar fazendo piadinhas sobre alguns deles; principalmente quando era perfeitamente notável o quanto a situação estava sendo tensa para mim. Cutucar e alfinetar uma atmosfera pesada daquelas carregava um leve resquício de maldade pura, mesmo com ela jurando de pé junto que não fazia por mal.

Em vez de abrir a boca para falar alguma coisa e dar corda para o falatório dela, preferi apenas conferir as horas no visor do relógio digital enrolado no meu pulso. O cronômetro marcava exatamente meio-dia e três minutos. Foi o gatilho suficiente para provocar uma subida instantânea no meu ritmo cardíaco. Estava prestes a acontecer. O Guilherme poderia despontar na nossa rua a qualquer instante. Havia mais ou menos cinco minutos, ele tinha me enviado uma mensagem avisando que já estava a caminho. Se ele estivesse vindo pedalando com a bike dele, seria um trajeto ridiculamente rápido até aqui.

O som estridente da campainha ecoou pelo corredor um tempo depois de eu finalizar aquele raciocínio, concretizando todas as minhas piores suspeitas. Meu estômago deu um nó de marinheiro.

— Eu atendo! — anunciei em voz alta.

Não esperei pela confirmação ou autorização de ninguém na sala; apenas trilhei o caminho até a porta de entrada em uma velocidade questionavelmente rápida e ansiosa. Respirei fundo, tentando puxar o ar para os pulmões ao pousar a palma da mão no trinco de ferro do portão, e o abrir de uma vez. Eu não tenho como mensurar como o Guilherme se sentiu por dentro ao ver o metal se mover, possibilitando a passagem dele para o nosso terreno. O que posso afirmar com total certeza é que o rosto dele estava em um tom de vermelho tão vivo que parecia que ele tinha acabado de sofrer uma insolação grave na praia. Restava saber se a corrida acelerada de bicicleta no sol tinha alguma coisa a ver com aquela cor ou se era puramente vergonha.

Ele tentou abrir um sorriso largo para mim, no entanto, era perfeitamente notável o nervosismo que tomava conta de cada centímetro do seu corpo, fazendo com que ele ficasse tentando estalar as juntas dos dedos das mãos de forma obsessiva — embora elas já não produzissem barulho nenhum de tanto que ele já tinha tentado. Dei um passo à frente em sua direção, sem sair debaixo da cobertura da entrada; o sol que bateria direto no meu rosto estava sendo bloqueado pela silhueta alta dele.

— Está tudo bem com você? — perguntei, recorrendo àquela cortesia boba de quem não sabe o que falar para quebrar o gelo.

— Sim — ele respondeu, a voz saindo um tom mais baixo. — É só o nervoso mesmo.

— Bem... quanto a esse seu colapso de nervos eu infelizmente não posso fazer muita coisa prática por aqui, além de te oferecer um abraço de apoio.

Pela primeira vez desde o segundo em que cruzou o portão da frente, Guilherme olhou bem no fundo dos meus olhos e sustentou o olhar ali, firme. Eu posso estar sendo excessivamente presunçosa ou romântica com a situação, entretanto, foi extremamente prazeroso e reconfortante ver a angústia daquele nervosismo ceder espaço, aos poucos, para o brilho intenso da paixão no olhar dele Era como se a expressão dele estivesse me dizendo em silêncio: fica tranquila, Ariana. Tudo isso aqui está valendo a pena por você.

Ele acenou com a cabeça em uma concordância mansa, já vindo na minha direção com os braços abertos. Confortavelmente, fui acolhida e esmagada dentro daquele abraço quentinho de um garoto que ostentava duas mãos completamente congeladas de puro nervoso nas minhas costas

— Nem quando o inverno está rachando as suas mãos ficam tão geladas assim, Guilherme — comentei, rindo baixo contra o peito dele.

Foi uma agradável surpresa ouvir o som da risada dele ecoar perto do meu ouvido.

— Ariana, eu te juro... nem quando eu estava na raia de partida para a final do campeonato de natação eu fiquei tão aterrorizado e nervoso assim como estou agora — ele confessou, desarmado

Oh, meu Deus... tadinho dele, pensei, sentindo um misto de fofura e pena.

O momento de conforto findou no exato instante em que aquelas palmas gélidas partiram das minhas costas e pousaram com firmeza sobre os meus ombros, me afastando um pouco. Um beijo carinhoso foi depositado direto na minha testa e, então, o garoto se desfez do toque por completo. Já desvencilhado do meu corpo, ele se virou de lado e arrastou para perto a sua bicicleta, que tinha ficado temporariamente encostada no muro de tijolos.

— Pronto. Eu estou oficialmente pronto para o combate — ele decretou, respirando fundo e ajeitando a postura para entrar.