Não Te Esquecerei Jamais

1 Prólogo - O Dia Marcado no Calendário


Notas iniciais
Hello, estou muito tímida em compartilhar isso com vocês. Levei anos escrevendo essa história e espero que gostem. Depois de anos sumida, estou de volta.

Fevereiro de 2032

O carro de Ariana parou devagar em um pequeno recuo de terra batida. Era impossível avançar mais com o veículo; dali em diante, o caminho desaparecia por entre a densidade de um parque repleto de árvores imensas.

Quando desligou o motor e puxou o freio de mão, faltou-lhe coragem para sair. Olhou pelo para-brisa em direção ao céu limpo, iluminado pelo sol ainda brando do início da manhã, e perguntou-se por que estava fazendo aquilo. Tinham-se passado oito longos anos. Era ridículo acreditar que ele estaria esperando por ela.

“Assim como é ridículo você estar aqui pela mesma razão?”, pensou o seu lado esperançoso. O coração, que nunca esquecera o primeiro amor, argumentou: “Se você não for, vai carregar essa dúvida para sempre. Sabe disso. Está disposta a viver com esse fantasma pelo resto da vida?”

Automaticamente, sua mão correu para o colo, onde repousava um pingente: a metade de um coração entalhado com a letra G. Era avassalador perceber que aquele amor ainda ardia com tanta intensidade, mesmo depois de quase uma década de separação e angústia.

As pessoas que acompanharam a sua história sempre disseram que a dor iria passar, que o tempo curava tudo. Uma parte dela quisera acreditar nisso. Quisera ter conseguido seguir em frente, livre daquela saudade que se tornava insuportável sempre que recordava os momentos que viveram juntos. Talvez se não tivessem feito a promessa de se reencontrarem dali a oito anos — quando já seriam adultos e sem obstáculos que os impedissem de ficar juntos —, ela tivesse tido a chance de o esquecer.

Mas Ariana ainda guardava na memória cada sensação que ele lhe provocara. Eram lembranças tão vívidas que sentiu as bochechas esquentarem, da mesma maneira que acontecia quando ele as segurava entre as mãos. Lembrava-se perfeitamente do toque dos lábios dele, quentes e macios. Podia estar sendo fortemente influenciada pela nostalgia, e talvez o passado nem tivesse sido tão perfeito como se lembrava, mas era assim que se sentia agora. E a vontade de recuperar tudo aquilo fez o seu peito ganhar vida.

Ariana respirou fundo e engoliu em seco antes de abrir a porta do carro. Estava totalmente consciente de que o seu coração terminaria destruído se aquele encontro falhasse. Bateu a porta com mais força do que o habitual, ignorando a lama que se colou de imediato à sola da sua bota. Havia chovido durante a madrugada e, até que o solo secasse, seria impossível sair dali limpa.

Passou as mãos pela calça jeans para secar as palmas que, apesar do frio, suavam de puro nervosismo. Apertou o casaco contra o corpo. Como tinha optado por uma peça fina, o vento gelado castigava-lhe a pele com facilidade. Entrou por entre duas fileiras de árvores. O caminho até a cachoeira continuava extremamente familiar, tornando a caminhada fácil, embora o calçado não tivesse sido a melhor escolha para o terreno escorregadio.

Concentrada em escolher onde pisar, não pôde deixar de notar a ausência de outros carros estacionados nos arredores. O vazio a preocupava. Era o sinal palpável de que talvez estivesse sendo ingênua ao comparecer a um encontro marcado há tanto tempo.

Parou algumas vezes para aquecer as mãos e olhou para trás, na esperança de que ele vinha logo atrás. Não vinha. Continuou a avançar e, pouco depois, o som da água a correr começou a ecoar. O seu pulso acelerou, ansioso.

Ao chegar à clareira, Ariana direcionou os olhos cor de café para o topo da cachoeira. Recordou as vezes em que ele saltava daquelas pedras, ignorando os seus avisos de que era perigoso. Depois, varreu o ambiente com o olhar. Não encontrou uma única alma. Consultou o relógio no pulso esquerdo: eram dez horas em ponto.

Bem, talvez tenha chegado cedo demais.

A vergonha aumentava a cada segundo de espera. Ariana temeu que os momentos mais encantadores da sua vida se transformassem, a partir daquele dia, em lembranças dolorosas. Mas tinha pago para ver, e agora restava-lhe arcar com as consequências.

Não saberia dizer quanto tempo passou até que um eco vindo da floresta a despertou do devaneio. Aguçou a audição. Não percebeu as palavras exatas, mas o tom pareceu-lhe extremamente familiar.

— Quem está aí? É você, Guilherme? — chamou, com um nó de nervosismo na garganta. Só naquele instante percebeu o risco de estar sozinha no meio do nada.

O eco se repetiu, agora muito mais próximo:

— Ariana! Estou chegando!

O som fez o seu corpo empertigar-se. Os braços caíram ao longo do corpo e, quando viu Guilherme surgir por entre a vegetação, ofegante e arrastando uma mala de viagem, o seu coração falhou uma batida antes de ser inundado por uma onda avassaladora de emoções. Ele ameaçou correr, mas, ao notar o choque no olhar dela, apoiou-se no tronco de uma árvore para recuperar o fôlego.

Ariana correu na sua direção, erguendo os braços para se equilibrar na subida das pedras. Estava tão focada em não cair que não percebeu que Guilherme também retomara o passo. Quando ergueu os olhos, ele estava tão perto que ela recuou instintivamente. Teria caído se o braço dele não lhe tivesse envolvido a cintura com firmeza, puxando-a para uma área segura.

— Oh. Você veio — as palavras simplesmente escaparam-lhe da boca, num momento de desorientação. Os seus olhos piscaram freneticamente e os lábios entreabertos denunciavam a sua surpresa.

Mesmo já estando em segurança, a palma da mão dele continuou firmemente instalada na sua lombar. Ariana sentiu o ar faltar quando ele deu mais um passo, eliminando a distância entre os dois. O seu corpo reagiu de imediato; apesar do hiato de anos, não se tinha esquecido daquela proximidade.

— Estou impressionado por você ter chegado na hora. Desculpa, o meu voo atrasou.

Ela precisou pigarrear para reencontrar a voz perdida.

— Bem, você podia ter vindo um dia antes para se organizar.

Guilherme sorriu sem mostrar os dentes, fazendo o peito dela descompassar mais uma vez. O sorriso continuava exatamente igual: o canto esquerdo da boca ligeiramente mais caído que o direito.

— É, devia ter feito isso. Mas fiquei com medo... e já não havia passagens para datas mais recentes quando decidi comprar.

Os olhos dele deixaram os dela e fixaram-se no arco que prendia o seu cabelo ruivo para trás. Ao perceber o foco do olhar dele, os dedos de Ariana voaram até o acessório, tocando-o delicadamente ao lembrar-se do dia em que o recebera.

— Sempre imaginei como ficaria no seu cabelo — Guilherme suspirou, puxando-a para um abraço apertado.

Quando Ariana lhe envolveu o tronco com os braços, ele afundou o rosto nos fios ruivos, tal como fizera na última despedida. Embora o perfume fosse diferente, Guilherme sentiu uma onda de conforto indescritível por estar de volta ao seu lugar mais familiar.

Em resposta, ela pousou o queixo no ombro dele, deixando que o nariz se enterrasse na curva do seu pescoço. Inalou profundamente, reconhecendo o cheiro natural da pele dele por baixo da fragrância do perfume.

— Como passou esses últimos anos? — perguntou Ariana. A voz saiu abafada, vibrando contra a pele de Guilherme e provocando-lhe um leve arrepio.

— Bem... na medida do possível — o hálito quente dele soprou entre as mechas de cabelo, atingindo a pele sensível do pescoço de Ariana. Ela arrepiou-se da cabeça aos pés, mas Guilherme não notou devido às camadas de roupa. Afastou-se ligeiramente, pois queria olhar nos olhos dela ao dizer o que vinha a seguir: — Senti sua falta.

— Eu também.

Enquanto Guilherme prendia o cabelo comprido — que agora lhe caía até a altura do maxilar — com um elástico que trazia no pulso, Ariana o observou. Chegou à conclusão de que a essência dele permanecia intacta. Fora o corpo mais robusto e a barba rala, que parecia ter sido aparada há pouco tempo, as feições eram as mesmas.

Assim que deu a segunda volta no elástico, Guilherme levou as mãos ao rosto dela, espalmando uma de cada lado naquele gesto que era só deles. Ariana, pega de surpresa, encolheu-se com o toque das palmas frias. O homem soltou uma gargalhada contida, mas não se afastou; em poucos segundos, o calor da pele dele tornou o toque confortável.

Um sorriso aberto surgiu nos lábios de Ariana ao notar o reflexo do sol na corrente de Guilherme. Ali, brilhando contra o peito dele, estava a outra metade do coração, com a inicial dela gravada.

— Você ainda tem! — exclamou, puxando a corrente com uma das mãos, enquanto a outra segurava o próprio pingente no colo.

— Nunca deixei de usar.

Ariana uniu os dois lados. Ao erguer o rosto com um sorriso discreto, acabou surpreendida por lábios ávidos. A boca hesitou por um milésimo de segundo, assustada com a intensidade súbita do toque, mas cedeu logo em seguida. Foi como se o tempo fizesse marcha à ré: o coração de ambos foi tomado pela mesmíssima eletricidade do primeiro beijo. Mal podiam acreditar que o reencontro era real, e demoraram a processar que a longa espera de oito anos tinha, finalmente, terminado.