Não Te Esquecerei Jamais
8 Café sem açúcar, por favor
Notas iniciais

Capítulo 7
A retomada daquela bela amizade começou de verdade no dia em que me escondi no banheiro para não encontrá-lo, sem saber que ele continuaria por perto. Era esquisito. Aqueles acontecimentos pareciam ter ocorrido há muito tempo, embora tivessem sido vivenciados há apenas dois dias. Foi fácil entender o processo: meus próprios sentimentos fizeram com que as lembranças do tempo em que passamos afastados parecessem curtas. A sensação era a de uma pequena pausa; portanto, aqueles dois dias novos eram apenas a continuação de uma cumplicidade de longos anos.
Suspirei fundo enquanto meu lápis deslizava sobre o papel branco, traçando linhas que tentavam copiar os contornos do rosto de Guilherme. A mão que segurava o grafite caiu sobre o meu colo. Observei meu esboço, constatando que os traços estavam um pouco tortos. Como ainda era difícil para mim identificar o formato exato das estruturas, desenhei sem pensar muito nos conceitos teóricos. A única certeza era que o rosto dele não se encaixava nos tipos redondo ou oval, já que a linha da mandíbula era bem marcada.
Bebi bastante água durante as duas horas de aula, esperando que o líquido ajudasse a enganar a fome que eu sabia que viria com força total. Funcionou por um tempo, mas, assim que a professora deu a aula por encerrada, percebi que a água não faria mais milagres. De qualquer forma, estava tudo bem, pois eu já estava indo para casa. Arrumei minhas coisas sem pressa, mas consciente de que precisava passar no banheiro antes de cruzar o portão de saída.
Cobri a folha do desenho com uma película protetora foi a minha última tarefa antes de me levantar, já com a mochila pesada nas costas. Procurei a silhueta de Guilherme no meio do agito dos alunos que se dispersavam. Foi rápido encontrá-lo; ele já caminhava na minha direção.
— Me encontra lá fora. Vou ao banheiro primeiro — avisei assim que ficamos próximos.
— Tá bem — ele sorriu, apontando com o queixo em direção à saída. — Vou indo na frente.
Andei na cola dele até sairmos da sala de aula, momento em que nossos caminhos se dividiram no corredor. Até então, eu não tinha notado o quanto estava apertada e forcei meus pés a se moverem mais rápido. Diferente da minha última fuga, desta vez já havia algumas meninas espalhadas em frente ao espelho, ajustando detalhes do visual. Entrei exatamente na mesma cabine de antes.
— Estou adorando essas aulas de desenho — uma delas comentou, a voz ecoando pelo ambiente.
— Sei... Você está adorando as aulas, sei bem — a amiga rebateu em tom de deboche.
— Mas eu sempre disse que as aulas de anatomia eram ótimas! Se nós temos um modelo bonito como bônus, fica melhor ainda.
— Fiquei sabendo que ele estuda aqui na escola mesmo. Ele ainda está no Ensino Fundamental.
— Nossa, sério? Ele parece ser bem mais velho. Não que os garotos do primeiro ano sejam lá essas coisas, mas acho que é por causa da altura. Meninos de quatorze anos não costumam ter aquele tamanho todo.
A outra não respondeu verbalmente, mas imaginei que estivesse dando de ombros. Seria exatamente o tipo de resposta que eu daria. Balancei a cabeça, afastando da minha mente a ideia de estender meu tempo dentro da cabine só para bisbilhotar o que mais falariam sobre o Guilherme.
Olhei de relance para as duas amigas pelo reflexo do espelho enquanto lavava as mãos. Eu não tinha prestado atenção na aparência delas antes, mas agora notei traços mais maduros. Elas com certeza eram mais velhas; eu apostaria que tinham uns dezesseis anos e estavam prestes a cursar o segundo ano do Ensino Médio.
Sequei as palmas das mãos na calça jeans e comprei o caminho para fora do prédio. A conversa das garotas me fez refletir sobre a aparência do Guilherme. De fato, ele era o mais alto de todos os meninos que eu conhecia, mas eu nunca tinha parado para pensar que isso o deixava com um aspecto mais maduro. Um sorriso bobo surgiu nos meus lábios. Eu estava tão acostumada a conviver com ele que não reparava nas mudanças físicas. Para mim, ele continuava parecendo o mesmo garoto de sempre, mas, pelo visto, a primeira impressão do resto do mundo era bem diferente.
Eu já me aproximava das escadas externas que me levariam direto para o sol escaldante do verão quando me dei conta de um detalhe curioso. Guilherme entraria um ano mais cedo no Ensino Médio. Enquanto a maioria iniciava o primeiro ano com quinze ou dezesseis anos, ele começaria com quatorze, idade que completaria em menos de um mês. Eu também começaria com quatorze, mas completaria quinze praticamente no início do ano letivo.
Olhei ao redor assim que desci o último degrau e o avistei vindo na minha direção, segurando o guidão da bicicleta. Seus pés estavam firmes no chão, mas ele se movia em uma corridinha desajeitada que foi bruscamente interrompida quando seu boné voou e caiu no chão. Cambaleando um pouco, ele deu um passo para trás e, soltando uma das mãos do guidão, pescou o objeto do solo.
Olhando a cena patética, cerrei os lábios para conter a gargalhada, mas o riso roncou baixinho no fundo da minha garganta e o ar escapou com velocidade pelas minhas narinas. Corri para alcançá-lo.
— Vamos passar na lanchonete aqui perto. Eu preciso de um café.
Guilherme me encarou com os olhos um pouco estreitos, como se tentasse decifrar a minha linha de raciocínio.
— Mas já é meio-dia. Está na hora do almoço, Ariana.
Gemi alto e joguei a cabeça para trás, com os lábios pressionados.
— Eu sei, mas tem aquele doce do meu pai que está guardado na sua mochila. Eu quero comer agora! A gente come, espera um pouquinho e depois eu vou para casa almoçar normalmente. Um docinho não vai estragar o meu apetite. Vamos, por favor! — Uni as palmas das mãos na altura do peito, balançando-as para a frente e para trás enquanto forçava uma expressão fofa, imitando o GIF de um gatinho pidão que eu tinha visto na internet.
Ele tentou sustentar uma postura indecisa, fingindo avaliar os prós e contras, mas o sorriso que brotou no canto da sua boca denunciou sua rendição imediata.
— Tudo bem, tudo bem. Vamos lá.
O lugar ficava tão perto que fomos caminhando pela calçada mesmo; ele nem cogitou montar na bicicleta. Assim que chegamos, Guilherme travou na calçada, sem saber ao certo como entraria no estabelecimento empurrando a bike.
— Deixa que eu entro e faço os pedidos. Me espera aqui fora. Você quer café puro ou com leite?
— Puro.
— Certo.
O interior da lanchonete estava vazio, por isso fui atendida em poucos minutos. Pela vidraça, avistei Guilherme se acomodando em uma das mesas de cimento que havia na praça logo em frente. A caixinha branca da padaria já estava repousada sobre a superfície lisa. Aproximei-me, coloquei os copos fumegantes na mesa e deslizei pelo banquinho, ficando de frente para ele.
O garoto puxou um dos copos em direção aos lábios e, logo após o primeiro gole, fez uma careta horrível de puro desgosto.
— Você não pediu com açúcar?
— Eita, você pegou o meu por engano — respondi, destrocando os copos rapidamente.
— Você bebe café sem açúcar? — ele perguntou, genuinamente horrorizado com a descoberta.
— Depende do acompanhamento. Como nós vamos comer doce, eu prefiro o café bem amargo — dei o primeiro gole no meu copo sem sequer piscar, o que aparentemente o deixou ainda mais incrédulo. — O que foi? Está surpreso demais?
— Ariana, você realmente tem um coração no peito?
Uma risada explodiu da minha boca bem no momento em que eu engolia o líquido quente.
— O que uma coisa tem a ver com a outra? É claro que eu tenho!
Ele deu mais um gole no seu café adocicado, sem desviar aquele olhar desconfiado de mim. Abri a caixa branca com cuidado, puxei o doce e o parti exatamente ao meio, estendendo uma das metades para ele.
— Acho que você não conhece essa receita. É um doce tradicional português chamado Bispo. É feito basicamente com creme de ovos e coco — expliquei, fazendo uma pequena pausa. — Você gosta de coco, não gosta?
— Sim, eu adoro.
— Ai, que bom. Até porque, como eu poderia confiar em alguém que não gosta de coco? — brinquei.
Ele respondeu com uma risada e deu a primeira mordida no doce. Mastigou devagar, com uma postura analítica, exatamente como fazia quando tentava imitar os jurados rabugentos do MasterChef na televisão.
— Hum... Muito bom mesmo.
Ergui as mãos na altura do rosto, com as sobrancelhas suspensas e um sorriso vitorioso.
— Eu já sabia — comentei. Nós dois rimos ao mesmo tempo, em perfeita sintonia. — Sabe, hoje eu fiquei pensando sobre uma coisa.
Guilherme apoiou os cotovelos na mesa de cimento e inclinou o tronco na minha direção, demonstrando interesse.
— Em setembro nós vamos para o Ensino Médio, vamos mudar de escola de vez. Por que você se voluntariou para ser modelo desse curso se não precisa de nota extra no boletim?
— A professora Michele é uma conhecida de longa data da minha mãe. Ela estava precisando muito de um modelo para as aulas de anatomia e não conseguia encontrar ninguém disponível nas férias.
— Ah, entendi. Mistério resolvido.
— Foi uma feliz coincidência eu acabar caindo na sua turma. Eu nunca imaginei encontrar você em um curso de artes. Por que resolveu se inscrever?
— A minha paixão pelo desenho não é da sua época, não tinha como você saber. Comecei fazendo rabiscos meio toscos de objetos fáceis e achei divertido. Quando a escola liberou as inscrições para o curso de verão, achei que seria a oportunidade ideal para melhorar meus traços. Eu sei que não vou sair daqui uma profissional completa, mas já é o suficiente para aprender algumas técnicas legais.
— Eu já acho os seus desenhos muito bons.
Encarei-o com os olhos estreitos, desconfiada.
— E desde quando você vê meus desenhos?
— Eu posso ter pedido, educadamente, para a professora Michele me deixar dar uma olhada nos trabalhos da turma — ele confessou, com um brilho travesso no olhar.
— Oh, meu Deus! Você não tem escrúpulos, não é, Guilherme Martins?
— Eu só estava curioso.
Balancei a cabeça em um gesto de desaprovação fingida, mas no fundo estava adorando o interesse dele.
— Bem, parece que você leva jeito como modelo vivo. Fica bem paradinho, pelo menos.
— Eu fico, né? — ele brincou.
Comi o último pedaço do doce e, como minha boca estava cheia demais para falar, apenas ergui os dois polegares em sinal de aprovação. Conversamos por mais alguns minutos até decidirmos que era hora de voltar para casa.
— Nossa, como o dia está quente! — reclamei, abanando o rosto com as mãos enquanto caminhávamos pela calçada. — Minha maquiagem não está muito borrada, né?
Fiquei na ponta dos pés, inclinei o rosto para o lado e me aproximei o máximo que consegui para que ele avaliasse. Guilherme, de forma inesperada, encaixou os dedos no meu queixo e puxou meu rosto de leve, alinhando-o bem de frente para o dele. Ali, suspensa na ponta dos pés, encarei-o muito mais de perto do que o planejado.
— Para mim parece normal, mas eu não entendo nada de maquiagem — ele confessou, mantendo os olhos nos meus por um segundo antes de soltar meu queixo.
Voltei a plantar os calcanhares no chão firme. Estalei a língua na boca e disparei, fingindo indignação:
— Ai, eu devia saber.
— Sou filho único e quase nunca vejo a minha mãe usando essas coisas — ele tentou se defender.
Gargalhei alto. Ele parecia genuinamente preocupado em se justificar, o que tornou a cena hilária.
— Foi só uma brincadeira, Guilherme. Não precisa se explicar. Está tudo bem você não entender nada disso — reduzi o ritmo dos meus passos para conseguir encará-lo com mais afinco. — Mas me diz: por que você às vezes leva minhas gracinhas tão a sério?
— É que quando você fala com essa cara séria, parece verdade.
— E você acha que eu seria o tipo de pessoa que julga os outros só porque não entendem de maquiagem? — Mantive um sorriso aberto no rosto para ressaltar que a conversa era puramente leve, mas ele permaneceu calado por alguns instantes, parecendo não saber o que responder. — Não precisa ter medo de falar algo errado comigo. Eu não vou ficar brava por causa dessas bobeiras. Nós somos amigos e o que aconteceu no passado ficou no passado. Então, relaxa! — dei um empurrãozinho de leve no ombro dele.
Ele balançou a cabeça devagar, parecendo absorver minhas palavras.
— É só que... está tudo diferente. Antes era bem mais fácil perceber quando você estava só zoando.
— Bem, dois anos é muito tempo e nós mudamos. Eu com certeza não sou a mesma garotinha de quando tinha doze anos, embora, no fundo, eu ainda seja só uma garota.
A cabeça dele balançou em concordância, mas com muito mais firmeza desta vez.
— Uma garota muito atípica por beber café sem açúcar, com certeza.
O pequeno sorriso nos meus lábios se transformou em uma risada aberta.
— Nossa, você ficou realmente traumatizado com isso.
Guilherme ergueu o polegar direito em resposta, rindo também. Apertei os lábios e balancei a cabeça em desaprovação fingida. Caminhamos em um silêncio confortável por mais algum tempo até que finalmente alcançamos a esquina da minha rua. Parei de andar; ele não precisava me acompanhar até a porta de casa, então decidimos nos despedir ali mesmo.
— Vejo você no sábado — avisei, erguendo a mão direita em um aceno.
— Eu passo na sua casa para te dar a carona — ele lembrou, apontando para a bicicleta.
— Tá bem — cedi, sem resistir.
Acenei mais uma vez antes de girar nos calcanhares e seguir o caminho de casa, com o coração inexplicavelmente leve.
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