Notas iniciais
Olá para vcs que estão lendo esta fic, sejam sempre bem vindos.Saibam que eu amo Orgulho e Preconceito e esta é a segunda fic que posto a respeito.Gosto muito de recados dizendo se a fic está boa ou não, saibam que eu respondo a todos, e caso tenha algum leitor fantasma, não custa nada deixar um recadinho dizendo que está aí.Espero que gostem.

Condado de Merynton, Abril de 1859

Viajantes molhados e cansados, ansio­sos para retornarem a seus assentos nos carros de passageiros, reuniam-se na pequena plataforma de madeira ao lado da estação. Cada vez que o trem parava para reforçar o estoque de água e carvão, Jane Bennet temia não ter tem­po para encontrar os primitivos sanitários, espe­rar em uma fila e retornar antes que o trem par­tisse sem ela. Não comia desde o dia anterior.

A chuva fria penetrava pela gola de pele de raposa do casaco de lã que havia sido o ponto alto da moda em Londres no último inverno. Na­quele momento a pele tinha a aparência e o cheiro de um animal morto, e já não a aquecia ou em­belezava como antes, em Londres, quando ia ao teatro e aos mais exclusivos eventos sociais da estação. O casaco já não podia ser fechado na al­tura de seu abdome distendido.

Apertando os dentes contra a dor latejante na parte inferior das costas, abaixou-se para apanhar a bolsa de couro que carregava em cada parada por temor de perder seus últimos e preciosos per­tences. A mão encontrou o vazio e ela olhou para onde a bolsa estivera minutos antes.

— Minha bolsa! — O pânico invadiu seu corpo trêmulo, e ela olhou para as tábuas molhadas, incapaz de ver mais do que um emaranhado de pés e pernas envoltas em calças.

— Todos a bordo! — O condutor começou a admitir os passageiros, e a multidão diminuiu. Ela examinou a plataforma com desespero, mas só viu alguns pa­péis ensopados e a ponta de um cigarro ainda aceso.

Tinha de estar ali! Tinha de estar!

Um soluço brotou da garganta. Alguns passageiros retardatários correram para embarcar.

— Não vai embarcar, senhora?

Jane correu desajeitada na direção do condutor vestido em um uniforme preto. O boné fora puxado sobre os olhos para protegê-lo da chuva.

— Minha bolsa desapareceu!

— Sinto muito, senhora. Vai ter de relatar a ocorrência ao chefe da estação.

O apito soou estridente e Jane quis imitá-lo com um grito estrangulado.

— Não tenho tempo! O trem está partindo!

— Decida-se. Vai embarcar ou ficar? Dividida, considerou as últimas peças de jóia,

O diário e os itens pessoais. Ainda possuía um baú de roupas no vagão de bagagens e um bracelete de esmeraldas e prata costurado no forro da pequena bolsa que carregava. Ela subiu o pri­meiro degrau da plataforma.

— A passagem, por favor — o condutor pediu.

Jane o encarou espantada, a mente girando depressa. O bilhete ficara na bolsa roubada.

— Não a tenho comigo.

— Então, sinto muito, mas não pode embarcar.

— Mas...

— Lamento, senhora.

—Preciso entrar nesse trem! Minha bagagem está no vagão cargueiro, e não tenho para onde ir!

— Regras são regras. Se tem passagem, pode viajar. Se não, não entra no trem.

— Mas, senhor, creio que não entendeu...

—Moça, já ouvi essa história. Quantas pessoas pensa que tentam embarcar em uma noite chu­vosa como esta, sem passagem ou dinheiro para pagar pela viagem?

—Não sou esse tipo de pessoa. — O sotaque londrino ecoou mais forte quando ergueu os om­bros para aliviar as costas doloridas e encarou-o. — Comprei minha passagem e paguei por ela!

—Fora! — O homem a segurou pelos ombros para obrigá-la a descer da plataforma.

Jane manteve o equilíbrio agarrando-se ao corrimão de metal.

— Espere...

— Fora, moça!

— Algum problema? — Uma voz masculina e profunda perguntou atrás dela.

Jane virou-se e viu o rosto de um desconhecido alto e de boa aparência.

— Essa moça não tem passagem e está retar­dando a partida do trem. — O condutor tentou movê-la mais uma vez usando a força física.

— Já disse que...

O desconhecido segurou-a pelo braço, ajudan­do-a a manter o equilíbrio, e a surpresa levou-a a fitá-lo com expressão assustada.

— Querida, então já esqueceu? — ele perguntou com tom gentil. — A passagem ficou comigo. — E pôs a mão no bolso enquanto ela o encarava. — Minha esposa vai acabar resfriada se continuar aqui fora. Não devia tê-la impedido de embarcar. Não sabe que as mulheres ficam mais esquecidas em certos períodos da vida?

O condutor examinou a passagem e afastou-se com ar contrito.

— Peço desculpas, senhora — ele disse, tocando a aba do boné.

Tremendo, Jane permitiu que o galante cava­lheiro a conduzisse pelo corredor interno até o carro seguinte. Ele a salvara da chuva e do aban­dono, mas não o conhecia, e não o seguiria para um dos compartimentos marcados por fileiras de portas estreitas, para onde ele a levava. Parou de repente e soltou o braço da mão que o segurava.

Ele sorriu e levantou a mão para bater em uma porta. Alguém abriu imediatamente.

Uma mulher morena e alta apareceu na soleira, o sorriso de prazer provocado pela visão do cava­lheiro transformando-se em interrogação e preo­cupação quando ela percebeu a presença de Jane.

— Quem é ela?

— Esta jovem estava enfrentando problemas com o condutor.

— Entre, querida — a morena convidou com do­çura, ajudando-a a livrar-se do casaco molhado.

O compartimento era pequeno. As camas es­treitas eram presas à parede e serviam para dor­mir ou apenas sentar.

— Meu nome é Anne.

Jane notou que a mulher era mais jovem do que havia imaginado. Não eram os cabelos pretos, nem o ruge e a coloração nos lábios, nem o rosto sardento que a faziam parecer mais velha, mas algo mais sutil e indefinível nos olhos e na boca. E ao vê-la mover-se pelo cubículo apertado, Jane também percebeu que ela estava grávida.

— O meu é Jane — apresentou-se, relaxando um pouco.

— Muito bem, Jane — o homem disse com um sorriso caloroso. — Sou Fitzwilliam Bingley, ma­rido de Anne.

— Não sei como agradecer... por ter me ajudado lá fora. Alguém roubou a bolsa onde eu havia guardado a passagem.

— Não precisa agradecer. Todos nós precisamos de ajuda em um ou outro momento da vida. Cer­tifique-se apenas de fazer o mesmo por alguém quando surgir a oportunidade.

— É claro. Mesmo assim... muito obrigada.

— Por nada. Anne, querida, por que não em­presta roupas secas à nossa convidada para que ela se sinta mais confortável? Vou pedir nosso jantar e voltarei para buscá-la. Comeremos no va­gão restaurante e, enquanto isso, Jane poderá descansar em nossa cabine.

A jovem morena assentiu e ofereceu um sorriso apaixonado. O amor estampado nos olhos do casal provocava uma reação dolorosa que Jane não conseguia ignorar. Estavam apaixonados. O bebê de Anne teria um pai amoroso e uma vida estável. Piscando para conter as lágrimas, endireitou as costas ao sentir uma nova pontada.

Fitzwilliam Bingley deixou às duas mulheres no compartimento. Instantes depois Anne ofereceu a Jane um lindo conjunto de camisola e robe de cetim.

— Ele não é adorável? Em alguns dias acordo e penso que tê-lo como marido é apenas um sonho. Ele é um autor de teatro bastante talentoso. — Re­tirou um par de meias masculinas de uma valise e sacudiu-as. — Desculpe, mas meus chinelos ficaram nas malas. Vai ter de se contentar com isto. Estamos retornando de nossa lua-de-mel na América, e não sabia o que deixar à mão para a viagem.

— Está ótimo, obrigada. — Jane aceitou as meias. Anne ajudou-a a tirar o vestido e os sapatos, depois virou-se de costas ao perceber que a hós­pede hesitava para despir as roupas íntimas, tam­bém ensopadas. Rápida, Jane trocou as peças molhadas pelas roupas de dormir e lutou para calçar as meias de lã nos pés gelados.

— Ele não é um encanto? Eu o conheci em Londres, quando desenhava o figurino para uma de suas peças. Fitzwilliam está me levando para conhe­cer sua família em Hertfordshire. Duvido que gostem de mim... — Anne abaixou-se para recolher as rou­pas molhadas.

— Por que não gostariam de você?

— Digamos que não pertenço ao mesmo círculo dos Bingley. Eles são ricos. O pai de Fitzwilliam abriu uma fundição de ferro há anos, e eles ven­dem fogões e outros objetos para todo o país... e para a América também.

Fundição Bingley?

Jane lembrava-se de ter visto o nome gravado no fogão usado pela cozi­nheira da casa de seu pai em Londres.

— Meu pai era operário de uma fábrica em Londres antes de morrer, quando eu ainda era pe­quena. Mamãe e eu sobrevivemos com muito es­forço. Não somos o que as pessoas consideram gente de sangue azul.

— Tenho certeza de que eles vão gostar de você mesmo assim. — Jane afirmou, injetando mais esperança do que certeza nas palavras. Conhecia a opinião das classes consideradas superiores so­bre os menos afortunados. Sabia como as estru­turas sociais e as aparências eram importantes para os bem-sucedidos como seu pai. Fitzwilliam, no entanto, não dava a impressão de ser parecido com Morris Bennet e seus conhecidos esnobes.

Anne continuou falando, e Jane se esforçava para manter os olhos abertos. Finalmente Fitzwilliam retornou com uma bandeja contendo carne, vege­tais e um copo de leite frio. Seu estômago reagiu ao aroma, e ela se sentiu tão grata que poderia ter chorado.

— Estaremos no vagão restaurante — ele avisou. — Coma e descanse. Trarei Anne de volta mais tarde, e depois irei procurar um jogo de cartas para manter-me ocupado durante o restante da noite.

A generosidade do desconhecido que cedia sua cama a aqueceu mais que as meias de lã e as roupas secas. As palavras de gratidão eram insufi­cientes, mas não dispunha de mais nada para ofe­recer. Comeu a comida deliciosa, melhor que tudo que havia provado desde que deixara o lar paterno meses antes e, refletindo sobre a sorte que tivera, tratou de acomodar-se na cama estreita.

Fitzwilliam e Anne não haviam comentado sua evidente gravidez, não fizeram perguntas emba­raçosas nem pediram explicações. Esse havia sido o motivo da terrível jornada. Ouvira rumores so­bre como as pessoas eram mais flexíveis no interior. No território recém-desenvolvido dos ranchos, do gado, das minas e estradas de ferro, ninguém era interrogado sobre o passado.

Não tinha ideia de quanto ainda teria de viajar até encontrar trabalho e um lugar para viver, mas não tinha opções.

O Londres Daily levava semanalmente dezenas de anúncios solicitando mulheres. Os homens do interior precisavam de esposas; Jane sabia como organizar um jantar e pôr uma mesa para muitos convidados, mas a experiência com o sexo oposto não despertara o desejo de se casar e submeter-se ao temperamento masculino.

Estabelecimentos comerciais necessitavam de cozinheiras e garçonetes, mas suas habilidades incluíam planejar o jantar e instruir os criados. Professores eram uma raridade, e tivera a opor­tunidade de estudar. Esperava encontrar um lu­gar onde ela e o bebê pudessem se instalar. Talvez Chelsea, ou Pemberly... qualquer lugar bem distante.

Jane fechou os olhos e tentou não chorar de dor nas costas e medo da solidão. Era assustador assumir sozinha a responsabilidade por outra vida humana.

Pousando a mão sobre o ventre, lutou contra as lágrimas. Sim, era uma garota tola, como o pai havia dito. Sim, havia sido rebelde e agira contra seus desejos, ignorando o rapaz que ele havia escolhido e aceitando as propostas de outro, menos apropriado.

William Collins a seduzira sem intenções de se casar ou ser fiel, e depois partira para o continente ao ouvi-la verbalizar o receio de uma provável gravidez.

Jane havia esperado até não poder mais esconder sua condição antes de confessar a transgressão ao pai. Ultrajado, ele a expulsara de casa antes que pudesse causar constrangimentos ainda maiores.

Encontrara um quarto sobre um açougue, onde vivera até a semana anterior, quando fizera um balanço de seus fundos e descobrira que o dinheiro terminaria em breve. Devido à intervenção do pai, ninguém em Londres a aceitara como empregada ou hóspede. Vendera um colar, uma das peças que havia herdado da mãe, e tentara abrir cami­nho rumo a uma nova vida. Os contratempos su­cederam-se como se fossem intermináveis, até o último evento na estação, pouco antes.

A dor nas costas estendeu-se até o ventre, e ela quase deixou escapar um grito. Mas o movimento contínuo do trem em direção ao oeste, o calor das roupas secas e do cobertor e a sensação de saciedade provocada pelo alimento que havia ingerido provocaram um conforto envolvente. A exaustão foi maior que a dor e ela adormeceu.

Um movimento brusco e o som ensurdecedor de metal sendo retorcido a despertaram. Desorientada, Jane não conseguiu descobrir quanto tempo pas­sara dormindo, mas o compartimento ainda estava escuro. Uma espécie de vertigem a dominou, como se o movimento do vagão fosse subitamente alterado. Antes que pudesse se dar conta do que acontecia, foi atirada contra a parede oposta.

O último pensamento coerente que passou por sua mente foi com a segurança do bebê.