Não Sou Quem Você Imagina!
14 Capítulo14
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Era evidente que não havia nenhum papel importante no quarto, e seria inconveniente para ele ter de subir sempre que quisesse trabalhar. E se Charles levava a chave com ele, jamais teria acesso às gavetas do escritório.
Jane ajeitou as muletas sob os braços e preparou-se para partir. O som de passos do lado de fora provocou uma onda sufocante de terror.
Rápida, moveu-se em direção contrária, procurando um lugar para esconder-se. Havia acabado de entrar no pequeno cômodo vazio quando a porta da suíte se abriu e Charles entrou praguejando em voz alta.
*****
Na privacidade do quarto, Charles praguejou até sentir-se aliviado. Despiu o paletó respingado de sangue e jogou-o sobre uma cadeira, seguido pela camisa.
A segurança dos empregados era de suprema importância para ele. Estivera trabalhando no escritório da fundição quando ouvira o sino de emergência e correra para ver o que havia acontecido.
William Collins fora ferido quando uma roldana se soltara e o atingira. Apesar de ter sido atirado alguns metros longe do equipamento, não perdera a consciência. Charles assumira o controle da situação, estancando o sangue com as próprias mãos enquanto um funcionário ia buscar uma carroça e outro improvisava um torniquete.
Acompanhara William ao médico na cidade, e havia esperado enquanto os ferimentos foram suturados e as costelas, imobilizadas.
Gruver entrou com a banheira de cobre.
— William vai ficar bem? — perguntou.
— O dr. Barnes disse que ele perdeu muito sangue e fraturou pelo menos uma costela, mas ele acha que William receberá cuidados adequados em casa. O pobre coitado vai precisar de algumas semanas de descanso para se recuperar.
Os Crane tinham muitos filhos pequenos. Charles sabia que uma semana de pagamento faria falta na casa da família, e por isso dera ordens para que Darcy fosse levar suprimentos uma vez por semana.
Gruver pôs a banheira no piso de pedras diante da lareira. Duas criadas entraram com vasilhas cheias de água, silenciosas e retraídas, aparentemente assustadas com o estado de espírito do patrão.
— Não costumo morder, sra. Pratt. Não precisa olhar para mim como se temesse um ataque.
— Sim, senhor. Quero dizer, não, senhor.
— Não se incomodem com mais água. Esta será suficiente. Tenho uma reunião em trinta minutos, e não posso esperar mais. Antes de saírem, coloquem minha camisa cinza sobre a cama, por favor. E não esqueçam a calça correspondente.
Normalmente cuidava das próprias roupas, mas estava muito atrasado. As criadas obedeceram e saíram em seguida.
— Posso ajudá-lo? — Gruver ofereceu.
— Sim, obrigado. Desta vez estou precisando de ajuda. — Despiu a calça e entrou na banheira com água até a metade. — Escolha uma camisa e todos os acessórios, está bem?
****
Jane ouvira cada palavra do esconderijo no cômodo ao lado. O coração batia num ritmo frenético. Uma rápida olhada em volta revelou uma porta que, esperava, a levaria ao corredor. Mas os movimentos desajeitados com a muleta e o som provocado pela madeira em contato com o chão trairiam sua presença.
Podia ouvir o ruído de água.
Teria coragem de atravessar o quarto? De quanto tempo dispunha, e quem encontraria no corredor?
O buraco da fechadura abaixo da maçaneta de bronze chamou sua atenção e, devagar, inclinou-se para a frente. O sol vespertino iluminava a suíte, e a banheira fora colocada bem na frente da porta. E na banheira...
Misericórdia!
Jane nunca vira um homem em toda sua glória natural. Charles se mantinha de costas para ela, esfregando os braços, as mãos e o peito.
Os músculos das costas eram flexionados pelos movimentos, e o desenho harmonioso conduzia a uma cintura estreita e a uma visão que jamais imaginara: glúteos firmes, coxas fortes e proporcionais, enfim, um quadro tão incomparável que temia perder o fôlego.
Misericórdia, misericórdia!
O coração batia tão depressa que temia ser descoberta por causa do barulho.
Charles recolheu uma concha de água e despejou o líquido sobre a cabeça, deixando-o escorrer pelos ombros, braços e costas. As gotas que caíam dos cotovelos formavam pequenas poças no chão.
Jane ergueu o corpo, o rosto e o pescoço tomados por um calor sufocante. Não podia ficar ali nem mais um segundo. Escaparia imediatamente, enquanto ele se banhava, e rezaria para que Gruver ainda estivesse ocupado com as roupas. Helena devia estar acordada àquela hora, e logo a sra. Gardiner começaria a procurá-la pela casa.
Com alguma dificuldade, moveu-se pelo espaço onde o piso era de madeira crua, tomando cuidado para não fazer barulho com as muletas. O suor brotava abundante em sua testa e corria pelas costas. A qualquer momento ele poderia abrir aquela porta e... e...
E estaria nu.
E molhado.
Estendeu a mão e girou a maçaneta, tremendo de medo e ansiedade. A porta se abriu. Passou ao corredor e fechou-a, olhando de um lado para o outro a fim de certificar-se de que estava sozinha.
Felizmente não havia ninguém por perto.
Por enquanto.
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