Não Sou Quem Você Imagina!
51 Capítulo 51
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Por isso partiu?
— Não. Parti porque aquele não era meu lugar. Não devia ter ido para Mahoning Valley. Prometo que devolverei cada centavo gasto com comida e roupas, inclusive com as de Helena.
— Não ouviu o que eu disse?
— Não quero nada.
— Mas eu devo...
— Jane, estamos recomeçando do zero. Você não me deve nada.
— Mas o bracelete...
— É um presente. Quero que fique com ele e esqueça essa história de dívida. Foi você quem me ensinou o valor do perdão, lembra? — Aproximou-se, segurando suas mãos e levando-as aos lábios. — Volte, Jane. Por favor, volte para casa comigo.
O tom da pergunta a levou a pensar que ainda podia haver uma esperança. Se fosse uma sonhadora, encontraria todos os significados naquelas palavras. Mas era realista, e dezenas de questões invadiam sua mente. Talvez Charles sentisse pena dela. Talvez fosse apenas um desejo físico. Talvez quisesse puni-la da pior maneira possível.
— Você falou em recomeço — disse. — Em voltar para casa. — Levantou-se e colocou uma distância prudente entre eles. E então fez as perguntas cujas respostas talvez não quisesse ouvir. — Por quê? Por que eu voltaria? E por que está me pedindo para voltar?
***
— Porque minha mãe precisa de você.
Jane não conseguir esconder a decepção provocada pela resposta.
— Entendo.
Charles queria tomá-la nos braços. Ela havia mudado fisicamente, e a mudança partia seu coração. Emagrecera muito, e sombras escuras marcavam o contorno dos olhos. A mão que segurara minutos antes tinha bolhas nas palmas antes tão macias.
E as diferenças não era apenas físicas. Sentia a resignação e a tristeza, o cansaço e o sofrimento. E queria confortá-la, recuperar seu otimismo.
Mas como poderia?
Ela jamais pudera contar com um homem antes, nunca havia tido motivos para confiar neles. Não sabia o que ele sentia.
Talvez fosse essa a resposta. Devia expressar seus sentimentos.
— Jane... Quero que volte comigo porque... preciso de você.
Uma lágrima rolou pelo rosto pálido. Ele a secou com um dedo. A pele era tão macia e delicada quanto lembrava.
Outra lágrima seguiu pelo caminho deixado pela primeira.
— Por que está chorando?
— Porque não pensei que voltaria a vê-lo. Porque não me odeia, nem vai me acusar por todas as coisas horríveis que fiz. Porque pensa que é parecido com meu pai, mas é o homem mais generoso que já conheci.
— Disse a mesma coisa de Fitzwilliam.
— Ele também era bom e generoso. Como você. Mas você também é sólido, confiável e diligente. Fez todas as coisas que devia fazer quando seu pai morreu. E continua fazendo. Abriu mão de seus sonhos para realizar os dele.
— Nunca consegui entender por que Fitzwilliam não agia como eu, mas hoje sei que ele foi mais sensato. Sempre pensei que ele fizesse as piores escolhas, mas pensando bem... Fitzwilliam deixou a fundição sob minha administração e nós conquistamos uma fortuna. E ele produziu as peças que escrevia e casou-se com a mulher que amava.
— Só porque você tornou esse caminho possível para ele. Não tem sonhos que queira realizar?
— Talvez tenha. — E beijou-a.
Jane jamais amara Fitzwilliam. Não fora sua esposa. Não se casara com nenhum outro homem. Devagar, afastou-se para fitá-la.
— Você ama alguém? — perguntou, expressando seu maior temor. Talvez ainda estivesse apaixonada pelo pai de Helena.
— Não. Não há ninguém em minha vida. Isto é, ninguém além de Helena. — Ela sorriu com tristeza, e a visão partiu seu coração. — Tem certeza de que não vou mais precisar trabalhar neste hotel?
— Nunca mais. Volte comigo, por favor.
— Por que quer me levar para sua casa?
— Já expus todas as razões.
— Já?
— Creio que sim.
— E quais são elas?
— Quero tê-la comigo. Preciso de você.
Ela pousou as mãos em seu peito.
— Como sabe que não estarei fingindo só para que cuide de mim?
— Eu sei.
— Como?
— Precisa fingir que aprecia meus beijos?
— Não.
— Estava fingindo na noite em que estivemos juntos em meu escritório?
— Não.
— Algumas coisas não podem ser falsificadas.
— Estou cansada de fingir. Não suporto mais mentir.
— Chega de mentiras e farsas entre nós.
— Então... qual é a verdade?
— Sobre o quê?
— Sobre o motivo pelo qual quer me levar para sua casa.
— O que você acha?
— Já disse que me quer. E foi honesto. Mas a verdade é que... bem, para mim, desejar e precisar não são o bastante. Fui tola uma vez, Charles. Amo Helena como nunca imaginei que fosse possível amar alguém, mas não pretendo cometer o mesmo erro duas vezes.
Charles fitou-a e soube que havia chegado o momento de encarar a realidade.
— Preciso de você, Jane... porque a amo.
As lágrimas corriam pelo rosto pálido como uma torrente.
— Você nem me conhece. Não sabe quem é a verdadeira Jane.
— É claro que sei. Conheço a Jane que ama a filha acima de tudo e todos. A que se dedicou às necessidades de gente que mal conhecia e ajudou pessoas que nunca vira antes. A Jane que é capaz de lidar com todas as situações e administrar uma casa sem o menor esforço. E conheço a Jane que se arrependeu de seus erros e esforçou-se para enterrar o corpo de Anne junto do marido. Conheço a Jane apaixonada que tem muito amor para oferecer, que pode fazer feliz um homem que não seja tolo a ponto de tratá-la com menos respeito e admiração do que ela merece.
— Charles... Tem certeza?
— Certeza absoluta. E quando toma uma decisão, ninguém consegue me fazer mudar de ideia. Case-se comigo, e prometo passar o resto da vida fazendo você feliz.
— Não vai ser difícil. Ter seu amor é uma felicidade maior do que jamais sonhei conhecer.
— Oh, não. Há muito mais felicidade esperando por você. Por nós. Amo você, Jane.
— Também amo você.
Fale com o autor