Não Sou Quem Você Imagina!
50 Capítulo 50
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
A jovem virou-se para partir e o bebê tornou-se completamente visível. A cabeça loura e os olhos azuis lembravam alguém... Jane. Helena! A criança era um pouco maior do que se lembrava, mas não a via há semanas.
Sim, tinha certeza de que eram os mesmos olhos azuis. O mesmo queixo. Os mesmos cabelos, embora um pouco mais longos.
Charles respirou fundo. O que sabia sobre bebês? Todos haviam sido idênticos até conhecer Helena. Não pensara em outra coisa nas últimas semanas, teria começado a ver aquilo que desejava?
A criada chegou ao corredor.
— Senhorita — disse, detendo-a com a palavra.
— Sim, senhor?
— Seu bebê... ela tem lindos olhos azuis.
— Sim, ela tem lindos olhos... mas não é meu.
O coração de Charles parou de bater.
— Não?
— Não. A menina é filha de outra empregada do hotel.
— É uma linda criança. Qual é o nome dela?
— Helena.
***
O coração de Charles disparou no peito. Não sabia se ria ou se chorava.
Finalmente a encontrara! Mas agora tinha que ser rápido, ou iria perder aquela oportunidade para sempre.
Sem perda de tempo, se lavou e trocou-se o mais rápido que pode, desceu até a recepção e pediu para falar em particular com a sra. Hollister.
O recepcionista o encaminhou até a sala da governanta do hotel e o deixou sozinho enquanto foi busca-la.
Charles não conseguiu permanecer sentado e andava de um lado para o outro com o coração batendo forte.
Quando uma senhora com ar severo entrou na sala, ele imediatamente a cumprimentou.
— Sr. Bingley, me informaram que gostaria de falar comigo.
— Isso mesmo, sra. Hollister. O assunto que tenho que tratar com a senhora é de extrema importância para mim.
— Por favor, sente-se, gostaria de beber alguma coisa?
— Não, muito obrigada.
— Então do que se trata?
Ele respirou fundo e decidiu que só diria o necessário, para que a reputação de Jane não fosse abalada.
— Bem, eu estou à procura da minha irmã de criação — mentiu, pois e dissesse que era a sua cunhada seria ainda pior. — Ela ficou recentemente viúva, e teve um desentendimento com a minha mãe, preferindo sair de casa. Então eu estou à procura dela, e eu acho que ela esta aqui trabalhando neste hotel.
A sra. Hollister levantou a sobrancelha, curiosa.
— E como ela se chama?
— Jane Bennet.
— Sim, ela se encontra aqui e poço dizer que ela trabalha muito bem.
— É verdade, o que eu gostaria de pedir a senhora é que pudesse dispensá-la, pois ela não voltará a trabalhar mais aqui, gostaria de voltar para casa com ela, já que minha mãe está morrendo de saudades das duas.
A sra. Hollister ponderou por um momento antes de voltar a falar.
— O senhor gostaria que eu mandasse chama-la agora?
— Não será necessário, gostaria que ela fosse até o meu quarto mais tarde, e que a senhora não dissesse nada a ela, pois Jane ainda não sabe que eu estou aqui. Assim poderei conversar com ela com mais tranquilidade.
— Tudo bem, providenciarei para que isso aconteça.
— Muito obrigado, tenha uma bom dia.
Charles saiu do escritório contando as horas para que pudessem se reencontrar.
***
Na hora do almoço, Jane reuniu-se às colegas na entrada dos fundos, onde costumavam sentar-se para comer. Tinha trinta minutos para descansar, alimentar-se e amamentar a filha.
— Eu o vi novamente — Elizabeth contou.
— O hóspede do quarto quatorze? — Sara adivinhou.
— Ele mesmo. Helena me ajudou muito.
— Como?
— Parece que ele gosta de crianças.
Sara havia levado recipientes com água fresca para o lado de fora da cozinha, e Jane bebeu tanto quanto pôde suportar.
Elizabeth brincou com Helena, e quando o intervalo chegou ao fim, foi ela quem ajudou Jane a acomodar a criança nas costas.
A tarde foi muito quente, e antes do jantar todos os hóspedes pediram água para banho. Jane ajeitou o bebê. Ela cochilava, e por isso parecia pesar muito mais.
Não conseguira encontrar Elizabeth depois de receber as instruções para levar água ao quarto quatorze. Sabia que ela ficaria furiosa se não a encarregasse da tarefa, mas não podia deixar um hóspede esperando. Levando os baldes cheios, subiu a escada e bateu na porta do quarto indicado.
— Entre — ordenou uma voz abafada.
— Sua água, senhor. — Levou os baldes para dentro do quarto e despejou-a em uma banheira de cobre protegida por um biombo. Depois voltou ao corredor, onde havia um armário, e retornou com toalhas limpas. Tentando manter Helena equilibrada, abaixou-se para pegar os baldes vazios.
— Ela está ficando com cabelos encaracolados. Como os seus.
A voz profunda provocou um tremor que a percorreu dos pés à cabeça. Jane levantou-se e o viu.
Os baldes escorregaram de seus dedos.
Charles!
O coração disparou e o ar ficou preso nos pulmões. Tentou escapar, mas ele era mais rápido e mais forte.
A mão em seu braço era como uma garra de ferro.
Os olhos encontraram-se, mas ela abaixou a cabeça sob o peso da vergonha.
— Jane, por favor. Não sei como expressar tudo que tenho para lhe dizer. — A voz era gentil para alguém que havia sido traído.
— Odeia-me por ter mentido. E tem toda a razão. Não precisa segurar-me. Não vou fugir — prometeu, recuperando a compostura.
Ele a soltou.
— Como conseguiu encontrar-me?
— Um detetive da Pinkerton seguiu suas pistas até aqui. Vim assim que ele mencionou Fort Wayne. E então, esta manhã, vi Helena e tive certeza de que estava no lugar certo. Vamos nos sentar.
Hesitante, ela o seguiu ao outro aposento da suíte. A ideia de descansar por alguns minutos era tentadora, mas não podia dar-se ao luxo de usufruir desses minutos.
— Tenho de voltar à lavanderia.
— Não.
— Não... o quê? O que quer dizer?
— Falei com a sra. Hollister. Pedi a ela que a mandasse até aqui e avisei que você não voltaria ao trabalho. Nunca mais.
O pânico dominou-a. Zelara tanto por aquela posição! Não cometera um único engano que pudesse pôr em risco o emprego, e agora... Em poucos minutos, Charles arruinara sua vida.
— Por que fez isso? Não vou conseguir outro emprego onde possa levar Helena comigo.
— Jane, essa vida não serve para Helena. Nem para você.
— Mas é a vida que temos, e ninguém tem o direito de destruí-la. Nem você.
— Eu tenho todos os direitos.
Podia fazer o que quisesse para tornar sua vida miserável. Derrotada, sentou-se na cadeira mais próxima tentando imaginar o que faria.
— Sim, você tem — respondeu, cansada de tanta vulnerabilidade.
— Deite-a na cama e descanse as costas. — Delicado, ajudou-a a remover a tipoia e acomodou Helena sobre a colcha estampada. Depois afagou os cabelos finos e molhados de suor. — Ela cresceu.
Charles tinha uma afeição verdadeira por sua filha. E vê-los juntos provocou uma nova onda de pânico.
— O que veio fazer aqui? Não vou deixar ninguém tirá-la de mim. Já sabe que ela não é filha de Fitzwilliam. Não tem direito algum sobre Helena e...
— Jane, pare com isso! Não vim para separá-la de sua filha.
Ela respirou fundo e tentou acalmar-se.
— Prometa.
— Eu prometo. Pensei que gostaria de saber que Anne foi sepultada ao lado de Fitzwilliam.
— Você encontrou o corpo? — O alívio inundou seu coração.
— O detetive que você contratou localizou-a. Ela havia sido identificada como Jane Bennet.
Havia pensado nessa possibilidade. Alguém devia ter entrado em contato com seu pai.
— O que aconteceu?
— Seu pai havia enterrado o corpo ao lado do de sua mãe.
Ela assentiu, lutando contra as lágrimas.
— Pensou que eu estivesse morta.
Charles fez um movimento afirmativo com a cabeça.
— E agora?
— Morris Bennet permitiu que eu transferisse o corpo.
— Escreveu para ele?
— Fui procurá-lo pessoalmente.
Jane fechou os olhos. Charles conhecera seu pai. Agora sabia como fora pouco importante justamente para o homem que mais deveria tê-la amado.
— Tenho certeza de que o encontro foi bastante esclarecedor.
— Mais do que pode imaginar. Compreendi algo importante enquanto estive com ele.
— O quê?
— Vi o homem em que me estava transformando.
— O que quer dizer?
— Seu pai. Estava ficando exatamente como ele. Tenho rezado muito para que não seja tarde demais para tentar mudar.
A comparação era ridícula.
— Você não é como meu pai. Ele é duro, egoísta e amargo.
— E eu não?
— Não, você não é assim.
— Só me importava com a Fundição Bingley. Ela ocupou todos os espaços de minha vida, até que eu não tivesse mais nada, mais ninguém.
— Você tinha responsabilidades com seu pai. E com sua mãe. E encarou-as com seriedade.
— Tem razão. Levei minhas obrigações tão a sério que não fui capaz de enxergar o que estava fazendo com Fitzwilliam. Queria que ele fosse como eu. E acabei por afastá-lo de nós.
— Você era jovem, Charles. Jovem demais para ocupar a posição de um pai. Fez o que pensou ser melhor para todos.
— Mas não foi o melhor. Se houvesse agido de maneira diferente...
— Todos nós acabamos percebendo em um outro momento da vida que estávamos enganados a respeito de alguma coisa. Mesmo que seu comportamento fosse outro. Fitzwilliam teria seguido um caminho próprio, buscando objetivos que ele mesmo teria escolhido. Ele era Fitzwilliam. E você não é responsável pelo destino de outra pessoa, mesmo que seja seu irmão. Mesmo que esse destino tenha sido a morte. Do que se culpa?
— De ter acusado Fitzwilliam, de ter me revoltado quando ele se recusou a me ajudar, a dividir a carga que a fundição representava. Assumi todas as obrigações sozinho durante anos seguidos, só para que ele pudesse concluir os estudos, e esperava um mínimo de reconhecimento. Esperava que ele agradecesse e retribuísse o sacrifício. Quando minhas expectativas foram frustradas, fiquei furioso com ele. E a raiva só cresceu com o passar do tempo.
— Perdoe-o. É só isso que tem de fazer.
— Perdoar... — Charles repetiu. — Eu já o perdoei.
Em todos os meses que passara em sua casa, jamais o vira tão vulnerável. Ele nunca havia permitido. E amava-o ainda mais por ter se mostrado sem reservas.
— Agora se perdoe por ser humano — disse. — Charles, você não é como meu pai. Estamos aqui há vários minutos e ainda não mencionou minhas falhas de caráter. Não me acusou por tudo que fiz.
— Isso não tem importância. Não agora.
— Como pode dizer tal coisa? Não está zangado comigo? Desapontado?
— Não. Tive tempo para pensar em tudo o que aconteceu, lembrar cada detalhe, e compreendi porque não conseguiu dizer a verdade.
— Eu queria dizer. Planejava contar tudo desde o início, mas... não pude. E quanto mais esperava, mais difícil ficava.
— Lembro-me do dia em que a vi na carruagem e quis tocar seus cabelos. Mas você era Anne, a esposa de meu irmão, e o desejo me fazia sentir culpado. Naquele dia você usava um brinco de pérolas. Onde estão?
— Eu... vendi.
Uma sombra de tristeza escureceu seus olhos antes que ele se levantasse e fosse até o quarto de vestir, de onde retornou segundos depois.
O objeto que depositou na mão dela era frio e pesado. Jane abriu os dedos e viu o bracelete de esmeraldas que fora da mãe.
— Por que fez isso? — perguntou com um fio de voz.
— Sabia que era importante para você.
— Mas... não posso pagar pela joia.
— A única coisa que quero é a verdade. Sobre sua partida? Por que naquele dia? Por que daquele jeito?
— Catherine...
A ira iluminou os olhos dele.
— Ela queria dinheiro ou o bracelete em troca de seu silêncio.
— Por isso partiu?
— Não. Parti porque aquele não era meu lugar. Não devia ter ido para Mahoning Valley. Prometo que devolverei cada centavo gasto com comida e roupas, inclusive com as de Helena.
— Não ouviu o que eu disse?
— Não quero nada.
— Mas eu devo...
— Jane, estamos recomeçando do zero. Você não me deve nada.
— Mas o bracelete...
— É um presente. Quero que fique com ele e esqueça essa história de dívida. Foi você quem me ensinou o valor do perdão, lembra? — Aproximou-se, segurando suas mãos e levando-as aos lábios. — Volte, Jane. Por favor, volte para casa comigo.
O tom da pergunta a levou a pensar que ainda podia haver uma esperança. Se fosse uma sonhadora, encontraria todos os significados naquelas palavras. Mas era realista, e dezenas de questões invadiam sua mente. Talvez Charles sentisse pena dela. Talvez fosse apenas um desejo físico. Talvez quisesse puni-la da pior maneira possível.
— Você falou em recomeço — disse. — Em voltar para casa. — Levantou-se e colocou uma distância prudente entre eles. E então fez as perguntas cujas respostas talvez não quisesse ouvir. — Por quê? Por que eu voltaria? E por que está me pedindo para voltar?
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