Notas iniciais
Olá meninas como vão? Aqui estou eu com mais um capítulo para vcs, espero que gostem, obrigada a todos os comentários deixados e gostaria de desejar um feliz natal e ano novo a todas, att mais

[RECAPITULANDO]

Principalmente de­pois que fraturou a perna naquele acidente. Para onde poderia ter ido? Como teria cuidado da... da... — Lágrimas encheram seus olhos. — Acha que ela vai continuar chamando a menina de Helena?

— Não interessa. Se está com tanta pena dela, pense em como Jane estaria pobre sem seus anéis, o colar e o bracelete, sem meu relógio e prendedor de gravata.

Caroline encarou-o com expressão chocada.

— O quê?

— É isso mesmo. A coitadinha roubou nossas joias antes de fugir.

— Tem certeza de que foi ela?

— Foi você?

— Charles! — Mary o censurou.

— Pode revistar meu quarto, se quiser.

— Talvez o faça.

— Se alguém houvesse me contado, eu não acre­ditaria — Mary comentou enquanto dobrava a car­ta. — Mas a mensagem é clara. — Ela se levantou e olhou para Charles com ar triste. — Sabe de uma coisa? Mesmo que pudesse voltar no tempo sabendo quem ela é, não teria agido diferente.

Mas Charles sabia que seu comportamento te­ria sido outro. Não se importaria com honra e consciência, por exemplo.

— Vou descansar — Mary avisou.

— Nunca imaginei que ela fosse capaz de roubá-los — Caroline disse com um movimento de cabeça.

Charles não respondeu. Estava furioso por não ter percebido, apesar de todos os sinais, por ter se deixado enganar com tanta facilidade. A tris­teza da mãe, a amargura que vira em seus olhos, não ficaria impune. Encontraria Helena para que ela tivesse certeza de que a menina estava bem.

Encontraria Jane Bennet.

***

Na manhã seguinte, Charles voltou à joalheira de Howard Gramb. Interrogou-o sobre a jovem que havia ido vender o bracelete, mas não desco­briu nada de novo.

Esteve na estação ferroviária e não encontrou ne­nhum registro de Jane Bennet ou Anne Bingley. O funcionário dizia lembrar-se vagamente de uma mulher como a que ele descrevera carregando um bebê, mas vendia muitas passagens todos os dias, e não conseguiria dizer para onde uma pessoa em especial viajara. Talvez para o oeste.

Determinado, Charles repetiu as visitas às joalherias. Dessa vez encontrou uma mulher em uma delas com quem não havia falado antes.

— Sou Charles Bingley — apresentou-se.

— Como vai? Em que posso ajudá-lo, senhor?

— Estive aqui antes e conversei com um homem...

— Meu marido. Eu cuido da loja quando ele tem de sair para resolver algum negócio.

— Entendo. Deixei meu cartão com seu marido e pedi para ser notificado caso alguém aparecesse tentando vender algumas peças. — E mostrou a lista que havia elaborado.

— Não sabia sobre sua solicitação. As peças que descreve foram trazidas à loja há dois dias.

Finalmente uma pista!

— E vocês as compraram?

— Sim.

— Quem as vendeu?

— Uma mulher.

— Pode descrevê-la, por favor?

— Bem, ela estava de luto. Não pude ver seu rosto por causa do véu.

— Mais alguma coisa?

— Ela carregava um bebê num carrinho. A criança estava dormindo.

— Entendo. — A última esperança caíra por terra. Ela roubara as jóias e fugira. — Gostaria de comprar as peças, por favor.

— Todas?

— A menos que queira simplesmente devolvê-las, já que me pertencem.

As palavras a surpreenderam.

— Oh... não. Vou buscar as jóias no cofre.

Charles efetuou a compra. A única peça que faltava no lote era um anel.

— Já vendeu alguma jóia? Um anel?

— Não. Tudo que compramos está aí.

Ele fechou a bolsa de cetim e guardou-a no bolso da casaca.

***

Mary aceitou as jóias sem nenhuma demons­tração de emoção. A falta de ânimo assustava Charles. A mãe havia lidado com a morte do marido e de um filho, e de repente se comportava como se não pudesse mais suportar a dor e o sofrimento.

Jane vendera as peças dois dias antes. Isso significava que só saíra de Hampshire depois disso. Charles investigou todos os hotéis sem sucesso. Talvez ela houvesse voltado para a casa do pai.

Era impossível concentrar-se no trabalho. Es­tava sentado atrás da mesa, o queixo apoiado so­bre as mãos e o olhar perdido, quando Fitzwilliam bateu na porta e entrou.

— Algum problema? — o amigo perguntou ao vê-lo tão abatido.

— Não.

— Sente-se bem?

— Sim. — Fingiu estudar os papéis espalhados sobre a mesa, mas soube que não obtinha muito sucesso.

Fitzwilliam jogou um envelope sobre a mesa.

— Achei que devia dar uma olhada nisso.

— De que se trata?

— Acabei de passar pelo telégrafo. Sam Pierce estava guardando essa correspondência para... para Anne. Ou Jane. Ela o instruiu para não entregar a mensagem a mais ninguém, mas quan­do revelei que ela havia deixado a cidade, Sam decidiu me fazer assinar o recibo.

Charles abriu o envelope e leu o telegrama.

— É da Agência Pinkerton. Contratei os serviços de um detetive de lá para investigar a vida de Anne. Eles localizaram um corpo que acreditam ser de Anne Bingley. A jovem está enterrada em um ce­mitério em Londres. Como... Jane Bennet!

****

Londres

Charles parou diante do edifício de três andares e bateu com a argola de bron­ze pendurada na porta dupla de madeira laqueada. Um criado o atendeu.

— Sr. Bingley?

— Sim.

— O sr. Bennet o espera. Por aqui.

Charles seguiu o empregado pelo hall até uma biblioteca mobiliada com sobriedade. Um homem corpulento e de cabelos grisalhos levantou-se para apertar sua mão. Os olhos eram azuis como os de Jane, porém frios.

— Não anunciou o assunto que o traria até aqui em sua mensagem — ele comentou sem preâmbulos.

— Não. Trata-se de uma questão delicada, e pensei que seria melhor falar pessoalmente.

— E veio de Hertfordshire para falar comigo?

— Sim.

— Deve ser importante. Algo relacionado a sua fundição?

Charles não se surpreendeu ao descobrir que havia sido investigado. Teria feito o mesmo.

— Não. O assunto refere-se a sua filha.

— Não tenho nenhuma filha.

— Eu sei que tem.

A expressão de Morris Bennet se tornou ainda mais dura.

— Se não veio falar sobre investimentos, não tenho mais nada a dizer.

— Estou aqui para falar sobre Jane.

— Se veio assumir a responsabilidade por sua indiscrição, receio que seja tarde demais.

As palavras o pegaram de surpresa. Estava sen­do acusado de seduzir e abandonar uma mulher?

— Vim trazer notícias chocantes — respondeu exasperado.

— Que notícias? Não foi o primeiro?

— Jane ainda está viva.

O homem sentou-se e acendeu um cigarro.

— Jane e seu bastardo estão mortos.

A crueldade de Bennet era revoltante.

— Está enganado. Enterrou minha cunhada e o filho dela naquele túmulo. Não reconheceu o corpo, não é?

— Não.

— Alguém identificou o cadáver?

— Tudo aconteceu semanas depois do acidente. Fui notificado, e depois recebi o corpo e a bagagem. Sabia que era aquela menina estúpida. Enterrei-a ao lado da mãe dela.

— Entendo que não tenha sido capaz de reco­nhecê-la. E sei que os baús serviram para assegurar que o corpo era de sua filha. Mas aquela jovem não era Jane.

Charles explicou a situação com todos os de­talhes, sem mencionar o que sentia por ela.

— Como vê, sua filha ainda está viva.

— Está enganado, sr. Bingley. — Ele se le­vantou. — Minha filha morreu. Morta, não poderá destruir minha reputação nesta comunidade fi­nanceira. Tenho clientes importantes, gente que investe comigo desde que comecei no ramo, há mais de trinta anos, e não permitirei que as opções infelizes de uma menina inconseqüente destrua tudo que construí com muito trabalho e esforço. Minha filha morreu no dia em que me desafiou e desonrou o bom nome da família.

— Quer dizer que dá mais importância às apa­rências e ao dinheiro do que a sua filha?

— Não tenho filha. Pelo que sei, aos olhos desta cidade, Jane Bennet está morta.

Naquele momento, Charles viu no rosto de Mor­ris Bennet toda a ambição, a frieza e a obstinação que guiavam a vida de um homem cuja única preo­cupação era o sucesso financeiro e profissional. E reconheceu nele o ser em que quase se transformara.

E também viu algo mais. Compreendeu o que levara uma jovem expulsa de casa a embarcar em um trem cujo destino era a catástrofe. Enten­deu por que ela se agarrara à bondade de Fitzwilliam como se ali residisse sua última esperança. Para alguém que havia recebido tanta crueldade do pró­prio pai, a benevolência de um estranho devia ter assumido a aparência de uma bênção.

E talvez houvesse sido.

— Tem razão — disse, contendo o tom de voz e lutando para manter a calma.

— Não tem mesmo uma filha. Um homem como você não merece essa alegria. Especialmente se essa filha for alguém como Jane.

— Leve o cadáver que veio buscar. Mas seja rápido.

— Cuidarei disso antes de deixar a cidade. E também tomarei providências para que todos os pertences de Jane sejam removidos de sua casa.

— Não há mais nada dela aqui.

— Está enganado, sr. Bennet. O espírito dela está aqui. As recordações. E vai ter de aprender a viver com elas.