Não Sou Quem Você Imagina!
28 Capítulo 28
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Anne não tinha nenhuma semelhança com o perfil de mulher que apreciava e aprovava. Mas, no aspecto físico, ela era tudo que sempre desejara.
A combinação ameaçava sua sanidade mental. E prejudicava seu equilíbrio emocional. Não entendia por que ela correspondera ao beijo. A menos que temesse não corresponder. Ou... a menos que fosse parte de seus planos.
A tensão carregou o ar. Charles respirou fundo e recuou um passo.
O que aconteceria depois do que haviam acabado de viver?
****
Jane não sabia qual era o maior temor, se o de Charles, ou o do que sentia por ele. Ambos tinham o poder de destruí-la.
Tremendo, recuou com o coração aos saltos. Se aquilo havia sido uma punição, teria morrido feliz em consequência do castigo. A humilhação queimava tanto quanto o desejo. Ele a atraíra com sua aparência irresistível e o calor do corpo másculo, mas a repelira com desconfiança e cinismo. Pelo menos com William e o pai, conhecera a finalidade de seus atos através das ações.
Charles a confundia com suas palavras vagas e seu comportamento inconstante.
Não havia defesa para o que fizera, nem explicação para a presença em seu quarto. Ficou parada diante dele, imóvel, esperando por um sinal de compaixão ou misericórdia.
— Encontrou o que queria nas cartas de Fitzwilliam?
— Parcialmente.
— Já que está aqui, deseja mais alguma coisa?
— Eu... não — respondeu, identificando o sarcasmo nas palavras amenas.
— Ah, vamos lá! Deve haver mais alguma coisa. Não pode sair de mãos vazias.
De repente o desejo arrebentou as comportas do controle e emergiu sob a forma de uma raiva surda e destruidora.
— Está bem — disse, encarando-o com ousadia. — Gostaria de saber o que descobriu durante a investigação que fez sobre meu passado.
— O que a faz pensar que mandei investigá-la?
— Tudo que sei a seu respeito.
— Entendo. E por que quer ver o relatório? Você sabe quem é e de onde veio.
— Sim, mas quero saber o que você sabe.
— Muito bem. Tenho um compromisso profissional dentro de alguns minutos, e você precisa ir buscar sua mãe. Mas... trarei os papéis mais tarde.
Jane ficou tão surpresa que não soube o que dizer.
— E então? Preciso terminar de vestir-me.
— É claro. Eu... obrigada. — E saiu tão depressa quanto a perna permitia, indo buscar refúgio na privacidade do próprio quarto.
***
A cozinheira estivera experimentando receitas durante toda a semana. Charles e Gruver embalaram carne assada, vegetais refogados, massas e pães doces, e levaram tudo para a carruagem. Charles decidira levar o excedente à casa dos Crane, em vez de esperar que toda aquela comida se estragasse e fosse jogada fora.
O plano também proporcionava uma oportunidade de ir visitar o empregado e verificar seu estado de saúde.
Joseph Crane o recebeu na porta. Ainda havia um curativo em torno das costelas, mas o braço fora finalmente libertado da tipóia.
— Sr. Bingley! Entre, por favor.
Charles e Gruver levaram as embalagens para a pequena cozinha e as deixaram sobre a mesa, que havia sido coberta por uma toalha colorida e limpa. O detalhe o surpreendeu e ele olhou em volta, notando as cortinas cor de laranja que pareciam ser de cetim.
A janela do aposento contíguo fora coberta por outra cortina, essa azul. Eram tecidos novos e cintilantes, estranhos para o local simples e modesto, mas o efeito dava um toque festivo ao lar antes sombrio dos Crane.
— O médico disse que dentro de uma semana poderei retirar o curativo das costelas, e então estarei bom como novo — Joseph comentou satisfeito.
— Era o que eu queria ouvir — Charles respondeu sorrindo.
— Não o esperava, senhor. — E chamou a esposa.
Lydia Crane apareceu na porta carregando uma menina pequena. Quando Charles notou que a criança usava um vestido de cetim vermelho, olhou para Gruver e tentou esconder o espanto. Um sorriso distendeu os lábios do motorista.
— Vou esperar lá fora, senhor — ele disse antes de desaparecer.
— Sr. Bingley! — Lydia pôs a criança no chão e ajeitou os cabelos presos em um coque. — Gostaria de uma xícara de chá? Talvez um suco...
— Não, eu...
— Por favor, faço questão de servi-lo. Gosta de chá?
— Sim, obrigado.
— Sente-se. — Ela apontou para a mesa.
Charles aceitou o convite e Joseph foi acomodar-se à frente dele.
— Achei que gostariam de convidar os outros empregados para um pequeno banquete. Nossa cozinheira andou praticando algumas novas receitas, e receio que ela tenha exagerado na quantidade de comida.
Lydia arrumou três xícaras sobre a mesa e examinou o conteúdo das embalagens com exclamações de prazer.
— Quanta generosidade! Vamos organizar uma festa. Já tenho até um vestido novo!
— A sra. Bingley é uma alma caridosa — Joseph comentou. — Um anjo de misericórdia. Lydia reza por ela todas as noites. Por favor, mande nossas lembranças a ela.
— Refere-se a minha mãe?
— Oh, não! Ela também é muito bondosa, mas Joseph está falando sobre sua cunhada.
— Anne?
— Sim, a doce e generosa Anne. Ela esteve aqui todos os dias enquanto sofri com a febre. Cuidou das crianças, e quanto Elissa também adoeceu, ela fez tudo que uma mãe teria feito pelo próprio filho.
Charles olhou para a xícara vazia.
— Também somos gratos pelos mantimentos que mandou, senhor — Joseph acrescentou. — E o material que a sra. Bingley deu a Lydia resultou em roupas novas para todos os pequenos. Eles estão orgulhosos por poderem ir à escola exibindo cores tão brilhantes. Lydia guardou um vestido para usar em uma ocasião especial, e finalmente o momento apresentou-se.
Lydia Crane serviu o chá.
Charles estudou os retalhos de tecido que ela transformara em toalha de mesa.
Anne dera a ela todo aquele material?
Uma lembrança invadiu sua mente. Na época estivera dominado pelo choque e a dor, mas recordava ter aberto os baús resgatados do acidente com o trem. Vira dezenas de vestidos coloridos e ousados e peças íntimas confeccionadas na mais fina renda. Fora então que fechara os baús e os enviara para casa. Depois pedira às enfermeiras do hospital para comprarem todas as roupas que fossem necessárias para a viagem.
A mãe comentara alguma coisa sobre Anne precisar de roupas novas logo depois de sua chegada, mas havia considerado o comentário natural. Afinal, ela fizera as malas para uma viagem de lua-de-mel, não para um período de luto.
Anne dera todas as suas roupas para a família de um empregado da fundição?
Aparentemente, também cuidara da esposa e dos filhos de Joseph durante o período de enfermidades que assolara a família. Sentia-se um idiota por não ter tomado conhecimento.
Por que ela guardara segredo?
Assim que terminou o chá, despediu-se de todos e partiu.
— Você sabia? — perguntou a Gruver assim que entrou na carruagem.
— Sim, senhor. — Era inútil fingir que não entendia a pergunta. — Eu mesmo a trouxe aqui diversas vezes, e também fui eu que carreguei os baús.
— Por que ninguém me disse nada?
— Não pensei que fosse meu dever informá-lo, senhor.
— Pois de agora em diante, quero um relatório completo de cada lugar onde a sra. Bingley estiver.
— Qual sra. Bingley, senhor?
— A mais jovem.
— Sim, senhor.
Charles aproveitou a viagem para refletir.
Por que Anne possuía tantos vestidos ousados, quase grotescos? Se era apenas um caso de preferência pessoal, por que os doara?
O fato de ninguém tê-lo informado sobre suas visitas à casa dos Crane o incomodava. Essa atitude, combinada ao fato de tê-la encontrado em seu quarto naquela manhã, a tornava mais merecedora de sua desconfiança do que acreditara até então.
Anne estava tramando alguma coisa? Mas o quê?
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