Notas iniciais
Olá moças como vão? Gostaria de agradecer por terem me deixado recado, eles são muito importantes para mim. E mais uma vez gostaria de pedir aos fantasmas me dizerem o que estão achando da fic, bjs

[RECAPITULANDO]

Anne não tinha nenhuma semelhança com o per­fil de mulher que apreciava e aprovava. Mas, no aspecto físico, ela era tudo que sempre desejara.

A combinação ameaçava sua sanidade mental. E prejudicava seu equilíbrio emocional. Não en­tendia por que ela correspondera ao beijo. A menos que temesse não corresponder. Ou... a menos que fosse parte de seus planos.

A tensão carregou o ar. Charles respirou fundo e recuou um passo.

O que aconteceria depois do que haviam aca­bado de viver?

****

Jane não sabia qual era o maior temor, se o de Charles, ou o do que sentia por ele. Ambos tinham o poder de destruí-la.

Tremendo, recuou com o coração aos saltos. Se aquilo havia sido uma punição, teria morrido feliz em consequência do castigo. A humilhação quei­mava tanto quanto o desejo. Ele a atraíra com sua aparência irresistível e o calor do corpo más­culo, mas a repelira com desconfiança e cinismo. Pelo menos com William e o pai, conhecera a fi­nalidade de seus atos através das ações.

Charles a confundia com suas palavras vagas e seu comportamento inconstante.

Não havia defesa para o que fizera, nem expli­cação para a presença em seu quarto. Ficou pa­rada diante dele, imóvel, esperando por um sinal de compaixão ou misericórdia.

— Encontrou o que queria nas cartas de Fitzwilliam?

— Parcialmente.

— Já que está aqui, deseja mais alguma coisa?

— Eu... não — respondeu, identificando o sar­casmo nas palavras amenas.

— Ah, vamos lá! Deve haver mais alguma coisa. Não pode sair de mãos vazias.

De repente o desejo arrebentou as comportas do controle e emergiu sob a forma de uma raiva surda e destruidora.

— Está bem — disse, encarando-o com ousadia. — Gostaria de saber o que descobriu durante a investigação que fez sobre meu passado.

— O que a faz pensar que mandei investigá-la?

— Tudo que sei a seu respeito.

— Entendo. E por que quer ver o relatório? Você sabe quem é e de onde veio.

— Sim, mas quero saber o que você sabe.

— Muito bem. Tenho um compromisso profissio­nal dentro de alguns minutos, e você precisa ir bus­car sua mãe. Mas... trarei os papéis mais tarde.

Jane ficou tão surpresa que não soube o que dizer.

— E então? Preciso terminar de vestir-me.

— É claro. Eu... obrigada. — E saiu tão depressa quanto a perna permitia, indo buscar refúgio na privacidade do próprio quarto.

***

A cozinheira estivera experimentando receitas durante toda a semana. Charles e Gruver em­balaram carne assada, vegetais refogados, massas e pães doces, e levaram tudo para a carruagem. Charles decidira levar o excedente à casa dos Crane, em vez de esperar que toda aquela comida se estragasse e fosse jogada fora.

O plano também proporcionava uma oportuni­dade de ir visitar o empregado e verificar seu es­tado de saúde.

Joseph Crane o recebeu na porta. Ainda havia um curativo em torno das costelas, mas o braço fora finalmente libertado da tipóia.

— Sr. Bingley! Entre, por favor.

Charles e Gruver levaram as embalagens para a pequena cozinha e as deixaram sobre a mesa, que havia sido coberta por uma toalha colorida e limpa. O detalhe o surpreendeu e ele olhou em volta, notando as cortinas cor de laranja que pa­reciam ser de cetim.

A janela do aposento contíguo fora coberta por outra cortina, essa azul. Eram tecidos novos e cin­tilantes, estranhos para o local simples e modesto, mas o efeito dava um toque festivo ao lar antes sombrio dos Crane.

— O médico disse que dentro de uma semana poderei retirar o curativo das costelas, e então es­tarei bom como novo — Joseph comentou satisfeito.

— Era o que eu queria ouvir — Charles res­pondeu sorrindo.

— Não o esperava, senhor. — E chamou a esposa.

Lydia Crane apareceu na porta carregando uma menina pequena. Quando Charles notou que a criança usava um vestido de cetim vermelho, olhou para Gruver e tentou esconder o espanto. Um sorriso distendeu os lábios do motorista.

— Vou esperar lá fora, senhor — ele disse antes de desaparecer.

— Sr. Bingley! — Lydia pôs a criança no chão e ajeitou os cabelos presos em um coque. — Gos­taria de uma xícara de chá? Talvez um suco...

— Não, eu...

— Por favor, faço questão de servi-lo. Gosta de chá?

— Sim, obrigado.

— Sente-se. — Ela apontou para a mesa.

Charles aceitou o convite e Joseph foi acomo­dar-se à frente dele.

— Achei que gostariam de convidar os outros empregados para um pequeno banquete. Nossa cozinheira andou praticando algumas novas re­ceitas, e receio que ela tenha exagerado na quan­tidade de comida.

Lydia arrumou três xícaras sobre a mesa e exa­minou o conteúdo das embalagens com exclama­ções de prazer.

— Quanta generosidade! Vamos organizar uma festa. Já tenho até um vestido novo!

— A sra. Bingley é uma alma caridosa — Joseph comentou. — Um anjo de misericórdia. Lydia reza por ela todas as noites. Por favor, mande nossas lembranças a ela.

— Refere-se a minha mãe?

— Oh, não! Ela também é muito bondosa, mas Joseph está falando sobre sua cunhada.

— Anne?

— Sim, a doce e generosa Anne. Ela esteve aqui todos os dias enquanto sofri com a febre. Cuidou das crianças, e quanto Elissa também adoeceu, ela fez tudo que uma mãe teria feito pelo próprio filho.

Charles olhou para a xícara vazia.

— Também somos gratos pelos mantimentos que mandou, senhor — Joseph acrescentou. — E o material que a sra. Bingley deu a Lydia resultou em roupas novas para todos os pequenos. Eles estão orgulhosos por poderem ir à escola exibindo cores tão brilhantes. Lydia guardou um vestido para usar em uma ocasião especial, e finalmente o momento apresentou-se.

Lydia Crane serviu o chá.

Charles estudou os retalhos de tecido que ela transformara em toalha de mesa.

Anne dera a ela todo aquele material?

Uma lembrança invadiu sua mente. Na época estivera dominado pelo choque e a dor, mas re­cordava ter aberto os baús resgatados do acidente com o trem. Vira dezenas de vestidos coloridos e ousados e peças íntimas confeccionadas na mais fina renda. Fora então que fechara os baús e os enviara para casa. Depois pedira às enfermeiras do hospital para comprarem todas as roupas que fossem necessárias para a viagem.

A mãe comentara alguma coisa sobre Anne pre­cisar de roupas novas logo depois de sua chegada, mas havia considerado o comentário natural. Afinal, ela fizera as malas para uma viagem de lua-de-mel, não para um período de luto.

Anne dera todas as suas roupas para a família de um empregado da fundição?

Aparentemente, também cuidara da esposa e dos filhos de Joseph durante o período de enfer­midades que assolara a família. Sentia-se um idio­ta por não ter tomado conhecimento.

Por que ela guardara segredo?

Assim que terminou o chá, despediu-se de todos e partiu.

— Você sabia? — perguntou a Gruver assim que entrou na carruagem.

— Sim, senhor. — Era inútil fingir que não en­tendia a pergunta. — Eu mesmo a trouxe aqui di­versas vezes, e também fui eu que carreguei os baús.

— Por que ninguém me disse nada?

— Não pensei que fosse meu dever informá-lo, senhor.

— Pois de agora em diante, quero um relatório completo de cada lugar onde a sra. Bingley estiver.

— Qual sra. Bingley, senhor?

— A mais jovem.

— Sim, senhor.

Charles aproveitou a viagem para refletir.

Por que Anne possuía tantos vestidos ousados, quase grotescos? Se era apenas um caso de preferência pessoal, por que os doara?

O fato de ninguém tê-lo informado sobre suas visitas à casa dos Crane o incomodava. Essa ati­tude, combinada ao fato de tê-la encontrado em seu quarto naquela manhã, a tornava mais me­recedora de sua desconfiança do que acreditara até então.

Anne estava tramando alguma coisa? Mas o quê?