Não Sou Quem Você Imagina!
27 Capítulo 27
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Vira a surpresa de Charles diante da alegria dos empregados e a tristeza em seu rosto quando ele recordara que o irmão costumava rir daquela maneira. Se nunca tivera oportunidade de divertir-se, ou se esquecera o som do próprio riso, quem poderia culpá-lo?
E Charles tinha motivos para ser desconfiado, frio e inflexível. Afinal, estava mentindo para ele. Estava absolutamente certo a seu respeito. Não havia se casado, com seu irmão por causa do dinheiro da família, mas aceitara acompanhá-lo em troca de um teto e comida.
***
Admirava o afeto e o respeito com que ele tratava a mãe e a consideração com os empregados, mas... amor? Não. Devia ser o mesmo afeto que experimentava por Mary. Devoção, como a que se tem por um irmão. Estava representando o papel de cunhada, só isso.
Mary terminou o chá e partiu, deixando-a sozinha com seus pensamentos. Lembrou o beijo que haviam trocado e as sensações despertadas pelo contato. Não, aquele não fora um beijo entre cunhados.
Não sentira nada parecido por William, e mesmo assim ele a convencera a abrir mão de sua virgindade! Devia ter se casado com ele.
Mas não. Sabia que havia sido melhor seguir sozinha. William fugira às responsabilidades de pai, e essa fora a melhor solução para ambos. Um dia teria acordado para uma existência miserável e descoberto que jamais amara o marido. O fato de não ter sofrido com sua rejeição, de ter sentido mais a reprovação do pai do que o abandono do homem que julgara amar, devia ter sido um sinal claro.
Jane suspirou, pensando nas cartas que escondera no baú. Teria de devolvê-las na manhã seguinte antes de ir à estação encontrar seu destino na pessoa da sra. Patrick.
Anne fora uma pessoa adorável e generosa. Esperava que a mãe fosse como ela... e que pudesse ajudá-la a lidar com a notícia da morte da filha. Sempre pensara em si mesma como uma mulher honesta e íntegra. A confusão que criava na vida daquela gente não combinava com sua personalidade. Por isso não se surpreendeu quando passou mais uma noite de insônia.
Na manhã seguinte, Jane foi ao quarto de Charles confiante no conhecimento que conquistara sobre a rotina da casa, de seus moradores e dos empregados. As cartas haviam proporcionado novas informações, mas gostaria de dispor de mais detalhes.
Essa era a última vez que invadia seus aposentos e sua privacidade. Charles merecia respeito, e no entanto era desonesta e diabólica com ele. Vasculhar seu quarto fora mais uma invasão, e não conseguia suportar a vergonha.
Jane atravessou o espaço, abriu a gaveta da escrivaninha e devolveu as cartas.
— Mas o que é...
Um grito assustado escapou de sua garganta.
O berro também o assustou.
— O que pensa que está fazendo?
Jane levou a mão ao peito e encarou-o, aturdida e apavorada.
Vestindo apenas a calça preta, ele se aproximou com ar ameaçador. Paralisada pelo terror, viu o peito nu, os ombros musculosos e a cintura proporcional, e teve a impressão de que desfaleceria quando ele a segurou pelo pulso.
— O que está fazendo aqui? Por que mexia em meus objetos pessoais?
A vergonha de ter sido surpreendida e as sensações provocadas pela visão do corpo seminu combinaram-se, suplantando todos os outros sentimentos.
— Não há nada valioso em minha mesa, Anne. Apenas um abridor de cartas com cabo de madre-pérola, mas gravei minhas iniciais nele. Seria difícil vendê-lo.
— Não sou uma ladra!
— Não? Por que mais invadiria o quarto de alguém que acreditava estar ausente?
— Não estava roubando, mas... devolvendo algo.
— Devolvendo? — Notou as cartas que ela ainda apertava entre os dedos e reconheceu-as. Encarou-a com um misto de surpresa e fúria, mas ao ver o medo em seus olhos, experimentou uma estranha sensação.
O que ela esperava que fizesse?
O tremor que sacudiu seu corpo foi tão intenso que pôde senti-lo sob os dedos.
As cartas de Fitzwilliam? Ela pegara as cartas e fora devolvê-las? Por quê?
— O que esperava encontrar? — perguntou. O movimento de cabeça revelava incerteza.
— Encontrou o que veio buscar?
Mais uma vez ela balançou a cabeça. Era difícil acreditar que estivesse embaraçada por seu estado de seminudez, mas o rubor em seu rosto apontava nesse sentido.
Ainda se surpreendia com a pele rosada e macia. O perfume dos cabelos invadiu seus sentidos, chamando a atenção para a massa de caracóis dourados que emoldurava o rosto delicado.
Tudo nela era suave e feminino. O negro do luto realçava os tons claros da pele e dos cabelos, atraindo-o como a uma abelha para o pote de mel. Imaginou-a em roupas mais leves e claras, em tecidos que realçassem as curvas e favorecessem a silhueta tentadora.
O pensamento provocou uma reação física tão violenta que Charles assustou-se.
— Por que veio aqui? — perguntou.
— Para devolver as cartas — ela respondeu com um fio de voz.
— E por que as pegou?
— Porque queria lê-las.
— E como soube onde encontrá-las?
— Foi... apenas uma dedução lógica.
Teria ido em busca das cartas ou estivera vasculhando seu quarto? Temia que Fitzwilliam houvesse revelado algo que ela preferia manter em segredo?
— O que esperava encontrar nessas cartas?
— Eu não sabia.
— E o que encontrou?
— Entusiasmo — disse com Joseph incerto. — E uma completa falta de interesse por tudo que não fosse suas peças e as viagens.
— Até que ele a conheceu.
— Sim, é claro. — E abaixou a cabeça.
Obcecado como era pela vida social e pelo trabalho no teatro, Fitzwilliam teria também excluído a mulher que dissera amar?
Era difícil de acreditar. O casamento fora assunto das últimas cartas do irmão, assumindo a precedência sobre todos os outros aspectos de sua vida.
Teria Anne descoberto a natureza desprendida de Fitzwilliam da maneira mais dolorosa?
Mais uma vez, Charles imaginou se o irmão decidira levá-la para a casa da família a fim de assumir suas responsabilidades.
Teria sido o arranjo apenas uma conveniência temporária, até que o bebê nascesse, ou ele pretendia deixá-la aos cuidados da mãe e do irmão mais velho indefinidamente?
Anne estivera casada com seu irmão por algumas poucas semanas, mas dormira com ele antes disso. Fitzwilliam a considerara bela e sedutora, desejável como poucas, e Charles compreendia perfeitamente seu ponto de vista, porque compartilhava das mesmas impressões.
Mas Fitzwilliam jamais havia se comprometido inteiramente com alguém ou alguma coisa, e por mais que a houvesse desejado, amado até, não teria sido capaz de oferecer a estabilidade e o compromisso que Charles teria proporcionado se...
Se ela lhe pertencesse...
Soltou-a e as cartas caíram sobre a superfície da mesa. Ela não levantou a cabeça nem se moveu.
— Quando uma mulher vai ao quarto de um homem, está procurando mais que um punhado de cartas. — Num impulso, inclinou-se e beijou a curva do pescoço delicado.
O arrepio que percorreu seu corpo encontrou resposta no dela, alimentando o fogo que o consumia. Charles abraçou-a, apertando-a de encontro ao peito e beijando-a com avidez e urgência. Foi um beijo ardente e descontrolado, exatamente como ele se havia sentido desde que tomara conhecimento de sua existência. Uma demonstração da paixão e do desejo que tentara esconder desde a primeira vez em que a vira.
Tremendo, ela retribuía com um misto de hesitação e ardor. Charles sabia que em breve perderia o pouco controle que ainda restava, e por isso afastou-se devagar para fitá-la nos olhos. Uma das mãos repousava sobre seu peito nu, a outra tocou seu lábio de maneira suave.
O gesto inocente, porém sensual, alimentou o desejo que ele tentava sufocar. Charles inclinou-se, e dessa vez o beijo foi terno, quase reverente.
Jamais beijara uma mulher daquela maneira antes.
Conhecera a paixão, o fogo e até a impossibilidade de conter impulsos físicos.
Mas nunca experimentara afeto tão profundo e envolvente, um sentimento que perturbava e acalmava, esgotava e restaurava ao mesmo tempo.
Aquela mulher o confundia, enfurecia e inquietava. E tudo sem o menor esforço, sem sequer se dar conta do que fazia, sem planejamento ou remorso.
Devia ter feito o mesmo com Fitzwilliam.
Desejava a esposa de seu irmão!
Charles interrompeu o beijo e sentiu um gosto amargo na boca. Ela apoiou-se em seus ombros nus, como se precisasse de ajuda para manter o equilíbrio.
Sim, desejava a esposa do irmão, uma mulher falsa que enganava e mentia para alcançar seus duvidosos propósitos.
O que ela esperava dele? E o que tinha para oferecer?
A resposta veio em seguida. Um lar. Meios para uma sobrevivência tranqüila e recursos para a educação de sua filha.
E ela já conseguira tudo isso. Talvez quisesse conquistá-lo para garantir a posição que alcançara.
— Na próxima vez que quiser alguma coisa, peça. Não invada os cômodos da casa como se fosse uma ladra.
O constrangimento estampou-se em seus olhos.
Charles respirou fundo e assumiu a responsabilidade pelo que acabara de acontecer. Não podia culpá-la por sua falta de controle.
Mesmo que Anne não houvesse resistido, nada teria acontecido se ele não houvesse dado o primeiro passo.
Por maiores que fossem os defeitos de Fitzwilliam, não tinha o direito de envolver-se com a mulher que havia sido sua esposa. Mas era revoltante constatar que a primeira mulher a inflamá-lo em muitos anos era justamente a viúva do irmão. Uma mulher muito diferente do tipo que teria escolhido para apresentar à mãe.
Anne não tinha nenhuma semelhança com o perfil de mulher que apreciava e aprovava. Mas, no aspecto físico, ela era tudo que sempre desejara.
A combinação ameaçava sua sanidade mental. E prejudicava seu equilíbrio emocional. Não entendia por que ela correspondera ao beijo. A menos que temesse não corresponder. Ou... a menos que fosse parte de seus planos.
A tensão carregou o ar. Charles respirou fundo e recuou um passo.
O que aconteceria depois do que haviam acabado de viver?
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