Notas iniciais
Olá meninas, aqui estou eu mais uma vez. Obrigada pelos comentários deixados para a minha pessoa, e tbm peço ao fantasmas como sempre que deixem um recado sobre o que estão achando da fic por favor, bjs e espero que gostem.

[RECAPITULANDO]

Vira a surpresa de Charles diante da alegria dos empregados e a tristeza em seu rosto quando ele recordara que o irmão costumava rir daquela maneira. Se nunca tivera oportunidade de diver­tir-se, ou se esquecera o som do próprio riso, quem poderia culpá-lo?

E Charles tinha motivos para ser desconfiado, frio e inflexível. Afinal, estava mentindo para ele. Estava absolutamente certo a seu respeito. Não havia se casado, com seu irmão por causa do di­nheiro da família, mas aceitara acompanhá-lo em troca de um teto e comida.

***

Admirava o afeto e o respeito com que ele tra­tava a mãe e a consideração com os empregados, mas... amor? Não. Devia ser o mesmo afeto que experimentava por Mary. Devoção, como a que se tem por um irmão. Estava representando o papel de cunhada, só isso.

Mary terminou o chá e partiu, deixando-a sozinha com seus pensamentos. Lembrou o beijo que haviam trocado e as sensações despertadas pelo contato. Não, aquele não fora um beijo entre cunhados.

Não sentira nada parecido por William, e mesmo assim ele a convencera a abrir mão de sua vir­gindade! Devia ter se casado com ele.

Mas não. Sabia que havia sido melhor seguir so­zinha. William fugira às responsabilidades de pai, e essa fora a melhor solução para ambos. Um dia teria acordado para uma existência miserável e des­coberto que jamais amara o marido. O fato de não ter sofrido com sua rejeição, de ter sentido mais a reprovação do pai do que o abandono do homem que julgara amar, devia ter sido um sinal claro.

Jane suspirou, pensando nas cartas que es­condera no baú. Teria de devolvê-las na manhã seguinte antes de ir à estação encontrar seu des­tino na pessoa da sra. Patrick.

Anne fora uma pessoa adorável e generosa. Esperava que a mãe fosse como ela... e que pudesse ajudá-la a lidar com a notícia da morte da filha. Sempre pensara em si mesma como uma mulher honesta e íntegra. A confusão que criava na vida daquela gente não combinava com sua persona­lidade. Por isso não se surpreendeu quando passou mais uma noite de insônia.

Na manhã seguinte, Jane foi ao quarto de Charles confiante no conhecimento que conquistara so­bre a rotina da casa, de seus moradores e dos em­pregados. As cartas haviam proporcionado novas in­formações, mas gostaria de dispor de mais detalhes.

Essa era a última vez que invadia seus apo­sentos e sua privacidade. Charles merecia res­peito, e no entanto era desonesta e diabólica com ele. Vasculhar seu quarto fora mais uma invasão, e não conseguia suportar a vergonha.

Jane atravessou o espaço, abriu a gaveta da escrivaninha e devolveu as cartas.

— Mas o que é...

Um grito assustado escapou de sua garganta.

O berro também o assustou.

— O que pensa que está fazendo?

Jane levou a mão ao peito e encarou-o, atur­dida e apavorada.

Vestindo apenas a calça preta, ele se aproximou com ar ameaçador. Paralisada pelo terror, viu o peito nu, os ombros musculosos e a cintura pro­porcional, e teve a impressão de que desfaleceria quando ele a segurou pelo pulso.

— O que está fazendo aqui? Por que mexia em meus objetos pessoais?

A vergonha de ter sido surpreendida e as sensa­ções provocadas pela visão do corpo seminu combi­naram-se, suplantando todos os outros sentimentos.

— Não há nada valioso em minha mesa, Anne. Apenas um abridor de cartas com cabo de madre-pérola, mas gravei minhas iniciais nele. Seria di­fícil vendê-lo.

— Não sou uma ladra!

— Não? Por que mais invadiria o quarto de alguém que acreditava estar ausente?

— Não estava roubando, mas... devolvendo algo.

— Devolvendo? — Notou as cartas que ela ainda apertava entre os dedos e reconheceu-as. Enca­rou-a com um misto de surpresa e fúria, mas ao ver o medo em seus olhos, experimentou uma es­tranha sensação.

O que ela esperava que fizesse?

O tremor que sacudiu seu corpo foi tão intenso que pôde senti-lo sob os dedos.

As cartas de Fitzwilliam? Ela pegara as cartas e fora devolvê-las? Por quê?

— O que esperava encontrar? — perguntou. O movimento de cabeça revelava incerteza.

— Encontrou o que veio buscar?

Mais uma vez ela balançou a cabeça. Era difícil acreditar que estivesse embaraçada por seu estado de seminudez, mas o rubor em seu rosto apontava nesse sentido.

Ainda se surpreendia com a pele rosada e macia. O perfume dos cabelos invadiu seus sentidos, cha­mando a atenção para a massa de caracóis dou­rados que emoldurava o rosto delicado.

Tudo nela era suave e feminino. O negro do luto realçava os tons claros da pele e dos cabelos, atraindo-o como a uma abelha para o pote de mel. Imaginou-a em roupas mais leves e claras, em tecidos que realçassem as curvas e favorecessem a silhueta tentadora.

O pensamento provocou uma reação física tão violenta que Charles assustou-se.

— Por que veio aqui? — perguntou.

— Para devolver as cartas — ela respondeu com um fio de voz.

— E por que as pegou?

— Porque queria lê-las.

— E como soube onde encontrá-las?

— Foi... apenas uma dedução lógica.

Teria ido em busca das cartas ou estivera vascu­lhando seu quarto? Temia que Fitzwilliam houvesse revelado algo que ela preferia manter em segredo?

— O que esperava encontrar nessas cartas?

— Eu não sabia.

— E o que encontrou?

— Entusiasmo — disse com Joseph incerto. — E uma completa falta de interesse por tudo que não fosse suas peças e as viagens.

— Até que ele a conheceu.

— Sim, é claro. — E abaixou a cabeça.

Obcecado como era pela vida social e pelo tra­balho no teatro, Fitzwilliam teria também excluído a mulher que dissera amar?

Era difícil de acre­ditar. O casamento fora assunto das últimas car­tas do irmão, assumindo a precedência sobre todos os outros aspectos de sua vida.

Teria Anne descoberto a natureza desprendida de Fitzwilliam da maneira mais dolorosa?

Mais uma vez, Charles imaginou se o irmão decidira levá-la para a casa da família a fim de assumir suas responsabilidades.

Teria sido o arranjo apenas uma conveniência temporária, até que o bebê nas­cesse, ou ele pretendia deixá-la aos cuidados da mãe e do irmão mais velho indefinidamente?

Anne estivera casada com seu irmão por algu­mas poucas semanas, mas dormira com ele antes disso. Fitzwilliam a considerara bela e sedutora, de­sejável como poucas, e Charles compreendia per­feitamente seu ponto de vista, porque comparti­lhava das mesmas impressões.

Mas Fitzwilliam jamais havia se comprometido in­teiramente com alguém ou alguma coisa, e por mais que a houvesse desejado, amado até, não teria sido capaz de oferecer a estabilidade e o com­promisso que Charles teria proporcionado se...

Se ela lhe pertencesse...

Soltou-a e as cartas caíram sobre a superfície da mesa. Ela não levantou a cabeça nem se moveu.

— Quando uma mulher vai ao quarto de um homem, está procurando mais que um punhado de cartas. — Num impulso, inclinou-se e beijou a curva do pescoço delicado.

O arrepio que percorreu seu corpo encontrou resposta no dela, alimentando o fogo que o con­sumia. Charles abraçou-a, apertando-a de encon­tro ao peito e beijando-a com avidez e urgência. Foi um beijo ardente e descontrolado, exatamente como ele se havia sentido desde que tomara conhecimento de sua existência. Uma demonstração da paixão e do desejo que tentara esconder desde a primeira vez em que a vira.

Tremendo, ela retribuía com um misto de he­sitação e ardor. Charles sabia que em breve per­deria o pouco controle que ainda restava, e por isso afastou-se devagar para fitá-la nos olhos. Uma das mãos repousava sobre seu peito nu, a outra tocou seu lábio de maneira suave.

O gesto inocente, porém sensual, alimentou o desejo que ele tentava sufocar. Charles inclinou-se, e dessa vez o beijo foi terno, quase reverente.

Jamais beijara uma mulher daquela maneira antes.

Conhecera a paixão, o fogo e até a impossibili­dade de conter impulsos físicos.

Mas nunca experimentara afeto tão profundo e envolvente, um sentimento que perturbava e acal­mava, esgotava e restaurava ao mesmo tempo.

Aquela mulher o confundia, enfurecia e inquietava. E tudo sem o menor esforço, sem sequer se dar conta do que fazia, sem planejamento ou remorso.

Devia ter feito o mesmo com Fitzwilliam.

Desejava a esposa de seu irmão!

Charles interrompeu o beijo e sentiu um gosto amargo na boca. Ela apoiou-se em seus ombros nus, como se precisasse de ajuda para manter o equilíbrio.

Sim, desejava a esposa do irmão, uma mulher falsa que enganava e mentia para alcançar seus duvidosos propósitos.

O que ela esperava dele? E o que tinha para oferecer?

A resposta veio em seguida. Um lar. Meios para uma sobrevivência tranqüila e recursos para a educação de sua filha.

E ela já conseguira tudo isso. Talvez quisesse con­quistá-lo para garantir a posição que alcançara.

— Na próxima vez que quiser alguma coisa, peça. Não invada os cômodos da casa como se fosse uma ladra.

O constrangimento estampou-se em seus olhos.

Charles respirou fundo e assumiu a responsa­bilidade pelo que acabara de acontecer. Não podia culpá-la por sua falta de controle.

Mesmo que Anne não houvesse resistido, nada teria acontecido se ele não houvesse dado o pri­meiro passo.

Por maiores que fossem os defeitos de Fitzwilliam, não tinha o direito de envolver-se com a mulher que havia sido sua esposa. Mas era revoltante constatar que a primeira mulher a inflamá-lo em muitos anos era justamente a viúva do irmão. Uma mulher muito diferente do tipo que teria escolhido para apresentar à mãe.

Anne não tinha nenhuma semelhança com o per­fil de mulher que apreciava e aprovava. Mas, no aspecto físico, ela era tudo que sempre desejara.

A combinação ameaçava sua sanidade mental. E prejudicava seu equilíbrio emocional. Não en­tendia por que ela correspondera ao beijo. A menos que temesse não corresponder. Ou... a menos que fosse parte de seus planos.

A tensão carregou o ar. Charles respirou fundo e recuou um passo.

O que aconteceria depois do que haviam aca­bado de viver?