Notas iniciais
Olá meninas como vão? Então... eu não iria postar este capítulo hj, mas como vcs pediram aqui está mais um, espero que gostem. Obrigada pelos recados deixados, e mais uma vez eu peço encarecidamente que me deixarem recados os fantasminhas que acompanham a fic, pois não custa nada não é?


[RECAPITULANDO]

Estavam muito próximos, falando em voz baixa numa atitude quase cúmplice.

A atenção de Jane concentrou-se na boca de contorno firme.

— Isto é um convite? — Charles perguntou.

— Acho que sim.

— A que horas Helena costuma tomar banho?

— Depois do café da manhã.

Ambos sabiam que àquela hora ele costumava sair para a fundição. Mesmo assim, Charles respondeu:

— Eu irei.

Apressados, dirigiram-se à sala de jantar para sentarem-se à mesa antes que a sra. Pratt le­vasse o pudim.

***

O lado desconhecido da complexa personalidade de Charles Bingley a surpreendera mais uma vez. A faceta suave que exibia flexibilidade com os cria­dos e preocupação com os empregados.

Seria essa a porção que falava ao seu coração com tanta fre­qüência? Ou a verdadeira essência de sua persona­lidade era composta pela porção cínica, severa e des­confiada?

Não acreditava nisso. Ou não queria crer.

Qual porção reagiria quando ele finalmente sou­besse a verdade a seu respeito? Seria tratada com a mesma indulgência que ele dedicava aos em­pregados? Com a mesma tolerância que testemu­nhara momentos antes? Ou tudo não passava de uma encenação pelo bem dos negócios? Trate os empregados bem, e eles renderão mais e melhor.

Não confiava na generosidade masculina. Era mais provável que ele reagisse com a mesma in­tolerância com que fora tratada até então.

Mary continuava brincando com Helena como se Darcy nem existisse. A sra. Pratt serviu o pudim e Jane pegou a colher.

— Tem notícias sobre Joseph Crane? — Charles perguntou ao assistente.

A pergunta assustou-a.

Seu segredo fora descoberto?

Fitzwilliam lançou um olhar discreto em sua direção antes de responder:

— Ele vai bem. A esposa adoeceu, mas as mu­lheres do Auxílio estão ajudando.

Fitzwilliam sabia! A colher de prata escorregou por entre seus dedos e caiu sobre o prato de fina porce­lana. Ela ignorou o som estridente. Se ele fora buscar notícias de Joseph, devia saber que primeiro Lydia e depois Elissa haviam ficado doentes, mas estavam quase recuperadas. E Joseph devia ter falado sobre suas visitas.

Fitzwilliam tinha alguma intenção delatá-la?

Não sabia por que isso era importante. Decidira ajudar a família para ajudar os Bingley, saldar parte da dívida com a memória de Fitzwilliam e, sim, aplacar sua consciência. Desejara a aprova­ção de Charles.

Mas depois tudo mudara. Sempre vivera cerca­da pelo conforto, e seu primeiro teste de realidade acontecera quando o pai a expulsara de casa. No entanto, jamais havia visto como viviam os menos favorecidos, e depois de conhecer o medo de não ter a quem recorrer nem aonde ir, queria sim­plesmente ajudar.

Pensando bem, Charles jamais a aprovaria. Era ela quem tinha de aprovar as próprias atitudes. E isso havia sido muito difícil no último ano.

Charles terminou a sobremesa e reclinou-se na cadeira para saborear o vinho. Os olhos castanhos encontraram os dela e Jane não conseguiu des­viar o rosto.

— Tenho uma surpresa para você — ele disse.

Que tipo de surpresa poderia ser?

— Sei que já está ocupada com os preparativos para receber meus convidados, mas teremos outro hóspede.

— Mais uma pessoa não será problema.

— Foi o que pensei. Escrevi enviando um convite em aberto, e acabei de receber uma resposta dizendo que ela está a caminho. E ficará conosco por tempo indeterminado.

Ela? Então havia uma mulher na vida de Charles?

Não entendia por que, mas a ideia pro­vocava um desapontamento que era como uma lâmina cravada em seu peito. Se ele mantinha um relacionamento com alguém do sexo oposto, o assunto não era de sua conta. Mais alguns meses e estaria fora da vida daquela família.

— Preciso fazer algum arranjo especial? — perguntou.

— Essa é uma resposta que só você possui.

— Não entendo... O que quer dizer?

Ele terminou o vinho, saboreando a última gota com um sorriso satisfeito.

Fitzwilliam também parecia esperar com ansiedade a revelação do nome, e menos cauteloso que Jane, perguntou:

— Quem é a mulher misteriosa que está a ca­minho daqui?

Charles olhou para Jane e respondeu:

— A mãe de Anne.

O coração de Jane disparou. O terror dominou seu cérebro. Mary sorriu.

— Que egoísmo — disse. — Tudo em que con­segui pensar foi que vou ter de dividir Helena.

A mãe de Anne estava viva, e Charles e Mary sabiam disso!

Jane estivera tão distraída ulti­mamente que havia esquecido de devolver as car­tas de Fitzwilliam à escrivaninha de Charles e des­cobrir mais alguma coisa. A informação adicional poderia tê-la ajudado nessa desastrosa situação. Mas...

Quem era aquela pessoa mentirosa em quem se transformara?

— Charles enviou algum dinheiro e convidou-a a ficar conosco por quanto tempo quiser — Mary explicou. — Sei que a presença de sua mãe será importante para você.

— Eu... não sabia que estavam pensando nisso.

Anne tinha uma mãe. Uma mulher que acre­ditava que a filha ainda estivesse viva.

As mentiras haviam se multiplicado até torná-la prisioneira.

— Disse a Charles que uma mulher precisa do apoio da mãe em situações difíceis. Não co­mentamos nada porque não queríamos despertar esperanças antes de termos certeza de que tudo daria certo.

— Bem, eu... Vocês... são muito gentis. — Não conseguia pensar em mais nada para dizer.

— O jantar estava ótimo, Anne. — Fitzwilliam le­vantou-se. Charles imitou-o.

— Querem juntar-se a nós para um cálice de licor, senhoras?

— Levaria Helena para o quarto de forma que você pudesse ficar, Anne, mas sei que está cansada.

— Tem razão. Prefiro me recolher.

— Também vou me deitar, querido. Conversem sobre o que quiserem com a privacidade que os cavalheiros tanto apreciam. — Mary ofereceu o rosto para o beijo do filho e despediu-se do visi­tante. — Boa noite.

— Boa noite, mãe.

Dominada por pensamentos sombrios, Jane acompanhou a sra. Bingley.

— Por que não disse nada sobre as visitas que tem feito aos Crane? — Mary perguntou enquanto subiam a escada. Ela carregava Helena de forma que Jane pudesse apoiar-se no corrimão e em uma das muletas.

O que faria?

Só conseguia pensar em fazer as malas e fugir protegida pela escuridão da noite. Mas então olhou para a filha e soube que teria de planejar algo mais sensato.