Notas iniciais
Ola meninas como vão? Espero que bem. Obrigada pelos comentários.

[RECAPITULANDO]

Por um momento Jane pensou naquele beijo e sentiu o coração bater mais depressa, mas felizmente controlou-se em seguida.

— Não — respondeu. — Ela não me disse nada.

— Faz alguma diferença o fato de mamãe não ir conosco?

Há meses não ia ao teatro, nem a qualquer outro lugar, e pretendia divertir-se. Charles Bingley, seus testes e beijos não a fariam mudar de ideia.

— Nenhuma.

***

A produção não foi das melhores que Jane já havia assistido, mas isso não diminuiu o prazer de estar ali.

A segunda esposa de Edward Coughlin, Georgiana, era apenas alguns poucos anos mais velha que Jane, e mantinha o marido, um poderoso banqueiro, hipnotizado por seus encantos. Quando os dois ho­mens desapareceram durante o intervalo, Georgiana sentou-se ao lado da Jane e iniciou uma conversa entusiasmada, embora unilateral. Ela e o marido tinham dois filhos pequenos, e Georgiana participava de diversas organizações femininas.

— Vou oferecer um almoço em beneficio do Au­xílio às Mulheres na próxima semana, Anne. Você precisa ir.

— Obrigada. — Charles devia ter provocado o convite para envolvê-la nas atividades locais, ou para estudar suas reações em funções sociais. — Será um prazer.

Os homens retornaram e o teatro foi novamente inundado pela escuridão.

Alguns momentos depois do início da apresen­tação, Jane olhou para o lado e viu Georgiana de mãos dadas com o marido. A visão assustou-a. Não porque estivesse chocada, pois já percebera o amor que os unia, apesar da diferença de idade existente entre eles, mas porque reconheceu o sen­timento de inveja. E solidão. A felicidade estam­pada em seus rostos fazia com que se sentisse mais sozinha.

Planejara ter um marido amoroso algum dia. Os planos incluíam um homem apaixonado e fi­lhos que criariam juntos.

O que aconteceria com ela e Helena quando deixassem a segurança da residência dos Bingley e a proteção conferida pelo nome da família?

Teria de fingir que era uma viúva, ou seriam discriminados onde quer que fossem. Mais men­tiras. Mas não seria capaz de oferecer um am­biente decente e boa educação para a filha se re­velasse a verdade. Ninguém alugaria uma casa onde pudessem morar nem a aceitariam em em­prego algum.

Helana seria sua família. E ela seria a única responsável por ela.

Olhando para o palco, tomou consciência do olhar de Charles a seu lado. Virou-se e, ao des­cobrir que estava sendo observada, baniu da men­te os pensamentos pessimistas.

— Devia ter percebido que o evento seria uma dolorosa lembrança de Fitzwilliam — ele comentou, tomando sua mão entre as dele.

O contato provocou um arrepio e despertou nela o desejo de aninhar-se em seus braços. Só uma criatura patética como ela podia extrair algum conforto de um homem de coração duro e espírito crítico. Estava tão faminta de amor e afeto que aceitava qualquer tipo de atenção.

Pois que ele pensasse que estava triste por Fitzwilliam. A ideia proporcionava uma vantagem que, naquele momento, não podia dispensar.

Na metade do segundo ato, ainda de mãos dadas com Charles, Jane foi tomada de assalto por uma questão espantosa: Seria ela a fonte de con­forto no estranho intercâmbio?

Não. O grande Charles Bingley? O homem de aço?

Mas testemunhara os momentos de ternura entre ele e a mãe, e sabia que devia haver mais do que ele revelava com suas atitudes frias e distantes.

Afastou os olhos do rosto bonito e interrompeu o contato entre as mãos. Não. Tudo que ele fazia, cada gesto, palavra ou plano, tinha um motivo. Estava sob vigilância e observação constante, e por isso tinha de fazer exatamente o que Anne teria feito em iguais circunstâncias.

A tarefa seria mais simples se soubesse quem fora Anne.

Depois do espetáculo, Gruver levou-os ao elegante restaurante onde os Coughlin fizeram reservas. Jane recusou o vinho, dando preferência ao refrescante suco de uvas brancas. Incomodada com os seios cheios e doloridos, desejou poder oferecer uma boa desculpa e partir sem causar uma cena.

Georgiana os divertiu contando histórias sobre a viagem que fizera a Europa alguns meses antes. Ela ergueu a cabeça e sorriu maravilhada quando alguns atores da peça passaram pela mesa.

— Oh, adorei a atuação de todos esta noite! — exclamou em voz alta.

Uma morena alta e esguia aproximou-se sorridente.

— Obrigada.

Patrice Beaumont apresentou os outros artistas e Georgiana retribuiu apresentando o pequeno gru­po que a acompanhava.

— Bingley? — Perguntou uma morena chama­da Catherine de Bourge. — Por acaso são parentes de Fitzwilliam Bingley?

— Sim — Charles respondeu sem esconder o desconforto, levantando-se para aceitar a mão es­tendida em sua direção. — Sou irmão dele.

— Atuei em uma das peças de Fitzwilliam no úl­timo inverno em Londres. Ficamos devastados quando soubemos sobre sua morte. Aceite minhas condolências.

Os outros também manifestaram pesar.

— E Anne, é claro — ela disse, inclinando-se para beijar o rosto de Jane. — Deve estar perdida sem nosso querido Fitzwilliam. O que posso fazer por você?

— Bem, eu... eu... — Odiava ser o centro das atenções. Gostaria de poder abandonar o restau­rante e buscar um refúgio seguro e discreto para esconder-se. — Nada. O irmão de Fitzwilliam está cuidando de nós.

— Nós?

— Anne teve uma menina — Georgiana explicou.

Os olhos verdes de Catherine inspecionaram os cabelos e o rosto de Jane, detendo-se no vestido. Ela a tocou no braço e encontrou o bracelete de esmeraldas.

— Que linda jóia — comentou, olhando para Charles com ar interessado.

— Obrigada. — Jane interrompeu o contato tomada por uma náusea súbita e violenta.

— De onde é? — Catherine perguntou, as sobran­celhas unidas numa expressão intrigada.

Jane sentiu o rosto queimar. Tentara desfazer-se do sotaque do interior, mas sabia que revelava sua origem sempre que falava com menos cuidado.

Steventon — respondeu.

— Ah, adoro Steventon. Lá estão sempre as pessoas mais interessantes.

— Bem, obrigada por terem ido assistir ao es­petáculo. — Patrice acenou e o grupo afastou-se.

Jane não levantou a cabeça até ter certeza de que todos haviam partido, e então encontrou o olhar duro de Charles.

— O bracelete foi presente de Fitzwilliam? — per­guntou em voz baixa.

— Não. A jóia era de minha mãe.

Ele levantou as sobrancelhas numa resposta surpresa, e Jane sentiu vontade de morder a lín­gua. Não devia ter dito isso.

— Um presente bastante extravagante para um homem que trabalhava em um moinho oferecer à esposa. Uma costureira não poderia ter com­prado jóia tão cara.

— Trata-se de uma... herança de família. A pul­seira é passada de geração em geração há décadas.

— Ah...

— Onde acha que consegui o bracelete? Pensa que o roubei?

— Não acredito que precise roubar coisa algu­ma. Com quem estava envolvida antes de conhecer Fitzwilliam é problema seu, certo?

— Não me importo como que pensa — ela devolveu furiosa. — O bracelete era de minha mãe. É a única lembrança que tenho dela, e sinto prazer em usá-lo.

— Fala como se sua mãe estivesse morta — Charles sussurrou.

O olhar penetrante a mantinha presa à cadeira como um inseto numa armadilha. Se Anne tinha mãe, por que não procurá-la? Esse devia ser o pensamento de Charles.

— Quero ir embora — disse com voz sufocada. — Não me sinto bem.

— Mas a comida acabou de chegar.

— Desculpe, mas não estou com fome. Mande-me para casa e Gruver voltará para buscá-los.

— Anne, isso seria rude. Somos convidados dos Coughlin.

Ela se virou para o casal.

— Georgiana, tenho certeza de que compreen­derá se eu partir. Não tenho o hábito de passar tanto tempo longe de Helena.

— É claro que entendo, querida. Tenho dois filhos, e ainda me lembro de como são esses pri­meiros meses. Pode partir sem receios de estar sendo grosseira. Marcaremos outro jantar. Oh, e estarei esperando por você na quinta-feira da se­mana que vem.

Aliviada, Jane despediu-se, apoiou-se nas mu­letas e saiu apressada.