Não Sou Quem Você Imagina!
13 Capítulo 13
Notas iniciais
[RECAITULANDO]
O cansaço o dominou. Os dias seriam mais fáceis depois do que havia enfrentado nas últimas horas. Acreditara que dar à mãe a notícia sobre o acidente de trem havia sido difícil. Pensara que reconhecer o corpo de Fitzwilliam e mandá-lo para casa fora uma provação. Havia considerado cansativo encontrar Anne viva e tomar todas as providências por ela e pelo bebê.
Mas aparecer diante dos amigos e dos parentes durante o serviço religioso requisitara toda a reserva de coragem que ainda possuía. Nada seria tão difícil.
A menos, é claro, que tivesse de continuar lutando contra a sórdida atração pela cunhada e tentando entender o sentimento de traição que passara a assombrar suas noites.
*****
Ele a estava provocando, simplesmente. E estava caindo na armadilha por causa da completa falta de preparo. Não tinha ideia de quem haviam sido Fitzwilliam e Anne Bingley. E como parecia que sua estadia na casa da família prolongava-se indefinidamente, era melhor fazer alguma coisa para suprir a deficiência de informações. E depressa.
Podia descobrir muitas coisas sobre Fitzwilliam com Mary. Ela adorava falar sobre o filho, e seria muito natural compartilharem da perda.
Mas Anne era outra questão. Quanto mais pensava nisso, mais tinha certeza de que Charles mandara investigá-la para proteger os interesses da família. Nesse caso, os resultados da investigação deviam estar em algum lugar do escritório, provavelmente na mesa. Se pudesse ler o relatório teria ideia de quem devia imitar. Saberia as mesmas coisas que Charles sabia.
Descobrira com Mary e os criados que ele ia à fundição todos os dias, e a partir daí traçou um plano.
Na noite seguinte, depois do jantar, convidou Mary para ir tomar chá em seu quarto e, sem muito incentivo, ouviu dezenas de histórias sobre a infância, a juventude e a vida adulta de Fitzwilliam Bingley. Sentia-se próxima de Mary, mais do que tinha direito, e apreciava o tempo e a atenção que recebia dela. Retribuir com consolo e companhia era o mínimo que podia fazer.
Temia que um dia a verdade a magoasse de maneira irreparável.
Na manhã seguinte o médico a examinou e permitiu que passasse a andar apoiada em muletas, desde que procurasse ajuda sempre que precisasse subir ou descer a escada.
Jane logo descobriu que poderia vencer a tarefa sozinha, desde que descesse sentada. E foi o que fez logo que o médico partiu. Mary havia saído para visitar uma amiga, Charles fora para a fundição e Helena dormia no berço. Era o momento que havia esperado.
Com cuidado, foi até o escritório e vasculhou todos os arquivos e armários, mas não encontrou nada. As gavetas da mesa estavam trancadas, e a chave não estava em parte alguma. Teria de descobrir onde ele as guardava e voltar para examinar as gavetas.
Mary e Helena cochilavam todas as tardes no mesmo horário. Seria menos arriscado aproveitar esses momentos para procurar o relatório sobre Anne Bingley, porque de manhã as criadas limpavam os aposentos e uma delas poderia encontrá-la.
Na tarde seguinte, deixou a sra. Gardiner cochilando na cadeira ao lado do berço e atravessou o corredor do segundo andar, abrindo portas e verificando aposentos.
Reconheceu o dormitório de Mary assim que aproximou-se da porta, pois o aroma de violeta pairava no ar. Silenciosa, seguiu em frente até passar para uma ala mais afastada. Não havia ninguém por perto, e os tapetes espessos abafavam o som das muletas contra o chão.
Rápida, passou pela porta no fundo da ala e descobriu-se em uma suíte ampla e muito organizada. O quarto de Charles, certamente. A mobília escura e a decoração sóbria atestavam uma preferência masculina, e a escrivaninha além da cama comprovava que o habitante daqueles aposentos tinha uma grande preocupação com o trabalho. Portas entreabertas davam passagem ao quarto de vestir e a um cômodo menor e vazio.
Por onde começar?
Se Charles carregava a chave no bolso, como era bem provável, estava perdendo tempo e se expondo a riscos inúteis. Mas os papéis que queria encontrar tinham de estar em alguma parte da casa.
A escrivaninha era o lugar mais adequado para iniciar a busca. As gavetas não estavam trancadas, e Jane examinou cada uma delas, encontrando apenas tinta, penas e papéis, além de maços de cartas.
Todas haviam sido enviadas por Fitzwilliam. Abriu a primeira, datada de vários anos antes, e leu o relato sobre experiências inovadoras em uma produção do teatro londrino. A segunda carta contava sobre seu envolvimento com uma mulher que conhecera no leste, e em outra era possível quase sentir a excitação da noite de estréia de uma de suas peças.
Devolveu quase todas as cartas à gaveta, guardando algumas no bolso do vestido. Charles não sentiria falta delas, e pretendia devolvê-las assim que soubesse mais sobre Fitzwilliam. O conhecimento seria útil quando Charles a testasse novamente.
Desapontada com a escrivaninha, dirigiu-se ao armário de roupas. Ali também não havia nada de interessante. Talvez na cômoda... As gavetas continham apenas roupas e objetos de uso pessoal. Sobre o móvel, uma urna de madeira guardava duas rosas, uma seca e outra murcha, porém mais nova que a primeira, dando a impressão de ter sido guardada ali poucos dias antes.
Mas por quê?
Jane lembrou as flores sobre o túmulo de Fitzwilliam e soube a resposta.
De onde teria vindo a flor mais antiga, então?
O retrato sobre a lareira do escritório passou por sua mente como um relâmpago.
Do funeral de seu pai?
O sentimentalismo da ideia parecia incongruente com o homem seco e desconfiado que conhecia.
Um anel com um brasão de família, vários alfinetes de gravata de diamantes, um relógio de bolso e algumas moedas de ouro ocupavam o restante do espaço da urna.
Jane examinou o criado-mudo e as gavetas da mesa na saleta na entrada da suíte. Nada.
Um gongo soou e ela se virou sobressaltada, olhando em volta. Um relógio sobre o armário parecia acusá-la comseus ponteiros vigilantes.
Era inútil. Se ele queria esconder uma chave, podia fazê-lo atrás dos quadros ou nos bolsos das roupas penduradas no armário. Ou levava-a com ele.
Era evidente que não havia nenhum papel importante no quarto, e seria inconveniente para ele ter de subir sempre que quisesse trabalhar. E se Charles levava a chave com ele, jamais teria acesso às gavetas do escritório.
Jane ajeitou as muletas sob os braços e preparou-se para partir. O som de passos do lado de fora provocou uma onda sufocante de terror.
Rápida, moveu-se em direção contrária, procurando um lugar para esconder-se. Havia acabado de entrar no pequeno cômodo vazio quando a porta da suíte se abriu e Charles entrou praguejando em voz alta.
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