Não Sou Quem Você Imagina!
12 Capítulo 12
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Um braço buscou apoio em seu pescoço, e os seios roçaram seu peito. Os cabelos macios tocavam sua orelha e na face. Resistiu ao impulso insano de virar-se e enterrar o rosto nos cachos brilhantes. Odiava-se por ter reações tão intensas à esposa de seu irmão. Estar tão envolvido pelo charme que sabia ser estudado o fazia sentir-se um garoto tolo e ingênuo.
******
Talvez essa fosse a intenção dela. Talvez houvesse mirado um ponto vulnerável ao oferecer compaixão. Ele era o estável. Era ele quem cuidava dos outros, oferecia conforto e lidava com tudo que era desagradável. Ninguém jamais o confortara. Nunca alguém oferecera preocupação e assistência. Mesmo que não pudesse fazer nada por ele, conseguira encontrar uma fenda em sua armadura.
— A cama ou uma cadeira? — perguntou ao entrar no quarto.
— Uma cadeira. Pode chamar a srta. Gardiner, por favor?
Charles puxou uma das cordas que acionavam as sinetas nos aposentos nos empregados e na cozinha. Quando se virou, ela tentava remover o sapato usando o outro pé.
— Posso?
Anne ruborizou até a raiz dos cabelos.
— A sra. Gardiner não deve demorar. Só tentei me adiantar porque meus pés parecem ter inchado, e o sapato está me machucando.
Ele se ajoelhou diante da perna estendida e removeu o calçado com delicadeza. Era ridículo deixá-la sofrer, e por isso introduziu a mão sob as diversas camadas de saiotes, encontrou o elástico da meia logo abaixo do joelho e puxou-a, ignorando o farfalhar do tecido.
Os dedos delicados exibiam diversas tonalidades de verde e algumas manchas amareladas. A sra. Gardiner entrou no quarto nesse momento e assumiu um ar de desaprovação. Adormecida, Helena foi posta no berço e ela correu para perto de Anne.
— Vá buscar gelo — Charles ordenou, impedindo que ela assumisse a tarefa de cuidar da ama.
— Senhor, eu...
— Agora.
Contrariada, ela obedeceu e retornou em seguida com o gelo.
— Vou buscar a cadeira de rodas. Depois que terminar de ajudá-la a vestir suas roupas de dormir, prepare um pouco de chá.
— Vai tomar chá aqui? — A enfermeira perguntou com tom escandalizado.
— Está é minha casa, sra. Gardiner. Tomarei o chá onde julgar conveniente. E no seu lugar, tentaria não fazer julgamentos morais tão ofensivos e impróprios.
A mulher apertou os lábios e permaneceu em silêncio.
Quando voltou com a cadeira, Charles encontrou Anne sentada ao lado da cama, sozinha.
— Deixe-me ajudá-la. — E virou-a para apoiar seus pés sobre a cama. Depois ajeitou um travesseiro sobre a perna esquerda e colocou uma bolsa de gelo em cima dos dedos inchados.
Notou o outro pé, pequeno e proporcional, e o tornozelo bem torneado. A camisola branca expunha uma porção curvilínea da barriga da perna.
— Cubra-me, por favor — ela pediu em voz baixa.
Charles atendeu ao pedido, jogando um cobertor sobre as pernas e deixando exposto apenas o pé que estava tratando.
— Tem alguma coisa para aliviar a dor?
— Não quero tomar remédios. Helena sempre acorda durante a noite.
— A sra. Gardiner cuidará dela.
— Sim, mas ela vai ter de mamar.
— Talvez seja melhor procurarmos uma ama-de-leite para o bebê.
— Não!
A surpresa levou-o a erguer a cabeça.
— Está bem, só queria tornar as coisas mais fáceis para você.
— Ficar longe de minha filha jamais será fácil para mim.
— Vejo que tem sentimentos bem fortes sobre o assunto.
— Ela é minha filha. E evidente que tenho sentimentos fortes por qualquer coisa que a envolva.
— Certamente. Ela é tudo que você tem de Fitzwilliam. Além de uma fortuna em ações e investimentos deixados por ele em testamento.
Anne o encarou, e a angústia que julgou ver em seus olhos quase o fez arrepender-se pelo comentário.
A sra. Gardiner voltou com uma bandeja e colocou-a sobre a mesa de cabeceira com tanta força, que o tilintar das xícaras ecoou estridente no quarto.
— É só isso — Charles informou. — Pode se retirar.
A ruga que marcava a testa da criada indicava que ela não estava satisfeita com a situação. Reprovava o comportamento dos dois, e não escondia sua opinião por trás de palavras gentis.
— Boa noite — Charles concluiu com ênfase, servindo o chá. — Creme ou açúcar?
— Mel, por favor.
A sra. Gardiner passou ao quarto de vestir, onde dormia em uma cama estreita para estar mais perto de Helena.
Charles despejou uma colher de mel no chá e entregou a xícara antes de servir-se.
— Se precisar de mim, não hesite em chamar, sra. Bingley.
Usando um robe pesado e longo, a enfermeira estava parada na porta de ligação entre os dois aposentos, os punhos cerrados como se tivesse dificuldade para controlar-se.
— Não se preocupe. A sra. Bingley chamará se precisar de seus serviços — ele afirmou. O que aquela mulher estava pensando? Que atacaria a cunhada dentro de sua própria casa, com a mãe dormindo algumas portas adiante e um bebê no quarto ao lado? A enfermeira desapareceu e ele olhou para Anne. — Fitzwilliam a ensinou a adoçar o chá com mel?
— Sempre preferi mel ao açúcar. — Vago. Seguro. Sem admitir ou negar que conhecia as preferências de Fitzwilliam.
— Quais as qualidades que mais apreciava em meu irmão?
— A maneira como se preocupava com seus semelhantes. Fitzwilliam era um homem muito generoso.
— Generoso com o dinheiro dos Bingley.
— Quando nos conhecemos, eu não sabia que ele dispunha de recursos.
— Não mesmo?
— Não tinha muito respeito por seu irmão, não é?
— Por que pergunta?
— Julgava-o tolo o bastante para se casar com uma mulher que só estava interessada em sua fortuna.
— Era esse seu objetivo?
— Não acreditaria se eu dissesse que não.
Charles considerou a verdade em suas palavras.
— Digamos que meu irmão nem sempre tomava as decisões mais sábias.
— Em outras palavras, as decisões que queria que ele tomasse.
Charles levantou-se para alimentar o fogo na lareira. Sabia que estava provocando uma hóspede e que esse era um comportamento grosseiro, mas não podia conter-se. Estava pranteando a morte do irmão e a presença daquela mulher o irritava, por isso a agredia.
— Como compara essa nova vida àquela que levava em Londres?
— Minha vida é muito diferente do que era antes. E muito diferente do que eu esperava que fosse.
— Em que sentido?
— No sentido mais óbvio. Fitzwilliam está morto.
— Ele a levou a América antes de trazê-la para conhecer a família. Não acha que foi um gesto estranho?
— Não. Se o tratava com o mesmo desdém com que tem me tratado, ele devia saber que nossa lua-de-mel não teria um bom começo aqui. Estou certa?
— Sobre o quê?
— Sobre tê-lo tratado com desdém.
Não gostava de ser interrogado, especialmente quando era ele quem buscava respostas.
— Fitzwilliam falou sobre a família? — perguntou.
— Não. Não sabia nada sobre vocês até estarmos quase aqui.
— Quer dizer que se apaixonou por meu irmão e casou-se com ele sem saber nada sobre seu passado, sem saber sequer se ele era capaz de sustentá-la. Nunca imaginou como ele ganhava a vida?
— Sabia sobre as peças. Eram produções bem sucedidas na capital.
— E pensou que estava se casando com um escritor. Depois, como que por encanto, descobriu que a família dele havia feito uma fortuna na indústria do ferro.
— Nunca pedi um centavo do seu dinheiro — disse furiosa. — Foi você quem decidiu ir buscar-me... quem me tirou daquele hospital. Foi você quem me trouxe para cá. Mary insistiu para que eu ficasse com as roupas, e só aceitei para contentá-la.
E como esposa de Fitzwilliam, tinha direito a tudo isso. E mais. Ser rude com Anne não devolveria a vida de Fitzwilliam, e acusá-la proporcionava apenas uma pequena medida de conforto.
Em oposição ao ressentimento, sentia uma forte simpatia por alguém capaz de alegrar a mãe e dar aos seus dias algum sentido. Anne representava conforto e companhia para Mary. Um fato que o aborrecia.
— Agora você é uma Bingley — disse, virando-se para encará-la —, independente do que tenha feito antes. Quaisquer que tenham sido os motivos de Fitzwilliam para se casar com você. E isso a torna minha responsabilidade. E também acarreta algumas obrigações.
— Quais?
— Discutiremos esse assunto amanhã. Esta noite tenho alguns papéis para examinar.
— E uma garrafa de conhaque para esvaziar.
— Se eu quiser...
— Estou certa de que vai querer.
— Boa noite. — Saiu e fechou a porta, admirando-a por tê-lo enfrentando, embora também se congratulasse por ter estado certo. Pelo menos ela começava a revelar suas verdadeiras cores. Não era a flor delicada que fingia ser.
O cansaço o dominou. Os dias seriam mais fáceis depois do que havia enfrentado nas últimas horas. Acreditara que dar à mãe a notícia sobre o acidente de trem havia sido difícil. Pensara que reconhecer o corpo de Fitzwilliam e mandá-lo para casa fora uma provação. Havia considerado cansativo encontrar Anne viva e tomar todas as providências por ela e pelo bebê.
Mas aparecer diante dos amigos e dos parentes durante o serviço religioso requisitara toda a reserva de coragem que ainda possuía. Nada seria tão difícil.
A menos, é claro, que tivesse de continuar lutando contra a sórdida atração pela cunhada e tentando entender o sentimento de traição que passara a assombrar suas noites.
Fale com o autor