Não Somos um Casal

2 Treinos e Elogios


Fazia três semanas que a garçonete tinha achado que ele e Hinata eram um casal e Kei sabia que era besteira, mas não conseguia esquecer disso.

Quando tinha chegado em casa naquele dia, tinha começado a pensar como seria se Hinata realmente namorasse alguém e de alguma forma esse alguém se transformou em si mesmo na sua imaginação.

Kei começou imaginando como seria beijar Hinata, se ele faria aquela expressão surpresa, se ele o rejeitaria, e as coisas só pioraram daí. Até mesmo nos seus sonhos o ruivo aparecia recentemente. Uma vez no treino, ele até mesmo levou uma bolada porque estava pensando nele e definitivamente não no jeito que um companheiro de time devia.

Ele tentou ignorar o que sentia ao perceber que realmente gostava do menino, por mais idiota que isso fosse, respondendo o mínimo possível ao que ele falava e se mantendo o mais longe que podia. Entretanto, Hinata não o deixou escapar tão facilmente (pensando bem, ele devia ter se preparado para algo assim).

— Eu não sei qual o problema, Tsukishima — ele falou quando Kei não conseguiu escapar da sessão de estudos com ele. — Mas você é importante para mim, então não vou deixar você sumir — ele falou com convicção, quase como se estivesse anunciando mais uma vez que Karasuno seria campeã.

Kei o olhou surpreso, enquanto sentia seu coração acelerando. Honestamente, as únicas pessoas que tinham falado algo assim para ele foram Yamaguchi e os seus pais, nem mesmo Akiteru tinha tentado impedi-lo de se afastar. Ele não estava acostumado a ter pessoas querendo tanto estar na vida dele, mas bastava um olhar para Hinata e ver que ele não desistiria.

— Certo — ele respondeu simplesmente e parou de tentar ignorá-lo.

Eles conseguiram voltar um pouco a normalidade naquele dia, com Tsukishima explicando os assuntos da escola e Hinata, na maior parte do tempo, ouvindo. Algumas horas, Kei quase podia esquecer o que sentia por ele.

Mas Hinata não facilitava. Kei tinha esperado que ele não fosse trazer o assunto daquele dia a tona novamente, porém ele parecia se divertir fazendo piadas sobre o assunto e de vez em quando falava alguma coisa sobre o suposto relacionamento dele, quando estavam longe de pessoas conhecidas.

Quando ele mais uma vez falou sobre isso, dizendo que Tsukishima não devia ser tão impaciente com o namorado dele, Kei decidiu que era hora de revidar. Não era só ele que podia brincar sobre isso.

— Bem, eu fico irritado que meu irritado namorado não consegue se concentrar na tarefa de casa por três segundos — ele falou, mantendo a expressão indiferente. Ele sentiu prazer com a expressão absolutamente chocada de Hinata.

— Desculpe — ele respondeu após alguns segundos, quando finalmente conseguiu se recuperar do choque e para a surpresa de Kei, ficou calado o resto da sessão de estudo.

Kei sorriu. Talvez as coisas pudessem ficar interessantes afinal.

No dia seguinte, eles agiram normalmente, provocando um ao outro, mas sem falar nada sobre relacionamento, já que não foram para o café. Ao invés disso, eles se concentraram no treino de vôlei.

Kei estava cansado antes mesmo de pisar no ginásio. Não tinha conseguido dormir direito na noite anterior, acordando assustado com o sonho que tivera e por alguma razão sentindo-se culpado.

— Tsukishima! Deixe de ser tão preguiçoso — reclamou Hinata enquanto o loiro errava por pouco um bloqueio, decepcionado. Ele achava que Kei já tinha superado essa fase de não se dedicar ao vôlei.

Tsukishima conteve o impulso de revirar os olhos, porque Hinata estava certo em parte. Ele tinha pulado um pouco tarde demais; porém isso era porque já estava no final do treino e ele estava ficando cansado. Nem todo mundo tinha a energia infinita dele e Kageyama.

— Idiota, ele só é ruim mesmo — Kageyama se intrometeu, do outro lado da rede, com um sorriso debochado.

Kei sabia que ele não devia se irritar. Estava mais de um ano lidando com o menino arrogante. Mas naquele momento, o comentário dele só aumentou a frustração que estava sentindo consigo mesmo. Ele não precisava da opinião dele.

— Kageyama! Deixe de ser tão rude — brigou Hinata, mas sem realmente parecer irritado com ele.

Não que Tsukishima fosse realmente esperar que Hinata fosse se irritar com o levantador para o defender, ainda mais sobre uma coisa tão besta. Ele conteve o impulso de dar um fora em Kageyama, sabendo que em poucos segundos teria uma chance muito melhor de mostrar quem era superior.

— Ei, você consegue. Você joga melhor que isso — Hinata falou baixinho, com a expressão séria.

— Só estou cansado — resmungou Kei, de volta.

— Mas você ainda não atingiu o seu limite. Eu sei disso — ele replicou com convicção, provavelmente pensando em todas as vezes que já jogaram juntos.

Kei assentiu, enquanto processava a proximidade dele. Quando ele tinha se tornando tão patético? Eles não estavam nem se tocando, mas já era mais que o suficiente para trazer todos os sonhos de volta.

Ele olhou ao redor da quadra, se preparando para a próxima jogada. Ele viu o olhar preocupado de Yamaguchi antes dele sorrir para ele do outro lado da quadra e pegar a bola para jogar.

Tsukishima quase sentia-se mal por Yamaguchi, porque agora não tinha chance que ele iria deixar o outro time ganhar, independente do que custasse. Ele ia provar para Kageyama quem era o melhor e que Shoyo estava certo. Ele estava longe do limite dele e iria mostrar a todos isso, até a si mesmo.

Tsukishima não sabia o que era melhor a parte: o sorriso de Yamaguchi quando o jogo terminou, a irritação de Kageyama ou a felicidade que Hinata emanava.

— É por isso que eu gosto de vocês — falou Tanaka, sorrindo. — Vocês sempre jogam sério.

— Bro, você fez jogadas incríveis no jogo — comentou Nishinoya e os dois começaram a conversar, indo para longe do segundanistas.

Hinata começou a analisar a jogadas dele com Kageyama e Tsukishima parou de ouvir a conversa um pouco. Quando deu por si, Yamaguchi puxava o seu braço delicadamente.

— Você está bem? — ele perguntou, preocupado.

Tsukki só assentiu, não querendo nem pensar nas causas dos problemas dele, que estava bem perto de si. O seu melhor amigo sabia melhor que insistir e começou a falar sobre um novo videogame que estava jogando.

— Você jogou muito bem hoje — falou Hinata, quando eles se sentaram na mesa, já tendo se despedido de Yamaguchi e Kageyama e indo para o café.

Kei o olhou desconfiado, lembrando de como estava jogando mal no início do jogo. Tinha sido uma das suas piores atuações no últimos meses.

— Quer dizer, depois de que você começou a jogar pra valer — ele falou, fazendo uma careta. — No começo, você estava péssimo. Mas depois nem Kageyama conseguia pensar num jeito de passar do seu bloqueio! E o ataque que você fez foi tão legal, você devia atacar mais — ele falou muito empolgado.

Kei sorriu. Tinha sido uma sensação muito bom fazer aquele ataque e se não amasse tanto o bloqueio e ver a expressão dos oponentes quando percebiam que não havia mais nada que pudesse fazer, talvez quisesse jogar como oposto.

— Pare de tentar me distrair e vamos estudar — ele falou.

— Posso nem elogiar meu namorado — retrucou Shōyō, com um brilho divertido no olhar.

Kei tentou dizer a si mesmo que já estava acostumado a ser chamado assim e que isso não o afetava nem um pouco, mas aquela sensação esquisita apareceu de novo. Era diferente do que ele já tivesse sentido por outra pessoa, mas o lembrava carinho, só que mais forte. Ele não conseguia explicar. Não era uma sensação ruim, contudo ele sentia-se desconfortável pela causa dela.

— Seu namorado está tentando garantir seu futuro — ele respondeu de volta, tendo muita experiência em fingir estar indiferente.

Hinata o encarou por mais um segundo, fazendo com que a sensação se ampliasse ainda mais, antes de suspirar e pegar o caderno. Tsukishima também pegou o dele, embora tivesse quase certeza que não ia conseguir entender nada agora.