Não Somos um Casal
4 Bonito
Notas iniciais
Shōyō estava mais impaciente que o normal, contando ansiosamente os segundos para que a aula acabasse.
Ele tinha falado com a mãe dele e apesar dela ainda não estar muito feliz com ele, pareceu ficar feliz com a ideia dele levar um amigo para casa com ele. E Tsukishima-kun é sempre bem vindo aqui, ela tinha falado animada, o fazendo revirar os olhos. A mãe dele nem o conhecia, mas já o amava pelas aulas extras que ele dava.
Kageyama o encarava sem nem disfarçar, como se o tivesse culpando por estar distraído na aula, o que era ridículo, já que ele não estava fazendo nada e nenhum deles costumava prestar atenção mesmo.
Hinata fez uma careta de volta para ele, antes de continuar seu desenho (se é que podia ser chamado assim) de Kenma levantando a bola para Kuroo, tentando ver como era diferente de quando Kageyama levantava para si.
Seus pensamentos de alguma forma saíram dessa dupla, indo parar novamente em Tsukishima e só após alguns minutos ele percebeu que tinha parado de desenhar totalmente.
Kageyama, por sua vez, estava preocupado com o amigo. Ele estava agindo estranho desde que voltara do intervalo, parecendo mais incapaz de ficar quieto e fazendo uma expressão sonhadora esquisita.
Claro que Kageyama sabia que Hinata e Tsukishima haviam melhorado a relação que tinham, provavelmente desde que voltaram do acampamento, e principalmente depois que começaram a estudar juntos. Mas chegar num ponto que por alguma razão Hinata queria dar comida ao menino arrogante? Era absurdo.
— Você tem certeza que Tsukishima não te envenenou? — Kageyama perguntou assim que a aula terminou e eles estavam livres.
— O quê? Não, eu que levei a comida — respondeu Hinata confuso. Ele estava sentindo-se bem, só agitado com a ideia de encontrar mais uma vez Tsukishima.
Kageyama deu de ombros. Com Tsukishima, era sempre uma possibilidade que eles não podiam descartar, não importava o quanto isso também fosse afetá-lo pelo desfalque no time.
— Eu tenho que ir — falou Hinata, jogando o resto do material na bolsa, sem o menor cuidado.
Kageyama estranhou ainda mais essa ação, porque normalmente Hinata ia se arrastando para as sessões de estudo com Tsukishima, embora ele sempre parecesse estar de bom humor depois e tivesse comentado várias vezes que estava aprendendo.
— Você não tem aula com Tsukishima hoje? — ele perguntou.
— Eu tenho — ele respondeu. — Ele está indo lá para casa.
Ok, Kageyama estava muito preocupado.
— Não. Absolutamente não — falou Kei. Isso tinha que ser uma brincadeira com a cara dele.
Mesmo com as perguntas irritantes de Yamaguchi, ele estava de bom humor. A ideia de passar tempo com Hinata fora da escola e daquela cafeteria era tentadora e ele se permitiu imaginar alguns cenários em que parassem de estudar um pouco para aproveitar a companhia um do outro.
Claro que tudo isso tinha sido arruinado no instante que viu Kageyama o esperando com Hinata, que tinha perguntado se ele não podia ir com eles. Estranhamente, o ruivo não parecia estar de bom humor, mas Tsukishima não teve tempo para pensar nisso com a perspectiva horrorizante de ter que aguentar o Rei da Quadra por mais tempo.
Os olhos de Kageyama estavam frios, como ele suspeitasse que ele tivesse algum motivo para recusar a presença dele lá, fora o fato que ele não gostava dele.
— Qual o problema? — perguntou.
— Eu já tenho que ensinar um idiota, não vou ensinar dois — Tsukishima replicou, fazendo Hinata o lançar um olhar feio.
— Não vai mudar nada, Kageyama vai ficar quieto — devolveu Hinata.
O dia estava indo tão bem, mas claro que o Rei tinha que atrapalhar tudo, Tsukishima pensou irritado.
A presença de Kageyama mudou as coisas. Depois da discussão inicial, o clima continuou tenso, a única conversa sendo feita por Hinata e nem este parecia estar empolgado.
Eles pararam em um restaurante para almoçar e Hinata e Kageyama começaram a discutir sobre a comida um do outro, o que somente irritou mais Kei. Talvez fosse estupidez, mas desde que Hinata tinha o chamado, ele tinha imaginado que teria a atenção toda dele e ver que ele parecia tão mais interessado no estúpido levantador o deixava irritado.
Kei foi o primeiro a pagar a comida e saiu sem dizer nada do restaurante, esperando do lado de fora. Ele fechou os olhos, tentando se acalmar. Era irracional estar tão irritado, ele sabia.
Ele sentiu uma mão encostando no seu ombro e abriu os olhos para ver a expressão preocupada de Hinata.
— Por que você está tão irritado? — ele perguntou.
Tsukishima não sabia o que responder. A verdade não era uma opção, não tinha como admitir que estava sentindo ciúmes. Mas também não conseguia pensar em uma mentira convincente.
Pelo que pareceu uma eternidade, ele e Hinata ficaram só se encarando, tentando entender o que o outro estava pensando. Porém o momento foi quebrado quando Kageyama apareceu e Hinata afastou-se subitamente.
Kei quase podia ficar grato por isso, se ele não fosse a razão porque estava irritado.
A casa de Hinata era como Kei tinha imaginado, tão colorida e cheia de coisas. Não era bagunçada, mas parecia cheia. Era bem diferente da sua própria, que era o mais minimalista possível.
— Desculpe a intromissão — falou Tsukishima, quando ele e Kageyama seguiram Shōyō ao redor da casa.
— Ah, minha mãe não está, só Natsu — disse Hinata, dando de ombros.
Como se tivesse atraída pelo seu nome, a irmã mais nova de Hinata apareceu e ela era tão parecida com ele que não restaria dúvidas de que eram da mesma família.
— Ei, Natsu, você comeu? — o dono da casa perguntou, em um tom gentil. — Mamãe disse que sim, mas se você ainda estiver com fome…
— Mamãe fez bastante comida — ela negou, não parecendo nem um pouco preocupada.
Kei observou a interação fascinado. Ele era o irmão mais novo na família dele e não tinha dúvidas que Akiteru o amava, mas ele nunca tinha o tratado tão atenciosamente assim.
— Kageyama-kun! — ela falou animada ao ver as visitas com o irmão.
Para a surpresa de Kei, Kageyama sorriu um pouco, um sorriso de uma pessoa normal e não o ameaçador que usava sempre. Não era nenhuma surpresa que ele conhecesse a família de Hinata, mas isso desagradou Kei ainda mais.
— Quem é ele? — ela perguntou, o olhando.
— Esse é Tsukishima, meu amigo — explicou Hinata.
Isso surpreendeu Kei. Claro que eles estavam passando bastante tempo juntos, mas não achou que o outro realmente o considerasse um amigo, ninguém fora Yamaguchi realmente o fazia.
— Oi — ele falou timidamente.
Não tinha a menor ideia de como agir com uma criança, tendo simplesmente mantido o máximo de distância que podia delas a vida toda.
— Meu irmão disse que você gosta de morango — ela falou. — Isso é verdade? — ela parecia estar o avaliando com a pergunta e mesmo sabendo que era ridículo, que ele não precisava da aprovação de uma garotinha, Kei ficou nervoso.
— Sim — ele admitiu, esperando que isso fosse a resposta certa.
Natsu sorriu para ele como se estivesse feliz com a presença dele ali. Ela não disse mais nada antes de segurar na camisa de Kei e o olhar como se ele fosse adivinhar o que ela estava querendo. Ela o largou e começou a andar.
Ele por sua vez olhou em pânico para Hinata.
— É pra você seguir ela — ele falou, se divertindo.
Tsukki estreitou os olhos para ele, mas mesmo assim seguiu a pequena Hinata. No final, ela queria mostrar o mais novo videogame que ela estava jogando.
Kageyama e Hinata conversavam tranquilamente na sala, rindo toda vez que Kei perdia (e algumas ele nem estava deixando Natsu ganhar). Ele sabia que ainda tinha que estudar com Hinata, mas não tinha coragem de dizer não a Natsu quando ela parecia estar tão feliz, especialmente quando ela cansou e se deitou no colo dele.
Qualquer irritação que Kei sentira antes, tinha sumido e ele estava completamente tranquilo agora. Nem mesmo olhar para Kageyama e Hinata e saber que ele nunca seria tão próximo dele daquele jeito o irritava mais. Ele só estava feliz de estar ali.
Surpreendentemente, foi Hinata quem falou que estava mais do que na hora deles estudarem e disse para Natsu que ela tinha que ir pro quarto dela, que eles iriam brincar mais um pouco depois.
Não foi tão simples assim, porque ela ficou triste e quase começou a chorar e pela primeira vez, Tsukishima e Kageyama fizeram expressões idênticas de pânico, mas Hinata não pareceu comovido.
Ela levantou-se, correu e escondeu-se atrás de Kageyama. Ele a abraçou.
— Natsu — falou Hinata em um tom reprovador. — Eu já disse que depois você brinca.
Por um segundo os dois irmãos se encararam, mas Natsu pareceu perder a disputa silenciosa, porque soltou Kageyama e foi lentamente para o quarto dela.
— Desculpem por isso — pediu Hinata sem graça. — Irmãos mais novos, vocês sabem… — e então olhou para os dois e suspirou — Ou não.
O estudo foi bem menos divertido que o resto do dia, pois, como Kei previra, ter Kageyama lá dava mais trabalho ainda que o normal. O Rei não conseguia se concentrar por três segundos e discutia toda vez com ele, mesmo quando as próprias anotações que tinha mostravam que ele estava certo.
Kei já estava ficando com dor de cabeça e a única coisa que o impedia de explodir era a presença de Hinata lá, que parecia estar tomando um cuidado extra para não irritá-lo, talvez sentindo o nível da sua paciência.
— Ok, tá bom, acho que já aprendemos o suficiente por hoje — falou Hinata quando Kei e Kageyama se encararam mortalmente por tempo demais.
— Vou para casa — anunciou Kageyama e essas foram as melhores palavras que Kei tinha ouvido o dia todo.
Ele comemorou silenciosamente, grato por finalmente não ter que desperdiçar seu tempo tentando ensinar alguém que claramente não queria. Ele nem estava mais irritado com Kageyama por causa de Hinata, mas só pela personalidade horrível do levantador. Sério, como alguém aguentava ele fora de quadra?
Hinata somente assentiu, parecendo até aliviado com isso.
Apesar do começo difícil, Hinata tinha orgulho em dizer que considerava Kageyama seu amigo, talvez até seu melhor amigo. Mesmo quando não estavam falando de vôlei, gostava de falar besteira e passar tempo com ele. Tinham ficado ainda mais próximos quando acabaram na mesma sala no segundo ano.
Mas isso não queria dizer que ele estava feliz que Kageyama tivesse ido com eles para a casa dele naquele dia. Ele tinha até mesmo discutido um pouco com ele, dizendo que não achava uma boa ideia ele ir, mas o levantador estava com medo que Tsukishima fosse matá-lo ou algo assim e nada parecia ser capaz de impedi-lo de ir junto.
Por um lado, Hinata estava extremamente tocado que Kageyama estivesse demonstrando tanta preocupação com ele, especialmente porque mostrava o quanto ele tinha mudado. Por outro, ele só queria evitar confusão e, se fosse honesto, queria passar um tempo a sós com Tsukishima que não envolvesse estudar, estudar e estudar.
E como Hinata previra, Kei parecia estar extremamente irritado com a presença do colega de time. Hinata não saberia o que fazer se eles começassem a brigar ali, sem a ajuda de Yamaguchi ou Ennoshita para acalmar as coisas.
Eu estou feliz que Kageyama saiu, ele pensou assim que tinha acabado de levar Kageyama até a porta. Talvez não devesse sentir-se assim, mas era a verdade, estava bem mais relaxado agora.
Ele encontrou Kei sentado na cadeira do seu quarto, onde o tinha deixado. Ele tinha se recusado a se mover para ver Kageyama ir embora, soltando comentários sobre como até a realeza devia ser capaz de fazer isso sozinho (Kageyama só revirou os olhos).
— Bem… — falou Hinata incerto, sem saber o que fazer. Ele tinha desejado tanto ficar a sós, mas agora não conseguia pensar em nada para dizer ou fazer.
— Quer ver algum filme? — Kei o interrompeu, parecendo perceber o seu desespero. Ele ficou aliviado.
— Sim, pode ser — ele respondeu pegando o controle e mudando para a Netflix. — Aposto que você gosta de filmes estrangeiros — ele falou divertido.
Ele conseguia imaginar Tsukishima em casa, escolhendo filmes que ninguém nunca tivesse ouvido falar e que eram tão inteligentes que eram difíceis de acompanhar. Ele conseguia até ver ele se irritando se alguém o atrapalhasse nesse momento.
Kei deu de ombros. É, ele via bastante filmes estrangeiros, mas também via muitos filmes nacionais e animes. Ele até tinha acompanhado um dorama uma vez, entretanto nunca ia admitir isso em voz alta.
Nem foi tão difícil quanto Hinata esperava decidir qual filme veriam, por fim colocando o Príncipe da Pérsia — As Areias do Tempo. Ele se jogou na cama no momento que deu play no filme, contente.
Mas logo olhou para onde Tsukishima estava, ainda na cadeira. Por experiência própria, ele sabia o quão desconfortável era ver TV dali e como bom anfitrião não devia deixá-lo ficar ali.
Ainda assim, ele tinha medo de que se fossem para sala, Natsu fosse acordar com o barulho, então teriam que se virar no quarto mesmo.
— Ei, Tsukishima… — ele chamou.
O outro o encarou, desviando os olhos do filme. Sem saber o porquê, Shōyō sentiu-se nervoso.
— Pode sentar aqui, aí é muito ruim — comentou, subconscientemente se encolhendo.
Kei pareceu hesitar por um segundo, mas levantou-se e sentou-se na parte vazia da cama, encostando as costas na parede e levemente em Shōyō.
Shōyō disse para si mesmo que estava tudo bem, que não estava surtando com a proximidade de Tsukishima. Não, de jeito nenhum o fato deles estarem tão perto na cama dele que as pernas se tocavam o afetava.
Mas a verdade era que ele não conseguiu notar que o filme tinha acabado até sentir Tsukishima o encarando de tão distraído que estava.
— É diferente do que eu tinha esperado para um filme de videogame — comentou Tsukishima. — Mas é bom.
Hinata concordou. Pelas poucas cenas que lembrava com clareza, o filme parecia bom, mas não o que tinha achado que seria ao ver que era baseado em um videogame.
— Qualquer filme com Ben Kignsley não pode ser ruim — respondeu.
Tsukishima sorriu levemente, como se tivesse adivinhado pela resposta dele o quanto Hinata era fã do ator (ele tinha conseguido esconder com sucesso essa informação até agora).
Hinata disse a si mesmo que não tinha razão para sentir a felicidade toda que sentia.
Depois deles verem o filme (o qual Kei realmente tinha curtido, apesar de achar que podia ser mais bem pensado), eles foram para a área de fora da casa e conversavam tranquilamente enquanto andavam.
Kei estava se divertindo, era diferente passar o tempo assim com Hinata. Mas ele não estava satisfeito, ele já sentia falta da sensação de ter o corpo de Hinata próximo do dele, tendo passado o filme inteiro hiperconsciente disso. Mais uma vez, ele sentiu-se patético. Por que não conseguia controlar os próprios sentimentos?
Talvez se estivesse mais atento, fosse capaz de perceber Hinata se aproximando dele, mas não estava. Só sentiu quando perdeu o equilíbrio e a água da piscina foi ficando muito mais próxima do que devia.
Kei não conseguia acreditar nisso. Hinata tinha o empurrado na piscina, com roupa e tudo. Ele ia matá-lo.
Hinata tentou conter o riso ao ver a expressão homicida de Kei. Ele não tinha conseguido se conter ao vê-lo estranhamente distraído e tão perto da piscina, era uma oportunidade única, mesmo sabendo que tinha grande chance de morrer agora.
Mas ele parou de rir quando Tsukishima se vingou, o puxando também para a água. Estava mais frio do que ele esperava e ele tremeu.
— Você pensou que eu não tenho nenhuma roupa aqui? — Tsukishima falou irritado.
— É só pegar uma roupa minha — retrucou Hinata, sem querer admitir que não tinha pensado.
Ele revirou os olhos quando ouviu o outro murmurando algo sobre como era melhor a roupa não feder e aproveitou para mergulhar. Quando ele subiu de novo, Kei estava boiando e Hinata achava que nunca o tinha visto com um sorriso tão tranquilo. Ele era tão bonito que doía.
— O que foi? — ele perguntou quando percebeu que estava sendo encarado e aproximou-se de Hinata.
Ele sentia-se subitamente nervoso com o olhar inquisitivo e a proximidade de Tsukishima.
— Er… você parecia gah…
Tsukishima só o encarou, surpreso com a incoerência de Hinata. É, ele sempre foi terrível em vocabulário, mas fazia tempo desde que ele sinceramente não conseguia fazê-lo entender o que ele queria dizer.
—...Bonito… — murmurou Hinata, sem saber que ainda estava falando em voz alta, de tão perdido que estava nos olhos de Tsukishima. Como eles podiam ser tão diferentes de todos os outros que já tinha visto? Eles conseguiam ser mais extraordinários que o de Lev, que eram de um tom único de verde. Mas os de Kei pareciam tão mais interessantes, profundos.
Tsukishima sentiu que ficou um pouco vermelho, com o elogio inesperado. Essa nem era a primeira vez que Hinata disse que ele era bonito, mas havia algo na sinceridade e intimidade do momento que o fez sentir-se bem.
Ele olhou para Hinata que parecia finalmente ter percebido o que tinha falado, com os olhos se arregalando. Por um segundo, Kei simplesmente parou de pensar e terminou o resto da distância que existia entre eles.
Kei nunca tinha beijado ninguém antes e a primeira coisa que percebeu foi como os lábios de Hinata estavam molhados, assim como os seus. Mas depois a euforia tomou conta de si e tudo que podia pensar era que aquilo estava acontecendo.
Então ele pensou em como não tinha certeza de que Hinata queria aquilo e, o que diabos ele estava fazendo?, era oficial: tinha enlouquecido de vez. Ele se afastou tão abruptamente quanto se aproximou.
— Desculpe — ele falou, sem coragem de sustentar o olhar chocado de Hinata e saindo o mais rápido o possível da piscina, com o coração batendo dolorosamente.
Já fazia alguns segundos que Tsukishima tinha saído, mas Hinata não tinha conseguido se mexer nem um centímetro. Ele mal conseguia entender o que acontecera.
Ele tinha ficado sem acreditar quando ele o beijara, mas tão feliz. Isso ia além de qualquer expectativa que tivera e por um momento, ele permitiu-se acreditar que tudo daria certo. Tudo estava perfeito.
Claro que toda essa felicidade sumiu quando Kei foi embora correndo, só dizendo desculpas. Mas desculpas pelo quê? Ele não podia achar que aquilo era errado, não.
Um segundo atrás, ele tinha sentido-se mais feliz que jamais sentira, melhor até do que quando Kageyama decidiu levantar a bola para ele, do que quando derrotaram Aobajousai, de quando tinham conquistado a vaga para o Nacional.
Agora, ele sentia-se tão perdido e solitário, ainda imerso na água fria da piscina.
Tsukishima ainda estava perturbado. Por que ele fizera uma coisas dessas? Hinata nunca mais ia falar com ele.
Para piorar a situação, na sua pressa para fugir de Hinata, ele acabou entrando na casa dele molhado, deixando um rastro de água por onde passou. Ele prometeu a si mesmo que limparia depois.
E só quando trancou-se no banheiro foi que notou que por não ser a sua casa, a toalha que estava lá pendurada não era sua. Ele hesitou, sem saber o que fazer, nem em quem colocar a culpa — porque era culpa de Hinata de tê-lo jogado na piscina, o molhando todo, mas sua de ter fugido sem um plano — até que desistiu e resolveu pegar a toalha de Hinata mesmo. Era melhor do que continuar molhar tudo e francamente ele estava com frio.
Ele tirou as roupas que estava usando, começou a espremer para tirar o excesso d’água e secou-se com a toalha, sentindo-se infinitamente melhor. Depois, ele olhou para as roupas que ainda estavam molhadas, considerando ficar eternamente ali, escondido de todos, antes de botá-las de volta. Ele se arrependeu no mesmo instante, mas não podia sair andando de toalha pela casa de Hinata, não depois do que tinha feito.
Ele deixou a toalha onde estava. Mas não teve forças para sair e enfrentar as consequências de ter impulsivamente beijado Hinata.
Hinata viu pelo chão molhado que Tsukishima tinha entrado na casa, ficando óbvio que tinha seguido para o banheiro. Ele parou na frente da porta por uns bons cinco minutos, sem saber o que fazer/dizer.
— Ei, tá tudo bem? — perguntou por fim. Ele esperou um pouco, mas não obteve resposta, então decidiu tentar de novo: — Vamos lá, Tsukishima… pode sair daí.
Tsukishima o atendeu dessa vez, abrindo a porta.
A primeira coisa que Hinata percebeu foi que ele ainda estava com as roupas que estava usando quando ele o jogara na piscina. Ele devia estar congelando.
A segunda, menos importante no momento, é que ele ainda parecia incapaz de encará-lo.
A terceira, totalmente irrelevante, era o quão adorável ele ficava com o rosto levemente vermelho e cabelo molhado.
— Vou te dar uma roupa — falou Hinata.
— Não precisa — protestou Kei — Eu estou bem.
— Tsukki… — Shōyō falou em um tom reprovador. Sem dar chances dele discutir, ele se virou e foi até o quarto, voltando com as duas maiores blusas que tinha e uma calça que pertencia a seu pai. — Desculpe, talvez fique um pouco pequeno.
— Não tem problema. Obrigado — agradeceu Kei.
Hinata o olhou preocupado. Ele estava tão mal que ia perder a oportunidade de fazer uma piada sobre o tamanho dele? As coisas estavam tão estranhas assim?
— Vou me trocar — avisou Kei.
Com isso, ele pegou as roupas e fechou a porta mais uma vez. Resignado, Hinata separou roupas para si mesmo e esperou ele terminar para poder se arrumar também.
Mas ele quase teve um ataque cardíaco quando ele saiu. As roupas couberam em Tsukishima, já que ele tinha comprado sem ser do seu tamanho de propósito, porque achava mais confortável para ficar em casa, mas por pouco.
E estava claro os reflexos do exercício que Tsukishima fazia jogando vôlei. Shōyō disse a si mesmo que não tinha como evitar a encarada que ele deu no quanto a camisa definia os músculos dele, ele era só humano, afinal.
— Hinata? — perguntou Tsukishima com um tom divertido.
Merda, Shōyō pensou ao notar que ele tinha percebido seu olhar. Ele estava tão ferrado.
— Eu… vou tomar banho — anunciou desnecessariamente, agarrando as roupas como se fossem salvar a vida dele e entrou no banheiro.
Tsukishima bateu na porta do quarto de Natsu, mesmo não estando fechado, sorrindo quando ela levantou os olhos do celular para falar com ele.
— Ei, Natsu, você sabe onde tem um pano para secar o chão? — ele perguntou, mas vendo o olhar em branco dela, percebeu que ela provavelmente não tinha ideia do que eram produtos de limpezas — Você sabe onde seus pais guardam o que usam para limpar a casa?
Dessa vez, ela entendeu e largou o celular na cama, animada em mostrá-lo. Ele disse para ela tomar cuidado para não escorregar. Lá, ele achou o pano e começou a secar o resto da água.
Natsu, diferente do que ele esperava, ficou fazendo companhia para ele, contando histórias sobre ela e a família. Tsukishima riu bastante com alguns dos momentos embaraçosos que Shōyō tinha passado.
Só tinha alguém que quase não aparecia nessas história: o pai deles. Pela primeira vez, Kei notou como Hinata quase não falava do pai e se perguntou o que tinha acontecido entre eles.
— Você quer bolo? — ela perguntou — Onii-chan fez Kasutera para mim ontem. Acho que ainda tem. É o meu favorito — ela parou e sorriu para ele adoravelmente — Mas eu vou deixar você comer.
Kei tentou fingir que não ficou totalmente besta com a fofura que ela estava exalando e que não se sentia especial, ele não se importava com crianças. Mas… quem ele estava querendo enganar? Ele tinha adorado a pequena.
— Obrigado, fico honrado, mas eu vou deixar para você. Seu irmão me prometeu bolo de morango — ele contou.
— Mamãe ficou irritada com ele ontem. Ela brigou feio com ele, porque ele usou os morangos dela para fazer um bolo — ela falou num tom conspirador — Mas ele disse que era um bolo importante.
Tsukishima congelou com as palavras. Ele devia ter entendido errado, Shōyō não fizera o bolo para ele… mas o que mais poderia pensar? Ele fora o oferecer pessoalmente a comida mais de uma vez. Se ele tivesse feito isso por ele e tivesse levado uma bronca…
— Aí estão vocês — falou Shōyō, aparecendo na sala, já devidamente trocado, parecendo totalmente relaxado.
Ele estava com um cheiro bom, tão diferente de como Kei estava acostumado a sentir, pós-treino. E a cada segundo ele se arrependia menos de tê-lo beijado e sentia mais vontade de fazer de novo.
Shōyō e Natsu começaram a conversar um pouco, mas honestamente Kei não prestou muita atenção, tentando organizar a confusão que estava a sua cabeça (ele falhou).
Ele só retornou a terra quando os Hinatas começaram a comer e tinha um prato de bolo de morango na sua frente. Com Natsu ali, toda a estranheza que Kei estava sentindo desde o momento que estupidamente decidira beijar Shōyō desapareceu.
Mas olhando a hora, Kei soube que tinha que chegar em casa ou os pais ficariam preocupados. Fora que já dera trabalho demais para Hinata. Ele olhou mais uma vez para os rostos animados de Shōyō e Natsu, sentindo uma certa tristeza em ir embora.
— Estava uma delícia — ele comentou, falando sinceramente. Sério, Hinata era realmente muito bom cozinhando — Mas eu tenho que ir.
Shōyō pareceu tão triste quanto ele com a ideia de se separarem e Natsu chegou a fechar a cara, parando de ficar emburrada só quando Kei deu um abraço de despedida nela.
— Hum, as minhas coisas estão no seu quarto ainda — comentou Kei e Shōyō o levou para lá.
Kei talvez tenha demorado um pouco mais do que o normal organizando as coisas, mas logo ele não tinha mais desculpas.
— Você pode devolver as minhas roupas depois, não tem pressa — falou Hinata.
Kei ficou grato por isso, não querendo nem um pouco voltar com roupas ainda molhadas. Também havia o fato que a camisa de Hinata cheirava um pouco como ele.
— Eu te levo até a porta — Shōyō falou.
Eles caminharam em silêncio e Kei sentia-se estranho. Ele queria que aquele dia nunca acabasse, apesar de todas as confusões que tivera.
— Obrigado por me receber — Kei falou, sorrindo sinceramente. — A Natsu é ótima, você podia aprender com ela.
— Foi ótimo — Shōyō sorriu — Temos que repetir isso.
De repente, não parecia mais tão ruim ir embora. Ele ia poder fazer isso mais vezes. Kei mal podia esperar.
— Tchau — ele falou por fim, dando uma última olhada em Hinata.
— Tchau — ele respondeu de volta.
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