Não Somos um Casal
3 Bolo de Morango
Yamaguchi estava voltando para casa, caminhando tranquilamente com Kei. Honestamente, ele sentia falta do amigo. Desde que Kei tinha começado a ensinar Hinata, eles passavam cada vez menos tempo juntos. Não o culpava de jeito nenhum, estava até orgulhoso de vê-lo finalmente ajudando alguém, mas isso não mudava o fato que ele sentia-se solitário também.
— Você tem que chegar em casa agora? — ele perguntou ao amigo.
— Não, mas… — Tsukishima falou, querendo dizer que eles já estavam no caminho.
— Próxima semana é o aniversário de Yachi — ele respondeu.
— É? — comentou Tsukki desinteressado.
Yamaguchi não se abalou com a aparente falta de interesse, ele sabia o quanto era difícil para ele admitir que gostava de alguém. Só dizer que alguém era suportável era raro, na verdade. Mas Kei parecia tolerar Yachi um pouco mais do que a maioria das pessoas, o que era bom porque Yamaguchi detestaria que seu melhor amigo odiasse a pessoa que ele da qual ele gostava.
— Estou pensando em dar um presente para ela — ele falou.
— Já sabe o que vai ser?
— Não — ele admitiu, estava meio desesperado. Não tinha tido amigas o suficiente para ter uma ideia do que dar, mas esperava que conseguisse pensar em algo. Se ficasse muito desesperado, mandaria mensagem para Shimizu. — Você pode me ajudar a procurar?
Kei concordou, sem nem reclamar de como queria ir para casa, o que Yamaguchi considerou como prova que não era o único sentindo saudade. Mas ele falou que queria comer antes de ajudá-lo.
— Esse café parece ser legal — Yamaguchi falou, pensando em entrar ali um pouco.
Por alguma razão, Tsukki ficou vermelho. Talvez ele tivesse com calor ou fosse alguma alergia.
— Aqui não, eu ouvi falar que o café é ruim — ele disse e o levou para longe da cafeteria.
Ele ofereceu algumas sugestões e assim Yamaguchi descobriu o quão ruim ele era nisso, pior até que ele. Parando para pensar, mesmo com algumas meninas dando em cima dele, ele não parecia ser próximo de nenhuma garota. Talvez ele tivesse dificuldades em entendê-las. Bem, isso com certeza ia complicar algum relacionamento que ele pudesse ter.
Hinata estava tentando estudar (sim, ao contrário do que a maioria das pessoas pensava, ele tentava estudar em casa). Era só que o assunto era tão entediante, quem se importava com algo que tinha acontecido há 500 anos?
— Onee-chan, cadê o bolo que papai disse que ia fazer? — sua irmã o interrompeu.
Ele não ia fingir que estava triste por ter uma desculpa para não estudar. Mas de fato estava meio triste com a razão, o pai deles devia estar viajando de novo e ter prometido algo que não podia fazer, como sempre.
— Qual bolo você quer? — ele perguntou, já sabendo que iria dar um jeito nessa situação. Ele odiava quando Natsu ficava sem as coisas que queria porque o pai esquecera, lembrando muito bem de como se sentia.
Sua mãe vivia alertando para que ele não a mimasse, mas ele não ouvia muito. Ele só estava fazendo o que seu pai deveria fazer, afinal.
Ela parou para pensar e Shōyō sorriu. Ela era tão fofa, por mais que em alguns momentos tivesse vontade de matá-la.
— Kasutera! — ela pediu empolgada.
Ele devia ter imaginado, ela quase sempre pedia isso a ele. Ele se encaminhou para a cozinha e começou a fazer o bolo pedido, mas quando foi tirar os ovos da geladeira, seu olhar caiu sobre a bandeja de morango que estava ali.
Ele sorriu ainda mais, lembrando de como tinha achado engraçado quando soubera do vício de Tsukishima por morangos. Era algo tão a cara dele e tão diferente ao mesmo tempo. Hinata não conseguia imaginar Kei gostando desesperadamente de nada, mas morango era perfeito para ele.
Ele lembrou de todo os momentos que Tsukishima tinha se dedicado a ajudá-lo (ainda que irritado muitas vezes) e das vezes que encontrou o outro encarando o bolo que a cafeteria vendia, mas que ele decididamente não estava afim de comer (até parece).
Sem nem pensar, as mãos de Hinata se moveram para pegar os ingredientes para fazer um segundo bolo.
Kei gostava dos intervalos da escola, de finalmente ter uma pausa depois de horas só ouvindo professores falando, e ele normalmente os passava conversando quietamente com Yamaguchi, já que a maioria dos colegas o conheciam o suficientemente para não irritá-lo demais.
Claro que mais uma vez, Hinata não estava afim de deixá-lo seguir sua rotina em paz.
Aliás, Kei sabia que Shōyō alternava muitas vezes com quem passava o intervalo, tendo o visto já com Kageyama, uns meninos e meninas da sala 1 e até mesmo Noya e Tanaka. Um vez ou outra, Hinata conseguia convencer Yamaguchi e Tsukishima a se juntarem a ele, mas não era uma tarefa fácil.
Aparentemente, hoje era um desses dias que por alguma razão ele tinha resolvido procurá-lo. Kei tentou dizer a si mesmo que não estava feliz com isso, nem mesmo quando viu o tamanho do sorriso de Shōyō ao vê-lo.
— HEY, TSUKISHIMA! — Hinata gritou, atraindo ainda mais a atenção dos outros colegas.
Kei o olhou surpreso, querendo entender porque ele estava ali e porque parecia ainda mais empolgado que o normal.
Normalmente, Kei tentaria fingir que não o conhecia ou algo assim, porém ele sabia que nada disso ia adiantar. Então ele só esperou Hinata colocar-se a sua frente, trazendo uma sacola de algo.
Sem dizer nada, ele o entregou um pote, que continha… um bolo? Meu Deus, aquilo era um bolo de morango? De repente, Kei estava faminto.
— O que é isso? — Kei perguntou confuso, mas pegou o bolo mesmo assim. Ele parecia estar bom.
— Eu estava cozinhando ontem para Natsu e bem, sobrou um pouco de bolo — Hinata falou, parecendo orgulhoso.
Espera, Hinata tinha feito aquilo? Mas estava com uma cara tão boa, de profissional mesmo. Kei quase sentia o gosto.
Levou um segundo para ele lembrar da primeira informação e recordar que Natsu era a irmã de Shōyō. Ele se perguntou se ela tinha a mesma energia infinita que ele e como ele conseguia ficar calmo o suficiente para cozinhar.
— Isso é pra mim? — perguntou Kei, surpreso.
— Sim, claro que sim — Hinata falou ainda confiante. — Eu sei que você gosta de morango.
Kei estava mais do que surpreso, não tinha ideia que Hinata sabia isso sobre si, muito menos que realmente fosse fazer algo com a informação. Ainda que não tivesse sido feito para ele, era algo realmente tocante ver outra pessoa lembrando dele ao vê-lo sua comida favorita. Além disso, o bolo parecia bom.
— Obrigado — ele falou, segurando mais fortemente o pote. Ele sorriu amplamente para Hinata, não o sorriso debochado de sempre, mas um para demonstrar a gratidão dele.
— Não foi nada — falou Shōyō humildemente, escolhendo não mencionar como sua mãe tinha surtado quando ela percebeu que ele tinha usado o morango que ela estava guardando para uma receita e ele fora obrigado a comprar uma sobremesa de última hora para substituir.
— Oi, Hinata — cumprimentou Yamaguchi, em um tom divertido.
Kei assustou-se, tendo completamente esquecido que o amigo e o resto da sala ainda estavam ali de tão focado que estava em Hinata. Pelo menos, pelo olhar culpado de Shōyō, ele não foi o único.
— Ah, oi, Yamaguchi! Tudo certo? — ele cumprimentou e olhou culpado para o bolo. — Eu não sabia que você ia estar aqui… não trouxe bolo para você, mas você pode pegar meu pedaço — nessa hora, Yamaguchi levantou a sobrancelha, se segurando para não rir.
Kei esperava que o amigo fosse negar, dizendo que não precisava, até porque ele sabia muito bem que Yamaguchi tinha trazido comida. Mas ao invés disso, ele sorriu amplamente.
— Ainda bem! Esse bolo parece estar muito bom — falou divertido. Kei tinha cem por cento de certeza que ele estava tramando algo, só não sabia o quê. — Você pode pegar minha comida, se quiser — ele falou.
Hinata também parecia um pouco surpreso com o rumo das coisas, mas não especialmente triste e prontamente entregou a própria comida para Yamaguchi.
— Vamos comer — Kei anunciou e eles sentaram-se nas mesas.
Kei tentou não pensar muito sobre isso quando colocou o primeiro pedaço na boca e imediatamente arregalou os olhos. Merda, era muito bom! Ainda melhor do que parecia. Tinha um gosto muito superior que a maioria, só não passando os lugares preferidos de Kei, e olha que ele entendia de bolo de morango.
Ao seu lado, Yamaguchi também comia do bolo que Hinata fizera e este parecia bem com a mudança de comida. Mas Kei não conseguia deixar de olhá-lo e pensar como era injusto que ele fosse o único que não tivesse comendo o que trouxera.
— Está muito bom — ele elogiou e Hinata o encarou satisfeito.
Vendo a forma que ele parecia orgulhoso por receber um elogio de Kei, o fez se sentir ainda mais culpado, ainda que ele não fosse admitir. Hinata não devia ser privado de comer o próprio bolo delicioso de morango.
— Hinata, toma — ele chamou e empurrou o próprio bolo e talher na direção dele.
Hinata o encarou de olhos arregalados, sem conseguir entender no que ele estava fazendo. Honestamente, nem Kei conseguia acreditar. Mas sabia que era a coisa certa e ele realmente queria fazer isso, mesmo tendo que abrir mão de um pouco da oitava maravilha do mundo.
— Pode pegar — Kei incentivou quando Shōyō somente o olhou, estático.
— Mas…
— Não é justo que você fique sem nada — interrompeu Kei com a voz grossa. — Coma, antes que eu mude de ideia — falou.
Dessa vez, Hinata o ouviu e comeu duas garfadas, parecendo um pouco assustado ainda, abandonando completamente a comida de Yamaguchi. Depois, ele deslizou o resto do bolo de volta para Kei, feliz como se tivesse acabado de ganhar uma partida contra a Nekoma.
Kei pegou o bolo e continuou a comer. Estranhamente, ele parecia ainda melhor agora. Não que isso tivesse qualquer coisa a ver com o sorriso de Hinata, claro.
Kei conseguia sentir os olhos de Yamaguchi sobre si, mas não ligou quando Hinata começou a falar sobre a injustiça que o professor tinha cometido em sala hoje — apesar de como ele achava que não ia dar problemas usar o celular para ver um jogo de vôlei no meio da aula estava além das capacidades de Kei entender.
— Se vocês quiserem passar lá em casa mais tarde, ainda tenho um resto de bolo — Hinata confessou.
Primeiro, Kei ficou empolgado, só com a perspectiva de comer mais desse bolo maravilhoso — como diabos Hinata tinha conseguido acertar tanto o ponto que ele gostava? — mais tarde. Depois, entrou em pânico com a ideia de ir até a casa de Hinata, imaginando como devia agir. Por fim, desconfiança com esse convite, porque ele bem sabia que eles tinham aula hoje.
— Isso não é uma manobra para gazear o estudo, é?
— Podemos ir depois de comer — resmungou Hinata — Ou estudar e ir. Mas aí Yamaguchi vai ficar entediado.
— Ah, não, eu não posso ir com vocês hoje — falou Yamaguchi — Meu pai pediu para ir com ele ajudar a mudança da minha tia — ele disse. — Mas que tal vocês estudarem na casa de Hinata?
— É, pode ser lá!
— Sua mãe não vai se importar? — questionou Kei.
— Nah, ela gosta de visita. Ainda mais se for para me ver estudando — ele falou.
Certo. De jeito nenhum Tsukishima estava surtando com a possibilidade de talvez ir sozinho para a casa do menino que ele gostava. Absolutamente não.
Tsukishima sabia que tinha algo estranho com o amigo se recusando a dar o bolo a Hinata e suas suspeitas foram confirmadas quando ele o parou no fim da aula, quando ele estava prestes a ir buscar Hinata para estudarem.
— Você sabe, eu te conheço há bastante tempo — falou Yamaguchi. — E eu nunca, nunca, te vi dividindo bolo de morango — era verdade que Kei normalmente tomava posse da comida como se fosse a salvação da sua vida e se recusava a dar até para a própria mãe.
— E…? — Kei deu de ombros, fingindo que isso não era nada demais.
Por um momento, Yamaguchi olhou para Kei como se quisesse reclamar de alguma coisa.
— Nada — ele falou, por fim.
Mas ele não precisou, porque Kei sabia o que ele estava pensando. E ele não ia confirmar. Já era ruim o suficiente estar gostando de Hinata, ele não precisava que mais ninguém percebesse o sentimento patético que tinha.
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