Não Sei Se Vale A Pena
1 Prólogo
Último dia de aula na última escola em que obtive alguma felicidade. Naquele momento, eu não sabia que estava matando a minha felicidade, assassinando minha esperança e esfaqueando cruelmente minhas chances de ser alguém, pelo menos ali, eu já estava acostumado com os insultos. As pessoas me chamam de gay, mas não percebem que não há nada de errado em ser. Eu não assumi, não quero dar esse gostinho a eles de vitória. Mas mesmo se eu fosse hetero, eu me recusaria a conversar com qualquer um que fizesse esse tipo de preconceito. Afinal, a sociedade vive para se manter unida, mas suas regras são rígidas de mais para que algumas pessoas com senso crítico queiram participar. Acho que sou burro. Sou a única pessoa nesse mundo, que, talvez, quisesse perder a inteligência para simplesmente ser um deles. Eu não quero ser diferente. Não nasci para ser.
Me conformo e me aceito do jeito que a natureza me fez. Desde pequeno, venho sofrendo os insultos dos outros — já fui, até mesmo, espancado. Apesar de ter força para me defender, fiquei ali, recebendo socos e chutes. "Já terminaram?", perguntei quando os ataques cessaram. E eles continuaram. E não pararam até o dia de hoje.
Acho que devo comemorar.
Não saio de casa sem meio capuz cinza. Por baixo dele, me sinto protegido dos olhares e das fofocas, dos xingamentos e de todo aquele abuso. Me acostumei a esconder meu rosto, porque os outros não querem ver. Isso é certo? Não sei. Talvez eu seja estúpido por seguir a vontade deles, mas a única vontade que tenho é, de algum dia, conseguir um único amigo. Nunca, em toda a minha vida, eu conversei de maneira amigável com uma pessoa. Como sou o primeiro da turma, sempre sou perguntado sobre a matéria, e respondo como se eu fosse o próprio professor. Com a voz fria e inexpressiva, é claro. Meu rosto perdeu a capacidade de demonstrar emoções. Minha boca não se curva mais, meus olhos não choram mais. Eu não os culpo, eu culpo a mim. Talvez porque eu sou repugnante de mais para que as pessoas queiram conversar comigo, e eu cada vez mais me sinto inseguro. Eu só desejo que isso tudo acabe.
Suicídio? Não. A vida é valiosa de mais para ser perdida, mas eu já perdi as contas de quantas vezes eu já pensei em simplesmente me matar. Seria fácil de mais. Seria rápido de mais.
Já visitei um mundo de psicólogos e psiquiatras. Eles costumam me diagnosticar com Transtorno Depressivo Decorrente, distúrbios de personalidade e mania de falar sozinho. Alguns são mais ousados: dizem que possuo TOC, transtornos de ansiedade, sociofobia, transtorno de dupla personalidade e até mesmo esquizofrenia. Para mim, tanto faz o nome, eu só queria que tivesse cura. Não me importaria de tomar uma bomba de remédios para ser feliz, para ter amigos e ter com quem conversar. Mas a medicina — ou mágica — humana não é tão avançada assim para tornar isso possível. Infelizmente. Pagaria milhões por qualquer droga que tivesse esse efeito.
Minha vida está prestes a mudar completamente, e assim que saio de minha antiga escola, já cometo o primeiro erro — ou talvez seja o próprio destino?
Esqueço meu capuz sobre a minha carteira da sala de aula.
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