Notas iniciais
Olá!

Espero que aproveitem o capítulo!
Os demais vão ser colocados conforme os comentários, ok? A autora que vos fala precisa ao menos saber se estão gostando rs
:*

Frangos. Frangos assados girando como uma dança coordenada pelos barulhos altos que minha barriga fazia enquanto pessoas entravam e saíam da padaria.

“Faz um tempo que não como um desses”, pensei. Na verdade, não lembrava sequer a última vez que havia colocado um pedaço de frango em minha boca. Bem, ao menos um pedaço comestível, já que comida achada no lixo não é algo que possa ser tido como refeição.

Por baixo do casaco grosseiro de grisette, senti os pêlos do braço arrepiando com o frio exagerado que fazia aquela tarde. Além de precisar comprar algo para comer, ainda teria que me preocupar com um lugar para me abrigar, considerando que não havia nenhum dinheiro para pagar a pensão naquele mês.

Os “lucros” do último roubo não tinham sido muito vantajosos. Aliás, aprendi que colares de quartzo não valem quase nada e dão muitíssimo trabalho para retirar do meio de ossos dos falecidos. Ainda tive que aguentar piadinhas dos homens babacas que compraram o tal colar na feira da madrugada, algo sobre roubar hippies... tsc.

Acima de mim, o sol lançava seus últimos raios antes de se esconder completamente por trás das altas colinas que cercavam a cidade. Ouvi meu estômago revirar outra vez e comecei a caminhar em passos lentos, percorrendo ruas e becos que conhecia tão bem. Não demorou muito até conseguir ver o grande muro amarelo que circundava o cemitério municipal. Atrás dele lápides de todas as formas e tamanhos se erguiam, marcando o clima pesado e tenso daquele lugar.

Antes de passar pelos enormes portões de ferro fundido, fiz minhas preces. Apesar de ter um “ofício” um tanto divergente de minhas crenças, sempre fiz questão de levar a sério o que minha mãe costumava dizer. “Se não houver maneira de fugir do pecado, antes de fazê-lo, peça perdão”, era a frase que ouvi muitas vezes em minha infância. Obviamente, não acredito que eu seja uma pessoa digna de perdão eterno, mas orar me fazia mais calmo antes de arrombar túmulos de estranhos.

Dois anos se passaram desde que comecei a vasculhar mortos atrás de algo que me rendesse algum dinheiro, mas foram raras as vezes que o fiz sem algum remorso. Não era o que pensei que faria aos dezessete anos, contudo, era o que me mantinha vivo até ali, afinal, um garoto sem parentes e amigos numa cidade grande como aquela não tinha muitas opções.

Tinha acabado de completar quinze anos quando meus pais morreram. Acidente de carro, foi o que os policiais me disseram. Falaram também que me dariam dois dias para arrumar as malas, colocar a cabeça no lugar, e voltariam para me levar até um abrigo. Fugi algumas horas depois que eles se foram.

Cabisbaixo, entrei no cemitério como de costume. Atrevo-me a dizer que não haviam muitas pessoas que conheciam tão bem aquele lugar como eu e Nori, o coveiro. Nori era um homem alto, que desfilava com sua papada desproporcional ao próprio corpo e andava com dificuldade devido a uma trombose na perna esquerda. Ele sabia quem eu era, aliás, de alguma maneira sempre me ajudou, deixando suas ferramentas destrancadas no pequeno galpão que havia próximo a capela. Nunca entendi se ele o fazia por pena ou só para ver até onde eu iria com aquilo.

Naquele momento já não havia mais um fio de luz solar sequer, porém os postes próximos iluminavam o bastante para me ajudar em meu trabalho noturno. Segui meu caminho até o galpão, que mais uma vez havia sido deixado aberto, como se esperando por mim. A pá que Nori utilizava pesava mais que qualquer outra pá que já vi na vida. Era ela a culpada de minhas dores nas costas e hematomas que me deixavam sem andar normalmente por dias. Com um movimento brusco, a levantei do canto em que estava e joguei por cima do ombro, uma maneira mais fácil de carrega-la.

Olhei ao redor mapeando as milhares de lápides que se erguiam em minha frente. Muitas delas eu já conhecia muito bem, outras não me pareciam esconder algo que fosse de meu interesse, por isso as deixei de lado. Durante longos segundos tentei vasculhar a área até que meus olhos fixaram em algo com um brilho fraco e oscilante, que vinha de um ponto próximo a parede lateral do cemitério. Curioso como sempre fui, não demorei até andar em direção ao que parecia um pedaço de estrela deixado para trás.

Aquela lápide era nova ali, disso eu tinha certeza. Parecia ter sido pintada há poucas horas e por isso o cheiro de tinta era muito evidente. Uma placa de metal ostentava uma foto de uma moça sorridente que fazia um sinal de “paz” com as mãos. Fui atraído como uma moeda perto de um enorme imã e parei muito próximo a fotografia que agora parecia ainda mais encantadora. O cabelo era tão rosado quanto o algodão-doce que meus pais compravam no parque de diversões da cidade há tempo atrás e, de alguma maneira, senti meu coração acelerar.

Não havia datas naquela placa, apenas uma frase. “Sakura Haruno, doce filha e amiga que se vai para alegrar as estrelas”, era o que dizia. Fitei mais um pouco a foto, até que o pequeno brilho mais uma vez atraiu minha atenção. Pendurado na cruz ao alto, um colar balançava conforme o vento soprava. Graças a minha altura um pouco exagerada para minha idade, pude pegá-lo com facilidade.

Aquilo era delicado demais para as minhas mãos e senti receio de quebrá-lo apenas com um olhar mais firme. Sua corrente era muito fina e o pingente em formato de estrela carregava no meio uma pedra. Mas não se tratava de uma pedra que estava acostumado a encontrar nos túmulos que revirei, era algo muito mais... valioso. “Quem diabos deixaria um diamante em lugar como esse?”, pensei. Não parecia real, era como uma pegadinha de um programa dominical qualquer. Eu estava estupefato.

Olhei ao meu redor como se procurasse câmeras ou pessoas escondidas por aquelas cruzes e pedras de mármore. Não parecia haver ninguém além de mim e os gatos que começavam a aparecer por ali. Com cuidado, coloquei o novo tesouro no bolso do velho casaco e caminhei até o galpão deixando a pesada pá de Nori cair em um canto qualquer. Minha noite estava ganha, minhas futuras refeições também, graças a uma desconhecida sorridente com nome de flor.

“Tenho que sair daqui”, pensei enquanto caminhava apressado rumo ao portão principal. Um vento gelado passou por mim congelando até mesmo os fios de cabelo que teimavam em cair sobre a testa e senti meu coração parar por um único segundo. Uma sensação de ter feito algo muito errado caiu sobre mim como um peso e concluí rapidamente que aquele era o efeito de ter ganhado tão facilmente algo tão precioso. Não consegui lembrar a última vez que havia me acontecido algo tão bom.

Saí como se minha própria vida corresse sério risco e deixei para trás qualquer arrependimento que antes sentia. Ainda com passos largos, consegui chegar até a avenida principal, onde carros passavam furiosamente denunciando o horário em que a maioria das pessoas saía de seus trabalhos. Ao lado da farmácia principal e de uma pequena barbearia (uma das tantas que havia na cidade), estava a pensão de Tsunade, uma mulher de seios tão grandes quanto sua língua ferina. Ela parecia saber que meus “serviços” demandavam um pouco de tempo e por esse motivo me deixava ficar ali até arranjar dinheiro para pagar a hospedagem. Cinco dias, era o prazo máximo. Se em exatos cinco dias eu não conseguisse dinheiro suficiente, a rua me esperava como sempre.

Assim que cheguei ali pensei que morreria asfixiado por tanta fumaça. Tsunade tinha um velho hábito de fumar cigarros de cereja na recepção, sempre deixando o ambiente com o mesmo odor. Quando me viu, percebi que estreitou os olhos castanhos e passou a me analisar cautelosamente.

— Vou avisando que se quiser ficar aqui preciso ter uma garantia que vai me pagar. Ficou me devendo vinte ienes da última vez, seu patife.

— Não se preocupe, velha. Dessa vez tenho algo que vale uma estadia de um ano inteiro nessa sua maldita pensão.

— Olhe bem como me chama, pirralho. – Disse ela levantando do sofá em que estava – Se estiver me enganando para conseguir hospedagem de graça, te jogo na rua sem dó. Você sabe muito bem que sou capaz disso, não sabe?

Por mais detestável que fosse a acolhida, aquelas palavras eram o que eu precisava para seguir até o estreito corredor de acesso aos quartos. Fui diretamente ao que sempre fiquei. A pintura gasta deixava evidente a idade avançada do cômodo, mas aquilo nunca me incomodou. De fato, aquele era meu lugar favorito na terra.

Com cuidado, retirei do bolso meu mais novo motivo de orgulho e por alguns minutos me perdi no brilho daquele pingente. Não lembrava de ter visto de perto um diamante tão perfeito. Aquela pedra não havia sido lapidada por um amador e isso era evidente até mesmo por um garoto sem experiência como eu.

Enquanto o colar descansava em cima do velho criado-mudo, me joguei sem cerimônias em cima da cama que foi minha amiga mais próxima durante todo esse tempo. O teto de repente pareceu interessante enquanto pensava em como a sorte havia demorado a me achar e qual o real motivo para deixarem algo tão precioso ao relento. Seria muita inocência achar que um diamante não seria notado, mesmo em um cemitério.

Apesar do barulho que vinha da avenida, poucos ruídos chegavam até ali, por isso não demorou até que o sono chegasse. Senti meu corpo cansado ficar mais leve, porém subitamente senti como se o quarto congelasse e os pêlos de minha nuca se arrepiaram por completo, me trazendo uma sensação de pânico que nunca havia sentido em toda a minha vida. Aquele frio seria esperado, se não fosse por um fator: O quarto forrado e sem janelas era quente até mesmo nos dias mais frios que já presenciei.

Por um momento me senti observado e abri os olhos rapidamente sentando na cama em seguida. Olhei em todos os lugares em busca de algo que justificasse o susto, mas tudo estava da mesma maneira que encontrei quando cheguei. Ainda tentando me acalmar, me deixei cair sobre a cama novamente, dizendo mentalmente que aquilo era resultado da emoção que havia sentido momentos antes.

Demorei um pouco até conseguir fechar os olhos novamente e relaxar. Os barulhos dos carros lá fora já não eram tão evidentes como antes e aquilo ajudou a acalmar meus nervos aflitos. Já estava praticamente dormindo quando um sopro gelado chegou ao meu ouvido me deixando paralisado e em pânico novamente. Dessa vez, não ousei me mexer.

—Meu colar...

Meu coração congelou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.