Não Podemos Saber Tudo
19 Mente Alterada - Parte 1
Notas iniciais
Acordei sentindo um frio congelante, abri meus olhos e, ainda meio sonolenta, vi que acima de mim encontrava-se uma céu nublado, senti a neve caindo no meu cabelo. Então a ficha caiu, eu e Soluço havíamos pegado no sono na noite anterior e dormimos na rua.
– Soluço! Acorda! — exclamei, sacudindo-o e rindo, não sei se de nervosismo ou por achar a situação engraçada, simplesmente.
– Ahn? O que foi? — meu namorado disse esfregando os olhos. — Por que que tá nevando no meu quarto? — ele bocejou, eu ri.
– Dormimos aqui fora. — expliquei levantando. Estendi a mão para ajudá-lo a se erguer, ele o fez.
– Ah, certo. — Soluço respondeu, cansado.
Andamos um pouco, minhas pernas fraquejavam de tão frio que eu sentia, o dia anterior havia sido quente em comparação a este. Não que eu não esteja acostumada ao frio absurdo de Berk, mas este dia em especial estava pior do que todos os outros.
– Astrid? Você tá bem? Está congelando! — Soluço notou, já definitivamente acordado.
– Não, não, e-eu to bem. — menti com os dentes batendo.
– Vem cá. — ele abriu os braços. Entrei no seu abraço caloroso e macio, sem hesitar. Seu peito quente aqueceu meu corpo frio em questão de segundos, senti uma deliciosa onda morna me percorrer, estremeci, ele me apertou ainda mais forte, a neve caindo bruta sobre nós.
Ficamos ali, por alguns minutos, parados, os pés afundados na neve branca e gelada. Ele me beijou e continuamos a andar, abraçados de lado, um mais próximo do outro o possível. Chegamos até a frente do Grande Salão, que já estava quase pronto, sua reforma até que foi muito rápida.
– Ei! Aí estão vocês? Dormiram fora é? — Heather gritou em nossa direção com um sorriso sem vergonha nos lábios.
– Nem vem, Heather! Nós só pegamos no sono, sem querer! — retruquei.
– Uhum, sei. Sem querer... — ela disse sarcástica, apenas revirei os olhos, a morena riu.
– Onde vocês estavam? — Valka falou preocupada.
– Desculpa, mãe. Estávamos conversando e acabamos dormindo, estávamos cansados e... — Soluço ia explicando quando notou a mesma expressão que havia na face de Heather no rosto de sua mãe. Meu namorado bufou e também revirou os olhos arrancando uma gargalhada de Valka.
– Tudo bem, meu filho.
– Ah então essa é sua mãe? — Heather perguntou dirigindo-se a Valka.
– É ela sim. — respondeu ele.
– Prazer, Heather. — a morena apertou a mão dela.
– O prazer é todo meu.
– Ei! É minha mãe também, tá? — Verena exclamou, aproximando-se.
– Nunca vou me acostumar com isso. — admitiu Heather enquanto a minha cunhada abraçava minha sogra e ria.
– O Eret retornou. — Verena comunicou.
– Meus deuses, ele não consegue parar em um lugar só por uma semana! — reclamou Soluço, era verdade.
Eu havia notado que meu namorado olhava estranho para a própria irmã desde que tal revelou que possuía poderes, novamente percebi esse olhar estranho sobre a garota quando ele a respondeu.
Se bem que Soluço estava agindo de forma esquisita desde a viagem para isolar Erick. Ainda mais grudado em mim do que o de costume, desconfiado ao extremo... Pela primeira vez na vida, não sabia como ajudá-lo, depois perguntaria o que o estava incomodando tanto.
***
– Então, para onde você foi dessa vez? — perguntei para Eret. Havíamos nos reunido e estávamos sentados em uma mesa na entrada quase pronta do Grande Salão.
– Bem, dessa vez fui para Alfadur visitar um velho amigo que não via há alguns anos. — ele me respondeu de imediato, observando minha face de forma um tanto incômoda, admito.
– E quanto tempo pretende ficar, dessa vez? — Soluço questionou em um tom não muito simpático, mantendo aquela olhada em um misto de raiva, desconfiança e dúvida.
– Talvez um pouco mais de mês, se não incomodar...
– É claro que não vai incomodar! — Cabeça Quente exclamou, sonhadora. — Pode até ficar lá em casa se quiser... — ofereceu a loira, já se esfregando nele, segurei o riso.
– Muito obrigado, mas já tenho aonde ficar. — Eret respondeu afastando-a.
– Mas se quiser fazer uma visitinha...
– Cabeça Quente, por favor... — exclamei. A loira mostrou a língua para mim e foi sentar-se em seu lugar.
Observei nossa mesa, Perna-de-Peixe e Heather conversavam animadamente (depois tiraria sarro da cara dela), Melequento, Cabeça Dura e Cabeça Quente discutiam por alguma coisa inútil, Valka conversava com Verena, Naldo e Brenna, de vez em quando soltavam altas gargalhadas. A única tensão presente se encontrava no meu lado da mesa, Soluço mantinha os olhos presos em Eret, sua expressão dura, já Eret mantinha o olhar em mim, não conseguia decifrar seu rosto.
– Por que Eret está olhando assim pra você, Astrid? — Soluço sussurrou para mim, pareceu ter lido minha mente. Tudo bem, eu também estava me perguntando a mesma coisa, mas do mesmo jeito, o fato de ele ter me questionado sobre isso me irritou profundamente, se tinha uma coisa que eu odiava era quando as pessoas mudavam radical e repentinamente. O que diabos ele tinha?
– Qual é o seu problema, Soluço?! — eu exclamei um pouco alto demais, todos ficaram em silêncio. Me levantei, arrastando a cadeira de forma bruta, virei as costas sentindo que os outros me observavam, não me importei e sai de lá, precisava de ar, precisava pensar.
Sentei-me nos degrau duro e gelado da escada e pus o rosto sobre as mãos, respirei fundo e bufei alto. Ouvi alguém sentar-se do meu lado e senti uma mão tocar de leve minhas costas, tinha certeza absoluta de quem era. Escutei a voz do meu namorado:
– Ontem, no navio, tive uma conversa com Erick...
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