Não Me Deixe Sozinho
16 Coração de Avó
Notas iniciais
[...]
Fui jantar. Na mesa, fiquei calado. Comi rapidamente. Depois voltei para o meu quarto. Havia uma mensagem no celular. Achei que fosse do Gabriel, mas era de um número desconhecido:
Olá, Leo. Espero que você esteja bem. Quero que saiba que eu irei mostrar pra você quem eu sou, quando as aulas voltarem. Até, só quero que você saiba que você é lindo dormindo.
Com amor, C. F.
Ouço a mensagem mais uma vez. “Você é lindo dormindo”... instintivamente me cubro com um lençol até o peito. Alguém me observa enquanto durmo. Alguém me observa enquanto durmo! Socorro! Levanto e fecho as cortinas.
Quando volto a me deitar, vejo que chegou uma mensagem do Gabriel.
Poxa, agora tá difícil... que chato, Leo!
Mas a gente vai continuar junto, com toda a certeza.
Bem, eu te amo. Boa noite, vou dormir.
Escrevo uma resposta:
Também te amo, Gabriel.
Boa noite.
Bem, o que aconteceu no resto das férias não teve muita importância. Mesmo podendo namorar na minha casa, Gabriel e eu decidimos não fazer isso. Giovana estava de castigo, por isso não saiu de casa e não nos encontramos mais e nós mal nos falamos durante as férias.
Hoje é então, o primeiro dia do segundo bimestre.
Minha curiosidade para saber quem é o tal C.F. é tanta que atento meus ouvidos a todo e qualquer som a meu redor. Tudo parecia estar acontecendo de forma mais lenta e incômoda.
Quando Gabriel chega até mim, levo um susto quando ele diz “oi”.
— Calma, Leo! — diz ele — Sou só eu!
— Desculpa, Gabriel, é que eu tô procurando algum sinal do C.F... ele disse que vai se revelar — eu explico.
— Hum... o que nos resta é esperar, então.
A professora entra na sala e começa a dar a aula. Giovana não veio, como eu, bem lá no fundo, esperava. Quem ditou o assunto pra mim foi o Gabriel.
A aula passou rápida e na verdade eu nem prestei atenção nela. E chegou a hora do intervalo, e eu fiquei na sala. Gabriel saiu para ir ao banheiro.
Então eu ouço alguém se sentando em uma cadeira à minha frente...
E depois disso, uma voz que vem da porta da sala de aula:
— Ei, Clarice! — era o Fábio — Vem sair comigo!
— Não, eu não quero — responde uma menina pouco à minha frente.
— Ah, vem, por favor! — replica ele.
— Não, Fábio, me deixa em paz, seu idiota! — e ouço ela se levantar empurrando a cadeira onde estava e ela deve ter saído da sala, por que não ouvi mais nenhum som que pudesse ser dela.
— Fábio? — eu chamo.
— Que foi? — pergunta ele.
— Vem aqui, por favor.
— Não enche!
— Vem aqui agora, ou eu conto pra todo mundo o que rolou naquela festa e sobre as cartas que você tem deixado no meu quarto e a mensagem que você me mandou — disparo.
Ouço ele se aproximando.
— Que cartas? — ele me pergunta.
— Alguém, e eu tenho quase certeza de que é você, tem entrado no meu quarto pela janela e deixado cartas escritas em Braile na minha escrivaninha.
— Não fui eu. Eu não sei escrever em Braile.
Ah... é mesmo...
— Bem, você pode ter pedido pra alguém escrever — eu replico.
— Não, não pedi. Olha, o que aconteceu na festa... foi só uma vez e foi só por curiosidade, ok?
Havia algo estranho na voz dele.
— Ok... mas se não foi você... quem terá sido?
— Não sei.
O sinal de término do intervalo toca e eu ouço as pessoas entrarem na sala de aula. Gabriel senta do meu lado e põe-se a ditar o que o professor escreve no quadro.
Quando a aula acaba e eu e Gabriel nos dirigimos para o pátio, e eu pergunto a ele:
— Ei, Biel, vem lá em casa hoje?
— Hum... não sei... fico meio constrangido com sua mãe por perto...
— Então vamos pra casa da minha avó?
— Ok...
Ele me acompanha até a frente de casa. Eu entro e minha mãe me cumprimenta:
— Oi, Leo. Tudo bem, filho?
— Oi, mãe. Tô bem, e a senhora?
— Estou bem. Vamos almoçar?
— Sim. Mãe, mais tarde vou para a casa da vovó, ok?
— Ok, Leo.
Depois do almoço e de eu ter tomado banho e telefonado para minha avó avisando que iria visita-la e que o Gabriel iria comigo, eu saí de casa e fui descendo a rua em direção à casa dela.
Cheguei na casa da minha avó e sentei no sofá, esperando.
— Tudo bem, Leo? — vovó pergunta.
— Sim, vó.
— Você parece meio triste...
— Ah, vó, vai passar.
Minha expressão deve ter me entregado.
— Leo, se você tiver algum problema, se precisar de um conselho, pode falar comigo, meu filho. Eu sempre buscar te entender e te ajudar — o tom de voz dela era doce.
— Bem, vó... é que eu e o Gabriel... bem nós estamos... — não consigo continuar ela é minha avó...
— Vocês estão namorando — não foi uma sugestão. — Eu já sabia, Leo. Sua mãe me contou.
— Hum... como ela contou?
— Ela disse que descobriu vocês dois se beijando no quarto. Disse que está muito triste por causa disso. Decepcionada.
Decepcionada?
— E o que a senhora disse? Concorda com ela? — pergunto, infeliz.
— Eu disse a ela que ela está louca. Que deveria prestar atenção no que anda dizendo. Que deve te apoiar independente das suas decisões, pois você é o filho dela. E se ela estiver cega para ver a razão, eu vou te ajudar, Leo.
— Obrigado, vó! Eu te amo muito! — eu digo. Sinto quando ela se aproxima de mim e me abraça.
Nos abraçamos por um bom momento, eu me reconforto em seus braços. Eu me sinto muito feliz, e ao mesmo tempo triste, por querer que minha mãe fosse como minha avó. E eu começo a chorar – não com força, em desespero, mas de forma suave, com lágrimas rolando pela minha face.
A campainha toca, eu me enxugo com as mãos. Vovó vai atender. É o Gabriel.
É com grande felicidade, alegria, euforia que quando ele chega perto de mim, eu o abraço. E vovó vem nos abraça também. E foi o melhor abraço triplo, o mais fofo e cheio de amor e carinho que já existiu.
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