Não Me Deixe Ir
20 Um bom advogado sabe ler as pessoas.
Notas iniciais
Yeah I might seem so strong
Yeah I might speak so long
I've never been so wrong
Strong— London Grammar
(...)
Abri os olhos.
Estava tão claro que precisei piscar algumas vezes para enxergar onde estava.
O teto era branco assim como os azulejos na parede. Fitei meu braço. Alguns fios perfuravam minha pele e me conectavam a uma máquina. Toquei devagar, sentindo uma ardência no local.
Eu estava no hospital. Isso.
Procurei algum botão próximo a cama para chamar a enfermeira. Eu não estava me sentindo bem.
Ouvi batidas e respirei aliviada. O enfermeiro fechou a porta, vindo em minha direção.
— Obrigada por vir, eu preciso.. — ele tirou a máscara do rosto, um sorriso se formou em seus lábios.
Mike.
— NÃO! — gritei.
Os aparelhos começaram a apitar.
— Shhh!— se aproximou, tapando minha boca com seus dedos — Eu só quero terminar o que comecei. — minha visão ficou embaçada, meus olhos estavam marejados — Tão bonita, é uma pena..
Balancei a cabeça tentando me desvencilhar dele, porém Mike segurou firme meus braços, apertando os fios.
— Desgraçado! — cravei minhas unhas em seu braço, deixando-o ainda mais irritado.
— Sua vadia! — ele bateu em meu rosto — Eu vou matar você.
— Não! Socorro! — Mike sorriu diabólico — Não!
Gritei com toda a força que tinha.
— Srta.Walsh? — abri os olhos — Está tudo bem.. — uma enfermeira me tranquilizou. Olhei ao meu redor.
Eu estava sim no hospital, mas o quarto era diferente.
— Foi um sonho.. — relaxei meus músculos, sentindo uma dor forte na barriga.
— Você está segura aqui no Hospital Ford-Robbins. — sorriu — Dois policiais estão te escoltando, por favor, se acalme. — assenti — Vai ser só uma picadinha — ela apontou para a seringa em suas mãos e por um instante senti meu corpo todo arrepiar — Você vai poder dormir com tranquilidade, acredite.
— Tudo bem. — respirei fundo.
Não foi real.
Mike não pode me machucar.
Senti meus olhos pesando, fechando-os em seguida.
Eu precisava descansar, mas não conseguia tira-lo da minha cabeça.
****
Não sei por quanto tempo dormi.
Acordei por conta de um barulho irritante, muito alto. Encarei o teto, prestando atenção no som. Virei a minha direita. Joshua estava sentado na poltrona jogando no celular. Ao seu lado um vaso de flores. O cheiro estava forte demais para ser apenas um vaso.
A minha esquerda pilhas de flores estavam acumuladas.
— O que é tudo isso? — resmunguei.
— Aparentemente você é uma pessoa querida por muita gente. — ele riu — Está tudo bem, Claire? Você precisa que eu chame a enfermeira? — neguei.
— Esse cheiro está muito forte. — senti minha cabeça latejar.
— Se você quiser eu posso anotar o nome de todas as pessoas que enviaram, assim você pode agradecer, sei lá, mas a maioria é de um tal de Geoffrey. — comecei a rir.
Como ele soube?
— Joshua, o que aconteceu? Que dia é hoje? — falei muito rápido e me senti zonza.
— Calma! — ele se aproximou da cama — Você não pode se agitar.
Respirei fundo, segurando o curativo em minha barriga.
— Está doendo? — assenti — Eu vou chamar a enfermeira.
— Não! — segurei seu braço — Dá última vez ela disse que eu não posso falar com ninguém, mas eu preciso saber o que aconteceu durante todo esse tempo..
— Uma semana. — respondeu,
— O quê? — balancei a cabeça — Não pode ser..
— É verdade, Claire. — sentou ao meu lado — Você tem momentos de consciência, mas quase sempre está dormindo. — riu fraco — Saiu em todos os jornais, até no The New York Times. O Today veio até Madison, fizeram boletins ao vivo aqui do hospital, mas não divulgaram notícias sobre o seu estado, por segurança.
— Mike, ele.. — por favor, que ele tenha sido pego.
— Mike está foragido e sendo procurado em todo país. Desculpe, Claire.
Droga.
— Isso é surreal.. — encarei-o — Josh, como estão Adam, Tory, Liam, Helen.. — a cena no apartamento voltando em minha cabeça. Tory desmaiada no chão, Adam ferido..
— Eles estão bem. — sorriu — Você é a única que permanece hospitalizada, todos estão em casa se recuperando. Bem, o Adam está almoçando agora com a minha mãe, ele não tem saído daqui.
— Sério? — não contive um sorriso.
— É, mas ele não pode te ver. Antes de conversar com algum dos envolvidos você precisa falar com a polícia. Eu e minha mãe podemos entrar porque somos da família. — Joshua riu.
Família.
— Obrigada. — senti uma pontada na barriga.
— Acho melhor eu chamar a enfermeira.. — levantou.
— Pode avisar a polícia que eu estou bem, quero falar com eles o quanto antes.
— Tudo bem, Claire. Vou avisar minha mãe e Adam que você está bem. — assenti.
Assim que ele saiu do quarto me afundei na cama. O pesadelo ainda em minha cabeça. Eu nunca vou estar segura com Mike a solta.
Por um segundo eu pensei que fosse morrer. Vi isso em seu olhar.
Batidas na porta me fizeram voltar a realidade.
Minha garganta ficou seca.
— Que bom que você está acordada, Claire. — Gabrielle sorriu — Como você está?
Com medo.
Assustada.
— Bem. — me limitei a responde-la — Na verdade estou sentindo algumas pontadas na barriga, acho que são os pontos.
— Eu vou dar uma olhada. — se aproximou — Com licença — devagar levantou minha blusa, que mais parecia um pijama, e tirou o curativo — Se você não quiser olhar, agora é o momento de virar o rosto.
— Quero ver. — assenti. Eu queria ver o que Mike fez, o tamanho de sua raiva.
— No total foram 15 pontos, bem pequenos, mas em quatro camadas de pele. — me explicou — O local é muito sensível, você teve sorte.
— Ou ele errou a mira. — disse sarcástica — Mike queria me matar, Gabrielle.
— Mas não conseguiu. — sorriu. Enquanto ela refez meu curativo fiquei observando seu rosto. Ela era tão nova, tão delicada. Tão diferente de mim.
— Ai! — ela apertou com força o esparadrapo.
— Ainda está bem sensível, mas está cicatrizando muito bem. Vou chamar o Dr.Altmann, mas acredito que você vai poder se recuperar em casa.
Fiquei apreensiva.
— O que foi, Claire? Você está sentindo alguma dor? — neguei. Eu só não queria voltar para o apartamento de Eric, não depois de tudo o que aconteceu. Dois toques na porta. A sensação voltou. — Sim?
— Polícia de Madison. — o homem apresentou seu distintivo — Será que eu poderia falar com a Srta.Walsh por alguns minutos? — Gabrielle me encarou.
— Tudo bem, Claire? Como sua médica eu estou te liberando, mas depende de você.
— Sim. — assenti.
— Vou deixar vocês a sós, mas lembre-se de que você ainda está se recuperando. Não pode se exaltar.
— Pela lei você tem direito a uma testemunha, Srta.Walsh. — encarei o homem, seu sotaque era diferente. Ele era jovem, na casa dos trinta anos.
— Sei disso, sou advogada. — disse seca.
— Tudo bem.. — Gabrielle riu constrangida — Qualquer coisa é só apertar no botão azul a sua direita. — e saiu de lá, me deixando sozinha com um estranho.
— Na última semana ouvi muito a seu respeito, Srta.Walsh. — levantou uma sobrancelha — Sou Benjamin Avery, delegado de polícia. Não pense que sou mal educado, não é isso, mas não posso cumprimenta-la formalmente, você ainda está se recuperando. — esboçou um sorriso. Não achei engraçado.
Benjamin Avery era um homem bonito.
Cabelos escuros, mas não tão escuros quanto os de Adam. Olhos castanhos intimidadores e mãos grandes. Ele gesticulava muito enquanto falava. Hábito adquirido provavelmente na faculdade de direito.
— Você estudou no oeste? — me encarou intrigado.
— Me formei na Califórnia, porque a pergunta? — sorri.
Desde pequena gosto de jogar comigo mesma. Dessa vez eu tinha acertado em cheio.
— Acredito que o senhor tenha perguntas para mim. — cortei-o.
— Senhorita Walsh..
— Claire. — o interrompi.
— Claire — me fitou — Preciso saber exatamente o que aconteceu no apartamento de Eric McCall.
— Michael Vega tentou me matar. — senti o impacto das palavras assim que as disse. Ele tentou me matar. Mike me deu uma facada.
Delegado Avery continuou me fitando.
— Pode continuar, Claire.
— Mike me deu uma facada no abdômen, ele sabia o que estava fazendo. — apoiei minhas mãos no ferimento. Eu poderia ter morrido de verdade.
Senti meus olhos marejarem.
— Nós podemos continuar outra hora, senhorita Walsh. Sei que a situação não é fácil e você ainda está se recuperando de um ferimento grave. — sorriu solidário — Eu precisava conversar com você para ter uma denuncia oficial contra Michael Vega.
— Vocês tem alguma notícia de onde ele possa estar? — indaguei-o.
— Infelizmente não posso falar sobre isso, são informações confidenciais. — balancei a cabeça.
— Mike Vega podia ter nos matado, todos nós. — disse alterada — Eu vou fazer o que for preciso para que ele pague por tudo isso. — A pontada na barriga voltou.
— Claire.. — Avery se aproximou, apoiando o corpo na beirada da cama — Eu lhe dou a minha palavra de que vamos captura-lo. Tudo bem? — seus olhos eram tão bonitos.
— Tudo bem. — assenti, me sentindo enfeitiçada por aquele olhar. Era o dever dele captura-lo, ele não estava me fazendo nenhum favor, mas a determinação em seus olhos me fez acreditar no que estava dizendo.
— Melhoras, Srta.Walsh. — sorriu, se afastando.
— Obrigada. — assenti.
Ele estava quase saindo do quarto, mas parou antes de abrir a porta.
— Como você sabia que eu estudei na costa oeste? Acho que se já tivéssemos nos conhecido eu não esqueceria. — senti minhas bochechas corarem. Efeito da medicação, possivelmente.
— Um bom advogado sabe ler as pessoas. — sorri, ele fazendo o mesmo.
— Nos vemos em breve, senhorita Walsh. — e saiu de lá.
Fitei o teto. Agora eu poderia ver Adam.
Ri sozinha.
Como é possível sentir a falta de alguém que conhecemos tão pouco? Eu precisava ver se ele realmente estava bem, ouvir sua voz, dizer que eu ouvi tudo que ele disse enquanto eu embarcava na ambulância.
“Você não pode me deixar”
“Eu estou apaixonado por você”
Senti um arrepio percorrendo meu corpo.
Eu estava com medo.
Medo de sentir de novo o que senti quando vi Mike lutando com ele. Medo de deixa-lo. Medo de também estar me apaixonando por ele.
Esse não era o plano.
O plano era voltar a Madison e recuperar tudo que perdi, minha casa, minha honra. Não queria me envolver com ele, mas Adam não é uma distração. Ele é um sopro de ar puro nessa poeira em que estou remexendo.
Senti meus olhos cansados, efeito da medicação. Não lembro de nada que aconteceu nessa semana em que estive internada. Não queria esquecer o que acabara de acontecer, a conversa com Gabrielle, Delegado Avery. Mike merece pagar por tudo e não vou conseguir seguir em frente sem vê-lo atrás das grades.
Fechei os olhos.
A justiça podia esperar um pouco, pelo menos até eu me recuperar.
Não voltei a ter o pesadelo com Mike. Simplesmente apaguei.
******
Abri os olhos devagar.
Percebi que já era noite, pois um abajur iluminava parcialmente o quarto. Inspirei, sentindo um perfume familiar no ar, alojado em todo o quarto.
Não pode ser.
— Você acordou. — estava escuro, mas eu nunca confundiria aquela voz.
— James..
— Não fala nada, Claire. — ele levantou da poltrona em que estava sentado e ficou ao lado da cama — Eu precisava falar com você.
— Tudo bem.
— Trouxe o jantar de Gabrielle e aproveitei para ver você. — ele estava irrequieto.
— Obrigada por vir. — ele não era bem a visita que eu esperava, mas tudo bem.
— Isso tudo é culpa minha. — fitou o chão.
O quê?
— Não, James. Mike era um louco.. — ele negou com a cabeça.
— Se eu tivesse deixado você se explicar há 10 anos.. — sorriu fraco, me encarando — não teríamos terminado do jeito que terminamos. Você ainda confiaria em mim e teria me contado o que Mike fez.
Mordi a bochecha.
O gosto de sangue inundando minha boca.
Eu não estava preparada para conversar sobre esse assunto, não com ele.
James fitou a parede.
— Eu fui um idiota, Claire. — disse ainda sem me encarar — Você sempre foi tão bonita e confiante.. não fazia sentido você estar com um cara como eu. Você merecia mais.. sempre mereceu. — me encarou.
Senti meus olhos marejando.
Não, você não vai chorar.
— Fui na onda dos meus amigos, ouvi alguns boatos e acreditei que você tivesse me traído com Noah. Justo ele, o idiota do namorado da minha irmã. — riu fraco — Isso era pior que uma traição.
— Eu nunca tive nada com ele. — me defendi. A mágoa dele não ter acredito em mim, presente em cada palavra.
— Agora eu sei disso. — voltou a encarar o chão — Mike foi um dos que falou muito..
— Óbvio. — ri fraca.
— Eu te amava tanto.. mas estava tão cego de ciúmes que não enxerguei o que estava na minha frente.
— Você não me deixou explicar, James. — disse com raiva — Depois de um tempo eu parei de me importar, tinha tantas outras coisas acontecendo. — não era hora de mencionar meu pai e muito menos o dele.
James sentou na beirada da cama. Pude observar melhor seu rosto. A barba loira estava crescendo em seu queixo.
— Se você tivesse me contado o que Mike fez… — balançou a cabeça.
— Você não acreditaria em mim. — disse firme, ele me encarando — Eu estava envergonhada e sozinha, James. Não sabia como lidar com aquela situação.
Visualizei a cena em minha cabeça. A Claire de 17 anos correndo da casa de Mike Vega chorando assustada.
— Eu sinto muito. — disse pausadamente.
Acreditei em suas palavras. Ele estava sendo sincero.
Eu precisava ouvir isso, era como se eu tivesse me libertado de uma corrente.
— Infelizmente eu não posso voltar no tempo, Claire. Se pudesse, faria tudo diferente. — nossos olhares se cruzaram.
Eu também, James.
Eu também.
— Atrapalho alguma coisa? — voltei minha atenção a porta. Adam nos encarava confuso.
Não contive um sorriso.
Como eu estava com saudades dele.
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