Não Me Deixe Ir
12 Isso não é um jogo, Claire.
Notas iniciais
And I breathe heavy for your love
But you're standing, you're standing
Shelter— Lyves
— O que Sebastian disse é verdade, não é? — fitei-a — Você está apaixonada.
(...)
— Meu expediente acabou, vou para casa. — continuei encarando-a — Se você quiser uma carona, esteja pronta em cinco minutos.
— Sim, senhorita. — Helen notou que não gostei da pergunta e saiu da sala, me deixando sozinha.
Sentei em minha cadeira, os pés em cima da mesa (a mesma que minutos atrás Sebastian tinha dado um tapa estrondoso).
Será mesmo?
Flashbacks da noite anterior voltaram com força em minha mente.
(acho bacana colocar a música nesse momento, sugestão hahah)
— Então, o que você me diz? — seus olhos brilhavam.
Uma gota de suor escorreu em sua testa. Estávamos tão próximos que pude vê-la caindo em câmera lenta.
— Você acha que conseguimos ficar sozinhos em um lugar por mais de 1 hora sem brigarmos? — levantei uma sobrancelha, ele riu.
— Se não der certo nós podemos voltar para o quarto e fazer outra coisa.. — beijou meu pescoço, o que me arrepiou — Acho que seu corpo concorda.
Meu impulso foi afasta-lo.
Eu não era tão vulnerável assim, porque ele conseguia me ler?
— Tenho que ir, meu voo para São Francisco é daqui a pouco. — Adam continuou segurando meu pulso.
— Não vá, tire essa semana de folga. — sorriu brincalhão. Balancei a cabeça.
— Eu preciso ir, sabe disso. — tateei a chave do quarto na bolsa.
O cheiro dele era tão bom, e pensar que eu não gostei do perfume logo de cara.
— Me prometa que as coisas não vão mudar quando você for embora. — ele agora estava sério, mesmo estando levemente alterado pelo álcool.
— O que? — franzi o cenho.
— Isso não é um jogo, Claire. Eu gosto de você. — fez uma pausa — Muito, na verdade. — fitou o chão, como se estivesse envergonhado por dizer isso.
— Eu também gosto de você, Adam. — as palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse me dar conta do que estava dizendo. Burra. — Só que não nos conhecemos, somos dois estranhos.
— Então vamos nos conhecer. — sorriu — Saímos para jantar e conversamos direito, como duas pessoas normais. O que acha? — assenti.
— Só se dividirmos a conta. — ele se aproximou lentamente, seu olhar passando dos meus olhos a boca.
— Pensei que eu já tivesse mencionado que sou feminista. — e nos beijamos.
De novo.
Senti meu estomago se remexendo, mas não era de fome. Eu estava ansiosa, queria reencontra-lo desesperadamente.
— Foco, Claire. — sussurrei. Os cinco minutos já haviam passado e Helen estava me esperando.
Arrumei os processos na maleta, deixando a mesa arrumada. Fechei as janelas, consequentemente as cortinas, e parei na porta, observando meu escritório.
— Logo estarei de volta. — me despedi.
Eu não faço ideia de como é sair de férias.
Não lembro a última vez que fiquei longe da empresa por mais de 2 semanas.
— Com licença, — Helen estava ao meu lado, seus braços carregados com pastas — por mim podemos ir.
— Deixa que eu te ajudo. — seu braço esquerdo ficou livre, assim ela pode equilibrar o peso.
— Obrigada. — sorriu tímida. Já eu não disse nada, apenas segui para o elevador.
Logo que as portas abriram notei Jim Garrison ali.
Ótimo.
— Está saindo de férias, Walsh? — falou com seu sotaque sulista.
— Sim, Garri. Algumas semanas para resolver problemas pessoais. — ele sorriu falso — Mesmo assim a vice presidência continua minha, não será dessa vez que você vai conseguir tira-la de mim, sinto muito. — ri fraca, ele me acompanhando. Sua cara estava no chão.
Ouvi as outras pessoas ali presentes rindo.
— Viu só, eu não sou tão séria assim. — pisquei pra ele, me aproximando — Tente me derrubar pelas costas, Jim, apenas tente.
As portas se abriram, subsolo 1.
Procurei Helen e fiz sinal para que ela me acompanhasse.
Coloquei as pastas no banco de trás, esperando que ela falasse alguma coisa como habitual, mas não, ela entrou no carro quieta e permaneceu assim por um tempo.
Era minha deixa.
— Helen, eu não quis ser rude.. — continuei fitando a rua.
— Está tudo bem, Claire. Eu não tenho nada a ver com esse assunto, é pessoal, sou apenas sua secretária. — fitei-a.
— Você sabe que é mais do que isso. — ela riu — Só que é complicado..
— Mais uma vez, está tudo bem. — sua cara dizia outra coisa.
— Eu já havia notado que você está diferente, aconteceu alguma coisa? — ela balançou a cabeça — Se for algum problema financeiro, sabe que pode contar comigo.
— Não é isso. — eu não queria pressiona-la, mas sabia que ela precisava desabafar com alguém.
— Se você não quiser me contar, tudo bem, tem coisas a meu respeito que você também não sabe, mas eu estou aqui. — ela assentiu.
— Obrigada, Claire. — murmurou — Como você disse, é complicado.. — ela estava chorando?
— Ei, fique calma. — o sinal estava fechado, aproveitei para afagar seu ombro — Vai dar tudo certo. — pisei no acelerador — Se você quiser conversar sobre, o trajeto até sua casa é longo, temos tempo. — sorri solidária.
Notei que ela respirou fundo.
— É o meu noivo, Chris. Ele acha que eu não deveria viajar, não as vésperas do casamento. Tenho muitas obrigações a cumprir e ele pensa que não vou dar conta, que eu não estou levando nosso casamento a sério, sabe, mas eu estou! — disse a última frase exaltada.
— Chris pensa isso? — ela assentiu — Ele sabe que você organiza todos os detalhes no intervalo do trabalho (ela acha que eu não percebo), ou que passa noites em claro pensando no orçamento? — seu olhar estava confuso — Essas olheiras te denunciam, Helen.
— Me desculpe. — baixou o olhar.
— Não se desculpe. — troquei de marcha — Se o teu noivo não te apoia e não reconhece todo esse esforço, quem pede desculpas sou eu, Helen, mas acho que talvez ele não seja sua alma gêmea.
Ela ficou em silêncio.
— Eu amo o Chris, — afirmou — mas me sinto dividida. Desde que começamos a namorar, ainda no colégio, eu sabia que ele era o cara. Nós nos completamos, sabe? — sorriu — Um termina a frase do outro, gostamos das mesmas coisas, temos tantas histórias juntos, e o próximo passo seria o casamento, mas agora.. — sua voz sumiu — Eu sei que estou fazendo o certo, estudar, me formar, quero ter uma carreira, mas as vezes sinto como se não desse o devido valor a ele ou a minha família.
Continuei dirigindo, os olhos fixos no horizonte.
Mordi a bochecha, o gosto de sangue invadindo minha boca. Eu sabia o que era isso.
Helen me encarou, ela esperava uma resposta, talvez um conselho, uma luz.
Parei.
Eu não sabia a resposta.
A Claire de semanas atrás tinha um discurso pronto na ponta da língua de que a carreira é a coisa mais valiosa que você pode construir, mas devido aos últimos acontecimentos… ninguém é feliz completamente sozinho, e esse vazio pode te destruir. Eu precisei chegar no fundo do poço para ser resgatada, mas Helen é frágil demais, não vai conseguir.
— Bem.. — minha voz saiu fraca — Eu não sei ao certo o que você quer ouvir, Helen, mas vou ser sincera. — ela assentiu, os olhos abertos prestando atenção — Se estivéssemos tendo essa mesma conversa há um mês, minha resposta seria diferente. Eu não sou tão mais velha que você, mas já vivi muita coisa nessa vida, coisas que não desejo a ninguém, e se alguma coisa eu aprendi, é que ninguém consegue nada sozinho. Nós precisamos sim de carinho, afeto, de amor. — sorri — Não seria justo acabar o noivado sem antes conversar com o Chris e explicar a sua situação. Hoje, você preza mais o seu trabalho ou o casamento? O que pode ser conciliado? Será que ele não pode relevar algumas coisas ou pelo menos tentar entender? — desliguei o motor, nos havíamos chegado. Fitei-a — Helen, eu vou entender se você não quiser viajar comigo, mas e você, vai conseguir se perdoar por ter deixado essa chance de curtir uma nova experiência passar?
— Eu.. ahn.. — mexeu os dedos freneticamente.
Ela estava nervosa, eu também tinha essa mania.
— Te espero no aeroporto as oito horas. — destravei as portas — Pense bem no que você vai fazer, sabe que essa decisão pode influenciar no seu futuro de uma forma boa ou ruim.
— Eu sei. — respirou fundo — Obrigada, Claire. Eu precisava disso.
— Como eu disse antes, sabe que pode contar comigo para o que precisar. — sorri. Foi então que ela me abraçou. Um abraço terno, afetuoso.
Depois de muito tempo, eu tinha uma amiga.
E eu gostei disso.
***
Peguei um congestionamento longo ao voltar pra casa, e não tive muito tempo para tomar meu tão esperado banho de banheira.
— Fica para outra vez. — disse, enquanto pegava meus perfumes e cremes.
Escolhi uma mala maior, coloquei todas as roupas possíveis para o clima de Madison e separei algumas contas a pagar. Meus cartões, documentos, celular, e um porta retrato especial.
Meus pais.
O celular vibrou em minhas mãos me dispersando.
“Pedi a diarista que deixasse o apartamento limpo para você, baby.
Aproveite sua estadia e curta muito seu boy no quarto de hóspedes (ele tem cada história..)
Hahahah
— Eric”.
Não contive um riso.
Agradeci mais uma vez a gentileza, e liguei para um táxi.
Eram quase seis e meia e o trajeto era longo.
****
Parada na fila do check in foi impossível não lembrar da primeira vez que vi Adam. O cara chato e reclamão que acabou sentando ao meu lado. Ele me importunou o voo inteiro e ainda fez propaganda do seu livro, que possivelmente continua na minha bolsa.
Procurei entre todas as tralhas que carrego.
Adam Van Howard em itálico, acompanhado do título “Como Esquecer o Passado”.
Quem sabe eu não aproveite para ler durante a viagem? Isso se Helen não aparecer.
19:20.
Ela ainda não tinha chegado.
— Tenha uma boa viagem. — a atendente sorriu simpática.
Despachei as malas e fui até o portão de embarque. Talvez essa tenha sido a melhor escolha, afinal, Helen e eu não somos a mesma pessoa, cada uma seguiu o que achou ser o certo.
Procurei minha poltrona — dessa vez na metade do avião — e me sentei.
— Is it too late now to say sorry?— voltei minha atenção para o corredor — É Justin Bieber. — Helen sorriu, sentando ao meu lado.
— Quer conversar sobre? — balançou a cabeça.
— Não.
— Tudo bem.
— E você? Quer conversar sobre? — ela me fitou — Semanas atrás você ignorou as ligações de Jenny Nelson e tudo que te fazia lembrar daquele lugar, mas agora.. por que exatamente estamos voltando para sua cidade natal? — fiquei em silêncio — Você não está sozinha, Claire. Assim como você me ajudou, talvez eu possa te ajudar.
Já era hora de contar para alguém.
— Bem..
Senti minha bolsa vibrando.
Ainda não tínhamos decolado, então pude atender.
Número desconhecido, DDD de Nebraska.
— Alô?
— Claire?
— Sim? — eu ainda não tinha conseguido identificado a voz.
— Desculpe te incomodar, querida. — Senhora Nelson.
— Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa com a Jenn? — fiquei estática. Por que ela me ligaria?
— Não, a Jenn está bem, curtindo muito a lua de mel.— ela riu. Soltei o ar aliviada. — Quem não está tão bem assim é a Taylor.
— O que houve?
— Ela acabou bebendo demais no casamento e sofreu um acidente de carro. Antes de tudo, sim, ela está bem, bateu em algum animal na pista, mesmo eu tendo avisado para que ela não dirigisse naquele estado..— pude ouvir Taylor ao fundo brigando com a mãe — A culpa foi sua sim! — ela riu baixinho — Jenny me disse que você vai passar uns tempos na cidade.. — pareceu uma pergunta.
— É verdade.
— Eu queria te pedir um favor, bem de querida.— ela sempre falava isso quando éramos crianças. Bem de querida.— Taylor vai ficar algumas semanas engessada, ela fraturou a clavícula e não vai poder substituir Jenny no escritório. Eu não queria ter que ligar para eles e pedir que voltassem, não é justo.— escutei ao fundo: “Mãe! Não!”.
Helen estava ao meu lado sem entender nada, mas eu já tinha pegado a deixa.
— Eu posso ajudar vocês no escritório, dar uma mãozinha até que Taylor se recupere.
— Jura?— fingiu surpresa — Muito obrigada, Claire. Um nome como o seu só vai aumentar o prestígio do nosso negócio. Se não tiver problema..
A aeromoça passou no corredor e me encarou séria.
— Sra.Nelson, meu avião vai decolar, preciso desligar. — ela assentiu — Conversamos melhor quando eu chegar em Madison. E não, não tem problema.
— Boa viagem, Claire. Vai ser como nos velhos tempos!
— Até. — desliguei.
— Está tudo bem?
— Só tenho uma coisa a dizer, não será dessa vez que teremos férias, Helen. — ri fraca, ela me fitando.
As luzes foram desligadas e o avião começou a decolar.
— Sabe, eu ouvi sim coisas a seu respeito, Claire. Que você era uma das melhores advogadas de São Francisco, competente, profissional, porém uma das mais temidas. Falaram que você não tinha coração, era grossa e não se importava com seus funcionários. — ri baixinho — Nunca vi essa Claire. Digo, a sem coração. — sorriu — Por que as pessoas inventaram essas histórias? Por que você nunca desmentiu nada?
— Mudaria alguma coisa? — balancei a cabeça — As pessoas falam o que querem. Além do mais, essa não é a primeira vez que inventam boatos sobre mim.
— Você fala sobre a sua cidade natal? — assenti.
— É uma longa história, Helen. — soltei o ar — E o final não é feliz.
— Talvez ela ainda não tenha chegado ao fim. — disse solidária.
— Chegou. — falei com uma certeza que não tinha antes — Um dia eu amei alguém, muito, mas muito mesmo. — senti meus olhos marejados — Eu estava tão feliz, realizada, só que me dei conta do que estava acontecendo ao meu redor. Eu abri os olhos e percebi que meu conto de fadas era uma farsa. — encarei-a — Perdi muito mais do que o cara que eu amava, Helen. Eu perdi tudo.
— Eu não fazia ideia.. — ficou em silêncio — Por isso você se fechou desse jeito?
— Não sei, talvez.. — não tinha resposta para essa pergunta, mas era verdade.
— O que te fez voltar atrás e encarar tudo isso?
Sorri.
Não falar sobre seus problemas não fazem eles desaparecem.
Adam.
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