Não Me Deixe Ir
8 Eu tenho identificador de chamadas, Claire.
Notas iniciais
I had a dream about a burning house
You were stuck inside
I couldn't get you out
I laid beside you and pulled you close
And the two of us went up in smoke
Cam — Burning House
(...)
Ouvi um grito abafado.
— Pai? — corri de volta a sala. Ele estava sentado em sua velha poltrona de uma forma desajeitada.
— Claire.. — sua voz estava fraca. Larguei os pratos na mesa de jantar e me ajoelhei ao seu lado, conferindo sua pulsação. Acelerada demais, droga.
— Você tem que se acalmar, sabe que tem pressão alta e não pode se estressar. — riu fraco.
— Eu estou tendo um infarto, filha. — meus olhos paralisaram.
Não, não pode ser.
— Pai, não brinca com isso. Eu vou chamar os bombeiros. — larguei sua mão me voltando ao telefone, mas ele me impediu.
— É tarde demais, não adianta. — balancei a cabeça — Filha, me prometa que você vai continuar essa mulher forte e corajosa.
— Para com isso, pai. — tentei controlar as lágrimas, eu não queria ter que lidar com isso mais uma vez.
— Eu sei que as coisas estão difíceis, mas me prometa que você irá recomeçar. — seus olhos azuis estavam marejados — Vá para longe, comece uma vida nova. Eu te eduquei para o mundo, não importa se estamos pobres ou não, você vai conseguir dar um jeito.
— Não, por favor.. — abracei-o. — Não me deixa, eu não quero ficar sozinha.
— Ei.. — ele afagou meu rosto — Eu e sua mãe cuidaremos de você, mesmo estando longe.
— Não vai ser a mesma coisa, por favor, pai. Me larga! — tentei me desvencilhar — Eu vou ligar para os bombeiros.
— Claire.. — prestei atenção em sua mão calejada. Nos últimos tempos ele teve que se desdobrar para conseguir bicos e pagar as contas. — Todo trabalho é digno, e se você tiver que começar de baixo, que seja, mas nunca abra mão de seus ideais, do que acha correto. Nunca, está me ouvindo? — sorriu fraco — Me desculpe por ter perdido tudo.
— Pai, a culpa não foi sua.. — seus olhos já estavam se fechando, e sua respiração ofegante — Eu tenho tanto orgulho de você. — não sei se ele conseguiu me entender devido ao choro.
— Eu amo você, vaqueira. — apertou firme minha mão.
— Eu te amo mais. — abracei-o novamente, sentindo seu corpo pendendo para o meu lado — Não..
Não.
— Pai? — chacoalhei seu corpo — Pai!
Abri os olhos me sentindo tonta.
Onde eu estava? Procurei uma referência, e percebi móveis ao meu redor. Eles eram tão familiares. Eu estava na sala de estar, debruçada na mesa, com um porta retrato nas mãos.
— Pai.. — passei a mão em sua face. Que saudade.
Ouvi um estalo na entrada e lembrei que tinha arrombado a porta, deixando-a escancarada. Levantei para ir até lá, mas minhas pernas não se moveram.
Ele estava ali.
— James? — senti minha voz presa na garganta — O que faz aqui?
— Eu tenho identificador de chamadas, Claire. — continuou sério, distante.
Fitei o chão pensativa. E todas as outras vezes que eu liguei? Ele sabia que era eu.
Sempre soube.
— Porque você não disse nada sobre o meu pai? — fiquei estática. Ele sabe o que Bruce fez? — Ele morreu, Claire. Não faz nem cinco dias. — Ah, era isso.
— O que você esperava? Meus pêsames? — disse irônica, mas ele não entendeu.
— Porque você voltou? Depois de todos esses anos, o que pretende? — ele se limitava a me olhar.
— Meu Deus, James. Você não sabe de nada, não é? — gritei — Nunca prestou atenção ao que estava acontecendo ao seu redor, muito menos no que o seu querido papai fazia. — eu estava descontando tudo nele.
— Você está bêbada, mas não vou deixar que fale assim do meu pai. Ele não está mais aqui para se defender. — exaltou a voz.
— Mas eu estou aqui, James. Eu! — me aproximei dele — Agora eu tenho como me defender dele. — senti um gosto de bile na boca.
— O que você está dizendo? Como ousa voltar para Madison depois de todos esses anos e se achar melhor que todos, falar essas mentiras. — balançou a cabeça — Mike estava certo..
Não contive minha mão.
Coloquei todas ás mágoas dos últimos 10 anos naquele tapa. Ele segurou meus braços com firmeza, quase me machucando, mas sei que nunca faria isso.
— Você pode estar diferente, mas não mudou nada. — seu olhar soltava faíscas de raiva.
Talvez porque eu tenha ofendido seu pai.
Quem sabe por eu ter ido embora e o deixado.
Melhor, por ainda conseguir provocar algo dentro dele.
— Você também não mudou nada, James. — o fitei de cima a baixo, seu queixo batendo na ponta do meu nariz. Senti suas mãos me soltando, ele estava ofegante.
Eu não conseguia me mover naquele momento, era como se eu estivesse amarrada a ele. Na verdade, eu realmente estava amarrada a ele. Nossa ligação continuava viva, pulsando. Sua mão acariciou meu rosto, que respondeu no mesmo instante, enrubescendo.
Por favor, faça isso — sussurrava minha mente enquanto aproximava sua boca da minha.
Ele parou abruptamente, se afastando.
— Eu tenho uma noiva, Claire, e eu a amo. — virou de costas, como se precisasse acreditar no que estava dizendo.
Balancei a cabeça.
Eu tinha sido rejeitada, mas não era isso o que mais me magoou, e sim perceber que naquele instante com James eu havia esquecido tudo que Bruce tinha feito contra mim.
— Sei disso, parabéns pelo casamento.
— Não seja cínica. — voltou a me encarar.
— Acredite, James. Eu não voltei por sua causa, estou aqui por Jenn. — ele riu.
— Depois de tudo o que vez e o jeito que foi embora, pensei que nunca mais voltaria. — falou amargurado.
— Eu nunca traí você. — disse sincera.
— O problema não foi nem você ter me traído, mas tinha que ser com o pai do filho da minha irmã? — arregalei os olhos.
— O quê? — eu não sabia disso.
— Nate e Kim tinham dado um tempo, mas ela estava grávida dele. Ele sabia disso.
— Mas eu não sabia disso. — olhei em seus olhos — James, nunca tive nada com o Nate, nem sequer nos abraçamos uma vez na vida. Isso tudo foi um boato maldoso que se alastrou como uma praga. — ficou em silêncio.
— Porque você não desmentiu? Preferiu que todos pensassem isso? — ele ainda duvidava de mim.
— Porque se eu dissesse que era mentira teria que ficar aqui, e não era isso o que eu queria.
— Como pode ser tão egoísta? — me encarou — Você mentiu sobre a traição, me deixou, nem ao menos se despediu.. Por quê, Claire? — respirei fundo.
— Por quê eu te odiava. — senti meus punhos se fechando.
— O que?
— Toda vez que eu olhava pra você, lembrava de Bruce.
— De novo isso? — balançou a cabeça.
— James, ele destruiu a minha família. — tentei me controlar.
— Não culpe meu pai pela irresponsabilidade do seu! Ele faliu, todos sabem disso! — disse alterado.
— Meu pai foi roubado! O grande Bruce Cameron nos tirou tudo! — gritei — Olha ao redor, James. Essa era a minha casa! Olha o que ele fez com ela! — seus punhos se fecharam.
— Você é uma mentirosa! — apontou o dedo para mim.
— Tira esse dedo da minha cara! — empurrei sua mão para baixo — Homem nenhum tem o direito de mandar em mim. — fitei-o, ambos em choque — Abra os olhos, por favor. Porque eu mentiria desse jeito?
— Porque está com ciumes de mim. — ri sarcástica.
— Isso não é sobre você, James. Eu só quero justiça! — me aproximei — Eu tinha 17 anos na época, não sabia o que estava acontecendo direito, mas agora sou uma mulher feita. Sou formada em direito e sei que Bruce cometeu um crime. Ele chantageou meu pai, falsificou documentos, ameaçou prende-lo, e nos tirou a casa. A minha casa, você entende? Eu não tinha para onde ir, não tinha dinheiro nenhum.. — respirei fundo — Se não fosse Gemma, eu não sei o que teria acontecido. Eu tive que vender tudo para para conseguir alguns trocados, praticamente fiquei com a roupa do corpo. — ele não estava acreditando — Você não sabe o quanto batalhei para recuperar minha vida.
— Isso não é verdade! Meu pai nunca faria isso!
— Mas ele fez! Seu pai matou o meu! — empurrei seu peito — Meu pai teve um infarto de tanto se preocupar com as contas! A gente não tinha nem o que comer, como você acha que ele se sentiu? — continuou em silêncio — Enquanto eu vivia um perrengue dentro de casa, você aproveitava o dinheiro do seu pai comprando cavalos. Você sabe o quanto de comida dá pra comprar vendendo um cavalo? — ele me afastou, e percebi que eu estava indo longe demais. — Me desculpe.
— Tudo isso não faz sentido.. — seus olhos se moviam rápido — porque ele faria algo assim?
— Seu pai era político, e queria que o meu entrasse em um esquema de superfaturamento. Papai negou, e rompeu relações com Bruce, que não aceitou isso bem, ele fez a nossa vida um inferno. Meu pai queria denuncia-lo, mas eles o ameaçaram. Um dia o banco veio dizendo que estávamos falidos e que precisávamos entregar a casa. Dois dias depois ele morreu. — fitei o chão.
Você não vai chorar.
Não na frente dele.
— Claire.. isso é surreal. — ele não estava acreditando em mim.
— Fica pior. — disse com a voz embargada — Adivinha quem comprou a casa?
— Meu pai? — assenti — Ele não me disse nada..
— Quando pegar o testamento dele, preste bem atenção. — James fitava a parede, ainda absorvendo tudo.
— Eu não vou ficar aqui ouvindo você difamar a memória dele. — começou a se afastar a passos largos.
— Você sabe que ele não era santo. — parou — Lembra-se daquela vez que o vimos jantando com outra mulher?
— Isso não é problema seu.
— Realmente, não é. — dei de ombros — Mas se posso te dar um conselho, James, não falar sobre seus problemas não faz eles sumirem. — citei Adam.
Ele continuou andando, me deixando sozinha mais uma vez.
Pela primeira vez tive certeza de que a melhor coisa que fiz na vida foi ter saído de Madison.
E sim, meu pai ainda tem muito orgulho de mim.
Agora vou até o final para recuperar o que é meu.
E não estou falando sobre James.
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