Não Importa

1 Ele está seguro, mas isso não importa.


Ele se encolhe antes que o punho da líder da caçada atinja a mesa e é tão instintivo que ele não consegue reprimir o movimento. Há uma pontada de vergonha esquentando em sua nuca, um sentimento amedrontador de que ele não possa tremer e, mesmo não sendo mais uma criança acorrentada, o som alto o arremessa de volta aos dias presos em uma jaula.

Não importa que ele saiba que Elesis não vai se virar para ele com o rosto distorcido em raiva e ódio, punhos cerrados a procura de um alvo para descontar o sentimento borbulhante.

Não importa que ninguém no pequeno grupo tenha posto as mãos nele com a intenção de machuca-lo, de causar dor — exceto no dia em que em que eles o encontraram no Castelo Cazeaje, ainda sob a possessão da Rainha da Escuridão; no dia em que lutaram e ele pode (finalmente!) sentir que tinha o controle do próprio corpo e, consequentemente, toda a dor das feridas que adquiriu com a luta. Feridas físicas e emocionais.

Lass sabe o motivo deles terem o atacado, mesmo que ele não gostasse disso.

Ele entende, mas a sensação de ser machucado com tanta raiva por outras pessoas é algo com o qual ele está bem familiarizado. E ele não quer ter que passar por isso novamente.

Não importa que ele confie em Elesis, que ele saiba que ela é uma boa pessoa — uma pessoa que ele admira a distância, alguém de honra.

E nada disso importa agora, quando ele pode ver os olhares nos rostos de todos os outros e ele pode ver que nenhum deles fará um movimento ou proferirá uma palavra, não quando a ruiva demonstrou um momento de fúria descontrola.

A palma de suas mãos está escorregadia enquanto brinca com os próprios dedos, a pele calejada roçando nas mãos ásperas. Ele pode sentir a pressão deslizando pelo do seu peito e olha para as mãos, piscando rapidamente. Ele tenta não deixar o medo o diminuir — por favor, deusas, não o deixe demonstrar —, porque nada de bom vinha em seguida, quando o olhar de pânico em seu rosto o denunciava.

Há muitas memórias para esse momento: cada tapa, cada golpe, cada chibatada, cada palavra odiosa lançada em seu caminho, cada grito rasgando sua garganta, seus pulmões, enquanto implorava para que parassem. Tudo se choca contra ele, as memórias que ele não pode deixar de lado, por mais que quisesse.

(Faziam parte dele, no final das contas.)

Lass não conseguiu olhar para a líder diretamente — para mais ninguém que estava ali presente, de qualquer maneira — e odeia com todas as fibras do seu ser que mesmo agora, depois de anos, tudo o que é preciso é alguém virar abruptamente em um movimento para joga-lo de volta a ser uma criança pequena e indefesa.

Há uma contração muscular sob sua pele e ele faz o possível para não encurvar os ombros; para não se tornar pequeno, pequeno demais para valer o tempo ou o esforço. Para não mostrar o medo que tem neste momento.

Não importa que a expressão no olhar de Elesis seja de arrependimento e cansaço, com um pedido de desculpas mudo escrito por cada centímetro de seu rosto. Não importa que Lass possa sentir a tensão diminuir lentamente, muito lentamente, de seu corpo.

Ele está deixando escapar o ar quando a raiva se esvai da expressão da líder e ele pode sentir seus ombros caírem — com alívio! — e ele sabe que ela não o machucará, que não é o tipo de pessoa que machucaria, que ela não é como Zilder ou Ortina. Como Cazeaje.

Ele sabe que Elesis, assim como todos os membros do pequeno grupo que o acolheu, é uma pessoa boa, uma pessoa em quem ele pode confiar. Mas ele também sabe que até as pessoas boas possuem uma raiva sombria fervendo sob sua pele.

Não que isso importe.

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