Notas iniciais
Gente, desculpa a demora, mas não consegui postar antes.
Espero que gostem!!

Dois dias. Fazia exatamente dois dias que Alana tinha tido sua primeira vez, que dormira na casa de um garoto, que tinha sido atacada pela pessoa mascarada, e que tivera sua maior revelação: Adriana estava grávida.

Levando em consideração que Adriana era namorada de Gabriel, o pensamento mais lógico era que o filho fosse dele, mas algo parecia dizer que não era bem aquilo. Gostava de acreditar que, se Gabriel realmente era o pai da criança, teria contado para Alana. Mas não era só isso, o pai dele lhe parecera estranho e nenhum dos filhos pareciam gostar dele, sem contar que o exame estava no escritório dele.

Além daquilo, tinha o fato de que a empregada deles continuava desaparecida, o que fazia Alana se sentir imensamente culpada, e aquela sensação só não superava outra, cuja causa chamava Carolina.

Deitada na cama e com esses pensamentos dominando sua mente, Alana respirou fundo e fechou os olhos querendo não existir, nem que por apenas cinco minutos. E para completar, era dia do Festival da Colheita.

Ao se lembrar daquele pequeno detalhe, Alana soltou um grunhido choroso e cobriu a cabeça com o travesseiro. Como queria passar o resto do dia deitada naquela cama, em segurança no seu quarto.

–Alana... – ouviu sua mãe chamar do andar de baixo, mais não teve força para responder. Passos rápidos surgiram na escada e, menos de dois minutos depois, sua mãe estava com a cabeça para dentro do quarto – Ainda não se arrumou, Alana? – foi até a filha e tirou o travesseiro dela. – Chega de dormir, você fez isso a tarde inteira.

–Mãe... – resmungou.

–Ah, não, Alana, conheço esse tom! Você não pode faltar!

–Por quê? – perguntou bufando e sentando na cama.

–Porque é uma comemoração importante para a cidade!

–Dane-se a cidade! Sou nova aqui! Além disso, detesto agricultura. – cruzou os braços.

–Não discute comigo. – a mãe olhou feio. Alana foi abrir a boca para reclamar, mas foi impedida – Agora, vai se arrumar.

A mãe saiu pisando duro e assim que Alana se viu sozinha no quarto mais uma vez, colou a boca no travesseiro e gritou.

Muito a contra gosto, levantou da cama e foi para o banheiro. Tomou um banho rápido, colocou uma calça jeans e uma camiseta regata qualquer e, assim que terminou de escovar os dentes, a campainha tocou.

–Seus amigos chegaram! – seu pai gritou.

–Já vou! – deu uma última olhada no espelho e desceu as escadas.

Pedro estava conversando animadamente com sua mãe, enquanto que Gabriel estava encostado à parede de uma maneira bem despreocupada e conversava com seu pai. Assim que notou sua presença, sorriu um pouco e se aproximou.

–Preparada para o festival? – Pedro perguntou, alegre.

–É... Mais ou menos... – respondeu e deu um selinho em Gabriel, ouvindo um pigarro de seu pai.

–Ah, vai ser divertido, você vai ver! – o outro beijou sua bochecha.

–Vamos? – pegou na mão de Gabriel e os três foram para a porta.

–Juízo, ouviu mocinha? – seu pai falou com voz dura – E quero você de volta antes da meia-noite!

–Achei que vocês fossem...

–E vamos. – sua mãe comentou – Mas não ficaremos te enchendo o saco.

–Ah...

–Bom, é melhor irmos. – Gabriel falou.

–Claro. Tchau, mãe. Tchau, pai. – e saíram.

Já estava quase escurecendo e a brisa que soprava era fresca, quase gelada. E em um momento, Alana se arrepiou, chamando atenção de Gabriel, que parecia um pouco perdido em seus pensamentos.

–Está com frio?

–Um pouco... – admitiu, um tanto constrangida. Gabriel tirou o casaco que usava e estendeu para ela.

–Pega.

–Mas e você? Não vai ficar com frio?

–Você esquenta ele depois. – Pedro falou em tom malicioso, fazendo Alana corar e Gabriel dar um pequeno empurrão no irmão.

–Obrigada.

Assim que vestiu o casaco, o cheiro de Gabriel invadiu seu nariz, o mesmo cheiro que a fazia se sentir tão bem. O calor do corpo dele ainda estava no pedação de pano, esquentando Alana rapidamente, e aqueles dois fatores juntos fez com que ela adorasse vesti-lo.

Quando se aproximaram do Pátio, Alana percebeu como o Festival era realmente importante para as pessoas daquela cidade, uma vez que praticamente toda a população estava ali. Com certa dificuldade, passaram pelas pessoas até que estivessem próximas às suas barracas.

Pedro se despediu e foi até onde Victória estava. Alana notou que ela olhava para algum ponto, e a julgar pela sua expressão, não parecia muito feliz. Ao seguir a direção do olhar dela, viu que, próximo à barraca dela, André estava comendo um pedaço de bolo e conversando com algumas alunas.

–Está tudo bem? – ouviu Gabriel perguntar próximo ao seu ouvido e suas mãos apertarem a cintura dela.

–Tudo... – respondeu. Procurou pelos lábios dele e, entendendo o pedido, foi prontamente atendida, sentindo os lábios dele fazerem pressão sobre os seus. Logo sua língua encontrou a dele e, antes que percebesse, apertava seu corpo contra o dele, em uma tentativa de melhorar aquela sensação estranha que sentia.

–É melhor irmos para as barracas. – Gabriel falou com a voz rouca assim que se separaram.

–É... – trocaram mais um beijo e Alana foi até onde Mila estava.

–Eu vi! – ela falou, assim que Alana entrou na barraca e foi pegar o avental que tinha que usar.

–Não começa...

–Nossa, até eu perdi o fôlego! – e riu logo em seguida. Alana revirou os olhos.

–Acho que você está precisando de um namorado. – falou sorrindo.

–Nem me fale! – Mila murmurou e ficou sério, atendendo uma criança.

–O que foi? – Alana foi pegar uma torta a pedido de uma senhora.

–Quem me dera a pessoa que eu gosto... Gostar de mim também...

–Você gosta de alguém? – Alana perguntou, interessando-se pelo assunto.

–É...

–E quem é? – os clientes não paravam de aparecer e elas tiveram que começar a agilizar o atendimento – Mila? – chamou-a assim que percebeu não ter recebido uma resposta.

–Deixa para lá. – pediu um pouco envergonhada.

–Ah não, agora quero saber quem é! – Alana provocou e novamente Mila não respondeu – E então?

–Ai, é o Marcos, tá bom? Eu gosto do Marcos! – Mila falou um pouco alto de mais, chamando a atenção de algumas pessoas.

–Que legal! – Alana sorriu – Sempre achei que vocês ficam bem juntos!

–Aí é que está o problema, Alana... Ele não gosta de mim. – Mila comentou com uma expressão tristonha.

–E como você pode saber disso? Já se confessou para ele?

–Já... E ele pediu desculpa, disse que estava interessado em outra... – Alana voltou a ficar sério, sentindo um pouco de pena ao ver como aquilo doía na amiga.

–Bom... – procurou pelas palavras certas – Existem outros meninos por ai...

Alana deixou a frase morrer no ar ao ver uma cena que chamou sua atenção. Relativamente distantes do tumulto, Pedro e Henrique adentravam o bosque que tinha atrás do Pátio, e Alana achou aquilo estranho.

–Mila, preciso sair um pouco, acha que consegue dar conta sozinha? – perguntou com pressa e Mila franziu o cenho.

–Claro, mas para onde você vai? Está tudo bem? – preocupou-se com a atitude da outra.

–Sim... Só preciso de alguns minutos. – tirou o avental e, sem perder mais tempo, foi atrás deles.

Alana andava nas pontas dos pés e tentava pisar o mais de leve possível, com medo de fazer barulho, mantendo uma distância razoável deles. A tensão era tanta que quase chegava a ser palpável, e à medida que se embrenhava no mato, mais uma sensação estranha a dominava. Notou sua respiração ficar pesada e seu corpo inteiro queria tremer.

De repente, eles pararam e ficaram de frente um para o outro. Alana se escondeu atrás de uma árvore e ficou esperando que algo acontecesse. Durante longos instantes, tudo o que se ouvia era o barulho das folhas ao vento e a música muito baixa do Festival.

–E então, o que quer? – Pedro perguntou com desprezo.

–Até quando vai me tratar assim? – seu pai perguntou. Não parecia triste ou ofendido, estava mais para irritado.

–Assim como?

–Não se faça de idiota, Pedro! Isso eu sei que você não é.

–É mesmo? – soltou uma risada de escárnio – Engraçado, sempre achei que, para você, eu e Gabriel fossemos idiotas.

–Não é verdade!

–Tem certeza? – Pedro levantou a voz – Porque, na minha opinião, para você ter feito o que fez, só pode achar que nós dois somos otários! – Alana viu Henrique massagear as têmporas.

–Pedro, me desculpa, por favor! – súplica. Foi o que Alana identificou na fala dele e se surpreendeu com aquilo.

–Não! Você tem noção do que fez? — Pedro parecia magoado.

–Eu sei que errei, filho, sei disso!

–Não me chama de filho!

–Pedro! Eu sei que não fiz bem... Mas aquilo é passado... Que merda! – irritou-se – A Adriana não era santa! Ela não era a menina boazinha! E o Gabriel já está com aquela...

–Aquela o quê? – Alana deu um passo à frente, saindo de trás da árvore. Pedro se mostrou surpreso e Henrique pareceu não gostar do que via. Tinha agido por impulso, sabia, mas já que tinham mencionado seu nome, achou justo participar da conversa.

–Alana... – Pedro murmurou.

–O que está fazendo aqui? – Henrique perguntou entre os dentes.

–Não gosta de mim? – perguntou cinicamente – Que chato... Assim vou me sentir mal... Afinal, da Adriana você gostava, e muito. – olhou fixamente para seus olhos e pôde perceber a ira que continha neles.

–O que você quer dizer com isso? – Pedro perguntou, apreensivo.

–Nada demais. A não ser o fato de que consigo imaginar porque você e Gabriel o tratam dessa maneira... – ela voltou sua atenção para Henrique – Se envolveu com ela, não é mesmo? Foi capaz de trair seu filho!

–Ora, sua... – levantou sua mão, pronto para bater nela. Pedro correu até eles e segurou a mão do pai, enquanto Alana recuava um pouco.

–Você sabia, Pedro? – soltou, sentindo-se mais confiante – A Adriana estava grávida!

–O quê?

Ao ouvirem aquela voz, todos paralisaram e Alana se calou. Seu coração batia forte contra o peito e ela ficou nervosa. Devagar, foi virando até encontrar Gabriel, que estava logo atrás dela.

–Isso é verdade? – perguntou, nitidamente irritado. Ninguém falou nada, Pedro parecia surpreso por ver o irmão ali e Henrique estava pálido. Alana não conseguia tirar os olhos do namorado, que nunca se mostrara tão enraivecido como naquele momento – Você engravidou minha namorada, seu filho-da-puta! – Gabriel vociferou e praticamente voou para cima do pai.

Antes que Pedro e Alana pudessem fazer algo, os dois já rolavam no chão, desferindo socos e chutes para todos os lados. Pedro correu até eles e puxou Henrique para longe do outro filho, enquanto Alana segurava Gabriel.

–Como sabe que o filho não é seu?! – Henrique gritou.

–Porque eu nunca fui para a cama com ela! – Gabriel tentava se soltar de Alana sem machuca-la.

–Pois eu digo que sua namoradinha não era mais virgem quando fizemos! – assim que ouviu aquelas palavras, Gabriel parou de se debater, ofegante e vermelho.

–Como?

–É isso mesmo. – Henrique também se acalmou um pouco – Ela não era nem de longe virgem. Aliás, eu diria até que ela muito mais experiente do que muita mulher por ai...

–Como você sabia da gravidez da Adriana? – Gabriel perguntou rudemente para Alana.

–Gabriel... – murmurou.

–Responde, Alana!

–Naquela noite que passei na sua casa... Enquanto você dormia, fui até o escritório do seu pai... O exame estava na primeira gaveta... – pela primeira vez sentiu vergonha do que tinha feito.

–Entrou no meu escritório?! Sua desgraçada... – Henrique tentou ir até Alana, mas Pedro o segurou e Gabriel a colocou atrás de si.

–A mãe sabia? – Pedro perguntou – Ela sabia, não é? – Henrique abaixou os olhos – Foi por isso que ela foi para a casa da tia tão de repente! Por isso ela ficou tão deprimida! – Pedro começou a se exaltar e, com raiva, jogou seu pai para longe – Você é um monstro! Um... – de súbito, Pedro parecia ter entendido alguma coisa – Você matou a Adriana?

Henrique arregalou os olhos e Alana ficou surpresa com a objetividade da pergunta. Notou o Gabriel ficar tenso e temeu pela reação dele.

–O quê? – o pai deles perguntou, trêmulo.

–Faz sentido. – Gabriel falou – Isso é pedofilia! Crime!

–Foi consensual! – defendeu-se.

–Mas não importava, certo? – Pedro soltou – Afinal, o que as pessoas iam dizer sobre você ter engravidado uma menina de dezesseis anos? E suas empresas, seus sócios... O que eles achariam disso? Você é um egoísta, só pensa em si!

–Não foi bem assim! – Henrique vociferou.

–Ah não? Vai dizer que assumiria a criança! – Gabriel foi cínico.

–Claro que não! Isso seria ridículo! – ele respirou fundo, tentando se acalmar minimamente – Eu insisti para ela fazer o aborto, seria melhor para nós dois... Mas ela não queria de jeito nenhum! Dizia ter medo de que algo desse errado, mas eu sentia que, na verdade, era como se ela se sentisse segura com a gravidez! – encostou-se a uma árvore e os outros três ficaram em silêncio.

–Segura? – Pedro repetiu, tentando entender, e algo iluminou a mente de Alana. A ideia de que Adriana pudesse se sentir mais segura em relação à pessoa que a perseguia por estar carregando uma criança parecia plausível. Mas não podia simplesmente dizer aquilo.

–Então, vendo que ela não aceitaria tirar o bebê... Sugeri que ela encontrasse um pai... – olhou para Gabriel – Ela iria para a cama com você e pronto, estaria grávida. Esse era o plano. – Alana não podia acreditar naquilo tudo. Além de se relacionar com a namorada do filho, ele ainda tinha coragem de armar contra Gabriel.

–Você é um crápula! – falou com nojo.

–Olha bem como fala comigo! – brigou e voltou sua atenção para Pedro – E quanto à sua pergunta imbecil... Me chama do que quiser, menos de assassino! Eu não teria coragem de matar alguém, sem contar que eu teria trabalho para me livrar das provas depois.

Henrique falou aquilo de uma maneira tão fria e sincera, que Alana sentiu um embrulho no estômago. Como alguém podia ser daquele jeito? Sua atenção naquela cena acabou quando sentiu o celular vibrar.

“Pegaram o assassino errado.”

Ao terminar de ler a mensagem, Alana vasculhou todo o espaço a sua volta com o olhar. Viu, entre algumas árvores, alguém vestido de preto se movimentar. Sem pensar duas vezes, saiu em disparada na direção dele, sem se importar com os chamados de Gabriel e Pedro.

Corriam tão rápido que tudo o que Alana via era um borrão negro se movimentar pelo meio do bosque. Forçou suas pernas a irem mais rápido, torcendo para conseguir alcançar quem quer que fosse.

De repente, o borrão desapareceu e Alana parou. Ofegante e com as pernas doendo, olhou para o que tinha a sua volta. Notou estar fora do bosque, em um lugar deserto, que só tinha um banco e de onde era possível ver a cidade inteira. Teve a impressão de já ter estado ali.

Algo escuro no chão chamou sua atenção. Ela começou a observar aquilo até perceber que fazia uma espécie de trilha. Seguindo lentamente com o olhar, deparou-se com algo encostado em uma das árvores. Aproximou-se com passos inseguros e, quando, enfim, notou o que era, sentiu-se perdeu o chão.

A empregada que estava desaparecida estava ali, morta, toda machucada. Assim que abriu a boca para gritar, Alana recebeu uma pancada forte nas costas que a fez cair no chão.

Um pé insistia em chutar suas costelas e ela ouviu quando se quebraram. Sentindo uma dor aguda. Tentava se defender da maneira que podia, mas já estava quase perdendo a consciência.

Algo prateado brilhou com a luz da lua e, ao identificar o objeto, Alana tentou se levantar, mas não conseguiu. Levou um soco no rosto, seguido por um chute nas costas, que a fez perder o ar. Quando voltou a abrir os olhos, que nem percebera ter fechado, viu os olhos... Os mesmos olhos de sempre... Assustadores e conhecidos... A última coisa que veria antes de ter a lâmina cravada em seu corpo e perder de vez a consciência.

Notas finais
Mesmo esquema que da outra vez, tem só mais alguns capítulos pela frente!
E então, o que acharam?? Alguma sugestão??