Lá estava eu observando as gotas de orvalho que se prendiam nas folhas intensamente verdes e rígidas de um grande cajueiro no meio da praça, numa tarde de inverno. Varias crianças ruivas se divertiam subindo nos galhos finos e molhados. Eu observava cada movimento delas torcendo por um acidente, um corte profundo na perna, um joelho ralado, qualquer coisa, só queria ver uma gota de sangue escorrendo daquelas crianças sorridentes e barulhentas. Não gosto de crianças quase do mesmo jeito que detesto caju, mas, amo o inverno, o frio faz com que eu me sinta mais viva, sem suor, sem praia, sem aquilo de “romance de verão”, sem turistas, sem pessoas me chamando pra sair, apenas eu, o meu PS3, meus livros e minha pilha de CDs falsificados e etiquetados com o nome das respectivas bandas. Sempre que chego em casa coloco um CD gravado com as minhas musicas preferidas do Matanza pra tocar no meu notebook, a letra e o som pesado das musicas me deixam com a sensação de que eu posso morrer ali mesmo, deitada na minha cama, com o som no ultimo volume e que nada mais importava. Enfim, o inverno é perfeito por que faz com que eu evite o contato humano.

Meu nome é Dara Oliveira, tenho 15 anos. Há alguns anos minha mãe me disse que “Dara” tem origem hebraica e significara “coração da sabedoria”. Sinceramente, acho que ela não soube escolher o meu nome, mas eu não reclamo. Tenho olhos quase pretos, meus cabelos são curtos e azuis, possuo uma pele tão branca que meus braços chegam a ficar verdes por causa das veias expostas, tenho um pouco mais do que 1,65 de altura e no inferno, digo, colégio, sou conhecida como: A garota estranha das meias 3/4.

Tinha acabado de acordar, eram exatamente seis horas da manhã, olhei para o ventilador que estava ligado fazendo um barulho desagradável toda vez que se encostava a uma pilha de cadernos que ficava perto da porta. Levantei, notei que ainda chovia o que me deixou mais animada, mas minha alegria não durou muito tempo, ouvi do meu quarto minha mãe e meu pai brigando na cozinha, ela gritava: Seu vagabundo! Não consegue ficar no emprego por um mês!? Qual é o seu problema? Como você acha que a gente vai pagar as nossas dividas assim!? Eu que fico me matando para... – Ela começa a gaguejar um pouco – você sabe... Ajude-me João! Se esforce... Por favor, droga! – Depois disso meu pai ficou sem reação e ficou um silencio tenso na casa, coisa que não é muito comum, era minha deixa. Eu finalmente entrei na cozinha e cumprimentei-os, comi um pouco de arroz que tinha sobrado no almoço de ontem e vazei o mais rápido possível, antes que eles começassem a dialogar comigo, corri, vesti a farda (uma camisa branca com o símbolo de uma doninha e uma saia verde musgo), escovei os dentes e fui correndo pegar o ônibus.

Quando entrei na sala de aula observei Lucas e Jeff que estavam se batendo agressivamente no fundo da sala, eles ficaram assim por mais uns dois minutos quando finalmente os outros estudantes criaram coragem para apartar, eu poderia ficar olhando eles brigando por mais algumas horas sem problema, parece que o motivo da briga tinha sido só por causa de uma discussão idiota pra saber quem era o mais forte. Por fim, sentei do lado de Will, um garoto de um metro e setenta e sete de altura, cabelos pretos e lisos, olhos acinzentados, pele bronzeada, parece bem forte e nunca para de sorrir, isso me irritava um pouco, mas, ele é o único garoto da escola que eu posso chamar de amigo.

- Hey, Will! Você está melhor? –Perguntei. Will estava com o braço todo enfaixado da ultima vez que eu havia falado com ele há umas duas semanas atrás, ele falou que foi um acidente com a faca de cozinha, mas, eu não tinha acreditado, ele estava muito estranho. No lugar onde estava enfaixado, agora tinha uma cicatriz enorme que vinha do pulso no antebraço até a articulação do cotovelo.

- Ah, oi! Estou melhor agora... –Disse ele com uma voz tremula. – Dara... Tenho algo que eu preciso muito te falar... Encontre-me depois da aula no Beco 17 — Me assustei quando ele falou pra eu encontra-lo no Beco 17, ele é isolado dos outros becos e tem algumas lojas de macumba dentro das poucas lojas de artigos antigos.

- Não, Me fale agora! Por que no Beco 17? Lá é muito esquisito, mano... Eu sempre te chamei para ir pra lá, mas você sempre negou com todas as suas forças, você está estranho, o que ouve? Porra! – antes que ele tivesse alguma chance de responder Marcos, o professor de química, chegou à sala e imediatamente me trocou de lugar e logo depois reclamou da minha “linguagem chula”. Serio isso? Não pode mais falar nem um “porra”?

Esperei o intervalo para falar com Will, mas, quando tocou ele saiu correndo que nem o papa-léguas, não tive chance de correr atrás dele, tinha muita gente alta na minha frente que não me deixava passar (ser baixinha é uma merda mesmo!). Então lembrei que ele teria que voltar pra sala mais cedo ou mais tarde pra pegar o celular que ele havia esquecido em cima da mesa. Sentei na minha carteira, coloquei o fone de ouvido e comecei a escutar musica, esperando Will subir pra pegar o celular, passou 10 minutos e ele não apareceu, eu desisti de esperar e desci pra beber água, quando voltei pra sala já tinha tocado e ele não estava lá.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.