Não Chore, Dominique.
1 Lágrimas número 1
Notas iniciais
Boa leitura.
Hoje não entrou sequer uma gota de água no meu corpo, todos os copos em minha frente e nem mesmo uma gota de água. Minha mãe teria vergonha de mim, estaria preocupada, mas mesmo tantos copos não foram capazes de me levarem para casa sem saber como cheguei lá.
Ao abrir a porta do apartamento, o ser mais repleto de felicidade veio me cumprimentar. Suas patas finas bateram contra meu jeans e sua cauda poderia gerar energia para uma cidade de tão rápido que abanava. Me abaixei e passei os dedos no seu pelo longo, hoje ela não me lambeu o rosto, deve ter sentido o cheiro do álcool.
— Boa garota, não me beijaria também. Como passou o dia? — Como resposta Gabriela correu em direção a tigela de comida vazia — Não estou bêbado o bastante para achar que te deixei com fome, eu lembro que enchi mais do que o normal hoje — Para ganhar o que queria, ela jogou sujo: pegou a tigela de comida com a boca, deitou no chão e me mostrou a barriga enquanto chorava como um bebê — Ok senhora, ok…
Após encher e deixar aquela gulosa comendo, fui andando até o banheiro. Senti o olho latejar de novo, por um segundo a bebida havia me feito esquecer que estava doendo. Meu reflexo no espelho não me deixou feliz, ali estava meu olho esquerdo inchado e, graças a Deus, só havia um tufo de cabelo faltando na lateral da cabeça. Ao abaixar para pegar o barbeador na última gaveta, senti a coluna doer também, realmente ele tentou me matar.
Com calma, deslizei o barbeador pela cabeça, raspando toda a lateral e a parte de trás, ficando com um topo da cabeça enorme, cheio de cabelo loiro. Eu tinha duas opções: fazer aquilo bêbado e ter que raspar tudo amanhã ou esperar até amanhã e ir ao barbeiro. Optei por não me arrepender e cortei somente a metade do cabelo, com o barbeador mesmo, fazendo um corte reto. Entrei na banheira e liguei o chuveiro, estava muito sujo para um banho relaxante… Pai, eu precisava relaxar agora.
Deslizei a mão com o sabonete pelo corpo, gostava da sensação de passar reto do pescoço a barriga, isso ainda me dava uma pontada de felicidade. Deixei a água quente bater no meu rosto, doeu muito, mas aos poucos a dor foi ficando tolerável. Quando tolerável se tornou a palavra que dominava minha vida? Tentei realmente lembrar. Será que foi quando o Paulo, na quarta serie, me deu o meu primeiro soco por beijar a namoradinha dele? Não, naquela época era “não tolerável”. Talvez quando tive que fingir aquele namoro e me fazer perder a virgindade. É, ali foi um tolerável, era tudo que ouvia quando pedia conselhos, todos diziam que a situação era tolerável.
— Ai…— Ficou quente de mais.
Desliguei o chuveiro e me deixei pingar pela casa, em direção ao quarto. O “eu” de amanhã vai me odiar, mas o “eu” de ontem não deixou nenhuma toalha no banheiro.
Ao deitar na cama, Gabriela pulou ao meu lado, como se soubesse o que iria acontecer, se aconchegou ao meu corpo e me deu uma lambida no queixo. Após isso, eu me permiti chorar.
Alguém estava socando minha porta e Gabriela latia.
Minha cabeça estava doendo e latejava, meu olho desistiu de doer e passou a queimar. Ai, eu devia ter colocado gelo ontem. Me arrastei em direção a porta que parecia que ia cair de tanto que a socavam.
— Quem é? — Minha voz quase não saiu, mas a pessoa ouviu.
— Abre essa porra logo! — vociferava a voz do outro lado.
Bom, pelo menos essa eu deixava me mater.
Abri a porta com uma sensação que iria apanhar de novo, mas assim que os olhos castanhos da mulher de um metro e meio pousaram em mim, eu tinha certeza que não seria eu que iria apanhar.
— VOCÊ NÃO DEVIA TER IDO!!!! — Acho que estou errado… — Cacete Carla…
— Dominique — corrigi.
— Cacete Dominique!
— Você pode ao menos entrar? Meu vizinho vai reclamar de novo se você ficar gritando
mais uma vez na minha porta.
Xingando, ela entrou batendo o pé. Bom, se não for o vizinho da frente a reclamar, vai ser o de baixo. Fechei a porta, não sabendo se estava preparado para aquele furação.
— Posso, pelo menos, pegar gelo? — Disse ao me virar. Ela concordou com a cabeça enquanto jogava a bolsa no sofá.
Me arrependi de tê-la deixado entrar, havia um rastro de cabelo pela casa. Ao olhar para os meus pés, percebi que fui eu que devia ter saído molhado do banheiro e pisoteado o cabelo. MEU DEUS, MEU CABELO! Passei a mão desesperado pela cabeça, do meu cabelo longo só restou um tufo no topo da cabeça e nem precisava olhar no espelho para ver as pontas tortas. Ah pai… Ela realmente iria me rebocar no soco.
— Pronto — disse ao retornar da cozinha com um saco enorme de gelo no olho.
— Você vai denunciar ele, não vai? — A voz da Joana era doce quando não estava gritando comigo.
— Eu não posso denunciar o meu pai.
Fale com o autor