Era domingo. E Bakugou estava na academia pela 6ª vez no dia. Ele precisava bater em alguma coisa, manter a mente ocupada. Ele passara a noite ponderando sobre sua reação no dia anterior. Ele chegara à conclusão de não havia nada demais. Ele não podia negar que Jirou estava bonita na noite anterior. Porra, ela estava mais que bonita. Ele nem sabia qual palavra usar para descrevê-la. Ele sabe que não foi o único que pensou isso.

Ainda estavam falando disso durante o café da manhã (foi por isso que ele voltou para a academia depois de comer). Era inegável. Katsuki não pode ter sido o único a ter pensamentos muito poluídos com Jirou naquela roupa, especialmente quando ela sorriu travessa daquele jeito. Caralho, não tem como não ter pensado besteira com ela fazendo aquela cara. Se ela ao menos estivesse como uma princesinha chata e fútil, mas não. A garota parecia uma sádica pervertida.

Alguém teria que repor esse saco de areia, porque Bakugou já o havia rasgado em vários lugares. O que não quer dizer nada. Ele só estava treinando. Não tem nada a ver com os “se’s” em sua mente. Porque ele não estava, pela segunda vez, questionando sua sexualidade. Não, ele tinha plena certeza de que era gay. Total e completamente gay.

O que aconteceu ontem foi o resultado da conversa que Katsuki teve com Jirou uma noite antes e a visão totalmente inesperada da garota... em uma roupa incrivelmente condizente com a sua personalidade, não é? A turma raramente via uns aos outros em outras roupas que não fossem o uniforme da escola ou roupas de dormir. Pela reação daquele narigudo que veio buscá-la, era comum a Orelha vestir-se assim. E quem era aquele filho da puta, mesmo?

Isso não vem ao caso. Não é da conta dele. Jirou é uma amiga com quem ele se importa muito. É isso, ela fez muito por ele, até aturar toda aquela cena melosa para martelar na cabeça do Kirishima que o ruivo poderia gostar de Bakugou. Katsuki sabe que Jirou é tão fã de abraços quanto ele, não deve ter sido muito divertido para ela. Ele ainda lembra das vezes em que ela o atacou por tê-la abraçado de surpresa.

E ainda assim, ultimamente era até bom ser grudento com ela…

Até ele ser um filho da puta e ser grudento demais.

Foi por isso que toda essa merda aconteceu. Não foi nada demais, ele não gosta de Jirou. Ele só está pensando isso porque ela disse que ele a estava deixando com tesão. Foi isso, não foi? Por que ela disse que ele estava exagerando e era como se estivesse tocando em seus fones. E ele lembra bem de como ela explicou a sensação que é quando pegam em seus fones. O que Katsuki sentiu quando ela demonstrou para ele não tem outro nome.

O QUE NÃO É COMO ELE SE SENTE COM ELA.

Para deixar bem claro.

Porque Bakugou gosta do Kirishima. Aquele retardado que não consegue entender uma declaração direta, um beijo roubado e uma tentativa de beijo.

Não, Bakugou não gosta de Jirou.

Ele só gosta de abraçá-la porque é engraçado como ela é pequena no braço dele. Só gosta de enterrar o rosto no pescoço dela porque gosta do seu cheiro. Só gosta de afagar o cabelo dela porque ela acha divertido e é difícil vê-la sorrir com os olhos. E ele só percorre o corpo dela com as mãos porque já a viu reclamar de frio em pleno verão, então ele a quer confortável quando está em seu colo.

É totalmente diferente de Kirishima. Bakugou sente o coração bater mais rápido quando o ruivo sorri, mais apertado quando ele parece triste e mais aquecido quando ele se alegra. Bakugou sente o rosto corar quando vê Kirishima tirando a roupa, mesmo que o uniforme de Eijirou exponha todo o seu torso. Katsuki já precisou conter o ímpeto para não empurrar Kirishima contra o armário e não beijá-lo contra sua vontade.

É isso. Bakugou só ficou um pouco deslumbrado com Jirou por uma noite, menos que isso até, alguns poucos minutos. Com certeza, quando ele a ver novamente, vai tudo ficar normal de novo.

Com esse pensamento, o loiro saiu da academia e foi tomar um banho no vestiário masculino. Quando saiu de lá, estava mais calmo e relaxado. Confiante de que tinha resolvido seu conflito interno.

— Ei, Bomberman, dando uma volta na academia essa hora? — Jirou perguntou tirando os sapatos na entrada do Heights Aliance.

Bakugou a fitou estagnado. A garota punk não estava mais vestida como na noite anterior, obviamente, já estava quase na hora do jantar. Ao invés disso, ela vestia uma calça preta rasgada nos joelhos, uma blusa branca que deixava a barriga de fora e um colete preto que descia até as coxas.

— O que houve com o seu cabelo? — Katsuki perguntou observando a bagunça volumosa e ondulada na cabeça da garota.

— Cala a boca — Ela murmurou corando um pouco. — Eu não tive tempo de alisar ainda.

Ah, certo. Havia um motivo para Jirou alisá-los, ela não gostava dos próprios cabelos. A pergunta de Bakugou só pareceu reforçar isso.

— Eu gostei — Bakugou acrescentou aproximando-se e pegando uma mecha entre os dedos. — Deixa assim.

— Claro que não — Kyouka negou bufando uma risada — Demora uma vida para deixar arrumado, vou desistir na primeira semana e depois vou viver assim, parecendo uma maluca.

— Você tá zoando, não é? — Bakugou riu levemente — Esse é o seu cabelo bagunçado? Porra, olha o meu. O seu está ok. — Ele afirmou enredado as duas mãos nos curtos cabelos da garota.

— Tira a mão daí — Ela riu afastando as mãos dele — Vai deixar parecendo uma juba.

— Deixa eu ver — Bakugou brincou bagunçando o cabelo dela.

Kyouka protestou bem alto, porém sua oposição perdeu força pelas risadas que ela deu. Os dois só pararam quando Hakagure apareceu e recebeu Jirou como uma pessoa normal. Depois disso, as garotas subiram e Katsuki só voltou a vê-las no jantar, quando ele nem se deu ao trabalho de se aproximar de Jirou, considerando que todas as garotas tinham muito o que perguntar para ela.

Bakugou estava um pouco desconfortável. Claro, ele não teve a mesma reação da noite anterior ao ver Jirou pela tarde, o que não quer dizer que o garoto não a achou bonita mesmo sem toda a maquiagem e, como ela mesma havia se descrito, bem desleixada.

O único alento que tinha era o fato de Jirou já ter alisado o cabelo, ou ele provavelmente estaria afagando-os e cheirando-os. O que Kyouka o havia alertado para parar de fazer. Para sua irritação, Kirishima havia sumido desde a hora do jantar. Ele estava um pouco estranho o dia inteiro. Se Bakugou não estivesse um pouco ocupado em afastar essa ideia pertinente da cabeça, ele poderia ter inquirido o motivo.

Contudo, ele não o fez. E agora Kirishima estava sumido, deixando Bakugou quase isolado, já que Jirou também fora arrastada dele.

Como se previsto que Bakugou estava pensando nele, Kirishima apareceu na sala, pedindo a atenção da turma. Ele parecia muito animado, ao lado de Ashido que prendia um sorriso e não conseguia ficar parada no lugar.

— Você quer contar ou quer que eu conte? — Kirishima virou-se para Ashido.

— Conta você, conta você.

— Ok, então. Senhoras e senhores — Kirishima começou erguendo um braço — É com muita honra que venho-lhes apresentar… Ashido Mina, minha namorada.

— Ta daaa — Mina brincou fazendo uma reverência cômica e gargalhando.

Bakugou não conseguiu ouvir o resto. Ele sentiu-se entrando em uma bolha escura, onde todos os sons chegavam abafados e todas as imagens pareciam turvas. Katsuki sabia que agora, onde havia só duas pessoas, havia muito mais. Um murmurinho chegava aos seus ouvidos, nenhum deles fazendo sentido. Pelo menos não até ele sentir algo morno e pequeno segurando sua mão.

Bakugou ouviu alguém chamar seu nome. Ele não reconheceu a voz a princípio, porém, quando Jirou abraçou seu braço e chamou-o novamente, ele soube que ela estava ao seu lado.

— Respira, vai ficar tudo bem — Ela continuou baixinho e calmamente.

sua voz era a única que parecia clara para Katsuki. Quando a ouviu, percebeu que realmente estava prendendo a respiração, ele precisava respirar. Aos poucos as imagens foram entrando em foco e ele percebeu uma mancha vermelha e uma rosa vindo em sua direção, as quais tornaram-se em Kirishima e Ashido assim que pararam na sua frente.

— Ei, Bakugou, nós queríamos te agradecer — O ruivo começou apertando a mão de Ashido — Você está feliz pela gente?

Se ele estava feliz? Caralho, Kirishima superou todos os limites da estupidez e da cegueira. Bakugou queria quebrá-lo no soco agora. Se ele estava feliz?!

— É, tanto faz — Foi o que ele conseguiu responder após perceber que ainda não tinha forças para se mover. Bakugou sentindo o polegar de Jirou afagando seu antebraço, ciente de que ele precisava de um consolo maior, porém não podendo fazê-lo com muita descrição.

— Bro, você faz parte disso, sabia? Foi você quem disse para eu dizer à Mina que gostava dela, obrigado, irmão — Kirishima agradeceu abraçando Bakugou com força e depois afastando-se.

Ah não.

Tudo menos isso.

Ele podia ter simplesmente saído sem ter terminado de foder com a mente de Katsuki.

Kirishima podia ter saído sem chamá-lo de irmão. E principalmente, podia ter entendido que Bakugou queria que Eijiro se declarasse para ELE, não Ashido. PARA ELE, BAKUGOU.

— Bakugou! — Jirou chamou-o o mais baixo que pode, com um puxão no braço dele. — Por favor, se acalma — Ela continuou encostando a cabeça no ombro dele, já que ele era alto demais para que ela fizesse o contrário.

Katsuki olhou para ela, então percebeu que estava respirando pesado. Ele estava quebrando, por isso Jirou parecia tão preocupada.

— Eu vou subir — Ele balbuciou dando um beijo na testa dela, para saber que ele iria ficar bem.

Lentamente ele se soltou e caminhou para o elevador. Ninguém reparou muito nos dois, estavam ocupados demais ouvindo a história que Ashido contava com tanta alegria sobre como ela gostava de Kirishima desde antes de entrarem na UA e todo o percurso até eles finalmente estarem juntos.

Kyouka cumprimentou os amigos pouco depois de ver Bakugou subir. Ela sentou-se ao lado de Yaomomo na plateia que se formou para o novo casal.

Ela estaria mais preocupada se não soubesse como Katsuki estava, ele parecia ter tido o chão arrancado dos pés. Mas ela ouviu todas as explosões que o loiro causou alguns andares acima.Isso a deixou um pouco mais tranquila. Bakugou não era do tipo que sofria calado. Ele era muito passional para aceitar uma notícia dessas sem causar algum dano. Jirou temia que ele guardasse tudo e o dano fosse interno. Felizmente, ele estava destruindo se quarto enquanto todos lá embaixo não faziam ideia do que se passava. Exceto por Jirou e sua audição aprimorada.

Quando as explosões pararam, Kyouka julgou ser um bom momento para checar como o loiro estava. A turma já estava menos alvoroçada, Kirishima e Ashido já haviam terminado sua história e, estranhamente, Jirou ficou feliz que Todoroki tomou de si a atenção de Yaoyorozu. Assim ela não precisaria de uma desculpa para sair da sala.

Ao entrar no quarto, Kyouka não esperava que a destruição fosse tão grande, apesar de ter ouvido muitas explosões. O quarto estava todo revirado, a escrivaninha estava chamuscada, os materiais jogados no chão, tinha algodão por todo lado, resultado do travesseiro explodido, os lençóis estava rasgados ou largados no chão... e tinha Bakugou.

Sentado na cama, com a cabeça entre as mãos, respirando lenta e profundamente. O garoto nem sequer se mexeu quando Kyouka entrou. Para garantir que ninguém mais visse o estado do amigo, Jirou trancou a porta. Sentando-se ao lado do loiro na cama, ela colocou a mão no ombro dele, confortando-o sem dizer uma palavra.

— Era Ashido, Jirou – Ele soltou, com uma voz tão quebrada que fez Kyouka prender a respiração – Era dela que ele estava falando, não de mim.

Kyouka não disse nada quando o puxou para o peito e o apertou com força. Bakugou chorou.

Ele chorou.

Jirou não sabia o que fazer. Bakugou Katsuki nunca chorava. E ele chorou. Tudo o que ela conseguiu fazer foi apertá-lo ainda mais e afagar seus cabelos.