Não é mais um clichezão adolescente
1 Preâmbulo
Não é mais um clichezão adolescente
Preâmbulo
“Preâmbulo”. Interessante essa palavra. Você deve tê-la estranhado ao se deparar com o primeiro capítulo desta história começando com ela.
Bem, tecnicamente, este não é o primeiro capítulo. É o prólogo, introdução, apresentação. Uma prévia das coisas que virão, e a criação de um contexto para a história existir. Por que, então, dar uma de barroco e diferentão, começando o texto com ela ao invés de uma dessas mais fáceis?
Em primeiro lugar, aprendi o que é “Preâmbulo” da pior maneira, perguntando o significado em voz alta à professora de Literatura quando essa palavra surgiu no começo de um daqueles textos chatos do Neoclassicismo. A sala toda me olhou, algo de que jamais gosto – coisa de alguém que é quieto e “na sua”, aqueles que me conhecem sabem. E numa escola particular, onde os narizes são mais empinados e a pré-disposição aos coleguinhas se humilharem sempre maior, a coisa fica pior.
Ao menos a professora me respondeu, admirada pelo quietão do fundo estar fazendo uma pergunta, que “preâmbulo” significa “começo”. E como quero que esta história se diferencie das quinhentas mil outras por aí que narram a vida de algum adolescente, o melhor pontapé inicial é começar até a introdução com uma palavra que cause curiosidade.
Só depois de já ter começado a escrever esta história, aprendi também nas aulas de Sociologia que nossa Constituição, as leis do país, também começa com um “Preâmbulo”. Uma galera basicamente descrevendo que vai se reunir em conjunto, com todos tendo direitos iguais entre si, para decidir o que vai poder ou não vai poder ser feito no Brasil, sob as bênçãos de Deus. Vendo o país como está hoje, um preâmbulo mais correto seria “Cada um por si, Deus por todos” – e embora eu não acredite em Deus (olhe só, se você esperava um clichê de romance cristão ou o bad boy se convertendo ao evangelismo, deve ter se decepcionado com esta história também) e nem esteja escrevendo em conjunto com outros – a solidão sendo minha mais fiel companheira – este texto busca estabelecer quais regras sempre valeram para minha vida. O que pude e não pude fazer. E quando burlei aquilo que não podia, e fiz.
Eu falando tanto, e sequer me apresentei ainda. Meu nome é Fernando. Nome familiar à língua portuguesa, correspondente a um rapaz brasileiro de dezoito anos, recém-saído do colegial. Moro em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. E pois é, esta não é mais uma história com um gringo morando nos EUA ou Inglaterra que encontra a paquera no Starbucks, mas paga tudo em real e usa gírias cariocas. Também não tem aquela estrutura manjada de perdedor se apaixonando pela patricinha, capitão do time de futebol dando bola para a nerdzinha, ou o raio que o parta que você estiver acostumando a ler em sites de fanfiction.
Criei esta história para revelar a todos como foram meus três anos no colegial, as memórias ainda frescas na memória por ter recém-saído dele. E também para mostrar como a realidade, quando quer, costuma se mostrar mais incrível – e bizarra – do que qualquer ficção.
Mas quem é o personagem Fernando Silva (oh, eu não tinha dito meu sobrenome?). Em certos pontos sou, sim, um clichê ambulante. Nerd, isolado, tímido. Apreciador de games, mangás e quadrinhos. Embora – primeiro clichê desconstruído – eu prefira os jogos antigos, clássicos, rodando-os em emuladores no PC ou procurando-os em lojas de raridades ou fliperamas ainda funcionando, do que MMOs ou essas chatices de agora. Em segundo lugar: eu babo pela menina mais lindinha e perfeitinha da sala? Não. Sempre quis encontrar alguém igual a mim. Uma nerd-loba-solitária. Seria isso só um clichê diferente? Talvez. Mas a forma como idealizo tal garota de certo quebra mais alguns deles...
Uma garota cujos pés bem-cuidados, cheirosinhos e lisinhos fiquem perfeitos em sandálias de salto, botas de cano alto ou os clássicos All-Stars com cadarços desamarrados.
Sim, eu gosto de pés. Só no colegial descobri que existe uma palavra para isso, “podólatra”; porém sempre a achei muito forte, esquisita, de modo a me fazer parecer um depravado se a pronunciasse para qualquer pessoa que fosse. Mas é isso. Até hoje me questiono se as garotas percebem que as cumprimento sempre olhando ligeiramente para baixo, os olhos sempre voltados para seus calçados mesmo se conseguir manter a cabeça discretamente levantada. Sou um catalogador de pés, e muitas meninas da minha sala – e da escola – jamais devem ter imaginado que as conheço tão bem por essas partes do corpo. Aliás, nem os meninos sequer suspeitaram algum dia desse meu gosto, e das coisas só percebidas por um legítimo fã de pés, desde saber que jamais namoraria uma bailarina – ó, quantos estragos uma arte tão bela pode proporcionar! – até eu ser um dos primeiros a ter notado quando as sapatilhas voltaram à moda.
Gostar tanto de pés foi algo que se desdobrou em outros de meus gostos. Fantasias. Mas ah – essas eu demorarei um pouco a contar, ou espantarei de vez os poucos leitores que esta história terá, mesmo aqueles que buscam desesperadamente fugir dos clichês. Se isto um dia virar um livro, ficará marcado como o livro pelo qual abro minha vida a quem quiser ler – seja para rir, sentir pena ou me julgar um completo louco. Mas um louco feliz, diga-se de passagem.
Às primeiras letras azul-amareladas a formarem o logo da Capcom num jogo de Super Nintendo, decido eu estas memórias transformadas numa história que não quer se tornar mais um clichezão adolescente...
Vamos a ela.
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