Capítulo 2: RiberCade

Poucas pessoas sabem que ainda existe um fliperama clássico em Ribeirão Preto.

Enquanto só acham haver máquinas de jogos em bares suspeitos, parquinhos de shopping ou firmas de festas para aluguel, há na verdade um ótimo – e talvez para o bem, pouco conhecido – arcade em pleno funcionamento no centro da cidade, entre os palacetes e casas antigos. Enquanto muitos só visitam a região para ir ao Teatro D. Pedro II ou tomar um chopp no Pinguim, alguns sortudos têm como destino o RiberCade. E sim, o próprio nome do local já é um ótimo trocadilho sonoro com um game mais que clássico, o “River Raid”. Às vezes era engraçado imaginar um mini-avião voando pelos córregos de Ribeirão enquanto destruía as pontes e inimigos pelo caminho. Teria sido uma boa ilustração para a logomarca do fliper, se eu tivesse participado da criação...

Nosso trio – eu, Vítor e Edu – percorria a rua do fliperama após encher as barrigas com esfirras de carne do Habib’s. Costumávamos só ter dinheiro para o mais barato, não querendo tampouco comprometer as economias para as fichas. Olhando para as antigas residências dos barões do café e seus jardins gradeados, eu me divertia com o pensamento de como as fichas valiam tanto para nós quanto os grãos antigamente valiam para eles...

A fachada discreta do RiberCade, com um letreiro apagado contendo um desenho quase sumido da Chun Li, passaria despercebida facilmente a qualquer ribeirão-pretano sem gosto pelo clássico. Mas, tal como um lugar mágico, aquele estabelecimento conseguia despertar infalivelmente o interesse daqueles que realmente importavam. Um local que só os dignos conseguiam ver.

Entramos e já rumamos direto ao balcão, o ambiente composto na medida certa por luz e sombra – a maior parte da claridade provindo das telas acesas das máquinas – tomado pela agradável mistura de sons de carros acelerando e lutadores gritando golpes especiais que era música aos meus ouvidos. Fui o segundo da fila, apenas Vítor à minha frente; e quando estendi as notas e moedas sobre a bancada, uma cacofonia de um “You win!” mesclado a um “Continue?” aparentaram criar ainda mais pressa para que eu embarcasse num dos jogos.

O Thiago, com seu leve sobrepeso, olheiras e barba sempre por fazer – sem contar as camisetas pretas de anime que se alternavam sem falha entre estampas de Naruto, Bleach e Death Note toda vez que eu ia ali – apanhou o dinheiro e devolveu as fichas sem mal contá-las, tão habituado estava ao seu trabalho... e à quantidade fixa que eu sempre pedia. Duas fichas para o Street Fighter, o jogo de luta supremo. Cinco, ao Metal Slug, a sátira viciante das guerras. Uma ficha ao Sega Rally, a tentativa única de testar o quão longe se ia. Duas fichas ao Cadillacs and Dinosaurs, a mistura perfeita entre mundo pós-apocalíptico e répteis do cretáceo...

Dez fichas regidas por um só elemento. O Um Jogador. Aquele capaz de controlá-las tão bem a ponto de zerar um jogo três vezes antes de perder uma delas...

O Um Jogador. Nele, a Deusa Gamer derramara toda sua habilidade, perícia e vontade de registrar as iniciais em todas as máquinas de arcade já criadas.

Eu, em toda minha modéstia...

Apanhei as fichas enquanto Thiago registrava minha compra no computador do balcão, as miniaturas de personagens de One Piece e Dragon Ball Z balançando sobre o HD da máquina conforme digitava. Eu aguardava o dia em que mais delas seriam ofertadas aos vencedores do próximo campeonato. Na estante de meu quarto, um Freeza e uma Nami já se encontravam imponentes, relembrando as magistrais lutas disputadas no King of Fighters 98. Precisava de mais.

Liberei caminho para Edu pegar as mirradas fichas de sempre, que gastaria todas no Final Fight sem jamais passar da quarta fase. Zerar a máquina tinha virado uma obsessão para o coitado, e ele sempre era o primeiro a ir embora depois de receber o “Game Over”. Bem, a persistência de um guerreiro dos flipers não era mesmo para todos...

Voltei-me para os fundos do lugar. As máquinas estavam distribuídas em duas fileiras junto às paredes, de frente umas às outras. A lista do que queria jogar foi acessada em minha mente, e acabei constatando – para minha impaciência – que os gabinetes estavam um a um já ocupados. O do Street Fighter, por sinal, era o que mais demoraria a ficar disponível, dada a turminha de moleques de quinta série aglomerados enquanto aguardavam o próximo perdedor das lutas um contra um ceder espaço ao desafiante seguinte.

Livre, naquele momento, só estava o Metal Slug 2.

Não era a ordem que eu queria jogar – Metal Slug sempre exigia aquecimento prévio em outra máquina, tal qual alongamento num esporte – mas teria de servir. Além do que, eu acreditava ter descoberto uma nova manha para escapar fácil dos helicópteros. Queria há dias testar se realmente funcionava.

Ficha dentro da máquina, logo da SNK brilhando, e num piscar de olhos estava eu controlando Marco Rossi, o Rambo loiro de bandana branca, metralhando inimigos de turbante pelas dunas do deserto da primeira fase.

A dificuldade progressiva aumentava bem convidativa. Soldados por terra em fileiras. Depois, o primeiro helicóptero. OK, o macete para derrubá-los fácil com a Machine Gun funcionava. Isso me pouparia algumas vidas quando o jogo ficasse mais difícil. Seria útil, ainda mais por me descobrir destreinado ao morrer de modo tosco para uma das torres fortificadas pouco adiante na fase...

O estalido de uma nova ficha sendo tragada pela máquina fez-se ouvir. O ar se movimentou ao meu lado, e subitamente o som do engatilhar de uma arma anunciou a entrada de um novo jogador, enquanto o boneco da personagem Fio, com seu bonezinho, começava a piscar na tela junto a meu Marco.

— Precisando de ajuda aí? – a voz da garota era tão bonita e suave quanto a de uma dubladora.

Virei a cabeça. Sabia que, daquele momento em diante, nem eu e nada mais seriam o mesmo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.