Não é mais um clichezão adolescente
2 Capítulo 1: Quando me dispus a jogar
Capítulo 1: Quando me dispus a jogar

Ué, achou que eu estava brincando quando falei do logo?
Bem que minha vida se encaixaria perfeitamente nos jogos da Capcom. Mas não desses atuais, facílimos e em que o único desafio é ter dinheiro real para desbloquear extras via DLC. Não, minha vida seria daqueles games dos mais difíceis já criados por essa empresa, como o Goof Troop (Turma do Pateta) do Super Nintendo, ou o primeiro Street Fighter – quase impossível de se jogar não por intenção dos programadores, mas por ter uma jogabilidade super malfeita. Comparando isso à minha vivência, eu também perdi o controle das coisas diversas vezes, o que as deixou bem mais cabulosas do que realmente eram.
Minha vida, na verdade, em muitos trechos também foi praticamente “injogável”.
Já em outros, eu não me preocupei em sequer tentar jogar.
Diria isso do meu primeiro colegial. Desde que fui matriculado no Colégio Nova Integração, aquele famoso por aprovar alunos e mais alunos em universidades (embora ninguém lesse a letra miúda ou reconhecesse as iniciais das faculdades para saber que eram particulares pequenas da própria Ribeirão Preto), já tinha certeza de que a melhor tática de sobrevivência seria me fechar. Bolsista, sempre sem dinheiro e incapaz de bancar um décimo da grana que os colegas de sala torravam para se divertir aos finais de semana, eu era um alvo propício a todo tipo de chacota pelas panelinhas se expusesse a mínima fraqueza.
Com minhas moedas contadas para as fichas do fliperama e o ônibus de volta para casa, permaneci um ano como o mero “estranho do fundão”, a salvo de risinhos ou piadas por vestir preto e ter um ar de “metaleiro do mal”. Por mais que eu não realmente me encaixe nesse estereótipo, ele é útil para não ouvir besteiras de almofadinhas.
Foi no segundo ano que resolvi começar a me expressar, fazer amigos naquela escola – por mais que tenha, por muito tempo, repudiado a ideia por achar ser algo impossível.
Resumindo, foi no segundo colegial que decidi apanhar o controle para jogar. E sabia que seria um game desafiador. Daquele que zomba do jogador por sua dificuldade, pressupondo até que ele seja um pouco masoquista...
Sorte minha eu ser.
Por que resolvi começar a me misturar com os “grã-finos” do Nova Integração?
Bem, um homem precisa de amigos. Por mais que tente, não é uma ilha – e esse foi um conhecimento útil que ouvi nas aulas de Filosofia e Sociologia, ajudando a abrir meus olhos. Alguém com quem sair para dar uma volta, beber aos sábados, disputar aquele campeonatinho maroto no The King of Fighters. Mas o motivo principal ainda era outro. Algo urgente, que consumia minhas entranhas – uma coisa que eu, à época, julgava necessitar para minha vida finalmente ter sentido...
Encontrar a garota perfeita.
OK, voltamos ao momento clichê de fanfic adolescente. Mas afinal, quem no mundo não sonha com a tampa para seu frasco? (Ah, achou que eu falaria da laranja, né? Bem, nunca gostei dessa fruta. Maçãs, por outro lado, são divinas). Faz parte da mentalidade humana buscar uma pessoa com quem julgue se encaixar na maioria das coisas e se dispor a construir uma vida com ela. Algo em conjunto.
E, talvez, essa garota estaria ali mesmo no Nova Integração, perdida no meio de patricinhas assim como eu desbravando aquela selva endinheirada, esperando alguém com quem pudesse realmente ser autêntica. Mostrar quem era sem ter de erguer uma máscara.
Em fevereiro daquele novo ano, iniciei minha busca.
E isso nos leva a um momento de abril daquele mesmo ano, quando já mudava minha vivência no colégio – e, por mais que ainda não houvesse encontrado minha “Player 02”, já tinha recrutado fieis escudeiros...
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A aula de Matemática custava a passar, mas ao menos entrava em seus últimos dez minutos. Eu olhava incessantemente o relógio a cada parte da equação resolvida pelo professor na lousa, as contas já ocupando metade dela – e podia jurar que, desde o início da aula, aquela era apenas a terceira sendo resolvida. Exercícios do ITA, Unicamp e outras faculdades que sequer pensava prestar. Mas a galera com grana queria, por mais que apenas para se frustrar logo na primeira vez que prestasse e ir direto cursar particulares com o dinheiro dos pais – assim o ciclo da elite ribeirão-pretana se renovava.
O trocadilho que o professor fez com uma fórmula atraiu risos de metade da sala, tirando-me da hipnose lousa-relógio. O cara era legal, a matéria que não ajudava – se ele lecionasse História, por exemplo, eu tinha certeza que acabaria tirando as melhores notas.
Lancei meu olhar pelos alunos, aproveitando o momento. Fazia parte da minha estratégia de ser “mais sociável” atentar para que os outros faziam. Oportunidades de conversa acabavam aparecendo sem que me rotulassem de esquisitão antes de qualquer coisa que falasse, mesmo sendo raro.
As meninas das carteiras da frente estavam cochichando algo entre si bastante animadas. Era a festa da Clarice, de certo. A maior patricinha da escola, filha de um casal de médicos. Bilhetinhos passavam para lá e para cá por toda a sala desde quando voltamos do intervalo convidando diversos colegas para o aniversário. Como de costume, nenhum havia chegado até mim.
Lancei um último olhar a Clarice e seu séquito de bajuladoras. Loira, cabelos lisos compridos, seios chamativos. Uma das meninas mais cobiçadas da escola não só pela riqueza, mas também por sua aparência – embora tivesse pés feios. Pequenos e muito redondos, que ela ainda assim insistia em exibir em rasteirinhas como se estivesse abafando. As veias saltadas, calos e manchas também mostravam que a “queridinha do papai” já dançara balé para o deleite da família. Reforcei tal impressão comigo mesmo, dando-me o luxo de não achá-la bonita como os outros garotos afirmavam. Minha vingança pessoal, silenciosa e mordaz.
“Você não recebeu nenhum desses também?” – uma voz à minha direita perguntou meio atropelada.
Era o Vítor, indivíduo mais próximo do que eu poderia chamar de “amigo”. Filho de um advogado, morava num apartamento de luxo num daqueles condomínios nobres construídos nos últimos anos na área mais exterior de Ribeirão, quase pegando o caminho para Cravinhos. O que aproximou pessoas tão diferentes? A paixão por games. E se eu apresentara a ele o mundo dos fliperamas ainda em funcionamento na cidade, ele retribuíra me deixando jogar PS4 e X-Box One em sua casa quase todo final de semana.
Um sujeito legal, apenas meio bobo. “Desprovido de malícia” talvez soe menos agressivo. Alguém que achava pertencer ao mesmo grupo dos almofadinhas, porém era zoado por eles tão logo virava as costas. Talvez por isso mesmo me procurara como amigo. Alguém que o respeitava como era.
“Não recebi, e não faço a menor questão...” – respondi enquanto o professor iniciava nova equação na lousa, sob os protestos de todos por faltarem pouco mais de cinco minutos até o sinal. – “Além do mais, vamos perder a jogatina na casa do Edu? Até já separei dinheiro para o refri e as vodcas...”.
Edu, o Eduardo, era outro dos amigos que consegui fazer quando me dispus a ser mais diplomático. Sentado na primeira carteira da minha fileira – CDF convicto – não conseguia nos ouvir, mas com certeza concordaria com cada uma de nossas palavras. Não tinha percebido qualquer bilhetinho, tampouco, sendo direcionado à sua carteira. Era um lobo solitário assim como eu e Vítor. Bem, agora não tão solitário. Ter colegas de games e brejas já é algum alento.
No caso, Edu era de uma classe média um pouco melhor de vida que a minha, do tipo que conseguiria pagar a mensalidade integral do colégio sem muitos sacrifícios, mas também lutara por uma bolsa – de desconto menor que a minha, no entanto. Gostava de games assim como eu, e de jogos de tabuleiro. Por Odin, não havia alguém com mais sorte nos dados no maldito War do que ele!
Naquele próximo fim de semana, havíamos combinado jogar PS3 e ao menos uma partida de War na casa dele, passando a noite de sábado para domingo. Um programa que vinha virando padrão nos últimos dois meses – não que eu reclamasse – e que sempre terminava com a bebedeira se convertendo em ressaca madrugada a dentro, enquanto ficávamos olhando para o teto divagando sobre garotas de que gostávamos e que jamais teríamos uma chance; ou garotas perfeitas que criávamos em nossas mentes e queríamos um dia encontrar no mundo real.
“Pena que ainda é quinta, mas as aulas de amanhã são legais, passam rápido!” – Vítor observou, e eu concordava com o fato de Geografia e Literatura serem bem melhores que Matemática. – “A passadinha no fliperama depois do almoço está de pé?”.
Não teríamos prova aquela semana, e as tarefas de casa andavam leves. Algum pai de almofadinha devia ter reclamado. Bem, benefício para todos. E eles poderiam dedicar o período da tarde a outro tipo de raciocínio lógico – envolvendo socos fortes, chutes fracos, meias-luas e um pouco de coordenação motora.
“Claro!” – respondi sem pestanejar.
O sinal bateu, e o professor tentou em vão terminar sua linha de raciocínio enquanto os alunos já debandavam para o corredor. Como sempre, eu, Vítor e Edu éramos os últimos a sair, querendo evitar empurrões ou zombarias da parte dos riquinhos.
Nosso itinerário era bem definido como um mapa de fases num jogo de videogame: deixar o Nova Integração, comer alguma coisa no Habib’s e partir direto até o RiberCade...
E é nele que se desenrolará a próxima etapa desta jogatina...
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