Náufrago
1 Perdido
Era fim de tarde.
O céu se coloria de diversos tons, abandonando o azul do dia. As nuvens coloridas de rosa manchavam o fundo alaranjado feito pela luz, até o ponto onde esse cenário de sonho se encontrava com o mar.
O vento soprava em direção à praia.
Sentado à beira das ondas, que quebravam de leve em seu corpo, havia um homem.
Era velho, de cabelos brancos desgrenhados e barba longa. O rosto e o corpo tinham marcas tanto do tempo quanto da vida de privações que era obrigado a enfrentar. Roupas ocidentais em farrapos eram o que tinha para vestir.
O ar era puxado com cada vez mais dificuldade para dentro de seus pulmões. Uma moléstia que desconhecia consumia sua vida segundo a segundo e dava-lhe certeza de que seu fim não demoraria a vir.
Apesar de tudo, os olhos azuis guardavam uma profunda serenidade.
Há muitos anos estava ali. Perdera aos poucos a noção de data, desnecessária em um lugar como aquele. Acostumara-se a lutar pela sobrevivência, a entender a solidão e a ouvir somente os sons da natureza. Mas, principalmente, a se agarrar a um objetivo.
Tossiu, sentindo dor.
Parecia haver uma lâmina em seu pescoço, pronta para ceifar-lhe a vida assim que desistisse.
Gaivotas rodeavam o céu da ilha, rasgando o cenário rosado. Ao mesmo tempo em que o velho olhou para cima para observar seu trajeto, foi lentamente deitando o corpo na areia úmida, com a velocidade que sua coluna curvada e gasta o permitia.
As articulações agiam como se tivessem ferrugem.
Encarava a cúpula celeste com ar de gratidão e bondade.
Sofrera muito durante a vida. Doenças, desespero, tudo.
E, no fim, ela o carregava sem piedade.
Apesar de tudo, em sua mente, o homem mantinha a esperança. Seu físico estava em farrapos, mas seus sonhos inocentes ainda pulsavam.
Ele tinha certeza de que não seria esquecido ali.
Seu navio de fantasias afundou em sua mente.
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