Notas iniciais
Mais um galera.

Robert foi correndo até o encontro de Susana quando viu que Caspian estava indo embora.

– Susana o que foi tudo isso? O que aconteceu? – Bob perguntava nervoso balançando Susana pelos ombros. Caspian certamente contaria tudo o viu para Lúcia, e aí o casamento deles iria por água abaixo de vez.

– Por que fez isso Susana? — Dizia agora chorando em desespero. – A Lúcia ela... ela não vai acreditar em mim.

Susana levou as mãos no rosto e finalmente desatou a chorar.

– Perdão Bob... – disse saindo correndo para dentro do castelo. Olhou para cima e viu Rabadash que acenava e sorria para ela. A raiva se misturou com a dor e ela queria muito se vingar de Rabadash, as lágrimas deixaram sua visão turva e ela esbarrava nas paredes, móveis e pilastras do castelo. Precisava de um refúgio, um esconderijo, um lugar onde Rabadash não fosse incomodá-la ou Susana o mataria com as próprias mãos, ela precisava de um ombro amigo, mas naquele lugar... quem?

Lembrou-se de alguém que poderia ser seu amigo e foi atrás dele. Pegou a chave que ficava pendurada do lado de fora e abriu a cela de Alvaro que estava acorrentado pelos pés, e pelas mãos. O estado do jovem era terrível, Susana ainda não sabia por que ele estava lá, Alvaro tinha marcas de chicotadas por todo o corpo, as feridas do rapaz ainda sangravam e ele parecia um pouco mais magro e muito abatido. Mas dentro da cela escura e fria Alvaro viu que alguém tinha feridas mais abertas e expostas e que sangravam muito mais do que qualquer dor física. Susana caminhava devagar até ele e ia soltando as palavras de qualquer jeito.

– Ele vai me odiar pra sempre... sempre – dizia sussurrando baixo. – mas Alvaro percebeu do que se tratava, sabia que seu pai tinha aprontado mais uma, e que a dor de Susana era dor de amor.

Ele abriu um pouco os braços e se esforçou para dar um leve sorriso fazendo sinal para que ela o abraçasse. Susana captou a mensagem e praticamente se jogou nos braços machucados do rapaz, que a acariciava como se ela fosse uma criança.

– Eu o perdi pra sempre. Eu perdi a minha vida, perdi tudo, o que eu mais amava.

– Eu entendo muito bem de perdas – dizia se lembrando de Anna.

– O que eu faço? O que Alvaro? – perguntava aninhada nos braços do rapaz.

– Chora! Lave a sua alma. – E Susana o fez sem a menor dificuldade encharcando o colo do rapaz.

Caspian caminhava tão lentamente como se não soubesse mais andar. Sua cabeça girava e a alma ardia e doía em seu peito, a maior dor quem sentia era ele. Mas ainda não havia chorado, ainda não era a hora, ainda precisava fazer uma coisa. Colocou a mão no bolso e apertou a carta amassando-a como se estivesse esmagando todos os seus problemas.

O coração de Lúcia já estava bastante amolecido, sentia falta de Robert, sua família parecia que estava voltando a ser a mesma de antes. Roberta estava dormindo e Lúcio tinha ido visitar Bri, Lúcia refletia bastante entusiasmada na rede, quando o chamado de Caspian a despertou.

– Caspian tudo bem? – perguntou preocupada com as feições de Caspian que estava com o olhar sombrio.

– Posso entrar? – perguntou calmamente.

– Claro entre. Aconteceu alguma coisa? Não me diga que o Edwar...

– Ninguém morreu. Ou melhor, para mim alguém morreu sim – falava com movimentos faciais que mais pareciam de um robô. – E acho que para você alguém vai morrer também. – As palavras de Caspian fizeram Lúcia se arrepiar.

– Cruzes Caspian, o que você quer dizer com isso?

– Toma – disse tirando a carta amassada do bolso – Leia isso.

Sem entender nada Lúcia começou a ler devagar letra por letra. Ao chegar a parte que lhe interessava, ela passou a balançar a cabeça levemente como se não conseguisse acreditar no que estava lendo.

– Mas o que é isso? – exasperou-se acordando Roberta que decidiu ficar na cama ouvindo tudo.

– A verdade. Você estava certa Lúcia, e eu achava que estava louca. Isso mesmo, nós estamos sendo traídos.

– Cala a boca Caspian. Nunca mais diga uma coisa dessas.

– Não é nenhuma mentira Lúcia, eu descobri tudo. Susana e Robert tem um caso, se amam e sempre se amaram.

– Para com isso – começava a enlouquecer e Roberta se assustava com o que ouvia. – Isso não tem graça Caspian, não se brinca com uma coisa dessas. Eu devo estar mesmo louca, eles... eles jamais fariam uma coisa dessas, Susana é minha irmã. Eu não acredito – ia perdendo a voz.

– Mas é melhor acreditar, chega de se enganar Lúcia, eles não merecem o nosso sofrimento. Anna e Carlos são filhos do seu marido Lúcia, do seu marido e da sua irmã.

– Para – gritava tapando os ouvidos – Eu não quero ouvir mais nada, mais nada, saia daqui.

– Fomos enganados durante todo esse tempo Lúcia, Susana não presta. Ela disse na minha cara que o amava.

– Sai daqui, me deixa, sai daqui – dizia batendo no peito de Caspian tentando empurrá-lo para fora de sua casa. Caspian a segurou pelos pulsos com força tentando acalmá-la, pois ela estava em choque.

– Eu vi os dois se beijando Lúcia – gritou mais alto que ela fazendo-a voltar a si – Eu também não quis acreditar, fui atrás dela no castelo e os vi juntos no jardim se beijando apaixonadamente. Ela me confessou tudo com muito desprezo, todas as partes, principalmente da paternidade de Robert.

– Não. É mentira, é um engano eu estava errada, o Bob não faria isso comigo. Ele me ama. Me ama muito eu sei disso, eu sei que a gente se afastou, mas ele me ama e nós vamos retomar nosso casamento.

– Não Lúcia, não – abaixava a voz – Por mais que doa e seja difícil de aceitar, nós temos que fazer isso. Eu te juro que meu maior desejo era que tudo isso fosse só um pesadelo, e que depois vamos acordar e tudo estará bem de novo, mas não é, é a realidade.

– Robert e Susana nunca se separaram de verdade, eles continuam juntos, se amam. É a verdade Lucy, eu jamais inventaria uma coisa dessas, você sabe o quanto amei sua irmã e ninguém está sofrendo tanto quanto eu. Estou sofrendo por tudo o que vivi, o que eu li, o que eu presenciei a pouco, pela conversa que tive com ela, e por estar te contando isso, por ver seu mundo desabar junto com o meu. E só deus sabe o quanto eu vou sofrer toda vez que olhar para aqueles meninos e saber que eles não são os filhos que eu tanto amava, o quanto eu vou sofrer quando eles disserem o nome da mãe deles perto de mim, o quanto eu vou sofrer quando eles descobrirem toda a verdade.

Lúcia que parecia estar anestesiada, acabava de sair daquele terrível estado de choque, e percebeu que Caspian tinha razão. Todas as desconfianças que ela tinha eram verdadeiras, ela sempre teve razão, não tinha motivos para se assustar tanto se no fundo já conhecia a dura verdade.

– Adeus Lúcia eu já vou indo. – Caspian conseguiu falar de Susana e tudo o que ocorreu ainda sem chorar, mas toda a sua resistência estava acabando.

A pobre Roberta que ouvira palavra por palavra mordia os lenções tentando abafar os soluços e o choro. Lúcia voltara a deitar-se na rede, não esboçava nenhuma emoção, não chorava nem nada, estava séria, afinal já tinha chorado tudo o que precisava há muito tempo, desde que começou a desconfiar do amor do marido por sua irmã, Caspian apenas confirmou o que ela já sabia.

Poucos minutos depois Robert tinha chegado lá. Chamou do lado de fora, mas ninguém atendeu, Roberta sabia que a casa ia desmoronar e Lúcia continuava imóvel em sua rede, até que o esposo resolveu entrar.

– Lúcia... – disse sem obter uma resposta, tinha quase certeza de que Caspian já havia passado por lá. Mas Lúcia logo quebrou o silencio.

– Eu queria muito que você voltasse... pra essa casa – disse suspirando sem fita-lo. E por algum tempo Robert se sentiu aliviado e foi se ajoelhar em frente dela que estava sentada na rede.

– Olha Lucy – seu sorriso nervoso se desfez depois de ouvir a resposta.

– Como eu disse, eu queria – disse agora virando-se para ele – não quero mais. – falou com uma frieza tão grande que ninguém jamais poderia imaginar algo desse tipo vindo de Lúcia.

– Deixa eu explicar...

– Eu não quero ouvir nada. Desapareça da minha casa, suma da minha vida e nunca mais chegue perto dos meus filhos. – dizia serenamente sem se alterar, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

– Eu sei que você tem todos os motivos para pensar que eu te traí, mas eu te amo Lúcia e você sabe muito bem disso – Bob se explicava rápido e levantou-se rapidamente segurando Lúcia pelos braços.

– Me solta, eu não quero mais saber de você e nem daquela outra.

– Lucy, minha Lucy, me escuta, tudo não passa de um mal entendido. Deixa eu te ajudar a compreender.

– Compreender o que Robert Cooper? – agora ela perdeu todo o controle. – Que você ama a Susana? Vai atrás dela vai. Eu não vou me importar, não me importo mais, nada pior pode me acontecer. Eu fui apunhalada pelas pessoas que mais amava na vida.

– Olha pra mim Lúcia – Robert segurava o rosto de Lúcia nervoso, pois não sabia como convencê-la – Eu nunca te traí, eu te amo demais, e o que eu senti um dia pela Susana não foi amor, foi admiração, amor eu só senti por você.

Lúcia ficou furiosa e deu um forte tapa na cara de Robert – Esse é seu e esse outro dela – e deu mais um, que daria em Susana se a visse de novo.

– Lúcia tenta me compreender – dizia Bob segurando os braços dela, Lúcia não parava de bater nele e esbofeteá-lo – Me ouve Lúcia, pelo menos uma vez me escuta, acredita em mim – pedia cansado daquela luta.

– Quem tem que me escutar é você. Eu é que tenho muitas coisas pra te dizer – Lúcia o empurrou contra a mesa quebrando vários objetos de vidro. E Roberta não conseguia mais esconder o choro e os gemidos, assustando Robert.

– Lúcia para com isso a Roberta está aqui. – Mas Lúcia continuou a bater nele e esmurrar o peito de Robert chorando com muito rancor – Para com isso Lúcia, vamos conversar. Você vai se machucar desse jeito.

Tentando conter a fúria da esposa sem querer Robert acabou derrubando Lúcia que caiu por cima de um cacos de vidros o que a machucou bastante, fazendo-a gemer e assustando Roberta.

– Para com isso mamãe. Cuidado! – pedia a garota saindo da cama.

– Sai daqui Roberta, vai para a casa de seus avós, de quem seja, mas saia daqui que eu tenho que resolver coisas com seu pai. – Lúcia se levantou e voltou a esmurrar Robert que apenas se defendia.

– Lúcia você vai acabar se machucando de verdade.

– Não mais do que você me machucou – dizia chorando sem parar.

– Você está assustando a nossa filha Lucy, a Roberta não deve ver isso.

– Sai daqui e eu paro. Vai embora Robert.

– Não. Eu não saio daqui até você me ouvir.

– Eu não quero saber – disse vermelha – Acabou Robert. Eu já disse que acabou.

Robert fez uma cara de desgosto e de decepção.

– Sabe de uma coisa Lúcia? Agora quem não quer mais sou eu. Chega, estou cansado de ser o último na sua vida. Estou cansado de correr atrás de você. Você não me deu a chance de me explicar, nem me deu a chance de entender por que se afastou de mim, você é que se cansou da nossa história e me acusou de traição, quem devia se sentir traído era eu, porque eu sim fui deixado pra trás sem motivo nenhum. Mas sabe porque eu nunca pensei nisso? Porque eu te conheço e te amo, e mesmo que isso fosse verdade eu te perdoaria, porque meu amor é muito maior do que o maldito orgulho. E você? O que você fez? Me acusou diversas vezes, colocou pessoas inocentes no meio. Nada dói mais que a desconfiança e eu não merecia isso Lúcia. Me cansei de só te dar amor e não receber nada em troca, você não me ama porque se me amasse não faria isso. Eu me arrependo de ter te amado tanto, de tudo. Eu não quero mais isso pra minha vida e nem pra vida dos nossos filhos, nós só estamos nos fazendo mal, eu não quero mais.

– Você não me engana Robert, eu não acredito em nenhuma de suas palavras. Pode ir vai, não vai fazer falta, você só me trouxe sofrimento, desde a minha juventude.

– Um dia Lúcia... uma dia você vai se arrepender de tudo isso, mas aí já vai ser tarde demais, porque eu não vou voltar pra você. Um dia você vai procurar o meu perdão, mas não vai encontrar.

Lúcio que havia chegado na mesma hora em que Lúcia havia empurrado Robert contra a mesa, observava tudo paralisado, sem saber como agir, sem acreditar no caos em que sua casa se encontrava. Depois que Roberta se levantou da cama, correu até ele que a abraçou e ficou escutando o final da discussão dos pais. Lúcio acreditava e apoiava o pai em tudo o que ele dizia.

– Por que está fazendo isso mãe? Meu pai não fez nada. – defendia soltando-se de Roberta, mas Lúcia fingiu que ele não estava lá.

– Eu nunca vou te pedir perdão, nunca. Odeio você e a Susana e nunca mais quero voltar a Vê-los. Nunca mais correrei atrás de você...

– Correr? – gritava extremamente aborrecido. Quem sempre correu atrás de você fui eu.

– O que mais eu tenho que dizer para você sair das nossas vidas de uma vez? – perguntava impaciente e nervosa.

– Nada. Nunca mais quero ouvir nada de você. Mais não vou sair da vida dos meus filhos...

– Quais? Quais deles? – gritava feita louca.

– Como assim? Do que ela tá falando pai? – perguntava Lúcio mais nervoso que os dois juntos.

– Não Lúcia, não fale isso. – pedia balançando a cabeça. – Não encha a cabeça do menino com...

– Então vá de uma vez.

– Não mãe para com isso. Meu pai não vai sair daqui.

– Como quiser Lúcia. – e Robert tentava ignorar os pedidos de Lúcio e o choro de Roberta.

– Fica pai, fica. – Pediu o garoto agarrando a camisa do pai. – Não deixa ele ir mãe. Não deixa por favor, eu não aguento mais isso.

– Me solta Lúcio, eu tenho que ir. – disse Bob por fim se soltando do garoto e indo. Se ficasse poderia fazer alguma besteira.

– Vai atrás dele – chorava e gritava ao mesmo tempo para Lúcia apontando para Robert que ia embora, como se ordenasse que a mãe trouxesse seu pai de volta. – Por que você está estragando tudo mãe? Agora que meu pai começou a gostar de mim. Por que?

– Cala essa boca Lúcio. Cale-se. Me deixem sozinha. – pedia com as mãos na cabeça.

– Você é uma louca. E agora quem te odeia sou eu, e se quer ficar sozinha, saiba que vai ficar assim pra sempre. – Gritava o mais alto que podia, e abandonou a tenta revoltado, sendo seguido por Roberta, que não estava do lado nem do pai e nem da mãe, agora a menina só sentia desprezo por sua família.

Lúcia imediatamente se jogou na cama e gritava com o rosto afundado no travesseiro. Batia os pés na cama e os punhos serrados no travesseiro. Mordia o lençol com força e arrancava alguns fios de cabelo com as mãos.