III

Saga abriu os olhos, depois de ter ficado uma vez mais inconsciente pelo efeito do remédio que lhe deram. Porém a droga não lhe fora de todo ruim – apesar de alguns flashes disformes em seus sonhos ele conseguira descansar, sua mente agora estava mais afiada e menos confusa.

Hora de começar a coletar dados, então.

Olhou para o quarto onde estava – era definitivamente o quarto de uma casa civil. Cama tradicional, grande e espaçosa; lençóis brancos, móveis por todo o quarto. Tocou de leve sua nuca, sentindo que os longos cabelos que sempre cultivara agora estavam pela altura do pescoço. Suspirou longamente, posto que os cabelos abaixo da cintura eram uma de suas vaidades, mas sabia que eram um traço incomum fora do Santuário. Seus braços estavam com arranhões e marcas roxas, assim como seu torso. Esperava por isso, afinal de contas o que lhe contavam é que tinha batido seu carro.

Mas o que o assustava não eram as marcas que via – era o que não mais estava lá: as pequenas cicatrizes no tórax, nos braços e nos nós de seus dedos, evidências indeléveis do seu treinamento para se tornar um cavaleiro de ouro.

Engoliu em seco, respirando pausadamente para tentar controlar o nervosismo que fazia seus dedos ficarem gelados.

Levantou-se e foi até o banheiro, sentindo o corpo protestar ao ficar de pé. Lá se viu no espelho: Os cabelos estavam realmente mais curtos, e seu rosto, marcado por alguns hematomas e escoriações. Mas, fora isso, não havia nada muito diferente do que se lembrava. Seu físico seguia esguio porém musculoso, e tirando a rigidez pela dor no corpo continuava sentindo que era forte e flexível. E era isso que o assustava – apesar de tudo ao seu redor estar tão diferente, ele ainda se reconhecia, ainda era ele; algo diametralmente oposto das possessões onde seu lado escuro o trancava dentro de si e controlava cada um de seus atos. Antes era ele quem mudava, e Saga era apenas um espectador de si mesmo praticando os mais horrendos atos através da presença estranha em si. Agora... Era ele mesmo, seguia sendo ele mesmo, mas nada correspondia ao que se lembrava, era como se tivesse acordado em outro mundo onde nada de seu poder, do poder de Gêmeos, tinha alguma utilidade.

Por isso pensava que aquilo não se devia ao retorno de seu lado escuro. Não seria possível que ele fosse aprisionado em uma ilusão assim por si mesmo.

Voltou até o quarto, continuou procurando por pistas.

Mexendo nos armários, viu vários ternos, muitas camisas, gravatas, sapatos. Tudo de boa aparência, o tecido dos ternos suave ao toque – lã de boa qualidade, devem ter custado bastante dinheiro. No outro armário, roupas casuais, tênis, raquetes, faixas elásticas, várias quinquilharias que pareciam ter a ver com algum tipo de treinamento esportivo.

Isso não o surpreendia, mas o deixava preocupado — se encaixava à perfeição dentro do cenário da ilusão que fora criada. Sinal de que o arquiteto dela não era um amador. Ele, que era um mestre das ilusões, tinha que admitir que aquela ilusão era muito bem feita até mesmo para seus padrões. E isso era um péssimo sinal.

Foi então até a escrivaninha, onde estavam alguns porta-retratos, e sentou-se no chão para revirar as gavetas. Nelas, vários papéis, cadernos, impressos diversos cujo conteúdo não conseguia reconhecer.

E também mais fotos, várias fotos dele mesmo.

Sim, era ele, sentia que aquelas fotos eram do que correspondia ser a projeção de si mesmo nessa ilusão, mas não conseguia se reconhecer nelas. Havia algumas onde estava bem jovem, com cerca de dez ou doze anos, e sorria para a câmera com os lábios e os olhos. As outras eram mais recentes: Em algumas estava de terno e gravata, de cabelos ora mais curtos, ora como estavam agora. Em outras estava junto com Aiolos, vestindo roupas casuais.

E nessas fotos recentes, em todas elas, mantinha no rosto uma expressão distante que desmentia os eventuais sorrisos. Mas isso – esse ar melancólico de quem sorri por obrigação – não lhe era estranho, nunca fora. Sua vida nunca lhe fora pródiga em motivos para sorrir.

Por isso lhe doía tanto ver a si mesmo como a criança sorridente que nunca foi.

Uma das fotos lhe chamou a atenção – um casal jovem, com um bebê no colo e uma criança parecida com Aiolia, porém mais magra. Nunca os tinha visto, mas reconheceu que a criança parecia ser Aiolos. Em outra foto, uma mulher muito parecida com a jovem mulher da outra foto, a única diferença visível entre as duas era o corte de cabelo. Era, então, provavelmente irmã gêmea dela. Tirou a foto de sua moldura e leu nas costas o nome escrito: Leda Tiropoulos.

O nome de sua mãe, que conhecia apenas pela certidão de nascimento.

Abriu outra gaveta da escrivaninha, e viu então a mulher que estava na foto com o menino que pensava ser Aiolos, mas sem o homem ao seu lado e toda vestida de negro. O bebê agora era uma criancinha de colo.

Nas costas da fotografia, estava escrito “Madrinha Athina, aniversário de dois anos de Aiolia”.

Era sua letra.

Lembrou-se das palavras de Aiolos, ainda que muito do que ouvira permanecesse nebuloso em meio ao embotamento induzido pelos medicamentos. Aiolos o chamara de primo, sangue do seu sangue. Então era isso, sua mãe era irmã gêmea da mãe dele?

Sentiu o nervosismo crescer em si, mas continuou tentando se concentrar na história que as fotografias lhe contavam.

Na gaveta, mais delas: Aiolia vestido de leãozinho, com cerca de quatro anos de idade, os olhos verdes enfezados como se a foto tivesse sido tirada contra sua vontade. Mais fotos da mãe de Aiolos e Aiolia, em várias idades. Numa delas, ela estava com ele próprio, jovem e sorridente. Um cartão amarelecido de Dia das Mães tinha sua própria letra garranchuda dedicando-o à Dinda Athina.

Um raio cruzou sua mente, notando pela primeira vez a grande inconsistência de toda a história que se descortinava diante de si.

Pelo que percebia, naquela realidade ele era sobrinho da mãe de Aiolos e Aiolia; e pela ausência de outras fotos de sua mãe, sua memória de que ela morrera em seu parto devia ser correta. Portanto, pelas fotos em seu quarto, sua ‘tia’ o criara como mãe junto com seus filhos naturais.

Mas não havia, ali, nenhuma referência a seu irmão. Nada – era como se Kanon não existisse.

Isso não fazia sentido algum. Sim, porque numa realidade alternativa onde ele viveria uma vida civil, não haveria nenhum motivo para que a existência de Kanon fosse um segredo, como era no Santuário. Logo, mesmo que por algum motivo Kanon não estivesse ali, junto com Aiolos e Aiolia, ele pelo menos deveria estar presente nas fotos que lhe contavam a história da família.

Uma inconsistência da ilusão, só podia ser.

Ou não?

Porque certamente a realidade daquela ilusão era uma piada de péssimo gosto. Porque colocar ele, logo ele, como primo e irmão de criação de Aiolos e Aiolia era seguramente a pior das ofensas à memória de Sagitário...

Seu raciocínio foi interrompido no momento que Aiolia abriu a porta de seu quarto. Apesar de surpreendido, não deixou de perceber a surpresa – e a apreensão – nos olhos verdes do seu ‘primo’.

— Saga, o que você está fazendo?

— Estava... – Olhou para as fotos, pensando no que poderia responder sem levantar suspeitas e sem levar a si próprio para outra armadilha onde fosse aprisionado ou drogado novamente. – Eu acordei confuso, e estava olhando umas fotos...

Aiolia tomou de suas mãos uma das fotos, justamente a que ele aparecia vestido de leãozinho. Olhou-a longamente e riu apesar da melancolia em seus olhos – tão fora de lugar no Aiolia que conhecia.

— Eu me lembro disso. – Ele disse. – Era uma festinha à fantasia do colégio. Eu queria ir de pirata, mas... – Aiolia fez uma pausa, como se procurasse as palavras que iria dizer. — ...Me vestiram de leãozinho. Sabe como é, o cabelo cacheado parecia uma juba...

Saga notou o incômodo do outro, a voz rouca como se ele fizesse força para arrancá-la da garganta.

Uma pista, talvez, mas preferiu se calar por ora.

— Você está melhor, Saga?

— Eu acho que sim...

— Bom, muito bom. – A voz de Aiolia parecia recomposta. – Saga, eu vou precisar sair. Você vai ficar em casa, por ora é melhor que você fique por aqui até que o pessoal se acalme com o lance do carro, certo?

— Tudo bem. – Saga assentiu. – Eu estou bastante dolorido, também...

— Claro que está. – Aiolia sorriu. – Mas... Você promete que não sai daqui, né? O Aiolos já deve estar pra chegar.

— Sim, claro. – Assentiu de novo, se despedindo do outro.

Assim que se viu sozinho, começou a andar pela casa.

Era um casarão antigo, com vários cômodos, mobília refinada e tradicional. Muito diferente do estilo a que estava acostumado no Santuário, é verdade, mas até para ele estava claro que, naquela ilusão, sua família tinha posses. Outra ironia – porque até onde ele sabia, parente algum o havia reclamado junto com seu irmão e eles foram parar no Santuário por total falta de opções.

Ali, não: Não só a casa depreendia seu valor, como também as muitas fotos mostravam que era a família de sua mãe e sua tia quem tinha as posses que ele e seus primos pareciam ter herdado. Muitas fotos mais o aguardavam – desta vez, das duas irmãs crianças, seus avós, fotos dele quando criança, fotos de Aiolos, fotos de Aiolia.

Uma foto lhe chamou a atenção – Uma de si mesmo adulto com cabelos curtos e bem penteados, de terno e gravata aparentemente recebendo um prêmio. Embaixo, uma nota de jornal recortada onde se lia: “Saga Tiropoulos e Aiolos Thalassinos, beneméritos curadores da Fundação Santuário, recebem homenagem pelos inúmeros serviços prestados à preservação da memória da península Ática através dos valiosos estímulos à arqueologia e estudos sobre a Grécia Antiga”.

‘Fundação Santuário’ – Ele repetiu, engolindo em seco. E seguiu procurando por pistas.

Achou mais fotos, e alguns documentos. Neles, reconheceu vários dos nomes: O nome verdadeiro de Aldebaran, o nome verdadeiro de Afrodite, o nome verdadeiro de Máscara da Morte. Todos listados como colaboradores da tal Fundação Santuário.

E Shion... Lá estava Shion. As sobrancelhas ralas mimetizavam os pontos em sua testa, mas de resto sua aparência era tão exótica quanto se recordava – rosto de mestiço tibetano e grego. Aparentemente era um parente distante de sua mãe e sua tia, e foi o antigo curador da Fundação – cargo que agora era ocupado por ele e Aiolos.

Suas mãos tremiam, os dedos formigando de nervoso.

Não podia se perder. Não teria oportunidade de se dar a esse luxo.

Nas fotos reconheceu Mu de Áries, que parecia ser parente de Shion. Reconheceu também Camus de Aquário, Shaka de Virgem e Milo de Escorpião, este último com cabelos curtos e aparentemente tratando Aiolos de forma amigável, mas aparentemente sem relação direta com a fundação.

‘Amigo de Aiolia’, um pensamento avulso cruzou a sua mente; e ele o freou sobressaltado.

Jogar esse jogo – o de embarcar na ilusão – era perigoso, ele sabia; mas não podia permitir que a ilusão tomasse o melhor de si.

Até então, toda a história parecia bem amarrada; estava difícil encontrar um furo para explorar a ilusão e demonstrar sua fragilidade. Essa seria a chave para sair da armadilha e expor o seu algoz.

Por tudo que aprendera até agora, naquela realidade ele parecia ser um executivo ou curador de uma fundação importante, herdeiro de posses e psicologicamente instável a ponto de atentar contra a própria vida. Aiolos, Aiolia, Shura, Shaka e outros cavaleiros de ouro se apresentariam como parentes, amigos e conhecidos, todos eles a postos para vigiá-lo e neutralizá-lo a qualquer sinal de que ele se aproximasse do real criador de toda a ilusão.

Porém, nem mesmo as projeções de Aiolos e Aiolia pareciam ter inconsistências. Tudo parecia ter sido planejado nos mínimos detalhes.

Exceto a ausência de Kanon, como se sua existência tivesse sido apagada por completo.

Era o único elo fraco de toda a história.

A propósito, onde ele estava?

Como poderia encontrá-lo? Como explorar esse ponto falho sem parecer insano ou levantar suspeitas? Aiolos era um de seus pontos fracos, e aparentava encarnar um papel superprotetor.

Mas Aiolia não.

E de todos que ouvira conversar... Aiolia era o que parecia mais descontrolado.

Começaria então por ele, estava decidido.

OOO