Música e Bicicleta

1 "Bicycle Song" - Red Hot Chili Peppers


A garota vinha, com seu fone de ouvido, dançando, alegre, completamente alheia a tudo o que se passava ao redor. Ela tinha um jeito cativante, de quem parece ser dona do mundo e, ao mesmo tempo, isenta de qualquer responsabilidade sobre todas as coisas.

Ela vestia um blazer azul-marinho talvez grande demais para o seu tamanho, tênis vermelhos, uma gravata preta por cima da blusinha branca. Essa era a sua combinação preferida, que ela oscilava ora usando com uma calça jeans, ora com uma saia preta.

Eu sempre a via passar por ali e, na verdade, não sei quando exatamente eu comecei a esperar por ela. Entretanto, de uns tempos para cá, isso se tornou rotina. Saio da faculdade, subo na minha bicicleta, venho para esse parque e me sento aqui, sobre esse banco de pedra. Observo o movimento, parecendo mero espectador.

É engraçado. Definitivamente, eu não sou espectador. Sempre fui protagonista da minha vida. E sempre agi como tal.

Mas é diferente agora. Um tanto inexplicável e eu, sinceramente, não faço tanto o tipo que busca compreender demais. Eu sigo. Se um impulso me empurra, eu vou. Se um desejo me norteia, eu caminho até ele. Simples assim.

Ela dança, tão compenetrada e também tão displicente. Ela não quer impressionar, talvez seja isso que tanto me atraia nela. Enquanto caminha, brinca com os pés, enquanto vai cantarolando o que escuta. Torna-se centro da minha atenção. Eu passo a ver apenas a ela, mas ela não me vê. Nesse breve momento em que ela passa por mim, consigo notar que não devo que ser mais que um mero borrão no seu campo de visão.

Ela está curtindo, vivendo o momento. Quem sou eu para atrapalhar?

Embora rápido, eu aguardo ansiosamente por esse momento. Na verdade, sinto até mesmo falta dos dias em que não posso vê-la. Afinal, nem sempre ela faz esse caminho e nem sempre posso estar aqui.

Subo em minha bicicleta, após a passagem luminosa dela, e vou para casa. Nessas horas, eu sempre ouso um pouco mais. Velocidade muito maior do que a costumeira. Solto o guidão, abro os braços... Uma vez, o sol batia tão gostoso na minha cara, que fechei os olhos, apenas para absorver aquele calor com mais intensidade.

Um pouco de loucura, eu sei. Mas, novamente, não é algo a se explicar.

Eu sou protagonista da minha vida. Não tenho dificuldades em me aproximar das garotas. Às vezes, nem preciso me aproximar; elas vêm até mim. Eu curto, elas curtem. Todos saem ganhando.

Não há qualquer motivo para reclamar. Elas querem histórias para preencher as páginas de um diário. Eu quero histórias sobre as quais eu possa escrever. Arte tem muito disso. O que você vive, o que você sente, é o que você passa da melhor forma para o papel. A minha música tem sangue correndo e pulsando, porque ela é viva.

Ela gostaria das minhas músicas? Acredito que sim. Meu estilo bate com o dela.

Minhas canções são criadas enquanto eu ando na minha bicicleta. Indo para a faculdade, ou à caminho da casa de algum amigo... Às vezes, simplesmente, andando a esmo, sem rumo definido, é quando as letras me surgem vividamente. É nessas horas que a inspiração me vem. E eu vou andando, seguindo, em um ritmo tranquilo, cadente, conhecido, esperado. A bicicleta vai rodando e eu vou viajando nas minhas músicas.

Música alguma me vem à mente depois de vê-la. Nunca. Ou melhor, uma aglomeração de imagens e sensações se forma e eu me sinto afundar nelas, sem compreendê-las ao certo.

E quem se importa em compreender?

Flores, botões-de-ouro. Amarelo; é sempre essa a cor que fica. Um amarelo vivo, um amarelo-ouro. Luz, claridade, calor. Mas nada de palavras.

E é essa sensação que me faz sentir a vontade inexplicável de me jogar, de ir fundo, de ultrapassar algo que desconheço. De pedalar enlouquecidamente, como se buscasse ir além.

Ah. Lá vem ela.

Mais um dia.

Mais uma vez.

Dançando, sorrindo. Cantando. Brincando.

Eu quero ser parte disso. Dessa diversão. Dessa sensação.

— Oi.

Ela não teve como não me ver. Parei em frente a ela; interceptei o seu caminho. Fiz um gesto rápido, cumprimentando-a simpático. Sorri. Não foi forçado. Eu realmente sorria, porque sentia que queria.

— Olá. – ela respondeu, com um ar de curiosidade nos olhos. Enquanto retirava os fones dos ouvidos, olhava para mim, analítica. E parecia me descobrir muito mais do que eu tinha descoberto nela, durante todo esse tempo.

— Quer ver um filme comigo? – eu soltei, de repente. Apressado. Não medi o que dizia. Estava voltando a ser protagonista da minha vida?

— Ver um filme? Com você? – ela repetiu, parecendo incerta. Fazia sentido. Ela nem me conhecia. E, na verdade, nem eu a ela.

— É, um filme. Como em um encontro. – respondi, ainda surpreso com a certeza das minhas palavras.

— Encontro? Sei. – ela ainda me analisava. Eu não era um tipo suspeito, mas acho que ela estava em seu direito de me olhar daquela forma, da cabeça aos pés, como se tentasse enxergar algo que não estivesse à mostra superficialmente.

— Tem um cinema aqui perto. É muito bom.

— Eu conheço. – ela respondeu, com um sorriso singelo começando a transparecer no seu rosto – Costumo frequentá-lo bastante com os meus amigos.

— Então?

— Está bem.

Inusitado, até para mim. Eu tinha o hábito de chamar garotas para sair e não costumava ser difícil. Mas o ocorrido de agora era estranho. Não sei exatamente o porquê.

Talvez porque fosse ela.

Chegamos ao local, escolhemos o filme. Entramos na sala de cinema. Tudo isso dentro de uma naturalidade constrangedora.

Nosso gosto realmente era parecido. Talvez viesse daí a facilidade de se estar na presença um do outro.

O filme começou, o cinema estava razoavelmente cheio. Eu sabia que agora era um bom momento para dizer algo. Talvez um comentário inteligente. Impressionar, demonstrar que também eu tinha algo que poderia encantá-la, assim como ela já fazia comigo, sem que nem ao menos soubesse.

No entanto, eu não consegui. Não me saiu nada. As palavras pareceram ficar estancadas na garganta. Eu tinha muito a dizer, mas nada vinha à tona. As palavras se perdiam e eu me senti angustiado. Como poderia ser?

Diante de um filme sobre o qual eu poderia tecer tantos comentários, fiquei mudo. Ela também não disse nada, mas ora... Eu a convidei. Certamente, ela esperava que eu dissesse ou fizesse algo.

Não consegui. E o momento passou. Eu queria que esse filme durasse para sempre, mas ele me pareceu muito mais curto do que deveria. Assim, muito antes do que eu gostaria, eu me vi dizendo um apático e frustrante “Tchau” para ela.

Esse evento me foi muito marcante. Depois desse dia, os encontros ocasionais deixaram de me interessar. Encontrar material para minha música deixou de ser tão importante. Eu simplesmente não compreendia o que se passava comigo.

Até que, um dia, eu ouvi uma canção. Era uma como tantas outras, mas me fez lembrar dela. Era sobre uma garota. Uma garota especial.

Existem diversas músicas assim. E, curioso, resolvi ir atrás de tantas quantas me fossem possíveis nesse mesmo estilo, para averiguar se o que se passava era mera coincidência.

Não era.

Por isso, voltei ao parque. Voltei para o meu banco de pedra.

Havia algum tempo que eu não ia mais lá. Desde o encontro que dera tão completamente errado, eu tinha abandonado esse posto...

Estava quase na hora. Daqui a pouco, ela estaria passando por ali...

E aí, como sempre, ela apareceu. Dançando e cantando; tão inteiramente ela.

O dia pareceu se tornar mais claro. A visão dela era realmente luminosa.

Ela vinha caminhando assim, quando seu olhar cruzou com o meu.

Sorrimos.

— Oi. Há quanto tempo! Nunca mais vi você por aqui.

— É, eu... – levei a mão à nuca enquanto começava a falar, sentindo o nervosismo e o calor daquela luminosidade que se expandia dela.

— Antes, eu via você quase sempre por aqui. Parou de vir só por causa daquele encontro? – ela indagou, do jeito mais tranquilo que poderia haver.

Então, ela havia me notado? Fiquei sem reação e isso a fez rir:

— Se você quiser, a gente pode tentar uma segunda vez. – ela disse, com os olhos irradiando um brilho hipnotizante.

— Quero. – respondi rápido, talvez por medo de que ela mudasse de ideia.

Começamos a caminhar, lado a lado. Não dissemos aonde íamos. Parecia que andávamos pelo parque, sem que desejássemos chegar a qualquer lugar de fato.

— Sabe, – comecei a falar, enquanto olhava meus tênis pretos, que chutavam algumas pedrinhas pelo chão – eu me lembrei muito de você nos últimos dias.

— Nos dias em que não veio me ver? – ela disse em tom divertido. Sim, ela tinha me notado por todo esse tempo... – E o que fez com que eu lhe surgisse na lembrança?

— Algumas músicas. Letras que falavam sobre você.

— Sério? Sobre mim? – ela soltou uma risada gostosa – Estou me sentindo lisonjeada. Que músicas são essas?

— Todas as que falavam de alguma garota especial. – ao dizer isso, com a voz incrivelmente calma, notei que a fiz ruborescer levemente – Em todas elas, eu enxergava você. Eu ouvia a música e via o seu rosto.

Ela não disse nada. Baixou os olhos também, parecendo sem-graça com meu comentário. Mas eu não podia parar agora. Eu sentia que finalmente as palavras fluíam. E sentia algo novo... Eu estava finalmente ultrapassando. Não sabia exatamente o quê, mas eu sentia que finalmente atravessava barreiras que me cercaram por tanto tempo. Eu queria conhecer esse outro lado.

— Seu rosto é todo um verso. Seu rosto é um sentimento puro, e sobre ele se escrevem os melhores versos. Se bem que eu tenho sorte. Eu fui o primeiro a notar esse verso que se desprende de você.

— E que verso é esse...?

— O verso que fala sobre a sua beleza. Uma beleza que é feita de botões-de-ouro, dias ensolarados, perfume de primavera e passeios velozes de bicicleta.

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Bicycle Song (Red Hot Chili Peppers)

Here she comes in a suit and tie

Shepard's bush and a leopard's pie

She marching to the funky beat of

James Brown and his dancing feet

Gonna set your fish on fire

Pistol whipping of desire

So please do not resist your fate

I'll pick you up yes it's a date

How could I forget to mention the bicycle is a good invention

Sitting there in a silent movie

Beside the only girl who really ever moved me

Happy days but sad I'm facin

Heaven knows that I'm on the case

How could I forget to mention the bicycle

Somebody told the world

The beauty of your verse

My girl I heard it first

The beauty of your verse

A sticky finger and a wicked taste

Gotta a lot of love and a lyrical case

Be sure to write it in your book

I promise not to look

Wanna smell your sunny face

Funny place but it's never a waste

I'd hop this fence to make amends

I hope this movie never ends

How could I forget to mention the bicycle is a good invention

Make it up makin you my business

A funny buttercup but I let her forgiveness

Happy days but sad I'm facin

Heaven knows that I'm on the case

How could I forget to mention the bicycle

Somebody told the world

The beauty of your verse

My girl I heard it first

The beauty of your verse

Somebody told the world

The beauty of your verse

My girl I heard it first

The beauty of your verse


[TRADUÇÃO]:

Canção da Bicicleta

Aqui vem ela de terno e gravata

Shepard's Bush e um Leopard's Pie

Ela está marchando na batida funk de

James Brown e seu sapateado

Vá assar teu peixe

Pistola chicoteando de desejo

Então, por favor, não resista ao teu destino

Eu vou passar pra te pegar, sim, isto é um encontro

Como eu pude me esquecer de mencionar que a bicicleta é uma boa invenção

Sentando lá, como num cinema mudo

Do lado da única garota que sempre mexeu comigo de verdade

Dias felizes, mas pareço triste

O céu sabe que eu estou no caso

Como eu pude me esquecer de mencionar a bicicleta?

Alguém contou ao mundo

Sobre a beleza do teu verso

Minha garota, eu ouvi primeiro

A beleza do teu verso

"Dedo leve" e um gosto horrível

Tenho muito amor e lirismo

Tenha certeza de escrever isso em teu livro

Eu prometo não olhar

Quero cheirar seu rosto ensolarado

Um lugar divertido, mas isso nunca é desperdício

Eu pularia essa cerca para arrumar algumas coisas

Eu espero que esse filme nunca acabe

Como eu pude me esquecer de mencionar que a bicicleta é uma boa invenção

Inventando-a e fazendo de ti o meu trabalho

Um lindo botão-de-ouro, mas eu a perdoo

Dias felizes, mas pareço triste

O céu sabe que eu estou no caso

Como eu pude me esquecer de mencionar a bicicleta?

Alguém contou ao mundo

Sobre a beleza do teu verso

Minha garota, eu ouvi primeiro

A beleza do teu verso

Alguém contou ao mundo

Sobre a beleza do teu verso

Minha garota, eu ouvi primeiro

A beleza do teu verso.

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