Múnus
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Então decidi escrever algo dramático pra "comemorar". :P
Essa one é a recriação de uma das cenas do anime.
Certa vez ele perguntou:
— Você não cansa de treinar?
Lenge, a mulher que socava com afinco o tronco da árvore, nem mesmo parou sua atividade ou virou rosto para responder.
— Caia fora! Você está atrapalhando meu treinamento!
— É sério. Todo dia é a mesma coisa. Você deveria tentar relaxar um pouco de vez em quando.
— Me desculpe — Ela parou e franziu o cenho. Olhando para o alto, na direção do homem sentado nos galhos da árvore ao lado e continuou — Se eu levo nosso treino como guardiões a sé-
A frase morreu no meio de sua garganta. Uma flor voou e pousou de forma suave em sua orelha.
— Ponto pra mim. — Mariichi deu uma piscada na direção da mulher.
Lengue manteve a pose austera e o olhar severo.
— Alguma vez eu já lhe disse que gosto desse seu olhar intenso? Você é linda de qualquer jeito, mas quando faz essa cara, fica mais bonita até que a própria Vishnu.
A mulher corou com o elogio, porém não arredou o pé. De forma alguma ia dar satisfação para aquele bufão disfarçado de soldado. Catando do chão a primeira coisa que conseguiu encontrar no chão, arremessou um pedaço de galho seco na direção do homem.
— Me deixe em paz!
O objeto rodopiou em alta velocidade e foi na direção do homem. Mariichi, manteve o sorriso convencido e a pose despreocupada até o último instante. Bem no último segundo, desviou e desapareceu, deixando para traz o som de sua risada. Não era uma de deboche, apenas uma risada de alguém de pareceu se divertir com a situação.
Aquela situação era comum ao dois. Mariichi aparecia esporadicamente para fazer um comentário, um elogio e logo depois ia embora.
Ele estava sempre lá.
A última vez que se encontraram foi fora do Palácio Celestial, em um lindo campo florido debaixo de um céu estrelado.
— Por que me chamou aqui? O que quer comigo, Mariichi ? — Ela perguntou querendo ir logo ao assunto.
Deitado no chão e observando a lua cheia no céu, o homem calmante fechou os olhos. Um brisa suave bateu em seu rosto. Ele suspirou profundamente. Não para preencher os pulmões com ar, mas sim o espírito com coragem. A decisão que estava para tomar era um de qual não haveria volta.
Abrindo os olhos, virou o rosto na direção da companheira de armas. Sob o luar, ela ficava ainda mais bonita.
Aquele local e toda a situação eram perfeitos para fazer uma declaração. E ele a fez.
— Pare de brincar comigo! Eu não tenho tempo pra ficar aturando esse tipo de coisa. — Foi a resposta dela antes de virar as costas para ir embora.
— E se eu te disser que eu não estou brincando?
Pela primeira vez desde que se conheceram, Lenge ouviu a voz de Mariichi em um tom que não fosse de brincadeira. Aquilo a fez a parar. Se ele estava falando sério, merecia, pelo menos, uma resposta.
— Eu sou uma guerreira de Vishnu. Você também é. Nós não temos tempo para o amor. Nosso dever vem acima deste tipo de coisa.
— Será mesmo?
A luz da lua que iluminava o campo foi momentaneamente bloqueada por um nuvem que passava.
— Você poderia jurar para mim, aqui e agora e em nome de Vishnu, que não está apaixonada por outro homem?
O som do vento passando foi a única coisa que pode ser ouvida durante um bom tempo.
Ela jamais poderia fazer tal juramento. O que ele dizia era verdade, embora ela tentasse negar com todas as forças. Lenge estava apaixonada por outro homem, um que ela sabia que nunca iria lhe retribuir tal sentimento. Ainda assim ela optou por ficar ao seu lado.
— Eu já entendi. Então acho que chegou a hora de eu partir. Eu vou seguir em frente. E não se preocupe, não irei mais atrapalhar o seu treino.
O campo voltou a ser iluminado e quando a mulher virou, ele já não estava mais lá.
Os dois só foram se encontrar novamente anos mais tarde, dias após ao atentado que transformou Vishnu em pedra.
Os Guardiões Celestiais foram divididos em dois grupos: os considerados traidores (que sabiam a verdade sobre o atentado), e as forças comandadas por Indra, o real mentor do ataque a deusa do mundo celestial.
A Rainha Nahla, seguindo suas obrigações e cega pela paixão por seu comandante, Indra, optou por acreditar nas palavras dele, mesmo que isso significasse ficar contra seus amigos.
O combate entre os ex-companheiros foi inevitável. Ironicamente, o confronto final foi em campo florido exatamente igual o da despedida.
— Eu estou pronto para dar a minha vida nessa luta, Lenge. Eu quero saber se você está pronta para recebê-la? — Mariichi a questionou, arma em punho.
— Eu não perdoarei ninguém que fiquei no meu caminho ou do mestre Indra. — Foi a resposta final.
Os dois lutaram com tudo que tinham. Momentaneamente, ambos deixaram para trás o sentimentos que antes os ligavam. Agora eram apenas dois guardiões lutando pelo que acreditavam.
— Vejo que todo aquele treino valeu a pena. Você melhorou bastante, Lenge. — Foi um elogio genuíno.
— Para alguém que não levava os treinos a sério, você está em excelente forma, Mariichi. — Ela replicou.
— Então está na hora de acabarmos com a brincadeira.
Mariichi deu um longo salto para trás para se afastar. Posicionando a arma em frente ao corpo, concentrou seu sohma e iniciou a mantra para soltar seu ataque mais poderoso.
O efeito do ataque foi quase imediato. Uma nuvem espessa começou a se espalhar. O campo florido sumiu e deu lugar a uma floresta negra.
Lengue viu as árvores da floresta se transformarem os criaturas grotescas de seus mais horríveis pesadelos. Ela gritava, balançava sua arma e disparava ataques com auxílio de seu sohma. Nenhum deles funcionava e ela rapidamente foi subjugada.
A derrota já era praticamente certa, até uma ideia surgir em sua mente. A ponta de sua arma, quase fina como agulha, foi usada para fazer um ferimento nas costas da mão. Ela sentiu uma dor lacerante, mas sorriu assim mesmo. Os monstros haviam sumido. O ataque do Mariichi afetava a mente do oponente e não seu corpo. Um choque grande, como a dor em sua mão, foi o suficiente pra anular o efeito da magia.
— Descobri o segredo de sua técnica, Mariichi!
— Não pense que é-
O homem não conseguiu completar a frase. Uma bolha de sangue subiu pela garganta e jorrou pela sua boca. Ele caiu de joelhos no chão, agonizando com a dor que sentia.
Lenge gritou o nome do ex-companheiro e quase entrou em desespero ao ver o sangue. Ela sabia o que era aquilo. Desde que Vishnu fora transformada em pedra, os habitantes do mundo celestial passaram a ser afetados pelo Mal dos Bolhas Vermelhas, uma doença sinistra e sem cura que em poucos dias levava a pessoa a óbito.
Mariichi havia contraído aquela doença. Ela sabia daquilo, Shurato lhe contou. Sabia que o tempo dele era curto.
Ao ver a dor do homem, perdeu a vontade lutar. Doía ver o ex-amigo sofrendo daquele jeito. Não é que não gostasse dele. Era confuso. Não sabia explicar.
— Lenge! — Gritou se pondo de pé — Eu lhe disse que lhe daria minha vida. Você vai aceita-la?!
Reunindo suas últimas forças, Mariichi partiu com tudo.
Lengue engoliu o caroço preso na garganta e baixou momentaneamente a cabeça. Ela se viu entre escolher o seu dever como guardiã e os sentimentos como mulher.
O breve impasse não demorou muito para ser resolvido, ainda que sua consciência teimasse em lhe mostrar imagens do passado, de todos os momentos em que viveu com o homem que corria para lhe atacar, o sangue nas mãos dele diziam o que ela tinha que fazer. Ele havia feito aquela escolha. Com convicção, levantou a cabeça.
Aquela era sua obrigação.
Seu sohma explodiu enquanto evocava a mantra para sua técnica.
Sem remorso algum, puxou a arma para trás e depois a trouxe para frente, descarregando todo o seu poder.
— Flor solitária de Nahla!
O sohma que saiu da arma tomou a forma de uma flor.
Uma flor mortal com serras de energia no lugar das pétalas.
Mariichi foi atingido em cheio. Ele nem mesmo tentou desviar. O golpe destroçou seu Shakti do mesmo jeito que seu coração fora despedaçado pelo silêncio anos atrás. Estranhamente, aquele golpe doeu menos do que ele esperava.
Ainda de pé, Mariichi penosamente se arrastou até sua amada, até ficar frente a frente. Com a arma em mãos, ergueu o braço, pronto para atacar com o pouco de força que lhe restava.
Lengue não moveu um dedo sequer. Ficou ali, parada e com a guarda totalmente baixa. Observava cada movimento do homem com os olhos banhados em remorso.
Ela não iria chorar pela vida tirada. Aquele foi o certo a se fazer pelo Mundo Celestial. Por ela. E por ele também.
A força lhe faltou. A mão não conseguiu mais segurar a arma e ela escorregou e caiu no chão. As pernas vacilaram. Ele iria cair e nunca mais se levantaria. Aquela foi sua escolha. No entanto, precisa fazer uma última coisa.
Antes do corpo tombar, envolveu a mulher em seus braços e a abraçou firmemente.
— Eu sempre esperei por esse momento, Lenge. Sempre quis sentir o calor do corpo da única mulher que amei…
A guardiã não respondeu ou sequer retornou o abraço. Ainda que chocada, ainda que sentisse o coração se espremido e perfurado por mil agulhas, manteve-se firme em suas convicções.
Ela não iria chorar.
— Sempre quis segura-la em meus braços, Lenge. Obrigado por permitir que esse pobre moribundo tivesse seu último desejo realizado.
Os braços perderam as forças e seu corpo tombou no chão.
Lenge fechou os olhos e apertou o cabo da arma com tanta força que até sentiu um gota de sangue escorrer.
Ela não iria chorar.
Uma tosse. Um último suspiro. Frágil como uma pétala de uma rosa, ela ouviu a voz daquele homem a chamar uma última vez.
— Mariichi!
Ela desabou de joelhos ao lado do guardião. Com delicadeza, apoiou a cabeça do homem em suas coxas.
— O anjo da morte velou meus olhos. Eu já não consigo mais nem ver seu rosto. Será que posso toca-lo pelo menos uma vez? — Suplicou.
Ele tentou erguer as mãos, mas já não tinha mais forças. Aqueles eram seus últimos instantes.
Ainda assim ela não iria chorar.
A mão caiu no chão.
Ou pelos deveria.
Lenge segurou a mão do homem e a levou a seu próprio rosto.
— Obrigado… — Um sorriso de sincera felicidade surgiu na face de Mariichi.
Lenge não chorou. Ela não estava chorando. Definitivamente não estava. Ela era uma guerreira. A visão turva provavelmente era algum pós-efeito da técnica de Mariichi. Fungando e passando as mãos de forma deselegante pelos olhos, depositou a cabeça do homem na grama.
— Adeus…
Ela ouviu passos apressados vindo em sua direção. Eram os companheiros de Mariichi. Antes que pudessem se aproximar mais, usou o sohma para criar um clarão, disparar em fuga e deixar tudo o que aconteceu para trás.
— Mariichi… — Disse para si mesma já longe do campo de batalha. — Mariichi de Marishi-ten. — Repetiu o nome com afeto. — Eu aceito a sua vida. Você vai pra sempre viver dentro de mim, em meu coração.
Notas finais
Romance e drama não são muito meu estilo, mas fazer o que? As vezes acontece. :P
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