Métamorphose
1 Prólogo
Notas iniciais
05 de Janeiro de 2017
Acordei e vi luzes brancas, teto, chão, paredes alvas… Tudo ao meu redor parecia claro demais. Fechei os olhos e a lembrança de minha avó sorrindo invadiu minha mente, sorri e senti algo molhando meu rosto, a cena voltou com força total e não pude impedir as lágrimas que brotavam de meus olhos e corriam por meu rosto amortecido..
“Estávamos voltando de uma peça de teatro, chamamos um táxi, ambas sentamos atrás já que queríamos continuar a falar sobre a peça, riamos e contávamos ao motorista sobre o que se tratava, não tínhamos pressa alguma de chegar em casa. O motorista não passava de 50km/h, a noite de final de verão estava agradável, pessoas ainda caminhavam pelas ruas, paramos em um cruzamento e pude ver um casal de mãos dadas saindo de um restaurante, comentei com ela sobre isso, ela sorriu, tocou o pequeno medalhão redondo de ouro, e disse que todos nós estamos conectados por um fio vermelho e que mais cedo ou mais tarde encontramos nossa conexão. Ri da superstição dela e ela apenas sorriu, quando abriu sua boca para falar mais alguma coisa eu vi o clarão de um farol, senti o carro ser arremessado para fora da pista e vi o mundo girar, a última coisa que lembro é de minha avó segurando minha mão e sorrindo.”
Abri novamente os olhos e sentia que parte do meu mundo não estava mais presente, o que me restava de amor no mundo não existia mais. Olhei para o lado e vi este caderno de couro já conhecido, Henrique deve ter passado por aqui e deixado meu diário. O abri e aqui estou escrevendo e descontando toda minha frustração por não saber o que se passa com minha avó.
Apaguei as luzes do quarto e fechei novamente os olhos, na esperança de que quando os abrisse tudo não passasse de um pesadelo que me faria correr para os braços dela, minha única luz nessa imensidão de sombras. Não foi o que aconteceu.
Senti uma mão tocar em meu rosto e abri os olhos na esperança de vê-la, encontrei Henrique, o advogado da família, com o rosto cansada e os olhos vermelhos, possivelmente das noites em claro. Não falamos nada, não era necessário, ambos sabíamos palavras machucam mais do que atos. Apenas ficamos ali olhando para uma parede iluminada apenas pelo brilho da televisão ligada no canal do tempo, imaginando o que poderia ter acontecido se tudo fosse diferente. Mas infelizmente não foi.
Sabe aqueles dias que você não quer ninguém por perto? Aqueles dias em que a simples respiração humana, inclusive a sua, te deixa com vontade de arrancar as unhas com uma alicate? E que palavras de apoio te deixam com mais raiva?
É isso o que sinto no momento, e muita tristeza também. Tudo que consigo ver através do óculos de sol são as rosas vermelhas que ela tanto amava e o caixão fechado a minha frente. Toda a ladainha do pastor me irritava e mentalmente eu implorava à Deusa para que a acolhesse bem em seu bosque. Ninguém me pediu para falar sobre ela, mas também não teria condições de falar, a voz não saía e as lágrimas não paravam de escorrer, os machucados em meu rosto ardiam com a água salgada que vertia de meus olhos, a maquiagem não borrou pelo simples motivo de não existir em minha face.
Ao final do enterro, fui levada em um sedã preto para a casa de tia Andria, que nunca gostou de mim. Novamente pessoas falando e me dando abraços, sem nem mesmo perguntar se eu precisava disso. E não, eu não precisava, o que eu realmente precisava ninguém me deu. O resto do dia passou assim, pessoas falando, minha tia me encarando do outro canto da sala enquanto conversava com alguns amigos e eu parada na frente de uma janela olhando o resto de um dia lindo de verão ir embora. Decidi pegar algo para beber na cozinha e chegando lá, o que ouço?
— Mas essa garota atrai a morte não é? Primeiro o pai, depois a mãe e agora a avó materna... Alguém vai pegar a guarda dela? — Um dos parentes que eu nunca vi na vida fala.
— Eu não tenho coragem e na verdade nunca gostei muito do jeito dela... Prefiro continuar em Grys concentrada na minha empresa. E em alguns dias o testamento será lido e logo saberemos para quem ficou a fortuna e quem é o infeliz que terá que lidar com a garota... — Essa foi minha amada tia falando.
Depois disso não aguentei e chamei um táxi, entrei correndo no apartamento e me joguei embaixo das cobertas na cama de minha avó e ali fiquei chorando e gritando com o motorista bêbado que ultrapassou o sinal vermelho atingindo em cheio o carro em que estávamos, me mandando para o hospital com escoriações e duas costelas quebradas e ela com graves ferimentos inclusive uma hemorragia.
Adormeci de algum jeito e acordei no outro dia a tarde, coloquei um pijama, fiz um miojo, coloquei em uma caneca e voltei para o quarto dela comi lá mesmo.
O apartamento era vazio, sem vida, sem motivos para existir, parecia que até os móveis sentiam que havia algo de errado. O piso frio de mármore, os pequenos grãos de poeira dançavam contra o sol e por fim repousavam sobre os móveis em sua maioria cinza. O silêncio avassalador fez com que me sentisse ainda menor, como uma pequena criança que se perdeu dos pais em um grande shopping, com a diferença que essa criança não receberia um abraço caloroso da família quando finalmente fosse encontrada. O único local que aparentava ter vida era o quarto dela. A cama grande de casal emanava o perfume tão conhecido de jasmim, feito por ela mesma, as poucas jóias reluziam com o brilho solar, ali por algum motivo era quente, aconchegante, era ela.
Continuei desse jeito por uma semana inteira, até que recebi a ligação de Henrique avisando que a tarde ele iria fazer a reunião sobre o testamento no apartamento. Então arrumei a cama, limpei as canecas usadas para os vários miojos feitos, tomei um banho, vesti um pijama limpo e aguardei eles chegarem.
Ao todo eram dez pessoas reunidas em torno da mesa redonda de jantar, o advogado, Andria no lado oposto, eu ao lado dele e os outros sete lugares ocupados por filhos dos falecidos irmãos de minha avó.
— De acordo com o desejo de Norma nos reunimos hoje, sete dias após seu sepultamento, para ler seu testamento e definir seus herdeiros. — Henrique começou a reunião.— “Estimados sobrinhos e Andria, serei clara neste testamento. Durante anos vi todos vocês brigando e discutindo sobre dinheiro, aproveitaram-se de minha hospitalidade, de minha fortuna, da empresa que ergui com as próprias mãos junto a meu falecido marido, e creio eu, imaginaram que nunca descobriria sobre o dinheiro desviado da empresa para suas contas pessoais. Não irei denunciar e peço para que o herdeiro também não o faça, a herança de cada um de vocês foi esse dinheiro desviado, que pela contabilidade rígida que fiz no último ano não foi pouco. A empresa será dirigida pelo atual presidente, sendo auxiliado por Henrique, e TODA a minha fortuna, imóveis, carros, ações e jóias irão para o herdeiro, ou melhor A herdeira. Helena, minha única neta, você a partir do dia que for lido este testamento é a herdeira de tudo que eu construí. Confio que será a única a continuar ampliando esta fortuna e mantendo-a de forma sábia. Aos outros eu desejo boa sorte e caso venham a protestar contra esta ordem, eu garanto que nenhum juiz aceitará sua palavra contra a minha, pois todos os juízes e policiais receberão um e-mail com as contas de vocês nas ilhas Katryna”.— Ele fez uma pausa na leitura— E é isso. Norma me deixou encarregado de mandar os e-mail caso isso aconteça.
Gritos e resmungos seguiram esse comunicado, mas ninguém contestou o testamento, provavelmente o medo de ficar sem nada e ainda sofrer uma investigação ajudou, a reunião de uma hora chegou ao fim e todos, exceto Henrique, se retiraram do apartamento.
— Helena, como já havia sido combinado você irá para uma das melhores escolas do país, em Volucris. A casa já foi comprada e você já completou dezesseis então já pode usar o carro que sua avó lhe deu como presente de quinze anos. O que eu quero saber é se vai querer que eu mande o carro ou vai ir dirigindo até lá, lembrando que daqui até lá são 30h de viagem. — Henrique falou calmamente.— Os papéis que te emancipam também já estão preenchidos, esse foi um dos motivos de ter ficado tanto tempo no hospital com tua avó. Apenas preciso da tua assinatura.
— Prefiro pegar um voo até Volucris. É melhor enviar o carro no mesmo dia que a mudança, assim quando eu chegar tudo vai estar chegando ou já chegou. Um dia e meio, um pouco mais de viagem por estrada, e de avião mais o percurso até a casa deve dar no máximo sete horas. Então saio no mesmo dia que o caminhão de mudanças e pego o avião com as malas principais e depois pego um taxi até em casa. — Falei enquanto pegava meu notebook.— O que vamos fazer com o apartamento?
— Te aconselho a alugar esse apartamento e ter uma renda a mais no final do mês, sei que não vai precisar, mas se ninguém morar aqui, o condomínio e a taxa mínima de água e luz terão de ser pagos. — Henrique falou sorrindo— Posso colocar o anúncio se quiser.
— Acho que é melhor assim.. — falei sem ânimo— Eu tenho que assinar algo?
— Sim, tem que assinar os papéis da emancipação, a não ser que queira ficar com a Andria. — Henrique é uma cobra em forma de gente. — Outra coisa, não falei na frente deles porque poderiam aproveitar essa brecha e tentar burlar o testamento, mas você só terá acesso total a conta quando completar 21 anos, até lá eu fico responsável por cuidar que você receba a mesada.
— Pela Deusa, não, prefiro me matar antes de ter que ser “dependente” dela — É a primeira vez na semana que eu consigo rir. — Da logo esses papéis, não quero nem pensar na ideia da Andria como “cuidadora”.
— E que tal arrumarmos uma colega para a nova casa? Assim você não fica sozinha lá — Henrique falou sorrindo
— Pode cuidar disso se quiser, eu só não quero alguém irritante.. E você sabe qual é o tipo que falo. — Suspirei e estalei o pescoço— Essa escola realmente pode me ajudar a controlar isso? — Movimentei a mão e um espelho rachou— Ou é apenas mentira?
— Lena… Nós não sabemos de onde esse poder vem e nem mesmo porque seus dentes são assim afiados e acredito que essa escola vai te ajudar... Foram eles que te convidaram para ingressar lá com o motivo desse poder e não tenho ideia de como eles sabiam sobre isso.. Somente eu e sua avó sabíamos.. — Henrique suspirou e me abraçou — Tudo que você precisar pode contar comigo garota.
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