Mère Fière & Père Fière

1 Mère Fière & Père Fière


Notas iniciais
Boa leitura! Espero que gostem!

9 de Jullho de 1894

O sol forte de verão era refletido pelos tubos de ensaio da mesa de trabalho do senhor Sherlock Holmes, que os observava atentamente, enquanto fazia anotações rápidas a cada alteração que percebia nas reações dos compostos com os quais trabalhava. Anne estava sentada ao chão, brincando com John e Violet. Os gêmeos Holmes completavam seis meses naquele dia e mesmo em tenra idade já prometiam ser um desafio para os pais.

─ Nikolai! – exclamou Anne, quando o pequeno John arremessou a bola com a qual estava brincando na direção de seu pai. Contudo, graças ao tamanho e os reflexos de Sherlock, ele conseguiu se virar a tempo de apanhar o projétil no ar, antes que o atingisse.

─ John. – disse Holmes, mirando o filho em sinal de advertência. Os pequenos ainda não conseguiam retrucar de maneira tão complexa, mas sabiam quando levavam sermões de seus pais.

─ Papa. – respondeu com um sorrisinho amarelo. Sherlock sabia que seu filho herdara sua propensão a estripulias e que, isso ainda renderia muitos cabelos brancos a senhora Holmes, tal qual rendera a sua mãe. No fundo, sentia vontade de rir toda vez que seu filho fazia alguma travessura, mas se controlava para não retirar a autoridade de sua esposa.

Anne nunca superara o fato de que as primeiras palavras de ambos os seus filhos haviam sido “papa”. De fato, a primeira palavra de John havia sido um sonoro “bejac” que, na época, eles entenderam como Bergerac. Era quase como se ele estivesse realmente dizendo mamãe, a consolara Holmes, mas Anne não se convencera. Seu próprio filho a chamara da mesma forma que o pai fazia quando queria provocá-la e isso foi o suficiente para que ela pusesse em sua cabeça que tanto Violet quanto John haviam dito “papa”.

─ Sinto muito, querido. – Anne suspirou, ao passo que Sherlock tranquilizou-a com um aceno displicente de mão, voltando a estudar alcaloides. – Deveríamos estar lá em cima, mas a senhora Hudson insistiu que precisava limpar o carpete do quarto das crianças.

─ Não é um pouco ousado, na idade dela, ficar esfregando o chão? – indagou Holmes, sem se virar.

─ Antes isso do que se arriscar com os nossos anjinhos. – ponderou Anne, ao que ele respondeu com um riso abafado. – O que foi Violet? – a menina puxava-lhe a manga, chamando sua atenção para o fato de que precisava de ajuda para colocar um bloco mais no alto. Estavam fazendo um castelo.

─ Papa... papa! – chamava John, engatinhando em direção ao pai. Holmes não havia lhe devolvido a bola, escondendo-a entre as pernas.

Determinado, o pequeno senhor Holmes – como a senhora Hudson costumava chamá-lo – postou-se aos pés de seu pai, puxando-lhe sem parar a barra esquerda de sua calça, tentando chamar sua atenção. Sherlock mantinha-se impassível, o que fez o garoto soltar um sonoro “dada”, puxando a barra com ainda mais força.

─ Nikolai, pare de amolar seu pai. – advertiu Anne, gentilmente. – Venha, venha brincar com sua irmã. – sugeriu chamando-o com um gesto incisivo com a mão. Em determinada ocasião em que Watson aparecera para uma visita, o pequeno John tentara uma de suas travessuras para chamar a atenção da mãe, que não parava de conversar com o amigo. Engatinhando até a mesa, tentou puxar o forro para baixo, o que levaria toda a louça do jantar junto. O grito de Anne chamando pelo nome “John” foi tão alto que até mesmo Watson se assustou, levantando-se em um salto. A partir de então, para que eles não mais confundissem quem estava sendo chamado, ela acostumara-se a chamar John pelo apelido russo de seu segundo nome, Nikolai. Holmes, no entanto, tratava-o como John, afinal, Watson sempre foi Watson para ele.

Os dois nomes, por sua vez, não pareciam confundir o pequeno de seis meses que naquele momento mirou sua mãe por três segundos, para então voltar a puxar as barras de seu pai enquanto chamava “papa” sem parar. Sherlock ainda não lhe dava atenção, mas o pequeno era obstinado, igualzinho à mãe. Num movimento um tanto desajeitado, abraçou-se a perna esquerda de seu pai, fazendo força para ficar de pé. Assim que sentiu-se seguro naquela nova empreitada, continuou abraçado a perna, esticando seu bracinho gordo a procura de seu prêmio.

─ Sherlock, Sherlock... – chamava Anne tentando conter a euforia, mudando de posição cuidadosamente para não desfazer o trabalho de Violet. Holmes abaixou a cabeça, dando de cara com a mão do filho tateando a bolinha.

Sorrindo, entregou-lhe o brinquedo em mãos, maravilhado com o fato de que ele ainda mantinha-se de pé mesmo com as duas mãos ocupadas. Anne sorria como uma tola, esticando os braços na direção dele.

─ Nikolai, venha até a mamãe. – chamou com meiguice. Holmes viu nascer ali uma oportunidade de provocar a esposa e rapidamente deixou a cadeira em que estivera sentado, para ajoelhar-se no chão, também de braços esticados para o filho. – Saia daí, Holmes!

─ Vamos, John. São poucos metros. Até o papai, vamos. – disse, ignorando os protestos de sua mulher. A atenção de John, contudo, estava voltada para os próprios pés, como se pensasse “como eu cheguei até aqui?”

Ao fundo, Violet admirava a cena de olhos arregalados, fixos em seu pai. Havia sido ela a primeira a falar “papa”, uma tarde depois que seu pai lhe dedicou uma música inteira no violino para fazê-la dormir. De cara amarrada, engatinhou até o pé do sofá, apoiando-se nele para ficar de pé. Anne mantinha os olhos fixos em seu filho, do contrário, teria pulado em cima da menina para cobri-lhe de beijos. Ela nem precisava dar nenhum passo na direção de quem quer que fosse. Contudo, segundos depois de ponderar seus próximos movimentos, Violet colocava um pezinho na frente do outro, apoiando-se no estofado do sofá, para só então arriscar uma corridinha até seu pai.

O súbito abraço por trás fez com que Holmes soltasse uma pequena exclamação, antes de virar-se na direção da filha, lhe lançando um sorriso muito aberto. Violet, por sua vez, ostentava um sorriso presunçoso nos lábios, sendo erguida por seu pai que lhe deu um beijo de estalo na testa. John que até então mirara a cena, voltou a virar-se na direção da mãe, que possuía um misto de alegria e decepção nos olhos.

─ Bejac... mama... – disse ele, finalmente tomando a direção dela, jogando-se contra seu pescoço. Anne riu, erguendo-o do chão também, enchendo-o de beijos.

─ Mama... – chamou Violet. Holmes a segurava pelas mãos, mantendo-a de pé e a menina tentava correr na direção da mãe. Anne se agachou um pouco, já era profissional em sustentar os dois em seus braços.

─ Sempre a mère fière. – provocou Sherlock, enquanto Anne beijava seus dois anjinhos.

†††

24 de Dezembro de 1898

Anne e Sherlock se desacostumaram a acordar tarde desde o nascimento de John e Violet, entre tantos outros hábitos que também foram se perdendo ao passo que eles cresciam. Mesmo aquela data que antes não passava de mais um feriado a ser comemorado simploriamente na residência dos Holmes, agora era motivo para euforia desde as oito da manhã até a meia noite. John era o primeiro a acordar e seu primeiro presente era caminhar lentamente até a cama de sua irmã, e fazê-la acordar de susto.

─ John! – exclamava ela, livrando-se dos lençóis para correr atrás dele. – Volte aqui, seu baderneiro! – era costume dela imitar expressões que a mãe ou a senhora Hudson usavam para se dirigirem aos encrenqueiros que rondavam Baker Street, a fim de insultar seu irmão gêmeo. – Espere só até eu contar pra mamãe e pro papai!

No andar de baixo, seus pais já escutavam a algazarra toda, virando-se de frente um para o outro na cama, com sorrisos pesarosos.

─ Os seus filhos acordaram. – murmurou Anne, sonolenta.

─ Que a batalha comece. – concordou Sherlock saltando da cama. Dito e feito, segundos depois a porta do quarto se abriu, revelando dois anõezinhos de quatro anos. – Bom dia, crianças.

─ Bom dia, papa. – cumprimentou John, inocentemente, recebendo um olhar assassino de sua irmã.

─ Mama, papa, John quase me fez cair da cama de susto outra vez. – lamentou-se Violet, ao passo que seu irmão revirava os olhos. Anne caminhava em direção a sua penteadeira.

─ Não está muito grandinho para isso, Nikolai? – ralhou com o filho ao se sentar. – E Violet, ele faz isso toda vez, o costume já deveria fazer com que a sua reação não fosse tão extrema. – ponderou Anne, pondo-se a desfazer a trança. Aqueles quatro anos lhe ensinaram que em situações de discussão, não deveria escolher o lado de nenhum dos filhos; o que eles respondiam com olhares venenosos um para o outro.

Holmes tinha certeza de que toda aquela rivalidade fazia parte de uma fase saudável, em que irmãos competem pela atenção dos pais. Mycroft e ele passaram por isso, apesar da diferença de idade, e atualmente eram muito bons amigos. Anne concordava absolutamente com o marido e não incentivava a duração daqueles impasses matinais tão frequentes desde que ambos aprenderam a formar frases completas. Violet, mesmo em tão tenra idade, já deixava claro aos olhos de seus pais de que seria uma menina bastante geniosa, ao mesmo tempo em que conseguia ser espirituosa. John, por sua vez, era o cúmulo do significado de extrovertido, possuindo tanto os lados positivos quanto os negativos da palavra.

─ Mama, a senhora sabe que dia é hoje? – indagou John, mudando o rumo da conversa antes que sua irmã pudesse convencê-los a castiga-lo.

─ Véspera de natal? – retrucou Anne, sorrindo de soslaio para Holmes. O feriado era o favorito dos gêmeos.

─ Sim, e quando vamos para a casa do tio John? – tornou a perguntar o pequeno senhor Holmes, ansioso, pondo-se ao lado da mãe na penteadeira.

─ Nós sempre vamos na mesma hora todos os anos e ele insiste nessa pergunta boba. – desdenhou Violet jogando-se contra a cama de seus pais. – Vamos sair para comprar os presentes do tio Watson e da tia Mary? – perguntou apoiando o rosto com as mãos. Por mais que Anne tentasse convencê-la a também chamar Watson de tio John, ela insistia em tratá-lo no mesmo tom formal com que seu pai o tratava... porque era mais divertido.

─ Vamos. – concordou a senhora Holmes. – Depois do café.

─ Excelente. – disse John, esfregando as mãos num gesto idêntico ao de seu pai quando estava satisfeito. Anne riu.

─ Agora, Nikolai. Peça desculpas a sua irmã. – disse em tom de ordem. John abriu a boca escandalizado.

─ A senhora sabe que eu não estou arrependido, então, por que sempre manda eu pedir desculpas? – Sherlock riu alto do comentário do filho, tinha terminado de passar brilhantina no cabelo.

─ A esperança é a última que morre nessa família. – comentou Anne, repreendendo o marido com os olhos. – Peça.

─ Não vai levar a nada. – insistiu John.

─ John, é uma ordem. – sempre que ela o chamava pelo primeiro nome, significava que não havia mais recurso.

─ Desculpa, Violet.

─ Eu posso não aceitar? – inquiriu Violet olhando para a mãe. Essa simplesmente acenou que não com a cabeça. – Desculpas aceitas, John.

Depois do café, Anne subiu com os dois para vesti-los. Violet ficou pronta antes, enquanto seu irmão lutava para fugir da escova de cabelo. Encontrou seu pai sentado de olhos fechados no sofá, usando um dos seus ternos mais alinhados. Calmamente, aproximou-se dele, limpando a garganta para chamar sua atenção. Sherlock abriu os olhos instantaneamente e sorriu ao vê-la.

─ Algum problema, querida? – perguntou oferecendo um lugar para ela se sentar. Mas Violet permaneceu parada.

─ Papa, eu tomei uma decisão. – disse jogando o cabelo para trás. – Esse ano eu quero comprar um presente só meu para a mamãe.

─ Deveras. – assentiu Holmes, sorrindo. – E o que você tem em mente?

─ Um chapéu novo. – respondeu Violet. – E gostaria que o senhor me emprestasse o dinheiro. Prometo pagar-lhe de volta e deve me cobrar os juros. – acrescentou solenemente, fazendo com que seu pai reprimisse uma risada.

─ Tenho uma ideia melhor. – começou com um ar mais sério. – Eu lhe empresto o dinheiro, e como pagamento... – disse apontando para a sua bochecha. Violet riu, sentando-se no colo do pai para dar-lhe um beijo em cada uma das bochechas. Ele a manteve ali, enquanto alcançava o dinheiro dentro de um dos bolsos.

─ Obrigada, papa. – disse dando-lhe um último beijo.

─ Violet, vá vestir seu casaco. – chamou Anne, rindo enquanto ela tentava esconder o dinheiro dentro do bolso do vestido. Sherlock a admirava enquanto assistia a filha desaparecer escada acima com o irmão. – Père fière. – acrescentou caminhando em direção a Holmes, que lhe estendia a mão para que se sentasse em seu colo.

─ Ela quer lhe comprar um chapéu novo. – revelou depois que se beijaram.

─ E isso vai ser uma surpresa, mesmo você tendo acabado de me contar. – assentiu beijando-o mais uma vez. – Feliz natal, mon detective pompeux.

─ Feliz natal, ma difficile et charmante jeune fille.

─ Feliz natal, mon petit frère insupportable. – gracejou Violet, com ares românticos.

─ Feliz natal, ma petite soeur tueur. – também brincou John, beijando a mão da irmã. Anne corou violentamente, levantando-se de uma vez do colo de Holmes para sair com eles dali, enquanto seus filhos e o pai gargalhavam de sua reação.

Notas finais
Feliz Natal amaaaaaaaaaaadooooooooooos!!!!!!!! Muita paz, muita luz para vocês e suas família.Como prometido, presente em dose dupla (duas one shots em uma) para vocês, queridos leitores! Fofos, fofos, lágrimas nos olhos quando escrevi. Simplesmente adoro ver o meu casal todo feliz. Espero que tenham gostado dessa "introdução" às personalidades de John/Nikolai e Violet, é só o começo, pois ainda temos muitas camadas para remover! Reviews seriam um excelente presente de natal! Um bjoooo!! Até breve!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!