Mãos Dadas

1 Capítulo Único


“Aquilo que eu sinto por você
Parece ser maior
Que o destino que me passa e te passa
E há de ser um só

A gente é diferente quando sente
Mas pode ser que mesmo assim
A gente até se ajeite...”

Os dias passam tão rapidamente, um dia temos 11 anos e estamos embarcando em uma grande aventura para um mundo novo. No momento seguinte lutamos uma guerra perdendo um pouco de nós e muito dos outros. Em um piscar de olhos temos filhos e estamos os embarcando no mesmo trem que subimos tantos anos atrás.

Olhando para o lado podemos perceber o quanto a vida nos escorre pelas mãos, juntamente com o alivio de ter ao seu lado a única pessoa que seria capaz, mesmo depois de tanto tempo, de fazer seu coração bater um pouquinho mais acelerado por causa de um simples sorriso. Conseguindo quase escutar nossas primeiras palavras. Trocadas em uma cabine exatamente igual aquela que hoje nossa filha ocupa.

Teria sido tão mais fácil se nós tivéssemos nos entrosado de primeira, mas talvez não tivéssemos tantas histórias para contar, nem tanto amor para colocar em cada instante da vida que dividimos de maneira tão incrível. Entre tantas diferenças, talvez a verdade seja que somos parecidos.

E apesar de ter te percebido muito antes de você a mim, quando me percebeu foi tão trágico e dramático quanto todas os nossos primeiros momentos. Com direito a lágrimas nas escadas e você fugindo.

Acenamos para eles e você faz uma piada descontraindo o momento pesado que nos certa e começamos a andar.

Sua mão procura a minha sempre que precisamos andar, pela manhã sobre a mesa, antes de pegar no sono, quando eu tento fugir de qualquer problema, quando você é o maior de todos eles. Lembro-me a primeira vez que nossas mãos se procuraram, buscando segurança em meio a confusão completa. Desde lá, suas mãos me dão a força que sei que tenho e as vezes deixo escapar. Meu momento preferido delas me procurando é o pela manhã, sobre a mesa, enquanto eu leio o jornal e você come sem parar.

Estamos andando para longe do embarque. Nossas mãos unidas. Nossa vida se ajeitando ano após ano. Porque é isso que fazemos, nos ajeitamos. Ficamos juntos. Brigamos. Reconciliamos-nos. E voltamos a brigar. Mas suas mãos permanecem, não importa qual o momento que estejamos vivenciando. Elas se unem como se fossem peças de quebra – cabeça. E eu agradeço por isso.

Vejo o quanto as pessoas se importam com beijos demorados, com declarações de amores extraordinárias, com noites de paixões detalhadas e sufocantes. Quão tolas são essas pessoas que gritam “eu te amo” pelas ruas movimentadas, que escrevem em muros e propagandas, que precisam a todo custo provar um amor que nem sabem se durará. Tão sortudas elas seriam se reparassem que segurar em minhas mãos é mais do que dizer eu te amo, é como a constatação de que está aqui e aqui permanecerá. Segurar em minhas mãos é a verdade sobre nós, nossa história. Nossos dedos encaixados perfeitamente, nossos passos com o mesmo ritmo. Isso é a declaração de amor perfeita. Andar de mãos dadas depois de todos os anos e apesar deles é tão reconfortante quanto deitar em seus ombros, descansar em seus braços e acordar com você cheirando meu cabelos armados.

― Mamãe, podemos ir na lanchonete trouxa? Por favor!

Se olhos encontram os meus e sei exatamente o que dirá.

― Por favor, Hermione! – Seus olhos brilham como os de Hugo. E me lembro exatamente do porque ter me apaixonado por você em meio a tantos outros.

Foi você sendo simplesmente você. Que come como se nunca tivesse visto comida, que se anima com algo simples como hamburguer e batata frita. Que faz piadas em momentos tensos e que consegue ser estupidamente irritante e fofo ao mesmo tempo.

Sou inteligente, corajosa, luto pelo que acredito, sou capaz de tudo ao que me propor a fazer, usei um vira-tempo para poder assistir todas as aulas, quando outras pessoas usariam para outros assuntos, eu me basto e ficar com qualquer outro que fosse tão intenso como eu seria um completo desperdício de oportunidade. Porque de tudo que eu tinha e de fato são várias qualidades e defeitos, a naturalidade de como se empolga com algo é o que sempre iria me faltar, o jeito de encarar a vida como uma brincadeira, com piadas, com sorrisos apesar de qualquer dor. Se eu não tivesse alguém para me lembrar que os compromissos são importantes, mas que aproveitar os momentos da vida é muito mais, o que me tornaria? Nós nos completamos entre a seriedade e a brincadeira, ambos intensos além da medida, porém parecidos. Juntos se ajeitando e permanecendo.

― Convide sua prima. – Digo para Hugo, que dispara a frente.

Ao meu lado você pula como uma criança animada. Beija minha mão e me gira no meio da rua.

― Nós somos os adultos aqui. – Digo, mas deixo escapar o riso.

― Eu sei.

Seus olhos ainda continuam brilhantes apesar da dor escondida, das lembranças difíceis que todos nós carregamos. E quando eles brilham dessa maneira, eu sinto o coração acelerar mais um pouquinho. Com o sorriso acelera um tanto, com os olhos outro. Me mantendo viva.

Eu o beijo rapidamente, sem nunca deixar de segurar sua mão. Meu porto seguro de cada dia. A lanterna no escuro.

Ele me encara da mesma forma que me encarou quando eu fui obrigada a tomar a iniciativa e beijá-lo em meio uma guerra.

― Sempre o surpreendo. – Digo apertando ainda mais sua mão.

― Sempre. É difícil acreditar que alguém tão incrível me escolheu para amar.

― Eu não tive escolha nenhuma. – Digo sendo sincera. – Nunca existiram opções que valessem a dúvida.

Rony fica orgulhoso, ele é sempre tão inseguro que nem me importo de inflar seu ego por um pequeno momento.

― Eu arrancaria a cabeça de cada um dos bonecos das opções. – Ele resmunga por um momento me fazendo rir. – Se existissem opções.

Nós continuamos andando. Hugo logo a frente conversando com Lily. Suas mãos nos bolsos, as orelhas pegando fogo. Exatamente igual ao Rony. Sorrio imaginando quando ele descobrirá o quanto segurar a mãos de outra pessoa é melhor do que deixa-las no bolso. Torcendo para a vida lhe trazer histórias melhores que as nossas, mas tão bonitas quanto.

O tempo é brincalhão, gosta de confundir as cabeças e de mudar caminhos. Mas nunca consegue me fazer deixar de querer Ronald Weasley ao meu lado. Segurando minha mão. Me irritando e implicando na mesma proporção. Eu amo um idiota que sabe exatamente como me fazer sorrir. E nunca vou deixar de ficar de mãos dadas.

Notas finais
Espero que tenham gostando e comentem o que acharam do que gostaram ou não. Obrigada...

Até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!