Mãe Solteira
8 No dia em que eu sumir...
Notas iniciais
Os conhecimentos de Nathalie sobre toda a rotina dos Agreste a fazia estar cinco passos à frente, sempre. Ela sabia do tempo que os ensaios matutinos ao ar livre demoravam, sabia perfeitamente o tempo que levariam de volta para casa e sabia que o atraso de mais de dez minutos era injustificável, ou melhor, só poderia ser causado por uma variável que ela nunca conseguiu controlar completamente:
— Félix... — ela disse baixo, observando o filho sair do carro que acabara de entrar pelos portões da mansão.
O loiro mal havia notado ela, estava ocupado demais conversando algo com o “irmão mais novo”. Ele parecia estar verdadeiramente focado no assunto, despertando uma picada de curiosidade na mãe. Para a sorte dela, quando os garotos chegaram às escadas da entrada, ela ainda conseguiu ouvir uma parte da conversa:
— E é por isso que você não pode falar absolutamente, não queremos que a minha mãe se preocupe atoa. Principalmente porque eu seria obrigado a não ser tão amável com você, Adrien... — o olhar do mais velho focava inteiramente no Agreste, ignorando o mundo à volta e deixando parte de todo o ressentimento que ele sentia fluir na ameaça.
O mais novo, alheio a tudo aquilo, estava perdido entre memórias de um passado dolorosamente distante e novidades que passariam a fazer parte de sua vida agora:
— É a primeira vez que vem me esperar do lado de fora, mamãe!
Foi tudo o que ele disse enquanto acabava de subir os degraus saltitando, como se a assistente de seu pai fosse sumir a qualquer momento junto com aquela “brincadeira” de família. Ele a agarrou e abraçou, como se em um passe de mágicas ela realmente fosse sua mãe, como se ela realmente estivesse ali de novo.
Nathalie se controlou para não demonstrar surpresa alguma com todo aquele estardalhaço, ela simplesmente deixou ser abraçada e apoiou uma das mãos sobre a cabeça de Adrien. Ela não tinha como ser mais doce do que isso, não naquele momento.
— Quantas vezes eu tenho que falar que ela é minha mãe, não sua!?
— Ela é nossa!
— Minha, a sua..!
— Félix Sancoeur — a foz fria da mulher fez com que a disputa acalorada se transformasse em silencio.
— M-Mamãe... Mamãe, eu não faço ideia do que aquele motorista idiota contou a você, mas eu não tive culpa nenhuma! Eu só fui comprar um sorvete e quando voltei, eles estavam agindo como loucos! A culpa nem foi minha, o meu azar fez com que eu tivesse que andar atrás do sorveteiro por quase duas quadras e...
— Félix — novamente, aquilo bastou para que tudo retornasse ao silencio — Estava me referindo ao café da manhã com pelos de gato, mas agora que você tocou no assunto...
Ela conhecia o filho melhor do que qualquer outra pessoa, bastava dar corda e ele mesmo se enforcaria. Por mais inteligente que Félix Sancoeur pudesse ser, o nervosismo deixava-o embaralhado.
— Então o Gorila não falou sobre eu ter desaparecido no parque? — um aceno negativo da mãe fez com que ele suspirasse, abaixasse a cabeça e pensasse em alguma desculpa válida — Eu apenas devo ter confundido as tigelas de café da manhã, e sobre o parque: como eu disse, a culpa é do meu azar...
— Adrien, o seu irmão pediu permissão para comprar sorvete?
O Agreste, que a todo custo tentava se manter fora de tudo aquilo, apenas encarou o “irmão” por alguns segundos, a “mãe” e por fim acenou negativamente enquanto escondia o rosto na assistente.
— Então acredito que ele mereça um castigo adequado.
Adrien olhou mais uma vez para Félix, sentindo-se em parte culpado. O mais velho, por outro lado, encarava o Agreste de um jeito que não cabe descrição melhor do que uma comparação: “eram os mesmos olhos azuis de Gabriel quando irritado”.
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Plagg é um gatinho de pelos negros, olhos verdes e uma fome insaciável – principalmente quando o assunto são queijos e demais guloseimas humanas. O que poucas pessoas sabem, é que um animal aparentemente indefeso tem a personalidade ameaçadora do dono.
Gorila havia deixado os rapazes na entrada e levou o carro para a garagem depois disso, sem nem notar que o pequenino ainda estava dentro do carro, dormindo tranquilamente. Um gato é apenas um animal preguiçoso, no fim das contas.
Porém, bastou que Plagg fosse enxotado do banco para demonstrar sua verdadeira periculosidade: usando as garras ele se agarrou à manga do uniforme do motorista, as presas perfuraram a pele em várias mordidas, os pelos eriçados só demonstravam que qualquer movimento brusco iria piorar a situação, até mesmo mais do que os gritos de pânico do grandalhão.
Obviamente, foi desta maneira que Gorila enxergou a situação.
Para Nathalie, que tinha ido atrás dele depois de dispensar os “filhos” enquanto pensava em um castigo, era uma cena tão vergonhosa que ela se repreendeu por ter vontade de rir do amigo. Afinal, era um marmanjo de quase dois metros de altura gritando e correndo pela garagem com um gato grudado no braço.
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Gabriel Agreste estava indignado com o filme. Não por ser algo relacionado a horror e até agora não ter tido, de fato, alguma cena do gênero. Ele estava indignado porque tudo começava em um evento de exposição de artes, mas ele mal deu atenção para as obras porque sua mente estava muito mais preocupada em questionar o motivo errôneo pelo qual as pessoas se vestem tão esquisito para ocasiões do tipo.
Fez questão de pegar seu caderno de notas e escreveu sobre os personagens que julgou serem os principais até o momento: haveria, ali, uma competição de moda. Deixou ainda um grande espaço vazio para notas posteriores. Afinal, só tinha assistido os primeiros cinco minutos de filme.
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Nathalie poderia ter ajudado Gorila a se livrar daquele terrivelmente perigoso gatinho que estava grudado nele, mas preferiu esperar pacientemente – prendendo as risadas – para ver onde aquilo iria parar.
Depois de alguns minutos se debatendo e gritando, o grandalhão conseguiu fazer Plagg solta-lo e, vendo como sua única alternativa para a sobrevivência, entrou pela porta dos fundos para a cozinha e subiu em uma das bancadas. Plagg foi atrás dele, encarando tudo como uma brincadeira. Nathalie também foi, mas ela só queria ter certeza de que nenhum utensílio exageradamente caro seria quebrado.
— Você não vai me ajudar a controlar essa sua bola de pelos com garras!?
— Tenho coisas mais importantes para fazer do que manter um filhote de gato longe de você...
— O que seria mais importante do que salvar a minha vida, Nathalie!? — por alguns momentos, Gorila até pensou em sair de cima da bancada para conseguir encarar a amiga melhor, desconcertado por aquela falta de consideração... bastou olhar para o animal com pelos negros perigosamente próximo dele para mudar de ideia.
— Colocar o meu filho de castigo, por exemplo... — ela ergueu os ombros.
— Espera, você coloca ele de castigo? Você coloca mesmo ele de castigo? O seu filho já ficou de castigo antes?
— Claro que sim! Que tipo de mãe você acha que eu sou? Não é como se resolvesse de muitas coisas, mas pelo menos eu tento impor limites nele.
— Realmente não adianta...
— Tenta fazer melhor trabalhando feito uma escrava enquanto ele fica num internato todos os dias, sendo influenciado sabe-se lá por quem!
— E-Eu não quis ofender você, eu só...
— Acha que a culpa é só minha por ele ter esse jeito!? O que mais vai falar!? Que eu deveria ter me casado com o idiota do pai dele!?
— Se você me falar quem é o pai dele, talvez eu...
— Daqui a pouco vai falar que nem mesmo o meu gato tem limites!
Gorila achou melhor receber as acusações em absoluto silencio enquanto fazia uma nota mental de nunca mais tocar no assunto “mal comportamento” novamente. Talvez falar mal de Félix atingisse em cheio algum ponto em Nathalie responsável por toda a ira e raiva acumulada. Ela não tinha culpa de o filho ter um jeito tão... Gabriel?
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Uma vez que sua folha para placares estava preparada – nada harmoniosa e enfeitada se comparado a sua lista maligna – Gabriel colocou o filme do começo mais uma vez. Precisava ficar atento a todos os figurinos, mas não apenas aos figurinos: às artes também. Obviamente, ele estava mais capacitado para julga-las do que aquele crítico fajuto.
A pior nota, com certeza, seria para a mulher com terno azul de purpurina. Ele, que ainda estava com os cabelos tingidos de roxo – agora em um tom mais claro -, conseguiu harmonizar aquele acidente terrível com suas calças vermelhas, porém, não havia no mundo alguém que conseguisse harmonizar purpurina com algo além de Audrey, é claro.
Para o espanto dele, aquela mulher de nota terrível era a assistente de uma que estava decentemente vestida – uma nota média, já que a estampa de onça do vestido estava longe de combinar com os sapatos. Talvez assistentes de pessoas que se vestem bem tendessem a se vestir mal, como Nathalie por exemplo...
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Os dois rapazes loiros estavam sentados na escada principal. Felix estava encarando o nada e pedindo a todos os Deuses que conseguiu lembrar para que sua mãe não o matasse; Adrien, por outro lado, estava ainda sorrindo feito bobo só de imaginar como seria bom chegar dos ensaios fotográficos ou da escola e encontrar sua “mamãe” esperando na entrada.
Ambos interromperam seus pensamentos quando ouviram o som dos saltos de Nathalie se aproximando. Ela passou por eles sem falar palavra alguma, parando a caminhada em frente à porta do escritório.
— Me acompanhem, por favor.
Ela usou o tom de indiferença de sempre, algo que deixou o Agreste confuso e o Sancoeur completamente apavorado. Os irmãos obedeceram prontamente, se entreolhando e olhando para ela uma vez que já estavam dentro do ateliê.
— Por ter se comportado mal, você vai ser encarregado de colocar as tampas corretas em todos os marcadores. Você tem até o almoço — os olhos azuis encararam Félix da maneira mais fria possível, dando brecha para que ele apenas acenasse positivamente — E você, Adrien, vai ajudar ele.
— Nem pensar! — o mais velho bateu um dos pés contra o chão — Eu aceito o meu castigo, mas por que ele tem que me ajudar? Eu não preciso de ajuda, mãe!
— Eu não me importo, Félix... — Nathalie murmurou completamente descontente, se acomodando na cadeira.
— Mas mãe, isso nem é um castigo pra ele! Olha a cara de feliz que ele está!
— Quem está de castigo é você, Félix. Adrien adora fazer esse tipo de coisa — novamente, ela encarou o filho. Ele parecia ter finalmente entendido o ponto daquela tortura, já que se calou e começou a reunir os marcadores.
— Vai ser divertido... — Adrien sussurrou baixinho, ansioso por começar a rabiscar vários e vários papeis com as canetas do pai.
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A fera indomável e de pelos negros foi presa em uma armadilha conhecida como “escorredor de macarrão”. Não era o melhor jeito de prender um gato, mas foi a única coisa que Gorila conseguiu fazer.
Como garantia de segurança, ele saiu pela porta dos fundos. Era melhor dar a volta pelo jardim e entrar pela entrada principal do que correr o risco de ter aquela criatura de garras afiadas agarrada na manga dele mais uma vez.
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Treze minutos de filme.
TREZE MINUTOS.
Do que importavam agora as notas para os vestuários e para as artes? Do que adiantava o empate estilístico entre a estampa de plantas do Jon e as vestimentas tradicionais do Piers? Do que adiantava continuar assistindo aquele filme que parecia ter sido feito pensando em Gabriel Agreste se, em menos de treze minutos, o crítico e a assistente da galerista estavam fazendo coisas obscenas em um sofá barato!?
Ao menos, pensou Gabriel, ela não estava mais com aquele terno de purpurina azul.
Medidas precisavam ser tomadas, medidas drásticas! Se algo desse jeito aconteceu em um filme que ele estava assistindo, que controle etário os desenhos que Adrien consumia poderiam ter!? Nathalie precisava resolver isso!
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Enquanto Adrien riscava com cada caneta por vez pacientemente tentando achar a tampa da tonalidade certa para cada uma, Félix faltava pouco rasgar o papel com a ponta delicada dos marcadores, ele estava irritado.
— Você não pode fazer isso, vai acabar achatando a ponta... — Adrien avisou como se fosse um professor de artes que tentava explicar uma matéria importante para o aluno.
— E daí? — o outro loiro apenas ergueu uma das sobrancelhas.
— Daí que cada caneta estragada vai sair da sua mesada, Félix — a mãe alertou, voltando a ignorar os adolescentes em seguida para atender uma ligação.
— E essas canetas são caras?
— São, bastante... — o Agreste respondeu no tom mais sério que poderia usar — É por isso que o meu pai não deixa eu chegar perto delas.
— Tenho quase certeza de que não é exatamente este o motivo, Adrien...
— Como assim? — os olhos verdes encararam o mais velho transbordando de curiosidade, talvez sabendo o motivo, Adrien finalmente pudesse contorna-lo e mexer nas canetas quando bem entendesse.
Quando Félix tomou folego para começar sua longa explicação sobre como o jeito infantil de Adrien fazia com que as pessoas não confiassem nele plenamente, principalmente com objetos preciosos, o celular dele começou a avisar que mensagens estavam chegando. Uma atrás da outra, várias e várias.
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Gabriel Agreste diz:
“Nathalie, precisamos conversar! ” [10:13]
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Gabriel Agreste diz:
“Nathalie, essa Net alguma coisa não deveria ter controle parental? ” [10:13]
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Gabriel Agreste diz:
“Eu vou mandar o técnico vir desinstalar isso da televisão do meu filho, marque hora com ele” [10:13]
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Gabriel Agreste diz:
“Nathalie, você está demorando a responder! ” [10:13]
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Gabriel Agreste diz:
“Realmente vai fazer uma pessoa enferma como eu sair dos aposentos e enfrentar essa escada perigosa só para discutir sobre as coisas terríveis que meu filho pode estar assistindo por sua culpa? ” [10:14]
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Gabriel Agreste diz:
“Eu vou ir mesmo, hein! ” [10:14]
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Gabriel Agreste diz:
“Minha nossa, Nathalie! O que custa me responder!?” [10:15]
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Gabriel Agreste diz:
“Eu vou ir no três...” [10:15]
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Gabriel Agreste diz:
“1...” [10:15]
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Gabriel Agreste diz:
“2...” [10:15]
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Nathalie Sancoeur diz:
“Espera!” [10:15]
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Gabriel Agreste diz:
“3...” [10:15]
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Gabriel Agreste diz:
“Eu já tinha mandado quando você me respondeu, agora estou indo para o ateliê e espero que você esteja ocupada o suficiente para não me dar atenção! ” [10:16]
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— Essa não! — Félix mordeu o interior das bochechas, nervoso, pensando em qual lugar daquele maldito lugar poderia usar como esconderijo.
— O que foi? — Adrien encarou o irmão mais velho com certa preocupação.
— O seu pai está vindo!
— Meu pai está vindo!?
— Está vindo!
— Ele está vindo!
— Falem baixo! — Nathalie encarou os dois de maneira irritada, voltando a atenção para a ligação potencialmente importante que estava tendo.
— Droga, droga, droga, droga... — Félix repetia nervosamente, olhando de um lado a outro.
— A janela, rápido! — Adrien apontou.
Tudo a partir daí aconteceu rápido demais.
Félix praticamente se jogou pela janela, o nervosismo realmente o fazia perder o discernimento. Para a sorte dele, o ateliê fica no primeiro andar. O máximo de danos possíveis seriam joelhos ralados e um pouco de dor.
Adrien voltou para onde estava testando as canetas, recolheu o maior número possível e tentou esconder o que estava fazendo. O pai iria brigar com ele caso visse aquilo, mesmo que ele não estivesse fazendo mal algum.
Nathalie continuou com a ligação enquanto digitava algumas coisas, ela parecia tão focada que nem notou tudo o que estava acontecendo ao redor. Ela manteve-se assim até o superior chegar no ateliê, empurrando as portas como se fosse coloca-las abaixo.
— Nathalie! — Gabriel recuperou o fôlego antes de continuar — Com quem pensa que está falando para dar prioridade à uma ligação e não às minhas mensagens!?
— Senhora Audrey Borgeois, senhor. Quer falar diretamente com ela? — com sua habitual indiferença, Nathalie ergueu uma das sobrancelhas.
Em circunstâncias normais, falar com Audrey seria a última coisa que Gabriel poderia querer. Porém, a desconfiança latente sobre Nathalie estar falando com o namorado fez com que ele praticamente tomasse o telefone das mãos da assistente.
— Quem está falando? — ele não se importou em parecer simpático, pelo contrário, chegou a deixar seu jeito mesquinho desmascarado.
— Sua melhor amiga, Audrey Borgeois! Francamente, Gabriel, quem mais poderia ser!? Sua esposa!? Ninguém liga pra você além de mim, é claro!
— Ah... — e assim ele perdeu completamente a pose e ficou preso em um limbo entre decepção e arrependimento — Audrey, eu...
— Liguei porque preciso do seu texto para ontem, mas essa sua assistente incapacitada está teimando comigo! Demita ela agora mesmo!
— A Nathalie, ela...
— Quantas vezes eu já disse que você só não cresce mais por culpa dessa mulherzinha!? Acredita que ela não me deu uma data fixa para a sua viagem para cá ainda!? Gabriel, eu estou avisando: ela é um perigo para a sua carreira e...
— É que eu estou doente e...
— Oh! Minha nossa! — toda a irritação da voz dela desapareceu e um drama exagerado tomou lugar — O que você tem? É grave? ... é contagioso? Como eu não fui informada disso antes!? Vou ir para Paris o quanto antes para demitir essa sua assistente!
— Não é necessário!
— Mas Gabriel, somos amigos e eu...
— Eu vou ir a um especialista ainda essa semana, não precisa se preocupar com nada!
— Mas eu preciso do seu texto e...
— A ligação... cortando... estou em um túnel... elevador... avião... até... — e, antes que a mulher do outro lado da linha tivesse tempo para se despedir, Gabriel encerrou a ligação e suspirou aliviado — Eu não falei que as ligações dela estavam suspensas?
— Eu estava cuidando de tudo até você chegar, senhor... — a assistente encolheu os ombros.
— Por que o senhor não quer falar com a tia Audrey, pai? — Adrien perguntou curioso, esquecendo-se completamente de esconder os marcadores para prestar atenção na conversa dos adultos.
— Porque ela quer um artigo com a minha opinião sobre festas à fantasia antes do aniversário da Chloe e eu... — o Agreste mais velho olhou para o filho, ou melhor, para o que estava na mão dele — Esses são os meus marcadores profissionais, filho? — utilizando do máximo esforço possível, Gabriel controlou a irritação e tentou soar ameno.
— ... Sim.
— E essa folha A3 completamente rabiscada com os meus marcadores profissionais é aquele papel especial que eu uso para as minhas criações, filho? — já era possível notar a irritação arranhando a voz no fim da frase.
— ... É.
— E por que você rabiscou ela toda... — o Agreste mais velho precisou respirar fundo antes de continuar— ... meu filho?
— Porque...
— Porque eu pedi, senhor. Adrien está me ajudando a arrumar seus marcadores e recarrega-los, já que o senhor está doente e não pode fazer tanto esforço — Nathalie explicou, se levantando e encarando o superior.
— Entendo, entendo perfeitamente — mais uma vez ele suspirou, apertando as têmporas — Nathalie, pode vir comigo um momento? Temos que discutir sobre uma pauta importante.
— Não é melhor eu sair e vocês dois conversarem aqui? — Adrien perguntou um tanto mais curioso do que de costume, era raro ver os dois juntos sem ser no ateliê e mais raro ainda para discutir uma “pauta importante”.
— E atrapalhar a sua recém criatividade para rabiscar os meus papéis caríssimos com os meus marcadores? Nem pensar, filho... — Por mais que doesse ver suas Copics indefesas sendo utilizadas de maneira tão esdrúxula, parte de Gabriel estava feliz em ver o filho seguindo os mesmos passos que ele.
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Quando Gorila estava prestes a entrar pela porta principal, ouviu um barulho estranho vindo das folhagens. Ele até pensou em entrar na mansão e fingir que não tinha ouvido absolutamente nada, mas antes de abrir a porta se lembrou que as janelas do ateliê estavam abertas e que o barulho parecia ter vindo de perto de lá, só significando uma coisa:
Nathalie estava em perigo porque o sequestro de Félix no parque não deu certo e agora eles queriam levar ela como garantia de uma dívida pelo tráfico do café alucinógeno. Eles tinham entrado na mansão e implantado alguma substância que ela tinha alergia e também arrumaram um jeito de tirar Gabriel de perto do ateliê, só para que ela resolvesse abrir as janelas para que eles a sequestrassem!
A ordem cronológica poderia estar desordenada, assim como aquela pequenina teoria da conspiração não fazia absolutamente sentido algum, mas nada disso impediu o guarda-costas de ir sorrateiramente ver o que estava acontecendo. Bem ou mal, era o trabalho dele garantir a segurança da mansão e era isso o que ele faria.
Quanto mais ele se aproximava, mais era possível notar que tinha alguém escondido no meio das folhas. Também era evidente que não se tratava de um mafioso perigoso que poderia fazer mal a Nathalie, mas sim de um mafioso mirim:
— Félix? — se o grandalhão tivesse sobrancelhas, elas estariam levantadas em surpresa agora.
— Fala baixo! — pediu o loiro em um sussurro irritado.
— Por quê? — dessa vez ele também falou baixo.
— Olha ai dentro... — ele encarou a janela acima de si por alguns segundos.
Gorila seguiu a sugestão, imaginando que talvez fosse um presenciar uma negociação entre mafiosos perigosos ou Nathalie roubando o cofre da mansão, mas viu algo bem pior: Gabriel Agreste. Instantaneamente, o grandalhão se abaixou.
— Precisamos sair daqui, ele vai notar que as janelas estão abertas.
— Eu sei, mas como? — definitivamente, o nervosismo arruinava completamente qualquer tipo de pensamento lógico de Félix.
— ... Andando?
— Ficou louco!? Ele vai ver que tem pessoas andando pelo jardim! — o loiro sussurrou em pânico.
— ... Rastejando?
— É, é uma boa ideia, vamos rastejando!
Gorila não contestou e muito menos pensou em como aquilo era uma ideia estupida. Os dois poderiam muito bem ter se abaixado e andado até estarem fora da vista das janelas do ateliê, mas não: os dois se jogaram no gramado e foram rastejando até a porta principal, como se fossem duas crianças brincando de imitar minhocas.
Quando finalmente chegaram até a entrada, exaustos e com algumas gramíneas agarradas pela roupa, os dois se colocaram de pé. Ambos compartilhavam de uma tensão exageradamente grande, que perdurou até que a porta foi aberta. Para piorar ainda mais o nervosismo dos dois, tudo o que viram foi Nathalie e Gabriel saindo do ateliê e indo para as escadas.
Os dois poderiam ter sido vistos! Tudo poderia ter sido arruinado! Absolutamente tudo, mas felizmente não foi. O estilista e a assistente nem mesmo notaram que a porta da entrada estava aberta, porém, na mente de Félix e na do Gorila, o fato dos dois não terem sido descobertos foi graças a ambos terem se escondido atrás dos vasos de plantas da entrada.
Os dois ficaram parados como estátuas, com os galhos ajudando a esconder praticamente nada. Ficaram assim por tempo o suficiente até que o Agreste e a assistente sumissem de vista, ficaram ainda um pouco além apenas para garantir que não seriam pegos.
— E agora? — o loiro sussurrou.
— Precisamos ir para um lugar seguro... — o outro cochichou em resposta.
— Cozinha?
— Não, nada de ir para a cozinha!
— Que lugar poderia ser seguro então!?
Os dois não notaram que estavam longe de continuar sussurrando, mas Adrien notou. Depois que o pai e a “mãe” saíram do ateliê, ele tinha procurado por Félix olhando pelas janelas e não encontrou nada, mas bastou ouvir a voz do irmão para ir correndo até a entrada da mansão.
— O que vocês dois estão fazendo? — foi tudo o que o Agreste mais jovem conseguiu perguntar enquanto encarava o irmão mais velho e o guarda-costas escondidos atrás de algumas plantas decorativas.
— Fala baixo! — os dois escondidos falaram em uníssono.
— Adrien, precisamos de um lugar seguro que o seu pai não costume ir — Félix encarou o outro loiro, tentando não deixar tão obvio o quando dependia da ajuda dele.
— Fácil: qualquer lugar fora da mansão!
— Mas tem que ser aqui dentro, Adrien — acrescentou o Sancoeur depois de um revirar de olhos.
— Nesse caso... — o mais novo pareceu pensativo por alguns instantes antes de sorrir.
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Nathalie seguiu o superior sem falar absolutamente nada. Provavelmente ele iria pedir ajuda para o texto sobre festas à fantasia, isso se realmente fosse um assunto relacionado à trabalho, o que dificilmente seria. Era muito mais fácil prever que seria alguma conversa relacionada à uma viagem urgente para o meio de uma tribo indígena na Austrália.
— E qual seria a pauta importante, senhor? — Nathalie perguntou enquanto se controlava para não revirar os olhos, uma vez que já estavam no quarto do Agreste e ela imaginava a imensidade de assuntos completamente aleatórios que ele poderia usar.
— Você ficou realmente parada enquanto Adrien destruía os meus marcadores e meus papeis!? — ele bufou, saindo completamente de algum tema esperado.
— Ele estava me ajudando, não é como se o senhor usasse esses materiais sempre. Normalmente prefere os meios digitais e...
— São materiais caríssimos, Nathalie! — ele pontuou.
— Seu MacPro foi mais do que caríssimo, senhor.
— Mas eu vou usar ele para o resto da vida, vale à pena.
— Com o valor que pagou, compraria marcadores o suficiente para os seus netos.
— Exatamente neste ponto que eu queria chegar, algo próximo. É uma conversa de adultos, Nathalie.
— Eu não vou ter a conversa sobre bebês com o Adrien, senhor.
— Não é essa conversa, Nathalie! Por favor! — mais uma vez, Gabriel apertou as têmporas — Está vendo isso? — ele apontou para a televisão enorme, pausada exatamente aos treze minutos de filme e mostrando apenas a escuridão.
— Uma televisão desligada? — ela ergueu a sobrancelha.
— Não, Nathalie! Francamente, você já foi melhor do que isso... — ele suspirou — Esse filme que eu estava vendo é completamente inapropriado para o meu filho por culpa dessa cena!
— Qual cena?
— Essa cena com a assistente e o crítico.
— Eu entenderia melhor se eu visse a cena toda, senhor, não apenas essa tela preta.
Deixando clara a irritação e tentando não demonstrar sua total incapacidade em conduzir o controle remoto, Gabriel voltou alguns minutos do filme. Na verdade, ele voltou tempo demais: para uma cena onde o crítico conversava com a assistente, aos 8:10. Mais especificamente quando ela falava “Cansei de namorar artistas”.
Tentando entender o que poderia ter de tão sério naquilo, Nathalie tentou interpretar aquelas palavras com todo o drama exagerado do superior:
— Isso te fez lembrar da senhora Emilie e que provavelmente ela já disse isso algumas vezes na vida dela, principalmente depois que vocês ficavam brigando por horas, senhor?
— Na verdade, eu apenas voltei demais. Obrigado por me fazer ter lembranças desagradáveis, Nathalie.
— Não há de que, senhor.
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A festa de gala da inauguração do hotel Bourgeois terminou mais cedo para o casal Agreste.
Durante toda a festa, Emilie e Gabriel ficaram trocando cochichos mal-humorados até que resolveram que a melhor alternativa era voltarem para casa antes que algum dos jornalistas os usasse como assunto para a coluna de fofocas. Bastou que chegassem na mansão para que os cochichos se tornassem gritos histéricos enquanto os dois zanzavam pela entrada.
— QUAL É O SEU PROBLEMA COMIGO, GABRIEL AGRESTE!? — Emilie gritou assim que a porta principal foi fechada.
— COM VOCÊ: NENHUM, EMILIE AGRESTE. O MEU PROBLEMA É COM ESSA BOLSA HORRÍVEL! — para enfatizar, Gabriel gesticulou e por fim apontou para a belíssima bolsa que a esposa usava.
— FOI VOCÊ QUEM ME DEU ESSA BOLSA HORRÍVEL! — a mulher fez questão de arremessar o acessório na direção dele, errando por poucos centímetros.
— MAS NÃO DEI PARA VOCÊ USAR COM ESSES SAPATOS! VOCÊ SÓ TOMA PÉSSIMAS DECISÕES!
— VAI COMEÇAR A CONTROLAR O QUE EU VISTO!? É ISSO O QUE QUER!?
— ENTENDA QUE É A SUA OBRIGAÇÃO SE VESTIR BEM! — ao fim da frase, Gabriel precisou desviar de um sapato que foi arremessado nele — VOCÊ SE CASOU COM UM ESTILISTA!
— EU ME CASEI COM UM IDIOTA! — a loira arremessou o restante do par, já buscando por mais objetos que poderia jogar no marido.
— EU JÁ ESTOU FICANDO CANSADO DESSE SEU JEITO EGOISTA!
— E EU JÁ ESTOU CANSADA DE ARTISTAS NA MINHA VIDA!
— Quer saber, querida? Eu vou voltar ao trabalho porque se não fosse por esse artista idiota, não teríamos nada!
— E se não fosse pelas minhas decisões horríveis, você não teria chego tão longe!
— Essa discussão já acabou, Emilie!
— Ótimo! Volta para o seu trabalho estupido enquanto eu me entupo de calmantes para conseguir dormir do seu lado!
A resposta que Gabriel deu para a esposa foi bater a porta do ateliê o mais forte possível e se trancar lá dentro. Já sem paciência e muito menos condições psicológicas para lidar com aquilo, Emilie subiu as escadas enquanto tentava segurar as lagrimas de raiva.
— Senhora... — Nathalie chamou baixo, estava encostada na porta do quarto de Adrien e tinha ouvido tudo, mas como sempre, ela preferiu não interferir na briga dos dois.
— Eu não quero saber, Nathalie...
— O seu filho já está dormindo e eu...
— Eu já disse que não quero saber! Deixa ele dormindo, leva com você, tanto faz! Eu não quero saber! — e, assim como o marido, a loira entrou no quarto e bateu a porta o mais forte que conseguiu.
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Mais uma vez, Gabriel tentou colocar no momento certo. Porém, como criatura exagerada que é, dessa vez ele adiantou demais e acabou indo parar aos 13:50. Para a surpresa dele e da assistente, o crítico estava completamente nu enquanto trabalhava no notebook.
— É realmente chocante, mas não tem nada exatamente sendo exposto e...
— Calada, Nathalie. Não é essa cena ainda.
Dessa vez enquanto tentava colocar no momento certo, o Agreste estava completamente vermelho e envergonhado. Talvez não fosse a melhor ideia mostrar aquela cena completamente devassa para uma assistente, principalmente no quarto dele: fugiria completamente do profissionalismo e poderia resultar em um processo. Porém, era pelo bem de Adrien.
Ele conseguiu.
Exatamente aos 12:50 ele tirou do pause e encarou a parede, esperando pela reação de Nathalie.
— Era só isso? — a mulher perguntou enquanto tentava reprimir todas as reclamações possíveis por ter sido tirada do trabalho para ir ver aquilo.
— Como assim “era só isso”!? Você viu ele colocando a mão na...
— Por baixo da saia dela? Ela quem colocou a mão dele lá, na verdade, tanto que ele pareceu surpreso. Aliás, apenas deu a entender que foi algo além disso, já que cortou. Talvez, lá na frente, o senhor descubra que não aconteceu nada porque, como o próprio ator disse: ela o deixa confuso.
— Não te chamei aqui para fazer uma análise profunda do filme! Te chamei para reclamar da falta de controle do que meu filho pode assistir!
— Existe uma coisa chamada faixa etária e...
— O que ele pode estar assistindo nessa coisa!? Eu não quero nem pensar em toda a inocência do meu filho sendo arruinada por, por...
— Um homem nu mexendo num notebook?
— Não! Aquilo não teve nenhum teor erótico como isso e... e... Ela é a assistente e ele um crítico de moda! Não entende como isso é errado!?
— Não — já sem paciência para continuar, ela cruzou os braços — Não está se colocando no lugar do crítico e me colocando no lugar da assistente, não é? Sabe que eu posso processar o senhor ou algo pior, não sabe?
— Nathalie! O ponto é que...
— Que existe uma coisa chamada faixa etária! — sem dar mais chances para argumentação, ela tomou o controle remoto e voltou para a tela principal do filme — Dezesseis anos! Faltam meses até que o Adrien faça dezesseis! A conta dele iria bloquear o acesso e mais: acha mesmo que ele iria ver um filme desse tipo ao invés de animes!?
— A questão é que...
— Você colocou ele para assistir RuPaul’s Drag Race ontem à noite!
— Isso é completamente...
— Tem uma parede de escalada no quarto dele! Uma parede de escalada!
— E o que isso tem a ver com o filme!? — foi a vez de Gabriel perder completamente a compostura.
— O senhor não sabe o jeito certo de cuidar de uma criança!
— E nem você!
O silencio dominou completamente o ambiente.
Já era a segunda vez no mesmo dia em que a capacidade de ser uma boa mãe de Nathalie estava sendo desconsiderada. Porém, dessa vez, ela não podia gritar em plenos pulmões que era uma mãe perfeita na medida do possível.
Gabriel ficou encarando a assistente por alguns momentos, se perguntando se aquilo poderia ter, de alguma forma, feito com que ela pensasse em arrumar uma criança com o namorado misterioso e abandonar de vez o trabalho. Ele não podia permitir tal coisa!
— Eu não estou falando que Adrien é meu filho e não seu, como em todas as outras vezes... — o tom que ele usou foi o mais calmo possível para não soar como repreensão — Só estou tentando dizer que você é excelente no seu trabalho, mas não são todas as mulheres que servem para serem mães. Você provavelmente iria ser uma péssima, daquele tipo que fica longe do filho mesmo quando está perto porque só quer trabalhar... É melhor ter apenas um gato, você parece ser do tipo de pessoa que gosta de gatos. Claro, eu não quis ofender você, Nathalie...
— Ofender? O senhor apenas se descreveu, está longe de conseguir me ofender agindo assim... — foi tudo o que Nathalie disse antes de sair do quarto e deixar um Agreste muito confuso com suas palavras para trás.
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As crianças não estavam mais no ateliê, não estavam na cozinha e nem mesmo no quarto de Adrien. Nathalie já estava começando a ficar preocupada por imaginar todos os tipos de travessura que Félix poderia ter feito. Ela precisava pegar a bolsa e sair atrás deles o mais rápido possível.
Para o alivio dela, assim que entrou no quarto de empregados que tinha deixado as coisas, encontrou os dois rapazes e o guarda-costas conversando. Tirando por algumas folhas e manchas de grama nas roupas de Félix e de Gorila, não tinha absolutamente nada de errado com eles.
— Oi, mãe! — sorriu o loiro mais velho.
— Oi! — Adrien também sorriu.
Por alguns poucos segundos, ela quase esboçou um sorriso, mas bastou se lembrar que eles estavam fora do castigo para aquela ideia de demonstrar algum tipo de alegria ir para o ralo:
— Vocês dois deveriam estar arrumando os marcadores, posso saber o porquê de estarem aqui? — ela cruzou os braços, esperando explicações.
— Eu pulei pela janela e... — começou Félix.
— Tivemos que rastejar, porque... — Gorila também tentou contribuir na explicação.
— Viemos para um lugar seguro, já que o meu pai... — o Agreste tentou explicar, arruinando por completo a ordem.
— Chega, eu não quero mais saber! — ela perdeu o pouco de paciência que ainda tinha — Eu saio de perto de vocês por dois minutos e fazem uma teoria da conspiração para fugirem do castigo!?
— Mas mãe... — Félix tentou fazer os olhos de gato abandonado.
— Sem “mas”!
— Mas mamãe, é verdade... — Adrien também deu o seu melhor para imitar aquele olhar irresistível.
— Eu disse que já chega! — Nathalie começou a bater um dos pés contra o chão — Eu sabia que manter vocês dois juntos não seria uma boa ideia! Vocês três! — ela se corrigiu — Eu quero ver o dia em que eu sumir, o que vocês vão fazer sem mim para colocar um pouco de juízo nessas cabeças ocas!
— Você não pode sumir também! — por impulso, Adrien praticamente pulou em cima dela e a abraçou como se Nathalie realmente pudesse sumir de um momento para o outro. Ele não queria sequer imaginar algo assim acontecendo de novo com alguém próximo.
— Se a senhora sumir, me leva junto! — Félix também a abraçou, em parte estava preocupado e em parte estava com ciúmes de Adrien.
— Vou pensar no caso de vocês... — ela revirou os olhos, ainda estava irritada com aquele péssimo comportamento deles.
— Se realmente precisar sumir e quiser um motorista... — Gorila ergueu os ombros, já estava mais do que inserido no meio daquela história com a máfia, ser um ajudante de fuga não pioraria tanto assim as coisas.
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