Máscaras
1 Sorrisos e lágrimas
Notas iniciais
Botan odiava aquele trabalho na mesma intensidade que o amava. Se por um lado adorava o embalo do vento esvoaçando os seus cabelos, enquanto conduzia os espíritos até o Reikai, por outro, exercer a sua função às vezes lhe trazia a mais profunda repulsa à humanidade.
Morrer fazia parte da vida. Ela sabia que tudo eram fases; um ciclo feito de início, meio e fim. Por isso, ao atuar como guia espiritual, se esforçava ao máximo, sempre com um sorriso no rosto e piadas na ponta da língua para aliviar a tensão do momento. E por mais que alguns casos fossem particularmente dolorosos ou difíceis de suportar, Botan não deixava que os seus sentimentos transparecessem em suas feições. Na verdade, na maioria das vezes conseguia disfarçar muito bem a própria dor, como se tivesse sido treinada a vida inteira para isso. Ser uma guia espiritual implicava em, antes de tudo, ser uma excelente atriz. Ela sabia a hora certa de rir ou se lamentar, de demonstrar felicidade ou tristeza. Porém, ainda que tentasse manter a si mesma sob controle, existia uma parcela específica de circunstâncias capazes de atingir diretamente o seu ponto fraco. Circunstâncias tão particulares que, de repente, mascarar as suas verdadeiras emoções tornava-se quase impossível.
Dessa vez, enquanto caminhava, Botan evitava olhar diretamente para o embrulho frio e imóvel que carregava em seus braços. Tão frágil, tão pequeno e tão indesejado. Uma vida ceifada antes do tempo, abandonada no mundo para morrer da maneira mais cruel. Descartada como se não não tivesse importância alguma para aqueles que a geraram.
Ao Reikai cabia apenas o julgamento de almas já desenvolvidas, proveniente de indivíduos sencientes. Humanos que retiveram memórias de suas vidas, que desenvolveram laços ou desafetos. Que respeitaram ou desobedeceram as leis que lhe foram impostas. Esse conceito, porém, não se aplicava às crianças de até três anos de idade.
Com um período de vida tão curto, essas almas tão puras e intocadas nunca poderiam ser julgadas da mesma forma que as demais. Por não possuírem pecados, nem tampouco noção obediência às normas da sociedade, tal julgamento seria completamente injusto e ilógico. Além disso, por serem espíritos não completamente desenvolvidos, facilmente poderiam se perder no momento em que desencarnassem do corpo físico, tornando-se potenciais almas errantes, já conhecidas por perturbarem os vivos ao tomarem forma de vultos, fantasmas, vozes, entre outros.
Para evitar esse problema, o Reikai estabeleceu maneiras de lidar com a morte de crianças humanas. Em um processo natural, morrer implicaria na separação imediata entre alma e corpo, mas, para esses casos, a regra se tornaria a exceção. A solução foi simples e prática: para os recém-nascidos, o Mundo Espiritual projetou uma espécie de selo de ligação entre espírito e matéria física. Um lacre que seria rompido automaticamente após os três anos de vida. Assim, uma vez que uma criança morresse antes dessa idade pré-determinada — seja qual fosse a causa de sua morte ou o estado de seus restos mortais — o seu espírito não desprenderia naturalmente do cadáver e, portanto, não poderia ser carregado até o Reikai por uma guia espiritual. Dessa forma, quando houvesse uma morte natural ou acidental, em que a criança fosse velada normalmente pela família remanescente, a sua alma permanecia eternamente conectada ao corpo, após um ritual que a permitiria descansar em paz.
De um modo geral, isso resolvia a maior parte das situações possivelmente problemáticas, no entanto, ainda haviam os casos em que as crianças eram propositalmente abandonadas no mundo, sem perspectiva alguma de sobrevivência. Por ninguém requerer o corpo de tais indivíduos, o próprio Reikai se prontificava a recolher os cadáveres, uma vez que a morte por inanição fosse confirmada.
O Mundo Espiritual, porém, não poderia reter o corpo tangível de crianças humanas, pois comportava somente a presença de espíritos. Sendo assim, uma nova solução precisou ser encontrada.
Caminhando sem muito prestar atenção em seus próprios passos, Botan chegou à margem do rio Sanzu, o divisor entre o mundo dos vivos e dos mortos. Conhecido também pelos perigos trazidos àqueles que o tentassem atravessar sem o auxílio de um guia. Graças a isso, inúmeras histórias acerca de seus mistérios se espalharam desde os primórdios da humanidade, perpetuando-se no tempo. Muitas delas eram verdadeiras; já outras, nem tanto. O fato é que, por estar no meio do caminho entre o Ningenkai e o Reikai, o enorme curso de água que se estendia ali por quilômetros não era um rio comum como qualquer outro. Criado por um ser superior a todos aqueles existentes no Mundo Espiritual, a sua funcionalidade ainda era um enigma. Contudo, algumas de suas propriedades já estavam mais do que comprovadas.
Absorta, a guia espiritual encarava fixamente o enorme rio envolto em névoa, quase como se estivesse em transe. Ela respirou fundo, planejando se concentrar no que tinha que fazer. Como uma tarefa tão simples poderia se tornar algo tão martirizante?
— Botan, espera! — por detrás dela, o chamado a pegou de surpresa.
Automaticamente, ela tentou se recompor, estampando um sorriso falso no rosto antes de se virar para o líder do Mundo Espiritual.
— Senhor Koenma? O que faz aqui?
Ele se aproximou antes de responder, parando exatamente ao seu lado.
— Quando soube que você foi recrutada para buscar o bebê, não quis te deixar sozinha. Não era pra você ter sido selecionada pra esse trabalho, mas estavam todos ocupados. Sinto muito.
— Não tem problema — ela sorriu ainda mais, numa expressão quase teatral — Esse é o tipo de trabalho que nenhum de nós gosta de fazer, então alguém tinha que se sacrificar. Se não fosse eu, seria outra pessoa. Você é que não deveria ter vindo, porque vai atrasar todos os julgamentos do dia, e o senhor Enma Dai-Oh vai ficar uma fera!
— Não precisa fingir, Botan. Comigo você pode ser sincera. Sei como isso te afeta.
O sorriso da guia se desfez no mesmo instante, deixando para trás uma expressão melancólica e abatida.
— Não precisa aguentar tudo sozinha. É pra isso estou aqui — Koenma continuou, estendendo os braços em seguida — Deixa que eu faço isso.
Botan não respondeu. Após dar uma última olhada na recém-nascida sem vida em seus braços, entregou-a para o seu superior, sentindo-se imediatamente mais leve. Era como se aquela pequena criatura estivesse pesando toneladas.
— Nossa. Ela era tão nova... — Koenma comentou ao analisá-la — Devia ter uns dois meses, no máximo.
— Ela faria dois meses na semana que vem — Botan retrucou. A voz tão trêmula que chegava a falhar.
Koenma se aproximou do rio Sanzu, ajoelhando-se na beirada para depositar o corpo na água. Na sequência, se juntou a Botan, que cada vez mais parecia prestes a desmoronar em lágrimas.
Ambos assistiram a criança afundar gradualmente, até desaparecer por completo naquela imensidão azul esverdeada.
— Você está bem? — Koenma perguntou.
— Sim — ela respondeu, arrependendo-se da mentira no mesmo instante.
Mesmo sabendo que podia confiar em Koenma, a guia instintivamente evitava ser transparente. No fundo, ela estava apenas mentindo para si mesma, tentando não se entregar ao sofrimento.
— Botan...— ao perceber a farsa, ele lançou um olhar cúmplice, da forma mais amigável possível.
Ela suspirou profundamente.
— Acho que eu nunca vou conseguir entender como os humanos podem abandonar um bebê por aí, como se ele não fosse nada. Como podem propositalmente largar ele na rua pra morrer de fome e frio? Por que eles fariam isso? Não faz sentido algum pra mim. Simplesmente não consigo me conformar com tamanho absurdo!
A primeira lágrima escorreu em seu rosto, abrindo espaço para as seguintes. Botan agilmente tentou escondê-las, limpando-as o mais rápido possível, mas o estrago já estava feito.
— Eu também não entendo. Mas, se te conforta, quando chegar a hora, eles serão julgados por isso. Terão a punição que merecem.
— Na verdade, pensar nisso me deixa ainda pior.
Numa tentativa de confortá-la, Koenma a abraçou, deixando-a chorar pelo tempo que fosse necessário. Somente quando enfim conseguiu se tranquilizar, cessando os soluços, Botan se afastou, materializando o remo que usava para se locomover.
— Melhor eu voltar logo pro trabalho. As almas não vão atravessar o rio sozinhas, né?
— Se quiser, pode tirar um dia de folga.
— Não. Prefiro me manter ativa, pelo menos assim me distraio. Até porque, nem consigo ficar parada por muito tempo mesmo — ela forçou um riso desajeitado, ainda tentando disfarçar a própria dor. Ao perceber que o líder do Reikai continuava a encará-la com desconfiança, ela decidiu então acalmá-lo — Não precisa se preocupar, senhor Koenma. Eu vou ficar bem.
— Eu sei que vai, Botan. Você sempre foi muito forte, apesar de tudo. Sabe, eu estava aqui pensando...— ele olhou de volta para o rio —...que tal se no futuro essa menina se tornar a sua primeira aprendiz? Ela vai querer saber da própria história e eu não consigo pensar em ninguém melhor do que você para lhe explicar tudo. Afinal, vocês duas são iguais.
A guia também se direcionou para o rio Sanzu, dessa vez o observando com ternura. Aquela era a morada final de seu verdadeiro corpo, o lugar onde fora depositada do mesmo jeito que a recém-nascida que há poucos minutos jazia eternamente adormecida em seus braços. A menina que, em um ano, sairia dali como o espírito de um adulto. Recrutada pelo Reikai para também se tornar uma guia espiritual.
A história era exatamente a mesma e se repetia de tempos em tempos. Botan se lamentava por não ter tido a oportunidade de viver, por não ter crescido ou ter construído memórias com aqueles que deveriam ser a sua família. Era triste pensar que os seus pais simplesmente a deixaram desamparada para morrer, mesmo sendo apenas um bebê indefeso. Ainda assim, por mais estranho que fosse, guardar rancor não lhe parecia correto. Se eles foram ou seriam punidos por isso, ela preferia nem saber. Na verdade, ela nem sequer era capaz de desejar mal a eles. Por ser tão etérea quanto o espírito que a originou, qualquer sentimento de maldade era incompatível com a sua existência. Após passar meses submersa naquelas águas misteriosas, Sanzu a trouxe de volta ao mundo. E, ao emergir dali com a sua atual aparência, Botan enfim descobriu o seu propósito: trazer alegrias para os outros, ainda que ela própria estivesse infeliz.
— Eu ia amar treiná-la! Mas o senhor acha mesmo que estou pronta pra ensinar alguém? Existem guias mais experientes do que eu...— Botan perguntou, um tanto hesitante.
— Não seja boba, Botan. Em pouco tempo você já se tornou uma das melhores no cargo, sempre encarando tudo de um jeito único. Tenho certeza que a menina vai se identificar com você.
Botan sorriu. Dessa vez, genuinamente, sem a necessidade de fingimento algum.
— Obrigada, senhor Koenma. Por tudo!
Em resposta, Koenma também sorriu, mas nenhum dos dois disse mais nada. Eles se despediram em silêncio, com uma troca rápida de olhares e, em seguida, partiram em direção aos seus afazeres.
Botan nem sempre estava tão feliz quanto queria aparentar, pois a verdade sobre a sua origem constantemente a atormentava. Mesmo assim, ela não deixaria que a sua própria tristeza afetasse os outros. Guardando todo o pesar pra aí mesma, quando chegou ao compromisso seguinte, já não haviam mais lágrimas em seus olhos, mas sim um largo sorriso desenhado em seus lábios, pronto para recepcionar a alma do jovem que acabava de perder a vida em um leito de hospital.
Tudo ficaria bem, ao menos enquanto ela estivesse usando aquela máscara.
Fale com o autor