Márcio e Samuel
1 One shot
Lembro como se fosse ontem o dia em que começou a jornada minha e do meu irmão. Fomos expulsos de casa, os dois. Um dia eu havia chegado da faculdade — cursava o segundo período, meus pais estavam orgulhosos por ter um filho universitário — à tarde e encontrei o meu irmão, Samuel, chorando. Ele estava tirando os livros da mochila e colocando roupas nela.
— Vai viajar? — perguntei, inocente.
Ele me contou a verdade, ainda com os olhos banhados de lágrima e fúrias. Papai descobrira a verdade: nós dois éramos gays. Ele apanhou naquela manhã ao chegar da escola (fazia o terceiro ano do ensino médio, era dois anos mais novo do que eu). Eu não havia visto nossos pais ainda, mas sabia que aquele dia podia chegar: estava preparado para isso. Não senti naquele instante um choque real, não por mim, mas senti por ele. Samuel estava totalmente abalado.
— O que vamos fazer, Márcio? — perguntou.
— Nós realmente fomos expulsos? — retruquei.
Ele fez que sim. Nossos pais não estavam em casa; ambos, a uma hora dessas, deviam estar no trabalho. Mamãe saía toda tarde para o ateliê onde tecia e costurava.
— Como foi que isso aconteceu?
Ele me contou que não foi pra aula naquele dia. Contou que papai o espancara pela manhã, antes de ir trabalhar.
— Mas como eles ficaram sabendo?
— Contaram a eles — disse ele, chorando. — Igor contou, só pode ter sido ele.
— Igor...
Igor era como se chamava o primeiro amor do Samuel. Samuel era louco por Igor, mas o meu irmão era um pouco mais impulsivo do que eu, e suas paixões eram fluidas: uma hora podia estar perdidamente apaixonado por alguém, e, ainda assim, no outro instante, esquecia-se por um segundo dessa paixão para se entregar a outra que o arrebatara com maior fulgor, na medida em que a primeira ia fosse esfriando com o tempo. Dessa forma, ele largou Igor por Vinicius, mas Igor, por sua vez, era um sujeito rancoroso. Ele sabia que eu também era homossexual, e certamente não devia deixar as coisas como estavam. Igor era assumido na família, e tinha ódio por aqueles que não tivessem tido a coragem de sequer serem quem realmente são na frente dos outros — acreditei instantaneamente no meu irmão tão logo ele me contou que Igor era o culpado. Meu irmão já havia acabado o relacionamento há pelo menos uma semana, mas o tempo às vezes alimenta o ódio, não o afasta. E assim pude ver ele chegando no ateliê da minha mãe e contando a verdade. Ela, coitada, devia ter chorado muito naquele instante, ao saber sobre seus filhos que tanto idealizara, e imediatamente contou ao papai, mesmo que ele estivesse no meio do trabalho e a xingasse por tê-lo atrapalhado.
Ah, sim, só podia ter sido isso.
— Então é isso... — disse. — Estamos expulsos? Nada de adeus nem nada?
— Para onde vamos? — implorou Samuel.
— Deixe comigo. Continue arrumando suas coisas, e eu virei em seguida para o quarto arrumar as minhas.
A partir daquele momento nossa vida virou de pernas para o ar. Contatei familiares, irmãos do meu pai, irmãs da minha mãe, pedindo por auxílio — não que eu explicasse a situação inteira, mas apenas contei o suficiente e pedi por abrigo por alguns dias, até que eu e o Samuel arranjássemos um trabalho e alugássemos um quitinete desses de estudante, próximo ao campus. Nenhum nos atendeu. Desesperado, passei a imaginar nossa vida na rua. Temi o pior: pior do que a rua, pior do que não ter nada, pior do que se envolver com drogas, não, há algo pior... olhei para a tristeza estampada nos olhos do Samuel, e, depois, vi a mim mesmo no espelho, com aquele mesmo olhar vazio. Há algo pior do que a decadência humana, coisa de que tanto já tinha ouvido falar, mas nunca imaginara possível: suicídio.
Graças a Deus (graças a Deus?) tivemos uma ajuda, uma só, dentre tantos. Mas a essa uma nós nos agarramos, como uma aranha nas teias. Uma prima por parte de pai que também fazia faculdade e morava justamente numa dessas casas que alugavam para estudantes, sabendo disso pela sua mãe (que obviamente contou em tom de crítica) permitiu que fossemos ficar com ela.
Ela cedeu uma rede ao meu irmão e eu dormia no sofá, ambos na sala. De início foi uma confusão com os outros estudantes, mas aos poucos conseguimos ser aceitos sem que fosse contado à dona da casa (afinal, nós não estávamos pagando). Muitos dos moradores eram homossexuais, e Samuel se enturmou bem entre eles.
*
Nossos pais não falaram mais conosco: para eles, estávamos mortos. Ou melhor, para nós, todos os nosso familiares estavam mortos, à exceção dessa prima, porque eles não mais nos aceitavam no que quer que fosse. Estávamos eu e Samuel, a sós, sem mais apoio. A única ligação que ainda ocorreu — a última, o último gesto de misericórdia — foi quando, ao se graduar do ensino médio, nosso pai ter enviado a permissão para que Samuel pegasse o certificado de conclusão. Pouco tempo depois ele já tinha 18 anos e havia passado numa universidade: já podia se cuidar sozinho e, portanto, não tivemos mais contato com nossa família.
Eu arranjei um emprego num call-center e alugamos nosso próprio lugar. Perdemos contato também com a nossa prima — agora, de fato, era só eu e ele. Samuel, até o presente momento, não se recuperara da última vez que vira papai. Ele permanecia triste, ressentido, ao menos por dentro. Eu sabia disso. Por fora, porém, ele adquirira uma máscara "fabulosa" — ele passou a ser mais impulsivo, suas paixões passaram a ser mais frequentes e mais arrebatadoras. Ele assumiu "ser homossexual" como sua plena identidade e começou a espalhar aos 4 ventos esse fato, esperando ser aceito pela sociedade. Eu temia cada minuto por sua vida. Eu, por outro lado, não explodi; eu implodi. Decidi guardar todo o ressentimento e não falar com nada nem ninguém; decidi que não assumiria esse lado da minha identidade, mas faria o meu serviço o melhor possível. Talvez eu seja covarde, mas fiz isso por nós dois. Eu decidi que quero mudar o mundo, mas não como o Samuel; algumas pessoas no meu trabalho sabem que sou gay, e não gostam disso, mas, aos poucos, eles vêm me aceitando — precisam aceitar, porque faço o trabalho tão bom quanto eles, e até melhor. O chefe gosta dos meus resultados, e aos poucos eles passaram da inveja (sofri preconceitos, é verdade) para a emulação. Ainda falam mal, mas precisam me aceitar. Eu farei assim, e farei o mundo todo, ao menos o meu mundo, o mundo a que tenho acesso, engolir a mim como homossexual. E, aceitando-me, aceitarão também o meu irmão. Ele será o melhor dos melhores junto a mim, e, juntos, mudaremos este país.
Como doeu ver, naquele dia, seu olhar desesperançado...
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