Cassandra chegou às dez horas, como combinou com seu pai que seria. A sala parecia mais alongada com um novo sofá e uma mesa de canto redonda, havia um aparador sob a TV e agora a passagem para a cozinha era um belo arco que emoldurava a mesa de jantar vista da sala. Achava que seu pai estava chegando na configuração final.

— Pai? – ela chamou – Eu cheguei!

— Estou aqui nos fundos! Vem cá!

Havia um pequeno quintal nos fundos, acessado pela porta da cozinha. Ele era cercado pela cozinha e uma edícula onde ficava o estúdio de esculturas de Cícero. Quando Cass foi de encontro ao pai, mal reconheceu o espaço, que estava um tanto abandonado. Agora era sim um bom espaço para receber visitas, havia iluminação indireta, almofadas aconchegantes e coloridas, uma mesa de centro que era um disco de cerâmica flutuante.

— Ficou bom, né? – Cícero olhava para os detalhes que ele mesmo havia pensado.

— Incrível. Mágico, mas não de forma exagerada.

— Exatamente.

— Encontrar outros bruxos te fez bem, né, pai?

“Somos seres comunais” Cass se lembrava de Ayla a explicar. O pai afirmou com a cabeça e olhou para a filha em seguida.

— E essa jaqueta? – ele perguntou.

Ela olhou para o casaco azul petróleo que a cobria, batendo sua mão na própria testa.

— Esqueci de devolver. Eu vou guardar isso daqui e me arrumar pra dormir.

— Está bem.

— Ficou ótimo, pai.

— Obrigado, filha.

Ela foi para seu quarto. Sua mente estava mais silenciosa que o normal. Tirou a jaqueta e a deixou sobre a cadeira enquanto colocava seu pijama. Se deitou na cama sem pensar em dormir, olhou para o agasalho ao seu lado. “Sempre cuidando de mim”, pensou. Se lembrou do momento daquela noite onde o chamou para caminhar para que se acalmasse “eu também tento cuidar dele, do meu jeito”.

Puxou o casaco da cadeira para a cama, cheirando perto da gola. Era o cheiro que a acalmava. Sentiu a espinha arrepiar ao lembrar do beijo e repassava o que sentia, abraçava o agasalho como se pudesse abraçar Tom a distância. Parecia tão claro. Havia paixão, carinho, cuidado, tinha certeza! Tão óbvio, mas sem sequer uma palavra? Algo tinha que estar errado, e talvez fosse uma falta de capacidade em interpretar o que entendia de seus poderes mesmo. Afinal de contas, acreditava que André gostava dela e as memórias dele “nem foram tão difíceis de apagar”. Isso sequer fazia sentido. O relacionamento dela e André o fez até mudar os planos para a faculdade, como isso não era importante? E agora ela também teria que estar errada sobre Tom?

O Tom que a recebe em sua casa só para conversar de noite? Que desenvolve um dispositivo que analisa a interferência mágica em um espaço para ajudá-la a falar com sua mãe? Que a consola sempre em que está triste, oferece suporte mesmo quando discorda dela e não perde uma oportunidade de provocá-la ou fazê-la rir? Tudo isso faria mais sentido se seus poderes estivessem certos. Tentando olhar de fora, não precisaria nem de seus poderes. Estúpida! Como pôde acreditar no contrário?

Mas se estivesse certa sobre ele, tinha de estar certa sobre André. Sua irmã teria mentido? Queria acreditar que não, mas conhecendo Agda…

E estando certa, o que faria? Isso não mudava a situação com André, o relacionamento deles estava fadado ao fracasso e estava satisfeita em conseguir digerir isso, mesmo que ainda sentisse muito carinho por ele. Mas estando certa sobre Thomas, sentia que a situação mudava. De repente lembrou da sensação dele a abraçando sob a parreira, da mão dele acariciando seus cabelos naquele dia e igualmente nessa mesma noite, enquanto a beijava. Sentiu um arrepio, apertou o casaco contra seu corpo, quis sorrir.

Não se imaginava mais sem Thomas.

Então era isso? Sentia que era. Bastava agora descobrir o que fazer.

De repente, Cass ouviu uma batida na porta. Ela jogou a jaqueta para o outro lado da cama para que não fosse pega abraçada com ela e Agda abriu a porta em seguida com os cabelos enrolados em uma toalha.

— Cass… – a mais nova entrava no quarto, parecia preocupada, e tinha uma tesoura em mãos.

— Que foi? Que cara é essa?

A mais nova suspirou e tirou a toalha da cabeça enquanto explicava:

— Eu achei que conseguia cortar meu próprio cabelo.

O desnível entre o lado direito e esquerdo fez Cass abrir a boca, surpresa, se sentando na cama.

— Céus…

— Eu queria mudar um pouco.

— Deixa eu ver isso.

A mais nova fechou a porta e entrou, entregando um pente e a tesoura para a irmã. Cass puxou a cadeira para que a irmã se sentasse e começou a pentear os cabelos da irmã, ao menos esse tipo de emergência tirava sua mente de Tom. Visto de perfil, o cabelo de Agda fazia um arco, sendo mais comprido na frente e atrás. Por sorte ela tinha tentado fazer algo só do lado esquerdo.

— Eu podia ter ido com você em um salão. – Cass falava.

— Eu odeio salão, sempre cortam mais do que eu peço e nosso cabelo demora a crescer.

— E agora você vai ter que cortar um chanel.

— Não! Sério?

— Sério. Eu até poderia tentar, mas não sou a artista plástica da família.

— Eu não queria falar com o papai…

— Eu falo com ele pra você.

Minutos depois, estavam os três no estúdio de Cícero. Agda girava sentada em um banco alto enquanto o pai analisava o estrago e explicava:

— O problema é que quando você junta uma mecha na lateral, tanto a frente quanto a parte de trás ficam maiores, porque estão mais longe do ponto onde você está juntando o cabelo.

— Eu queria ter entendido, mas… – Agda dava de ombros.

— Tem como arrumar? – Cass perguntou.

— Sempre tem! Mas vai ficar aqui. – o pai gesticulava, apontando um pouco acima do próprio ombro.

Agda choramingava, arrependida. Respirou fundo e se ajeitou no banco.

— Tá, acaba com isso logo.

Cícero penteava o cabelo da menina se certificando de que não havia qualquer nó, dividia o cabelo no meio, preparava com muito esmero enquanto Cass observava.

— Eu não vou ficar com cara de criança? – perguntava a menina.

— Você tem cara de criança. – a irmã mais velha respondeu.

— Mas mais cara de criança.

— Não sei, Agda. A única coisa que eu sei é que essa foi uma ideia de merda.

— Não… – Cícero não queria que Agda pegasse pesado.

— Mas foi! – Cass tentava não rir.

— Mas não fale assim com sua irmã.

— Mas pai, foi mesmo! – Agda ria entendendo o quanto a situação era boba.

Os três começaram a dar risada nos fundos da casa. Enquanto ria, Cass reparava em como a energia dos três funcionava quando estavam juntos. Era muito diferente de quando estava com Thomas, mas havia certa unidade ali. Percebia o mesmo quando Tom estava com sua família. Tinha algo em comum em todos eles e isso era potencializado quando estavam juntos.

Foi aí que entendeu.

*

Thomas tentava agir normalmente no dia seguinte. A única coisa que não conseguia fazer como nos últimos dias era entrar no campo telepático de Cass, achava muito arriscado, já que de repente se pegava repassando o beijo do dia anterior e não queria lidar com ela percebendo isso.

Cass tentava falar telepaticamente com Tom, ela tinha uma grande revelação para fazer! Ou uma teoria para testar. E para ajudar, não conseguiram ficar sozinhos nem por um minuto. Ele estava a evitando? Era por causa do beijo? Estavam na fila da cantina enquanto ela o encarava, esperando que ele percebesse que deveria falar com ela e reparando nos olhos de novo, no cabelo, nos lábios… Ele olhou para ela, como sua atenção havia voltado para a noite anterior, ela desviou o olhar tentando não corar.

Era quarta, tiveram educação física. Já era final da aula, Thomas estava no vestiário quando Lucas sentou perto dele, vestindo as meias.

— Cara… Cass. – foi tudo o que ele disse.

Thomas olhou para ele, confuso, e perguntou:

— O que tem a Cass?

— Tu que me diz!

Thomas olhou para os lados. André estava ali perto, secava os cabelos com uma toalha que trazia de casa e prestava atenção na conversa sem timidez alguma.

— Bom, eu sei que André estava a fim dela. – Tom respondeu olhando para Lucas de novo.

— É, mas ela me deu um fora. – André se aproximou enquanto contava – Na mesma semana que te chamou pra ser par dela na quadrilha.

— Mesmo?

— Sim. – André não parecia muito feliz em informar.

— Se você não tá admitindo só por causa do André, relaxa! – Lucas gesticulava de forma engraçada enquanto falava – Esse aí tem a paixão frouxa, daqui um tempo ele descobre o próximo amor da vida dele.

— A gente nunca teve nada, não é como se eu estivesse no direito de ter ciúmes. – mas tinha. Não entendia por que, mas tinha.

— Bom, se eu não for perder sua amizade… – Thomas começava a falar.

— Não, relaxa. – André até tentaria falar mais do que isso, mas Lucas o interrompeu:

— Sabia! Tá pegando, desembucha.

— Não é simples assim. – Thomas calculava o que falaria.

Não se tratava de uma mera confissão. Se estavam pegando sinais, tinha que entender quais. E se aquela conversa fosse apenas para saber se o caminho até Cass continuava livre para André? Não poderia deixar. Essa era uma boa oportunidade para criar uma barreira, precisava apenas entender que história poderia manter.

— Por que vocês desconfiaram? – ele começou perguntando.

André girava os olhos como se fosse óbvio, mas foi Lucas que começou a listar:

— Tirando a quadrilha? – ele ria – Vocês sempre estão se sentando juntos quando estamos fora da sala, parece que tem uns assuntos só de vocês, hoje mesmo na fila da cantina ela ficou olhando pra você mó cota e vocês nem estavam conversando nada.

— A jaqueta. – André complementou.

— É, por que tinha uma jaqueta sua no armário dela? Você já estava com outra blusa, ficou carregando duas.

Eram mais evidências do que Tom achou que teria que lidar. Ele estalou a língua.

— Eu precisei emprestar pra ela um dia e ela me devolveu em outro. O sol se põe, a garota está com frio, você empresta sua blusa, vocês sabem! – ele tentava não fazer disso uma grande coisa.

— Então você tá pegando. – Lucas concluía.

— Não, eu… – Tom suspirou, precisava ser crível, resolveu distorcer a verdade – Tá, sendo franco, a gente começou a se falar mais por algum motivo, mas eu achava que ela ia ficar com o André. Você já estava bem mais investido. – ele olhou para André, que concordou com a cabeça – Mas não acontecia e a gente foi se aproximando, eu… comecei a gostar dela. O que tá atrapalhando é que ela tem um ex.

— Um ex? – André levantou uma sobrancelha.

— Sim.

— Mas ela acabou de se mudar para a cidade. – Lucas estranhava.

— Mas eles mantiveram contato por um tempo, porque o término é recente e ela não tá bem resolvida com isso.

— Ela nunca mencionou esse cara nem pras meninas. – André estranhava, sem sequer imaginar que era dele mesmo que Tom estava falando.

— É, mas pra mim ela falou. – Thomas se gabou um pouco.

— Como você sabe que não é só uma desculpa que ela inventou para se esquivar de você? – André parecia pouco convencido.

— Ela não falou me dando um fora, foi numa conversa normal que a gente teve.

— Mas até aí você pode estar no mesmo ponto que eu estava. Pronto pra entrar na friend zone.

Tom queria ter certeza de que André sairia da conversa com todas as esperanças esmagadas.

— É… Posso. Vocês também ficavam conversando até 2 da manhã?

André soltou o ar, os ombros caíram um pouco.

— É disputa em ampla concorrência, a garota nova sempre chama mais atenção até a chegada da próxima garota nova, normal. – Lucas dava de ombros.

Tom pensou em responder. Cass não era “a garota nova” para ele, ele também era novo. Sua expressão deve ter comunicado algo antes de ele se conter, porque Lucas levantou uma mão como quem tenta apaziguar algo, dizendo:.

— Calma, cara, não tô falando que ela é descartável. – e deu risada depois de dizer.

“Me perdi no personagem”, pensou Thomas. Ele percebeu que André estava perdendo a conversa, perdido nos próprios pensamentos, e até sentiria alguma simpatia. Lembrava de Cass pensando: “Mas ele foi um bom primeiro namorado. Era gentil, engraçado, romântico… Tinha todo o jeitinho especial dele.”

— Bom, desculpa aí se eu soei arrogante. Eu não falei nada antes porque achei que seria complicado mesmo. – ele tentou amenizar porque sabia que Cass não gostaria que o grupo se dividisse e tinha pavor de ela perceber que André estava sofrendo.

— Não, de boa, cara. – André voltava para perto de suas coisas, terminando de se arrumar.

— É, relaxa, não é nada. – Lucas terminou de vestir o tênis e se levantou – Boa sorte aí.

Thomas terminou de arrumar suas coisas e saiu do vestiário, deixando Lucas e André para trás. Os dois arrumavam as coisas e não fizeram silêncio por muito tempo.

— Acho que você tem suas respostas. – Lucas disse ao amigo.

— Como eu não vi isso acontecer? – André parecia bravo consigo mesmo.

— Mas a gente viu acontecer.

— Por que eu não agi antes? Quer dizer, não teria adiantado, ela me deu um fora.

— É… você já levou outros foras, mano, daqui a pouco passa.

André não respondeu, afinal de contas “daqui a pouco passa” era o que ele mesmo vinha se repetindo há semanas. Era um fora como qualquer outro, não tinha motivo para estar triste, só não conseguia entender porque estava.

*

Saindo da quadra, não demorou para Thomas encontrar Cass, Melissa e Laulau conversando. Elas não o viram quando ele seguiu para a biblioteca. Teria que falar com Cass para explicar o que houve, mas não havia urgência. Talvez fosse melhor se conversassem apenas por mensagem.

Repassava as coisas que havia dito para André, se surpreendia como não havia precisado mentir praticamente nada. Se tivesse certeza que Cass havia superado André definitivamente, tentaria alguma coisa. Mas enquanto isso não acontecia, parecia arriscar, em vão, a única amizade que ele conseguia se imaginar mantendo.

Quando estava sozinho, costumava ir para casa de ônibus, mas hoje não estava disposto. Desapareceu entre as estantes da biblioteca.

Apareceu em seu quarto, estava vazio como imaginava, a porta estava aberta e ele ouvia a voz de seus pais conversando na biblioteca. Deixou sua mochila sobre sua escrivaninha ainda em silêncio, conferia o celular e havia uma mensagem de Cass:

“Você já foi embora? Precisava falar com você.”

Ele respondeu:

“Também preciso falar uma coisa, pode ser amanhã?”

Enquanto esperava resposta, ouviu uma voz diferente na biblioteca, o que o fez erguer uma sobrancelha. Era uma voz masculina e ele suspeitava de quem poderia ser. Como era parte de sua natureza, levitou devagar pelo corredor, sem fazer barulho, e parou ao lado da porta, ouvindo.

Dentro da biblioteca, Cícero estava acomodado sobre uma cadeira enquanto tomava uma xícara de chá. Ele expressava sua preocupação depois de ouvir sobre o cofre que impedia a filha de usar seus poderes e como haviam conseguido removê-lo:

— Eu e Ariane notamos uma mudança mesmo na época, mas não conseguimos entender o que ou porque havia mudado.

— Isso explica como ela não havia desenvolvido bem os poderes. – Ayla explicava – Esse tipo de bloqueio impede até que a criança sinta interesse em investigar suas habilidades, o que deveria ser natural.

— E é justamente sobre os poderes dela que me preocupo agora. – Cícero ficava inquieto e soltava a xícara, a deixando flutuar enquanto falava – Outro dia, ela me descreveu as habilidades que está desenvolvendo. Há uma parte que não entendemos muito bem ainda, mas ela já consegue identificar uma assinatura energética mesmo de longe, assim como a segui-la e manter sua telepatia. E imagino que conseguirá utilizar sua empatia assim também em breve. É o que estou pensando, não é?

Houve um silêncio antes de Ariela pronunciar:

— Oráculo em potencial.

Do lado de fora da biblioteca, Thomas sentiu seus dedos formigarem.

— Dependendo o quanto ela utilizar os poderes, isso com certeza vai chamar atenção. – Yago ponderava – Vocês usam magias de proteção, eu presumo.

Thomas sentia seu corpo inundar de energia, sua capacidade estava aumentando exponencialmente. Aquele era o tipo de segredo que poderia custar a vida de todos eles.

Cícero abriu a boca para responder enquanto afirmava com a cabeça, mas parou. Todos os adultos notaram a movimentação energética do lado de fora do cômodo e olharam para a porta. Ayla soltou um suspiro e chamou:

— Tom?

O adolescente se revelou aos poucos, ainda flutuando a poucos centímetros do chão. Cícero analisava o jovem, o que emprestava jaquetas para sua filha e passava horas falando com ela à noite.

— Eu posso ajudar. – Tom entendia a gravidade da situação.

— Você ajuda não espionando. – o pai o respondeu.

— Mas eu posso mesmo ajudar, pai, você sabe.

— Do que ele está falando? – Cícero se dirigia a Yago.

— Ele é bom em esconder coisas, energias… – a resposta vinha brevemente.

— Cass não percebeu que eu era bruxo por dias. – o adolescente explicava para Cícero – Até eu achava que ela havia percebido e estava se fazendo de sonsa, mas ela realmente não percebeu nada. – o garoto respirava fundo – Muito prazer, aliás.

Apertaram as mãos, Cícero o segurava e levitava de sua cadeira também para olhar o menino nos olhos. O menino espionava assim como ele fazia potes, compreendia a intromissão. Thomas achava interessante mais alguém que flutuasse.

— Finalmente, não é? O prazer é meu, Thomas.

— Cícero, podemos continuar a conversa outra hora? – Ayla pediu.

— Claro. – o arquiteto respondeu, soltando a mão de Thomas e deixando os pés alcançarem o chão suavemente.

— Eu vou tentar ajudar, vocês querendo ou não. – Thomas desafiava os pais.

— Depois falamos disso, Tom. – Yago se expressava de forma séria.

— Vejo vocês no sábado. – Cícero se apressava em terminar o chá e pegar sua pasta para ir embora.

— Até depois, Cícero, e nos desculpe… – Ayla estava um tanto constrangida.

— Não há problema, Ayla. Agora pelo menos compreendo melhor a situação. Por favor, espero vocês no sábado.

— Estaremos lá. — Yago confirmou.

Cícero desapareceu, deixando Ariela, Ayla e Yago com Thomas.

— Você compreende os riscos? – Yago perguntava para o filho.

— Claro que sim. – Tom era até um tanto ríspido enquanto respondia.

— Então vai entender se eu te pedir para se afastar disso.

— Entendo você pedir, mas se eu posso ajudar a manter a Cass segura, eu vou.

— Se trata da segurança de todos nós, Tom. – Ayla intervinha.

— Sim, mãe, este é exatamente o ponto. Se a gente tá falando de uma oráculo, quem conseguir capturá-la pode pegar a todos nós!

Enquanto Thomas falava, Ariela se aproximou do neto. Ela tocou no braço de Tom e logo desapareceram da biblioteca, reaparecendo no pico de uma colina ao entardecer. Estavam sozinhos, Tom olhava para a avó enquanto engolia a frustração que queria cuspir nos pais.

— Eles não percebem? – ele perguntava para ela, que se aproximava dele e o dava tapinhas nas costas – Cass já se sente tão sozinha, vão querer isolá-la ainda mais? Ela nunca precisou me dizer, mas eu sei que a entendo, eu sei que…

Tom engoliu quando percebeu que iria se emocionar. Fixou os pés no chão e se sentou em uma pedra, ao lado da avó. Ela puxou o ombro do garoto, que se encurvava muito para aceitar o colo da avó.

— O pai dela tá contando com a gente. E de que jeito eu poderia me afastar disso sem me afastar dela? – ele sentiu a avó afagar seus cabelos – Ela não sabe, nem pode saber ainda, mas eu não me imagino sem ela.

Thomas lacrimejava e se surpreendeu quando ouviu a avó começar a dizer sem economizar palavras:

— Talvez você se lembre que, em Eivar, os oráculos viviam isolados. Alguns diziam que era porque, com a possibilidade de saber tudo sobre todos, achavam as pessoas desinteressantes, e isso os fazia incapazes de amar. Outros diziam que era porque, ao ter seus favoritos, o amor fazia dos oráculos enviesados e pouco confiáveis. É importante que você saiba que as duas coisas são mentiras. – ela acariciou os cabelos do neto enquanto sorria, nostálgica, e percebia toda a atenção do neto em suas palavras – A melhor oráculo que conheci admirava as complexidades e monotonias de cada um. E eu sabia que ela amava também, intensamente. E justamente por amar que ela era a pessoa mais justa que conheci.

— O que houve com ela?

— Eles viram que a guerra estava prestes a começar. A maior parte quis se livrar da dor antes que ela começasse. Outra parte… – ela maneou a cabeça torcendo a boca.

— Ela era do segundo grupo? – a avó confirmou com a cabeça. – Eu sinto muito. – Tom suspirou, pensativo. – Então ela já sabe, né? A Cass.

Ele ouviu a avó dar risada fazendo que sim com a cabeça de novo. Ficaram ali mais alguns minutos antes de voltarem para casa.

*

Havia uma mensagem de Cass quando Tom voltou para casa. Dizia:

“Pode ser. Te espero na árvore antes da aula começar”

As manhãs de maio começam geladas e naquele dia era possível ver o vapor da respiração quando se estava embaixo da copa de uma árvore às sete da manhã. Cass estava agasalhada, com sua mochila nas costas e carregava a jaqueta azul petróleo nos braços. Thomas se aproximou percebendo de longe que ela ainda estava encolhida, mesmo usando um agasalho mais grosso que uma camisa flanelada.

— Bom dia. – ele disse se aproximando.

— Ah, que bom que hoje eu já não estou mais contagiosa! – ela estava irritada, claramente. Ele torceu a boca pensando no que dizer – Foi por causa daquele beijo? Você vai ficar me evitando agora por causa disso, é sério?

— Não. Não vou mais. Desculpe, eu não queria te irritar. Não dessa vez!

— Mas que… – ela travou. Ainda tinha mais energia para brigar, mas a resposta honesta, por mais que não explicasse tudo, a desarmava – Tá. E você vai entrar no campo telepático hoje? Porque eu tenho uma teoria pra te explicar.

— Tá, eu posso entrar. Mas antes… você não está com frio?

Ela agitava as pernas, se esquentando.

— Um pouco, por quê?

— Você está com um casaco nas mãos. Acho que você conhece o conceito de agasalho, né? – ele fazia um sinal para seguirem para dentro do prédio.

— Eu trouxe para te devolver. – ela começou a caminhar ao lado dele – Não vesti porque alguém daqui pode reparar e…

— Acho que não é isso que vai fazer alguém mudar a impressão que tem de você, de mim ou da gente.

— Mesmo?

— Mesmo, pode confiar. – ela começou a vestir a jaqueta – Também tenho uma coisa pra te contar.

Os dois seguiram para dentro, caminhando lado a lado com os braços se tocando, deixando o que já era óbvio transparecer ainda mais.