Mágica - Livro I
4 Promessas
Notas iniciais
Aquele dia passou voando. A última aula da quarta-feira era educação física e Cass estava realmente cansada. Odiava se mover. Foi uma das últimas a terminar as voltas correndo ao redor da quadra, se sentindo mais indisposta que o que geralmente se sentia, e se arrastava até o vestiário feminino quando encontrou Tom saindo do vestiário masculino.
— Oi, Cass.
Ela estranhou ele a cumprimentar, levantou uma sobrancelha e torceu a boca passando por ele.
— Oi, Thomas.
— Pediram pra eu te avisar que vão te esperar na frente do ponto de ônibus para o ensaio. – ela parou e o analisou, tentando imaginar porque ele era a pessoa a avisá-la, e não qualquer outra pessoa – A Laulau conseguiu convencer o André e o Lucas a deixar a gente assistir o ensaio, estou bem ansioso pra ver se você é ao menos decente. – ele sorriu concluindo.
— Por que você é assim? – a pergunta saiu sem pensar – Eu não lembro de ter feito nada para merecer sua antipatia.
— Talvez não diretamente. – ele respondeu sério, mas voltou a sorrir cínico em seguida – Até já já!
— Eu não sei- – ela tentou responder, mas ele saía caminhando a passos largos, a deixando falando sozinha. Se não fosse o cansaço, correria atrás dele. Se imaginava gritando com o garoto e o deixando assustado com sua raiva, mas apenas entrou para o vestiário para se trocar.
O lugar estava quase vazio, uma outra garota ainda se arrumava. Laulau, que não era também muito atlética, havia avisado que roubaria na contagem das próprias voltas para terminar mais cedo, e parecia ter funcionado, porque não estava mais por ali. Melissa também havia sido uma das primeiras a terminar. Depois de Cass, apenas Bianca, a garota que andava de preto e carregava um livro sobre magia wicca havia entrado no vestiário. Elas se cumprimentaram apenas com um aceno de cabeça, Cassandra se lembrava de evitá-la. Não era bom andar com garotas que acreditavam em magia. Elas poderiam notar alguma coisa.
Os pratos de bateria ficaram com as baquetas em uma sala do zelador, guardados pela professora. Os recuperou antes de caminhar escadas acima para a saída da escola. Ia para o ponto de ônibus a passos meio duros e irritados, ainda que uma confusão ocupasse sua mente. O que “talvez não diretamente” deveria significar? Eles nunca sequer haviam se visto, Thomas só poderia estar a confundindo com outra pessoa.
Chegou ao local definido para o encontro estranhando ninguém mais estar ali. Teriam passado em algum lugar? Ela demorou tanto assim? Parou à sombra do abrigo do ponto de ônibus e aguardou olhando para outros alunos saindo do colégio. Ninguém com quem ela deveria se encontrar estava ali. Ninguém. Ajeitou os pratos nas costas, conferiu o relógio, logo se faria cinco minutos que estava ali, parada. Não era tempo demais, mas havia um incômodo maior: por que deveria confiar que Thomas a deu a informação correta?
Ela respirou fundo, se colocando encostada em um pilar que segurava um longo quadro de avisos e anúncios publicitários. Usaria seus poderes? Ninguém veria… De verdade, ninguém poderia sequer notar que teria usado. Não poderia passar o dia todo esperando, atrasando o grupo, decepcionando amigos que ela conseguiu tão facilmente dessa vez. Conferiu mais uma vez quem passava pelo portão, cada vez menos adolescentes, e nenhum deles eram quem ela estava esperando.
Olhou para o céu e em seguida para o chão, fechou os olhos massageando a própria testa tentando encontrar Laulau. Rapidamente em sua mente, conseguiu identificar os cabelos cor-de-rosa. A imagem não era tão nítida, consequência do tempo que passou sem recarregar suas energias. A garota de cabelos cor-de-rosa olhava ao redor repetidamente e falava com outros borrões, estavam em uma calçada. Ela e os outros que a faziam companhia se moveram para dar licença a um carro que saía de uma garagem. Cass abriu os olhos respirando fundo, como se tomasse fôlego depois de um mergulho. Em sua mente, se criticava pelo tempo que passou sem sequer brincar com um chacoalho, o que fosse para manter a energia necessária para uma emergência. Ao menos agora sabia para onde ir, se desencostou do pilar e seguiu em direção a saída do estacionamento dos professores.
Foram dois minutos de caminhada até virar uma esquina e ver um grupo a esperando.
— Ali ela! – era Laulau que exclamava, colocando os braços para cima e acenando exageradamente.
— Ai, até que enfim! Achei que perderíamos o ensaio! – Melissa sorria aliviada.
A bruxa se aproximava ofegante carregando os pratos pesados.
— Eu achei que você ia desistir. – André parecia preocupado, ajeitava a bolsa da guitarra no ombro.
— Não, eu… – Thomas estava ali, fingindo alívio, ela não quis falar que simplesmente foi enganada – Eu tive um problema pegando os pratos, mas estão aqui, podemos ir!
— Bora! A gente tá perdendo muito tempo. – Lucas se colocou a caminhar na frente, liderando o caminho.
Os adolescentes conversavam em pequenos grupos, davam risada, Cass ia meio atrás aprendendo o caminho. André diminuiu o passo para caminhar ao lado dela.
— Está muito pesado? – ele se referia aos pratos.
— Um pouco, mas já acostumei. – ela respondia sendo simpática.
— Quer ajuda?
— Você já está carregando uma guitarra.
— A gente pode trocar.
— Não, uma baterista precisa arcar com o peso de suas escolhas. – ela sorria tentando fazer piada, o que o fez sorrir de volta.
Ele não falou mais nada, continuou caminhando ao lado dela em silêncio, vez ou outra a observando com o canto dos olhos imaginando que ela não notava. Ela fez questão de fingir que não notava. Cass não acreditava que André estava realmente interessado nela, mas se fosse o caso, não seria a primeira vez que acontecia. E as outras duas vezes foram catastróficas, é muito difícil dar um fora em um garoto quando o real motivo para isso não é nem a falta de retribuição do interesse, mas sim saber que na verdade se é muito mais velha do que ele pensa.
Chegaram em um estúdio, havia duas salas para ensaios e, naquele horário, só a deles estaria ocupada. Na parte dos fundos do prédio, que foi adaptado a partir de uma casa antiga, havia um barzinho com lanchonete onde Serginho, o dono, tinha que se forçar a lembrar que aquele era um grupo menor de idade e ele não deveria vender cerveja a nenhum deles. JP estava sozinho na sala de ensaio, brincando de criar riffs em seu baixo, quando a porta foi aberta por Lucas e ele pôde dizer:
— Finalmente!
— Houve um pequeno contratempo, mas a doutora Cassandra conseguiu recuperar seu material de trabalho e se juntar a nós. – Lucas falou tentando parecer rebuscado enquanto entrava na salinha.
— Cadê o Diogo? — André perguntou quando deu falta do baterista original do grupo.
— Disse que vai atrasar. – JP respondeu, mas sem acreditar que o baterista realmente apareceria.
— Foda né? Como ele vai passar as coisas pra Cass? – o guitarrista de cabelo curto era empurrado para dentro por Melissa, que se apressava em conseguir um lugar no sofazinho no canto da sala.
— Eu me viro. – Cass respondeu entrando logo atrás pelo caminho que Melissa abriu.
Os adolescentes conversavam, Thomas se sentava no canto da sala em um banquinho, Laulau desenhava uma plaquinha com o nome da banda para segurar como se fosse uma fã em um show de grande estádio, Dudu ao lado dela fazia uma voz fina e gritava toda vez que JP chegava perto de onde estavam.
— Ele olhou pra mim! Ele olhou pra mim! – ele fazia escândalo
— Sai, ele olhou pra mim! – Laulau entrava no teatro passando a fingir trocar tapas com Dudu.
Enquanto conversavam e se divertiam, Cass montava os pratos da bateria em pedestais, ajeitava os tons do jeito que gostava, trocava o pedal do bumbo do estúdio pelo que trouxe de casa, arrumava a altura da caixa e do banquinho. A eficiência parecia quase militar, ela estava exausta, ou faminta. As energias tão zeradas, a ponto de não conseguir manter uma simples consulta de localização pelas redondezas de forma nítida, a acertaram profundamente e exigiam atitudes.
Se ajeitou no banco, o puxando para mais perto da bateria. Bateu em alguns tambores apenas para conferir a distância. Não era o suficiente para acumular inspiração ainda. Olhou para os outros conversando e afinando instrumentos, avisou:
— Eu vou testar rapidinho!
Ninguém pareceu entender ou se importar, mas ela começou a tocar. Posturada e concentrada, ela iniciou com uma virada de caixa e pratos, emendando um ritmo animado e suficientemente rápido. Mesmo sem tocar a semanas, sua habilidade estava intacta, afinal de contas tocava bateria há anos. Foi mantendo o ritmo, sentindo o som reverberar em seu corpo e cobrir qualquer outro som que pudesse chegar ao seus ouvidos.Sentiu o corpo ser atingido por uma onda refrescante e revigorante, como o primeiro gole de água quando se está com sede, ou o conforto da própria cama quando se está cansado, as duas coisas ao mesmo tempo. Sentiu que havia o suficiente para uma pequena consulta de novo, um pequeno truque, ou algo que pudesse a auxiliar em um momento difícil. Não era o suficiente para saciar, mas com certeza algo para aliviar a falta que sentia.
Com mais uma virada, finalizou nos pratos, parando de tocar e os ajeitando em seguida. A sala estava em silêncio, ela olhou para os amigos, alguns boquiabertos. No canto da sala, Thomas estava com uma sobrancelha levantada, como se tivesse presenciado algo absurdo, o que a fez dar uma risadinha seca e então se virar pros demais.
— Então? Decente? – ela sorria perguntando.
— “Decente”?! – Lucas estava boquiaberto
— Menina, você é muito boa! – Laulau parecia a mais animada com isso
— Obrigada – o sorriso de Cass ainda era pequeno, mas sincero. Gostava de ser reconhecida.
Os comentários começaram, e com eles as perguntas. Onde ela havia aprendido, há quanto tempo tocava, coisas que ela tentava responder sem grandes detalhes e improvisando pequenas mentiras.
— Eu só vou terminar de afinar aqui e a gente pode começar! – André parecia animado com a ideia de ter uma musicista experiente no lugar de Diogo.
— Está bem, eu só vou tirar esse uniforme. – Cass respondeu se levantando do banquinho da bateria e indo até o banheiro com uma bolsa.
Ao voltar, agora usando uma blusa justa de alcinhas preta, se sentiu mais confortável para um longo ensaio. O grupo conversava alguma coisa e testava microfones enquanto ela voltava para a bateria.
— Cass, a gente falou de começar com um cover, pra você tudo bem? – André perguntava a acompanhando com os olhos.
— Eu não preparei nada, tudo bem se não ficar igualzinho? – ela respondeu se ajeitando no banquinho.
— Tudo bem.
— É só pra gente entrosar um pouco. – Lucas complementava.
— Então tá. Qual vai ser? – a garota prendia os cabelos enquanto perguntava.
— Qual aquela que você tinha falado, André? – Lucas olhou para o amigo, que não respondeu de imediato porque seus pensamentos se perderam observando o colo e os ombros da baterista agora de cabelos presos e pela primeira vez com uma roupa diferente do uniforme – André?
— Ah! É… – ele desviou o olhar da garota, JP segurou uma risada fazendo um riff de baixo e olhando para o chão.
— A música. – Lucas reforçava.
— Sim, eu tava pensando em algo fácil. – ele voltava a se concentrar – Lembrando que a gente com certeza vai errar, ter que parar e começar de novo algumas vezes, já que a gente nunca tocou nada junto. Então sei lá, um Smoke On The Water, que não é nosso estilo, mas é todo mundo conhece, então… – ele parecia ser graça de ter ficado pensando tanto nisso e estar se justificando – Pode ser?
— Por mim tudo bem! – Cass respondeu balançando a cabeça, depois olhando para JP e apontando o baixo – Estou com você.
— Eu espero que sim! – ele respondeu rindo.
— Então bora – Lucas se arrumava perto de um microfone.
Os músicos se ajeitaram, se entreolharam e o típico riff de quatro notas começou enquanto os olhos curiosos de Thomas observavam a garota do outro lado da sala se questionando se algo estava acontecendo bem debaixo do nariz dele.
*
O ensaio havia sido bom. Muito melhor do que se lembravam ter sido o último ensaio, em que acharam que Diogo levantaria e ia embora depois de ser contrariado pela opinião de JP. Pela primeira vez em algum tempo, Cass se sentia enérgica, preparada, genuinamente feliz. Um sorriso largo ocupava seu rosto enquanto ela dividia refrigerante com os amigos e ria dos erros que cometeram enquanto tocavam. Agda havia chegado no estúdio no meio do ensaio, Melissa e Laulau a tratavam como uma boneca, comentando do como a garota era fofa. Dudu dava ideias para um ensaio fotográfico da banda, ele usaria a câmera semiprofissional que seu pai havia comprado, mas nunca utilizava. Os membros da banda comentavam sobre adições que Cass havia feito em uma música que eles estavam precisando trabalhar.
— Será que o Diogo pega isso? — André perguntava, ao mesmo tempo que percebendo a falta do quarto membro – Por falar nisso, ele te mandou mais alguma mensagem?
— Eu mandei mensagem avisando que a gente tinha acabado, ele ainda não respondeu. – JP dava de ombros.
— Que Diogo, o que! O negócio é Cass! – Lucas batia na mesa empolgado – Quanto tempo faz que a gente não se diverte desse jeito?
— Por mim pode ser, ela só tem que querer! – André olhava para a garota com um sorriso no rosto.
— Ah, eu agradeço… – a menina respondia com um sorriso grande no rosto, mas se encolhendo um pouco – Mas ainda é meio cedo pra dizer, vocês não acham? Deixa passar esse mês e a gente vê.
— Tá bem, mas pra mim está visto. – Lucas dava mais um gole de refrigerante. — E aprovado!
— E Cass é fotogênica! – Dudu se ajeitava na cadeira, a utilizando ao contrário – A gente faz uma megaprodução pra vocês chamarem bastante atenção.
O comentário fez Cass rir, nunca se achou fotogênica, mas o comentário a lembrava Thomas falando que uma garota boazinha pegava bem na banda e, olhando ao redor, percebeu que ele não estava ali. Um medo a acometeu por um segundo. Mais que um medo, sua intuição. Todos os instrumentos ainda estavam na salinha do estúdio, já que a próxima banda começaria só dali uma hora. Tudo lá, sem nenhum vigia confiável. Como era estranho estar bem energizada de novo, sua intuição a fazia se arrepiar e, apenas piscando os olhos fingindo olhar para o teto, conseguiu ver claramente Thomas se aproximando de seus pratos. O garoto os analisava, como se procurando por algo. Cass se levantou rapidamente.
— Tudo bem? – André quem perguntava.
— Ah, sim, só vou ao banheiro.
A menina se afastou caminhando determinada. Ele estava na sala, que era a prova de som, e sozinho. Era o momento perfeito para confrontá-lo. A porta da sala estava entreaberta, Thomas coçava a cabeça se aproximando de um prato de condução, batendo de leve na cúpula.
— Posso ajudar? – a voz de Cass era fria, ela entrava na sala fechando a porta.
— Ajudar? Você? – ele a media com os olhos de novo, assim como fez no primeiro dia – Eu fiquei curioso.
— Com minha bateria?
— Se é a bateria, ou a admiração das pessoas… Talvez outra coisa que ainda não pensei.
Para ela, ele falava tão confuso. Era sempre assim. Primeiro, no dia que se conheceram, ele disse que não sabia se havia algum problema com ela; depois, disse que talvez ela não tivesse o feito mal diretamente. Nada do que ele dizia era claro!
— Cara, qual o seu problema? O que essa merda deveria querer dizer? É só uma bateria!
— Você se faz de sonsa muito bem. – ele riu dando a volta na bateria e se aproximando dela – Eu devia o que? Baixar a guarda? Você quase me convence.
E agora tudo parecia ainda mais confuso.
— Se afaste de mim. – ela disse firme percebendo ele se aproximar, ele parou de andar, mas não se afastou – Eu não sei por que você me escolheu para seus comentários, ou para tentar me fazer perder o ensaio, mas eu não tenho medo de você.
— Então estamos iguais! – o olhar dele parecia querer pegar fogo, nutrido de uma raiva tão profunda – Mas esse papel de ignorante não vai colar comigo, eu já vi esse truque!
— Cara! – ela falava mais alto por se sentir totalmente ignorada, ria de nervoso e agora ela quem dava um passo para frente tentando o encará-lo de perto – Pela última vez, eu prometo que eu não sei do que você está falando!
No instante em ela terminou sua frase, um círculo dourado se formou no ar ao seu lado. Thomas arregalou os olhos encarando o círculo e dando um passo atrás, estava genuinamente surpreso, ainda mais considerando a fragilidade com que aquilo estava acontecendo. Mas o choque maior foi de Cassandra, ela puxou o ar pela boca dando um passo atrás, voltando a encarar Thomas ainda surpresa. Um círculo da promessa só aparecia quando um bruxo prometia algo com sinceridade a outro bruxo. Rapidamente o círculo se desfez no ar, Cassandra ainda encarava Thomas, tremendo, considerando o que aquilo significava. Finalmente estava em frente a outro bruxo, um de fora de sua família. As centenas de vezes que seu pai lhe alertara sobre bruxos não confiáveis que poderiam estar escondidos naquele mundo, agora vinham à sua mente.
Fora da sala, na lanchonete, Agda sentiu algo estranho.
Dentro da sala, Thomas a encarava agora imóvel, sua boca abria e fechava pensando no que dizer.
— Você realmente não sabia. – ele parecia impressionado, ela não sabia o que responder, apenas pisava para trás – Calma, espera, eu sinto muito. Eu achei que você era uma inquisidora.
Ele dava um passo a frente, estendendo a mão na direção dela, seu rosto não carregava mais sinais de raiva.
— Não. – ela olhava para a mão dele
— Não saia, por favor. Eu achei que você soubesse por causa do choque…
— Que choque?
— O que a gente se deu quando nos conhecemos! Com ele eu já soube.
— Eu não sabia que a gente fazia isso!
— Eu não sei se faz sempre!
Ela o media, preocupada. Ele colocava as mão na cabeça, olhando ao redor.
— É melhor eu sair daqui. – Ela se dirigia a porta.
— Espera! Eu prometo que não quero te machucar. Que já quis, mas não quero mais.
O círculo dourado se formou, agora mais perto dele, fazendo ela parar de andar. Ela ficou encarando o círculo em silêncio até que ele desaparecesse.
— Então você quis? – ela perguntou
— Eu achei que não teria escolha!
Ela voltou a se aproximar dele, devagar, estendendo a mão. Ele fez o mesmo e, antes mesmo que se tocassem, Cassandra conseguiu sentir a energia dele se aproximar. Agora cientes um do outro, não havia corrente elétrica, mas ao tocar as mãos era possível sentir como se a aura que os envolvia passasse a se comunicar e se conhecer. Tom observava as mãos dos dois com atenção, ele via com clareza as cores se misturando agora que se tocavam. Moveu a mão para entrelaçar os dedos, tentando entender que efeito causava. Seu azul e o dourado da garota formavam vários verdes diferentes.
— Você vê algo que eu não vejo? – ela perguntou notando o olhar do garoto.
— Suas cores. Ou as nossas.
Para ela a sensação era mais tátil, como um leve formigamento, que ela lembrava de sentir quando seus pais acariciavam sua cabeça. Curiosos, deram mais um pequeno passo a frente, hipnotizados pela análise.
A porta do estúdio era pesada e emperrava em um ponto do batente, era necessário fazer força para empurrá-la, e por isso que ela abriu com tudo revelando André, seguido de Agda. Thomas e Cass soltaram as mãos, ela se perguntava se André havia conseguido ver alguma coisa, porque ele parecia avaliar a proximidade dos dois.
— Oi! – Agda entrava na sala, curiosa com o estúdio.
— Agda pediu para ver os instrumentos de perto. – André explicava, ainda olhando para os dois.
— Eu também estava curioso! – Thomas sorriu para André – E estava mexendo nas coisas da Elektra aqui sem permissão, acabei de tomar um esporro.
Cass olhou para André e em seguida para Thomas, adotando uma pose de durona.
— Que não se repita. – ela embarcou na mentira, se afastando de Tom em seguida e se aproximando de Agda – E o que você quer ver, pirralha?
Agda olhou para Cass, para Tom e para Cass novamente.
— As guitarras! – ela respondia com a voz, sorridente.
— Senti algo estranho, aconteceu alguma coisa? – ela dava a resposta real na mente da irmã.
— Tudo bem se ela mexer, André? – a bruxa mais velha olhava para o adolescente com um sorrisinho gentil, ele se aproximava.
— Te explico depois.– e respondeu também na mente da irmã mais nova.
— Claro! – André pegou sua guitarra, ajudando Agda a passar a correia pelo corpo – Cuidado que o braço é mais pesado.
Cass tentava evitar contato visual com Thomas, em vez disso ficava observando André ajudar Agda, a mostrando a guitarra. O guitarrista levantou os olhos procurando a baterista por um segundo, o que a fez sorrir. Ele sorriu de volta, olhou para Thomas, que estava no canto observando a bateria de longe, e voltou a se concentrar em Agda.
A mais nova sentiu a visão desfocar por um segundo. Olhou para Tom para um momento, jurando sentir algo vindo dele, ou indo até ele, e voltou a prestar atenção em André fazendo uma pergunta qualquer.
Bruxos de conhecimento geram energia quando descobrem algo único, ou quando compartilham algum saber. Um bruxo de segredos se fortalece quando ele passa a guardar uma informação que mais ninguém, ou quase mais ninguém, sabe.
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