Mystical High School - Interativa
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Fellypa
Já havia chegado ao jardim de entrada da MHS e ele estava bem diferente do que me lembrava.
Haviam enormes árvores de amora, que despencavam frutas enormes e suculentas, grandes colunas em estilo greco-romano das quais pendiam candelabros com lâmpadas de led que mantinham o lugar iluminado o suficiente para podermos avaliar cada detalhe do local. No centro do enorme pátio frontal ainda havia uma enorme fonte de marfim, com a estatua de sete mulheres, cada uma delas representando um de nossos elementos primordiais, há quem diga que eram as próprias anciãs quando mais jovens.
A arquitetura da escola lembrava muito algum centro histórico de Atenas, tudo muito claro e repleto de vida. A enorme escadaria que dava acesso aos portões principais da instituição dava um ar de imponência ao local. Mesmo que eu detestasse ter que subir todos os mais de quarenta degraus.
Já se passavam trinta minutos em que fiquei inerte observando os detalhes da arquitetura da escola que até havia esquecido de procurar por Athenodora em meio a multidão de estudantes que estavam se aglomerando para socializar ao redor da fonte.
Não era muito difícil encontra-la levando em conta que ela realmente chamava muita atenção por onde quer que passasse. Eu admirava muito a beleza exótica de Athen mas sempre procurei me manter mais apagada.
Não que eu fosse feia, eu era bem bonita, meus traços orientais eram delicados e finos, eu tinha um sorriso muito meigo e meu corpo era realmente atraente. Isso era mais pela minha raça. Eu sou uma sereia, nós sereias temos uma fama muito negativa no mundo místico, mesmo morando abaixo de um regime matriarcal os homens sempre dão um jeito de machucarem uma mulher e ferir sua moral.
Eu não queria mais carregar um fardo de meretriz devido a minha raça, eu não havia feito nada para sofrer com um rótulo negativo e machista, logo, eu me abstinha em ficar mais resguardada e manter a descrição.
Eu pude finalmente fugir do meu conflito interno quando vi Athenodora vindo sorrindo em passos largos na minha direção. Ela estava vestida pra matar, mas o sorriso cheio de saudade que ela carregava só me trazia vida.
— Eu não consigo acreditar que você finalmente chegou, eu estou tão empolgada. – Ela me abraçou forte e o seu cheiro de frutas docês invadiu minhas narinas me causando um espirro. Ela riu.
— Pois é, deveria ser crime a gente passar tanto tempo sem se ver! – Ficamos de mãos dadas conversando durante alguns minutos até ela parar abruptamente o assunto ára me questionar. Sua aleatoriedade não havia mudado em absolutamente nada.
— Espera! – Ela exclamou levantando um dedo com a enorme unha pontiaguda diante dos meus lábios. – Você havia dito que tinha chado um aluno novo exato?
Outra coisa “curiosa” sobre a Mystical High School, era o fato de que a única coisa que se espalhava mais rápido que oxigênio por lá era fofoca.
Eu não contive o riso, ela estava muito empolgada, como criança quando ganha brinquedos novos. Havia até um leve brilho nos olhos dela.
— Sim, ouvi falar que ele é atleta, controla o fogo e é famoso no Instagram. – A medida que fui falando ela foi mudando a expressão em uma mistura tão confusa que não sei bem o que ela estava sentindo.
— Deve ser mais um “machistão”! – Ela disse revirando os olhos. – Sabe como são os atletas né?
Na verdade sabia sim. Eles tinham o péssimo hábito de convidarem as meninas pra saírem, transarem com elas e em seguida escrever a nota da transa em um caderninho, que ficava na sala de troféus do time de futebol. The Dragosn, era o nosso time e pode-se falar que a maioria dos jogadores eram como dragões, fortes, imponentes mas irracionais e impulsivos.
— Melhor não se empolgar muito com garotos! – Falei por fim, chamando a atenção dela pra mim novamente. Seus enormes olhos verdes penetraram os meus com confusão. Athenodora tinha uma extensa lista de desilusões amorosas com alguns meninos da MHS. Ela acabava sempre deixando de lado os caras mais legais pra ficar com os embustes, o famoso dedo podre.
Se ela tivesse o bom gosto que tem pra moda com homens ela seria bem mais feliz amorosamente falando.
Eu encarei ela com aquela expressão de “você sabe do que eu estou falando”. Ela revirou os olhos e soltou minha mão. Acenou com a cabeça pra que eu a seguisse e eu só conseguia me perguntar como ela conseguia andar com aqueles saltos enormes nos pés.
— Na verdade eu nem estou procurando me relacionar amorosamente com ninguém. – Ela falava virando devagar pra me olhar enquanto caminhava. – Eu só queria uma curtição.
Eu olhava pra ela com a cara mais deslavada que eu podia fazer. Eu conhecia ela como conhecia o fundo do oceano e sabia que bastava um beijo pra ela se apaixonar e querer prender a pessoa em algo sério.
— Você sabe que nem você mesma acredita nisso né? – Disse rindo, enquanto ela apenas deu de ombros e seguiu.
— O fato é que esse ano eu quero me permitir viver mais intensamente, sem a minha mãe me limitando a cada passo aqui dentro. – Ela parou na minha frente, as pessoas ao redor todas amontoadas e em um falatório incessante me causavam certa, agonia, diga-se de passagem, mas não reclamei.
— Sua mãe sabe todos os seus passos aqui! – Eu disse colocando o cabelo negro dela atrás da orelha. – E o que ela não vê, as pessoas contam!
Ela encarou o chão desanimada e depois encarou a mim novamente. Eu estava prestes a falar quando uma menina veio de repente e tirou Athenodora dali com um puxão. Provavelmente era uma das integrantes da equipe de torcida que havia chamado ela pra alguma reunião besta.
Fiquei incomodada de não termos terminado o assunto mas feliz por finalmente poder sair do meio daquela multidão.
Me virei para ir de encontro aos bancos novamente quando acabei dando um grande encontrão com alguém que acabou me levando de encontro ao chão, trazendo toda a atenção das pessoas pra mim.
Ótimo, tudo que eu não queria.
— Me desculpa, você está bem? – Eu olhei firmemente para o rosto de onde aquela voz, doce, havia saído.
Ele parecia um anjo, a pele branca como a escadaria de marfim, o sorriso que, meu deus, que sorriso. Aquele cabelo castanho desalinhado. A voz...
Ele me estendeu a mão. Eu peguei.
— Eu te machuquei? – Ele olhou pras palmas raladas das minhas mãos. – Nossa, não foi minha intenção.
Ele agora parecia triste, seus olhos castanhos haviam se direcionado pro lado oposto a mim.
— Eu... eu estou bem! – Disse com a voz trêmula, não acreditando que estava tão nervosa. Nesse momento percebi que o falatório já havia voltado ao seu fluxo normal e ninguém mais nos encarava. – De verdade! Tá tudo bem!
Eu estava tão perdida naquele momento que havia esquecido de tirar as mãos dele das minhas. Então tirei.
— Se tiver algo que eu possa fazer por você... – Ele havia realmente ficado tão chateado de ter me derrubado no chão? Com certeza ele não havia notado que eu era uma sereia, ninguém tratava as sereias assim, tão cordialmente.
— To de boa! – Falei me afastando. – Até mais...
Sai em passos apressados me direcionando ao prédio principal da escola. Mas mesmo em meio as vozes consegui ouvir ele gritando.
— Eu me chamo Callon...
Não olhei pra trás e torci do fundo do meu coração que o frio na barriga que eu estava sentindo fosse fome.
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Athenodora
— Não precisava me puxar daquele jeito. Quase fez eu quebrar meu salto. – Falei dando um tapa na mão de Madison.
— Foi mal bom-bom as vezes eu esqueço da minha força. – Ela disse me dando um tapinha na bunda.
Madison era minha amiga a muitos anos, era vampira, pareci um doce as era uma das pessoas mais grossas que eu já havia conhecido na minha vida. Não podia negar o quanto ela era linda. Os cabelos ruivos desciam até a cintura em enormes ondas, os olhos eram negros e profundos, seu sorriso era psicóticamente belo. Ela tinha uma aura muito feroz ao redor.
— Tá me olhando com essa cara de idiota porque? – Ela falou franzindo o cenho pra mim.
— To admirando sua beleza! – Falei sorrindo falsa.
— Não vem bancar a sapatão comigo, gosto de macho! – Ela disse revirando os olhos pra mim. Eu ri. – Falando em macho garota...
Ela me puxou novamente, sério, ela ia acabar me quebrando um osso algum dia.
— Que mania de me puxar! – Falei me soltando, meu pulso estava dolorido.
— Já ouviu falar do aluno novo? JJ – Ela falou com tom de empolgação e um leve suspiro no final.
— JJ? – Questionei. – Nome de embuste.
Ela revirou os olhos.
— Espera pra conhecer ele primeiro, depois chama de embuste. – Ela disse rindo. – Olha, la tá ele.
Sério. Eu havia esquecido como se respirava.
Que homem senhoras e senhores. Que homem.
— É... Não achei grandes coisas... – Falei com desdém e me virei pra voltar pra escadaria.
— Sério? Você ta bem? – Ela veio me sacudir.
— Eu to ótima. Só não vou passar mais tempo da minha vida pagando pau pra macho. Cansadíssima de me decepcionar.
— Ai amiga, o problema da decepção é culpa tua! – Ela disse me deixando perplexa. – E não adianta me encarar assim, você deposita muita expectativa nas pessoas.
Ela estava certa, mas eu não iria dar esse gostinho a ela.
Estava prestes a mudar de assunto quando um ruído saiu estridente dos auto falantes ao redor do pátio. A voz era da minha mãe, dando as boas vindas aos alunos no novo ano letivo.
Depois de quase vinte minutos de discurso motivacional que me causava bocejos fomos orientados a procurarmos nossos dormitórios, que eram divididos por alas, femininos a esquerda e masculinos a direita. Bem distantes um do outro pra que não houvessem “visitas noturnas”.
Os quartos eram compostos por dois ambientes, um em cima onde ficavam os armários e salas de estudo e o de baixo onde ficavam as quatro camas. Era bem confortável e espaçoso, para que quatro pessoas convivessem bem sem invasões pessoais. Eu certamente dividiria meu quarto com Fellypa e Madison, privilégios de filha de diretora, mas estava ansiosa para conhecer a quarta integrante. E torcia do fundo do meu coração pra que fosse uma pessoa agradável.
Encontramos Fellypa na ida para os dormitórios ela e Madison se cumprimentaram com um breve abraço e seguimos de braços entrelaçados corredor afora, com todos os olhares pousados sobre nós, era o meu momento, eu via tudo em câmera lenta, as pessoas olhavam para nós como se fossemos um evento, uma alegoria. Eu amava ser o centro das atenções.
A magia só acabou quando um grito desesperador veio da direção das bibliotecas, era a voz da minha mãe.
Eu ignorei por completo o fato de estar usando minhas botas mais altas e saí correndo em direção a ela. Os corredores e curvas pareciam não ter fim. Pude perceber que Madison e Felly me seguiam junto com mais uma multidão de alunos e funcionários.
De longe pude ver minha mãe, pálida em seu terninho executivo, olhos vidrados e sem expressão certa.
Ao parar ao seu lado e olhar na direção que seus olhos estavam eu entendi o desespero.
Havia uma pessoa morta, completamente destroçada na entrada da biblioteca.
O ano letivo havia começado em Mystical High School.
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