Mystical
8 Capítulo 07 - A Última Testemunha
Kevin entrou na delegacia correndo, Burke e Joshua estavam conversando com uma vizinha da garota assassinada. Quando Joshua o viu, afastou-se da mulher e foi falar com ele.
– Cara, o que foi aquilo? – Ele perguntou, referindo-se à atitude de Kevin na casa dos Jenkins.
– Ele estava me observando! – Kevin gritou, como se não tivesse o ouvido falar – Ele esteve sempre me observando!
– Do que você está falando?
– O desgraçado estava perto de mim o tempo todo, ele vem me observando em casa.
– O que?
– Ele tem uma caminhonete azul, eu a vi ontem à noite, estava na rua da minha casa.
– Como você sabe?
– Eu estava conversando com o caixa da loja de fantasias.
– A garota?
– Não, o antigo, que estava no hospital. Eu acho que o acidente de carro dele não foi um acidente.
– Por que não me avisou?
– Eu não sei... Vocês precisavam investigar o assassinato da garota.
– Ele disse alguma coisa sobre o assassino?
– Não, quer dizer, eu não perguntei – Kevin estava nervoso – Sei lá, eu precisei identificar esse carro.
– E conseguiu?
– Não, mas hoje mesmo eu vou pegá-lo – Ele disse – Com certeza o desgraçado estará me observando novamente.
Neste exato momento, uma mulher, de roupas formais e óculos, entrou pela porta da frente da delegacia, trazia consigo vários papeis em uma pasta. Ela falou algo com a recepcionista e ela apontou para Burke, que estava um pouco longe dali, conversando com a família. A mulher foi até ele e Kevin e Joshua conseguiram ouvir o que ela disse.
– Estou com o relatório do DNA encontrado na cena do crime – Ela disse.
– Ah, sim, por aqui, por favor – Ele disse, apontando para um corredor – Vamos pra minha sala.
– É claro – Ela respondeu.
– Com licença, por favor – Burke disse à família da moça e foi encontrar a mulher da perícia.
Joshua ficou aliviado.
– Finalmente isso chegou – Joshua disse.
– É, eles resolveram nosso caso – Kevin não estava tão satisfeito – Parabéns.
– Eles foram mais rápidos do que nós, infelizmente.
– Eu preciso ver o resultado – Kevin andou em direção à porta da sala de Burke.
– Não vá – Joshua recomendou – Espere ele sair, vai nos contar.
***
Os engomadinhos da perícia não demoraram nem dez minutos dentro da sala de Burke. Kevin e Joshua estavam sentados no sofá de couro ao lado do bebedouro quando eles saíram.
– Obrigado pela ajuda – Burke agradeceu e os mostrou a saída, mesmo que eles já conhecessem.
Quando Burke voltou, ele foi de encontro à Kevin e Joshua.
– Não encontraram nada – Ele lamentou.
– O que? – Kevin não acreditou – Havia três digitais diferentes.
– Da criança e dos pais.
– Então podemos considerá-los suspeitos? – Joshua perguntou.
– Não – Burke respondeu – Eles estavam em um restaurante na hora do crime, eu mesmo verifiquei.
– Então o que vamos fazer?
– Eu não sei vocês – Kevin concluiu, estava indignado – Mas eu vou procurar Jason Camry hoje à noite e acabar com boa parte dessa merda! – Ele exclamou, pegando um copo descartável e o enchendo com água.
***
Algumas horas depois, Kevin estava entrando pela porta da frente de sua casa. Estava escurecendo, a noite chegaria logo e ele procuraria Jason e então descobriria a identidade do assassino.
Caminhou pela sala de estar e sentou-se no sofá, colocou a mão sobre o rosto e suspirou. Esse assassino precisa morrer, ele pensou.
***
Kevin resolveu tomar um longo banho quente, pensava que poderia relaxar um pouco.
Estava errado.
Enquanto a água quente escorria pelo seu corpo, as imagens daquelas pessoas inocentes, brutalmente assassinadas, atingiam-no como uma pedra.
Desligou o chuveiro e pegou a toalha, após enxugar-se, enrolou-a na cintura e foi em direção ao quarto. No meio do caminho, quando passou pelo espelho do banheiro, parou, e percebeu o que aquele caso estava fazendo com ele. Kevin tinha olheiras profundas, fruto de noites sem sono. Era o passado voltando à tona de repente.
Quando foi para o quarto, encontrou sua mulher sentada na cama, tirando os saltos.
– Ah, oi querida – Ele disse, abrindo sua gaveta de cuecas.
– Oi amor.
Depois de algum tempo em silêncio, Kevin havia vestido um daqueles shorts para dormir e estava deitando-se na cama.
– Quer que eu te faça um chá ou te traga um calmante? – Ela perguntou, tirando o blazer. Blair trabalhava em uma firma em Crawford.
– Não, querida, eu estou morrendo de sono.
– Morrendo de sono? Sério? Você não consegue dormir à noite há muito tempo.
Ela suspirou e sentou-se na cama, ao lado dele. Passou a mão pelo seu rosto. A barba estava crescendo. O sofrimento estava estampado em seu rosto.
– Olha, eu sei que está difícil – Ela começou a dizer, olhando fundo nos olhos dele. Ele desviou o olhar, não queria que ela o visse chorando – Mas você precisa me deixar ajudar – Ela continuava a passar a mão pelo rosto dele. Ele segurou sua mão, sentiu o toque quente e fechou os olhos. Blair pôde ver um sorriso na boca dele e então Kevin disse:
– O chá pode ser de camomila.
Ela sorriu e beijou-o na testa.
– Eu vou preparar.
Blair foi preparar o chá e Kevin pensou em Jason. Deveria ir falar com ele, mas isso podia esperar até o dia seguinte. Ele fechou os olhos e tentou dormir, mas as imagens fortes dos corpos não saíam de sua mente e o desejo de pegar o assassino era forte demais.
***
Mais tarde, naquela mesma noite, Kevin e Blair dormiam profundamente. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela fraca luz do luar que passava pelas brechas da persiana. Kevin abriu os olhos lentamente, pensou ter ouvido um som, e quando olhou para o lado, viu que a tela de seu celular estava acesa. Ele pegou o aparelho e viu que havia duas chamadas perdidas de um número que ele não conhecia. Ele iria retornar para saber quem era, quando a pessoa ligou outra vez. O celular vibrou na sua mão e ele correu para o corredor para não acordar Blair.
– Alô? – Ele perguntou.
– Kevin, é você? – A voz do outro lado perguntou e ele não reconheceu.
– Sim, sou eu.
– Aqui é Jason Camry, você me procurou e me interrogou no hospital, lembra?
– Sim – Kevin respondeu – Eu iria te procurar novamente, o que aconteceu?
– E-eu estou na minha casa e... – Ele pausou.
– E o que?
– Tem alguém me perseguindo, eu acho que é o homem, Jacob Smith.
– Por que você acha que é ele?
– Eu estou vendo ele pela janela, está me observando de longe, é ele, juro por deus, é ele! Eu preciso de ajuda, minha esposa está muito assustada e eu não sei o que fazer!
– Fique calmo – Kevin disse, correndo para trocar de roupa. Falava baixo para não acordar sua esposa – Ainda consegue vê-lo? – Perguntou.
– Sim, ele está parado perto da caminhonete azul.
– Tranque as portas e apague as luzes, se ele tentar te atacar enquanto eu não chegar, defenda-se com alguma coisa, uma faca, uma barra de ferro, qualquer coisa, apenas fique quieto e eu chegarei em breve.
– Você ainda tem meu endereço?
– Sim, tenho.
– Venha rápido, por favor.
Kevin desligou o telefone e começou a se vestir, depois pegou as chaves do carro e foi embora.
***
Jason Camry e sua esposa, Barbara, estavam sentados atrás do sofá da sala, com as luzes apagas. Ele segurava um pequeno machado usado para cortar carne e ela uma faca de cozinha. A mulher estava aos prantos, ao contrário de Jason, que conseguia conter-se.
Ele olhou por cima do sofá, pela janela e ficou perplexo com o que viu, ou melhor, com o que não viu. O homem não estava mais lá. Havia saído. Jason pensaria que ele poderia ter ido embora, mas a caminhonete ainda estava lá.
– Oh meu deus – Ele disse, baixinho.
***
Kevin estava dirigindo em alta velocidade pela autoestrada, em direção à casa de Jason. Sua pistola estava em cima do banco de passageiro. A estrada não estava muito movimentada, então ele precisava apenas de simples manobras para desviar dos carros.
***
Jason e Barbara estavam sentados atrás do sofá na sala escura, levemente iluminada pela luz do luar que atravessavam as finas cortinas das janelas.
A sala estava quase em total silêncio, se não fosse pelos soluços de Barbara chorando.
– Nós vamos ficar bem – Jason disse baixinho, abraçando-a. Depois engatinhou até a ponta do sofá e olhou o resto da sala. Estava vazia.
Voltou a se abraçar com sua mulher, sem perceber que em pé, do outro lado do sofá, havia alguém parado, segurando uma faca de açougueiro.
***
Kevin chegou a Crawford e andava apressadamente pelas ruas pouco movimentadas da cidade, olhando no GPS onde ficava aquele endereço que Jason dera.
Minutos depois, chegou ao bairro onde ficava a casa e entrou em uma rua vazia. Após alguns segundos atento aos números das casas, achou a de Jason.
***
Quando Kevin desceu do carro com a pistola em punho, não estranhou o fato de as luzes estarem apagadas, afinal, já era bem tarde e praticamente todas as casas estavam com as luzes apagadas. Kevin continuou a andar pela calçada até a porta da frente, sem fazer ruído algum, então tirou o celular do bolso e ligou para o número de Jason – Não podia bater na porta e correr o risco de perder o assassino novamente.
O celular chamou por alguns segundos, mas ninguém atendeu, a voz quase robótica da atendente da operadora pediu para que ele deixasse um recado e ele desligou o celular. Jason não estava atendendo, isso não poderia ser um bom sinal.
Kevin percebeu que a porta estava aberta e ficou nervoso. Por que ele destrancaria a porta? Pensou.
Ao abrir a porta, deparou-se com uma mulher sentada no sofá e um homem – Aparentemente Jason – sentado na poltrona ao lado do sofá. Não dava para ver seus rostos, apenas as silhuetas.
– Jason, sou eu, Kevin – Ele disse, mas estranhou ao perceber que Jason não havia nem se mexido.
Relutantemente e com medo do que iria ver, acendeu as luzes da sala, e o que viu foi uma das cenas mais grotescas que Kevin já havia visto.
Jason estava sentado na poltrona com a cabeça reclinada e apoiada na poltrona. Seu pescoço havia sido brutalmente cortado e o sangue sujava toda a sua roupa branca.
Sua mulher, por outro lado, estava sem nenhum ferimento aparente. Estava pálida – Com exceção dos lábios vermelhos com batom – e seus olhos abertos e paralisados sem emoção alguma. Ao seu redor havia várias maçãs mordidas e, inclusive, ela segurava uma. Ele se aproximou e verificou que a maçã estava um pouco escurecida. Veneno, ele pensou, então se afastou, com uma expressão de horror no rosto. Ao ver aquela mulher ali morta, envenenada, lembrou-se da história que sua mãe contava. “Branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a madeira da moldura da janela” Branca de neve.
O assassino havia feito mais vítimas inocentes e acabara com a última testemunha do crime. A última chance de pegá-lo havia sido brutalmente destruída, e Kevin não sabia mais o que fazer.
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