Mystic : O Segredo das Sombras
9 Revelações
Notas iniciais
— O que eu não sei? Vamos. Diga-me Alexander! — Perguntei novamente.
— As coisas não são tão simples, Mel.
— Você disse Mel? — um misto de alívio e desespero me invade.
— É só um apelido óbvio para seu nome Amélia. Não tire conclusões precipitadas. — seus olhos encaravam um detalhe qualquer no tapete, visivelmente fugindo de mim.
— Não finja-se de desentendido, não combina com você. — meu tom é mais ácido que gostaria, caminho até a janela para tentar me acalmar e por uma distância entre nós — Eu vou perguntar uma última vez e espero uma resposta direta. O que eu não sei, Alexander? — digo cada palavra pausadamente.
— Droga Amélia. — ele levanta-se em um salto, assustando-me um pouco e novamente leva as mãos à cabeça em seu gesto nervoso — Não torne as coisas mais difíceis. Você não entende? É perigoso! Se mesmo no escuro, você está no centro disso... — ele suspira longamente e se aproxima um pouco — não tenho o direito de te jogar aos monstros.
— Pare! — levanto as mãos sem paciência — Apenas pare! Estou cansada, isso é tão, ridículo. Mel é como me chamou... como me chamava. Não sei tudo, mas sei o bastante por agora. Só preciso pensar. — As palavras de minha avó não param de girar em minha mente "Não pratique magia na frente da Amélia". Como pode ser possível? Sei que ele me faou sobre isso, mas como pode ser verdade? Sinto que vou explodir a qualquer momento.
— Não se envolva mais que o necessário nisso. Se sua avó não lhe contou nada por todos estes anos, é porque não é seguro ainda.
— Muitas palavras que não dizem coisa alguma. — minha raiva novamente toma conta de mim — No fim da noite estou mais uma vez sozinha, no escuro, como você mesmo disse. Estou confusa e nada do que ouvi serviu para aliviar minha alma conturbada. Quer saber o que não é seguro? Isso! — aponto para nós dois — Sabe quem plantou essa inquietude em minha mente? Hein, Álec?! — vejo sua expressão mudar ao ouvir seu antigo apelido e nesse momento tenho certeza que não é só imaginação, que não estou louca ainda — Eu estava bem até você aparecer para bagunçar tudo. — grito.
— Sozinha com uma mãe que não te quer. Será que estava mesmo bem?
Sua sobrancelha se ergue em deboche e isso é a gota d'agua. Quero bater nele... lhe causar dor! Pensamentos violentos invadem minha mente com uma força brutal e pela segunda vez em dois dias algo estranho acontece. Um calor se espalha por minhas veias fazendo-me queimar por dentro, seu olhar sustenta o meu, curioso e fascinado, no segundo seguinte um grande vaso de cristal com gorduchas rosas vermelhas que estava sobre a mesa se estilhaça contra a parede, deixando uma bagunça de flores, água e cacos pelo chão. Dessa vez não perco a consciência, olho fixamente para Alexander em busca de uma explicação para o inexplicável.
— Eu fiz isso? — Não consigo manter o espanto fora da minha voz.
— Fez. — seu humor parece se igualar ao meu.
— Eu... ainda sou eu? — Estou confusa e não sei como isso soou, mas ele entende.
— Sim. — diz sorrindo.
— Há algo mais? — Jogo para ele minha dúvida do momento.
— Ainda não tenho certeza Mel.
— Diga-me a verdade. Por favor. — peço, e por algum milagre ele acaba cedendo.
— Tudo bem. O que quer saber primeiro?
— Meu sonho.
— Não foi um sonho. É uma lembrança do dia que você foi mordida por uma sombra Vítrion.
— Então é verdade?
— O que exatamente? — pergunta confuso novamente com a sobrancelha erguida.
— Lembro de minha avó brigando com você por ter me dado um presente.
— A tornozeleira de flores. — seu rosto se suaviza enquanto um riso saudoso brota em seus belos lábios.
— A magia?
— Já lhe expliquei sobre isso.
— Sim, mas antes eu não acreditei. — ele ri e essa definitivamente não é a reação que eu esperava.
Não consigo pensar direito, minha mente fica confusa, olho em seus olhos em busca de explicações, mas o que encontro são faíscas douradas em meio a um verde esmeralda. O ar repentinamente teima em não querer entrar em meus pulmões enquanto o vejo se aproximar. É loucura, mas não quero que se afaste. Sua mão quente alcança a parte de trás do meu pescoço, enviando arrepios pela minha espinha. Estamos tão próximos... E o ar entre nós está tão diferente...
Meu telefone começa a apitar descontrolado sobre a mesa, tenho vontade de atirá-lo contra a parede. O nome de Henrique aparece na tela, grande o suficiente para que possa ser visto de onde estávamos.
— Não vai atender seu namorado? — Seu tom muda e o vejo se afastar rapidamente.
— Ele é só um amigo. — digo sem pensar.
— Não foi o que pareceu no parque mais cedo. — suas palavras secas me desesperam um pouco e não sei porquê.
— Do que você está fal... — minhas palavras se perdem no ar, fecho os olhos, não querendo encará-lo — Você... estava lá?
— O que acha?
— Você não viu o que pensa que viu. — me enrolo com as palavras.
— O que eu vi? — ele não está facilitando.
— O Henrique... eu... aquele beijo. — ele caminha alguns passos em direção a porta — Espere!
— Esperar o quê?
— O Henrique confundiu tudo. — viro-me de costas, não querendo encará-lo — Ele e eu, somos apenas amigos, mas ele achou que minha amizade era algo mais e de repente veio dizendo aquelas coisas e do nada me beijou, fiquei meio sem reação mas eu não queria beijá-lo e nem sei por que estou te explicando isso — sem perceber, começo a devanear — foi uma coisa meio confusa, uma hora eu estou na clareira vazia, depois parque, beijo e eu fugi, eu literalmente saí correndo, não! Não posso dizer uma coisa dessas, ainda mais para o Álec que era amigo da minha avó. O que ele vai pensar que sou??? AI MEU DEUS! Alexander era amigo da minha avó! O que quer dizer que é bem mais velho, mas ele parece ter a minha idade, ou quase isso e é tão gato que chega a me dar raiva, e agora a pouco... Amélia, se concentra. Você não pode ficar pensando nessas coisas, é errado, muito errado! Tira já isso da cabeça! — uma gargalhada me trás de volta a realidade.
— Desculpe, pode continuar. — Ele estava visivelmente tentando se controlar.
— Oh, não. — começo a entrar em pânico — Eu estava... falando??? — digo cada palavra pausadamente e peço a todos os seres superiores por uma resposta negativa.
— Estava. — ele imita meu tom lento.
— E você me ouviu? — pergunto mortificada.
— Cada palavra. — sussurra de um jeito provocador e logo em seguida explode em risos, nunca o vi assim antes.
— Olha... Alexander... eu... — tento inventar qualquer coisa, mas não consigo pensar em nada, que hora horrível para travar, quero enfiar minha cabeça em um buraco — Eu tenho que ir. — e saio quase correndo em direção a porta da frente.
— Amélia? — sua voz me alcança quando chego ao jardim — Onde vai a essa hora?
Viro-me abruptamente, quase tropeçando em meus pés e ele está encostado ao lado da porta, literalmente curvado de tanto rir.
— Padaria. — dou a primeira resposta que me vem a mente — Aqui em casa só tem maçãs e... pão? Não! Pão não! Preciso comprar pão.
— A essa hora?
— Qual o problema? — pergunto desaforada.
— Caso não tenha percebido, está anoitecendo. — ele aponta para o céu.
— E daí? — repito meu tom.
— Pare com isso e volte para casa. — ele faz uma pausa antes de continuar — Não me faça ir buscá-la. — um sorrisinho assustadoramente travesso brota em seus lábios.
— Não — viro-me novamente e continuo minha caminhada em direção a rua.
— Você está fugindo de mim?
— Eu jamais faria isso. — digo sem olhar para trás.
No instante seguinte ele está a meu lado. Sua expressão é felina, desafiadora... e completamente divertida.
— Não vai voltar para casa? — diz sedutoramente erguendo aquela maldita sobrancelha.
— Não. — respiro fundo antes de responder.
— Você quem pediu. — ele tira o sobretudo e joga-o sobre o ombro esquerdo, não gosto nada do que vejo em seu rosto.
— Alexander. Não ouse! — estico as mãos para frente, mas já é tarde demais.
Ele me joga em seus ombros, rindo descontroladamente, como se eu não tivesse peso algum.
— Me põe no chão! — bato em suas costas com as mãos em punho.
— Não. — diz alegremente e começa a voltar para casa.
— Eu tenho vizinhos, sabia? — tento enfiar um pouco de bom senso em sua cabeça, mas acabo falhando.
— Seus vizinhos, seu problema! — não consigo ver seu rosto, mas sei que está rindo e não faço ideia de como chegamos a esse ponto.
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