Mystic : O Segredo das Sombras
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Notas iniciais
Como é triste ser obrigada a recomeçar em um lugar novo, ao lado de alguém que te rejeitou durante uma vida inteira para correr atras de seus próprios sonhos. Sonhos esses que não incluíam uma filha sem pai.
Minha mãe engravidou ainda muito jovem e nunca quis falar sobre meu pai, nem mesmo minha avó sabia quem ele é. Aliás, fui criada pela minha avó, mãe da minha mãe enquanto a Lígia (minha mãe) estudou, viajou, trabalhou, teve outros relacionamentos e fez o que quis sem lembrar da minha existência. Ao menos até agora...
A casa que cresci e agora estou prestes a abandonar parece sussurar em meus ouvidos seu último adeus. Não me conformo com a insensibilidade da Lígia! Como ela pode me forçar a deixar tudo para trás? Esta é a casa que morei com a vovó, que para mim foi mais que mãe, durante toda a minha vida. É aqui que aprendi a valorizar tudo o que realmente importa, no batente da porta da frente, vovó riscou minha altura ano após ano, só para eu me alegrar com o quanto já havia crescido e agora não posso acreditar que ela se foi. Uma lágrima escorreu pela minha bochecha enquanto lembrava dos bons momentos que tivemos ali.
— AMÉLIAAA... ANDA LOGO, TENHO UMA REUNIÃO HOJE A TARDE E NÃO POSSO FICAR AQUI POR MAIS TEMPO! — Lígia gritou antes mesmo de entrar.
— Mais dez minutos, por favor. — pedi.
— Cinco. Nem um minuto a mais.
Eu não tinha passado nem vinte minutos inteiros ao lado da minha "mãe" durante o velório da vovó, pois a raiva e tristeza me consumiam. Ela adiantou o enterro em duas horas só porque precisava pegar um avião as dez e meia. E agora é com essa pessoa que sou obrigada a morar.
Subi as escadas para me despedir do meu quarto, o único cômodo que ainda faltava. Meus livros já não estavam mais lá, minhas coisas todas encaixotadas e espalhadas pelo chão, um detalhe que antes me passou despercebido, agora me chamava a atenção. Caminhei até minha cama, onde repousava um pequeno livro de capa preta em couro com um bilhete. Não consegui conter as lágrimas ao perceber que era da vovó.
" Minha estrelinha, espero que este livro te ajude a encontrar as
respostas que precisará no futuro.
Não o abra até sentir que realmente precisa.
Eu te amo.
Parabéns pelos seus dezessete anos
Feliz aniversário atrasado."
Apesar de triste, não contive um sorriso ao lembrar de como ela se referia a si mesma por vezes "Guilhermina Tesla, sempre se lembrando de esquecer". Daqui a três meses já farei dezoito anos e vovó se lembrou dos meus dezessete, que aliás, foi o dia que ela me preparou um bolo quase do meu tamanho. Abracei o livro e naquele momento, senti que apesar de tudo, eu ficaria bem.
— Amélia vamos logo — ouvi minha mãe gritar de lá de baixo.
Joguei algumas coisas na mochila, abracei novamente meu presente e saí para encarar minha nova vida.
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