Notas iniciais
Desculpem-me pela demora..

Ryuzaki estava irritado. Seu voo havia sido forçado a ficar duas horas na pista de decolagem antes de poder partir. Seu estoque de doces havia acabado e ele estava ansioso para chegar logo em terra firme. Faltava apenas meia hora para o pouso, mas Ryuzaki estava impaciente.

– Aeromoça — chamou ele. A funcionária se aproximou.

– Sim? — respondeu ela.

– Vocês tem algo doce para comer?

– Me desculpe, mas não é permitido comer agora. Falta pouco para o pouso, aguarde só mais um pouco, tudo bem? — disse ela educadamente.

– Tudo bem, obrigado — disse ele, remexendo-se desconfortável na cadeira.

– Ah, o senhor pode sentar-se de modo mais apropriado por favor? Pode ser perigoso durante a aterrissagem.

Ryuzaki lançou um olhar raivoso sobre a mulher. Ambos ficaram se encarando por vários segundos.

– Ryuzaki — disse Watari, pousando a mão sobre o ombro do detetive — por favor.

O homem desafivelou o cinto, sentou-se normalmente e pôs o cinto novamente, emburrado.

– Obrigada — disse a aeromoça.

– Como está indo Watari? — perguntou ele referindo-se a busca de pessoas para fazerem parte de sua equipe.

– Terminei.

– Quantas pessoas escolheu?

– Trinta e sete.

– Está ótimo, todas estão em Londres?

– Não, duas estão viajando, mas voltam hoje para Londres. Há a possibilidade de estarem neste voo.

– Aqui?

– Sim.

– Quem?

– Elizabeth e Dimitri Walcher, são irmãos. Dimitri trabalhava para a polícia na Áustria. Elizabeth trabalhou com ele em três casos. Ela é extraordináriamente inteligente.

– Está com as fichas deles?

– Sim — Watari abriu sua pasta, vasculhou um pouco, tirou os papeis e entregou-os ao filho adotivo. Ryuzaki leu-os em silêncio.

– Elizabeth tem é formada em Física com dezenove anos. Interessante.

– Ela estudou em Cambridge, mas retornou à Áustria no final do ano passado. Dimitri pediu demissão do emprego.

– Estranho, ele era bastante competente.

Uma voz masculina interrompeu a conversa de Ryuzaki e Watari, avisando que o avião aterrissaria em poucos minutos e pedindo para que todo e qualquer aparelho eletrônico fosse desligado. A aeronave começou a perder altitude e a se aproximar do aeroporto Heatrow, o mais movimentado do mundo. O pouso foi suave e em alguns minutos todos os passageiros estavam se preparando para sair. Ryuzaki olhou para trás em busca dos Walcher mas não os avistou. A voz masculina ressoou novamente, permitindo que os passageiros deixassem o avião. Ele e Watari se levantaram, pegaram seus pertences no bagageiro e caminharam com um pouco de dificuldade até o portão dianteiro.

– Obrigada, tenham um bom dia. Obrigada, tenham um bom dia... — repetia incansavelmente a aeromoça para os passageiros. Ambos desceram do avião e foram em direção ao terminal de desembarque. Assim que entraram, Ryuzaki avistou uma banca de jornais.

– Watari, vou comprar algumas balas, tudo bem?

– Certo — disse ele, indo em direção às esteiras.

O detetive caminhou até a banca e aguardou na pequena fila que se formava atrás do caixa, quando alguém lhe cutucou.

– Com licença, você pode pegar aquela revista pra mim, por favor? — perguntou uma jovem com um leve sotaque alemão apontando para uma revista científica no alto de uma prateleira. Ryuzaki encarou-a e se esticou, pegando a revista.

– Obrigada — respondeu ela.

– Se interessa por Física?

– Ah, sim. Gosto muito — disse ela, sorrindo. Era uma jovem atraente, talvez até mais do que Misa — você gosta?

– Um pouco, acho interessante, mas prefiro ler sobre mistérios.

– Legal! Meu irmão é detetive — disse ela, animada.

– Eu também — respondeu ele.

– Sério? Nossa! A quanto tempo trabalha?

– A uns dez anos, mais ou menos.

– An? Quantos anos você tem?

– 24 — respondeu ele.

– Nossa! Que legal! Você deve ser muito inteligente.

– Não tanto quanto alguém que se formou em Física com dezenove anos — disse ele sorrindo. A jovem ficou pálida.

– Como você...

– Você e seu irmão tem algum compromisso para mais tarde? — perguntou ele, indo ao caixa — Eu gostaria de 12 euros em balas, por favor — disse ele para o vendedor

–N..não — respondeu a jovem.

– Ótimo, podem nos acompanhar então, por favor? — ele pegou as balas e enfiou três delas na boca de uma só vez.

– Eu tenho que falar com meu irmão primeiro...

– Tudo bem — disse ele esperando que ela pagasse sua revista. Assim que o fez, ambos sairam e caminharam em direção às esteiras. Ryuzaki avistou Watari e um rapaz magro e alto ao seu lado conversando.

– Ryuzaki. Acabei de encontrar Dimitri Walcher e conversei com ele. Ele está procurando emprego. Podemos falar com ele agora.

– Ótimo, já conversei com Elizabeth também, mas ela quer conversar com ele antes.

Ela e o irmão começaram a conversar em alemão. Ryuzaki e Watari compreendiam perfeitamente o que ambos falavam, mas aguardaram a conversa acabar, pacientemente.

– Quem são esses caras? — perguntou ele.

– O cara de branco é um detetive, ele me conhece e pelo visto conhece você também — respondeu ela.

– Como?

– Não sei, mas acho que ele quer oferecer um emprego pra você. Devia conversar com ele.

– Não confio nele. Ele é meio estranho.

– Ah, Dim. Não começa com paranóia de novo, conversa com eles. Talvez seja uma boa oportunidade.

– Não sei não...

– Então fica ai, eu vou!

– Não! Tudo bem, eu vou — disse ele, irritado.

– Tudo bem — disse ela novamente em inglês — podemos conversar.

– Podemos ir na praça de alimentação — sugeriu Ryuzaki.

– Ok, vamos — disse Dimitri.

Eles caminharam até as escadas rolantes e depois foram em direção aos letreiros coloridos das lanchonetes. Um garçom jovem foi atendê-los.

– Eu gostaria de um milk-shake grande de chocolate, por favor — disse Ryuzaki.

– E suas balas? — perguntou Elizabeth.

– Ah, acabaram — disse ele levantando o saquinho vazio.

– Vocês querem comer alguma coisa? — perguntou ele.

– Eu vou comer um queijo quente, e você Lisa? — disse o austríaco.

– Ah, eu não vou querer comer nada, obrigada.

– Lisa, você está desde ontem sem comer nada, por favor, quer desmaiar de novo? — falou ele em alemão.

– Foi um acidente. Não estou com fome, Dim. Não enche.

– Watari? — perguntou Ryuzaki.

– Estou bem — disse ele comendo uma maçã que trouxera na maleta.

– Então vai ser só o queijo quente e o milkshake? — perguntou o garçom.

– Traga uma salada de frutas — disse Dimitri.

– Dim, por favor...

– É bom comer, se não pode ficar fraca demais — disse Ryuzaki. Elizabeth deu um suspiro profundo e cruzou os braços, como uma criança.

– Uma salada pequena.. — disse ela.

– Ok — disse o funcionário, indo até o balcão e entregando o pedido a outro rapaz.

– Muito bem — disse Ryuzaki — ajeitando-se na cadeira. Os irmãos observaram o detetive sentar-se à sua maneira e brincar com os guardanapos da mesa — primeiramente peço-lhes desculpas caso tenham ficado incomodados com o fato de eu ter juntado informações sobre vocês, mas quero que saibam que não coletei nada pessoal, apenas informações que estão disponíveis para qualquer um.

– Não tem problema — disse Dimitri.

– O fato é que vocês dois parecem ser muito competentes e, como estavam procurando emprego e no mesmo voo que nós, não pudemos deixar de procurá-los.

– Então não estavam nos seguindo nem nada? — perguntou ela.

– Não. Foi apenas uma coincidência, mas pretendíamos entrar em contato com vocês de qualquer maneira.

– Você trabalha para a polícia?

– Não, sou independente, mas já auxiliei e recebi auxílio da polícia e do governo diversas vezes.

– Você deve ser muito bom — disse o austríaco, com um pouco de ironia.

– Pode-se dizer que sim. Costumo trabalhar sozinho, mas desde meu último caso, percebi que seria útil ter uma equipe, então começamos a procurar profissionais que consideramos serem capazes de nos ajudar. Fiquei bastante impressionado com seu currículo, Dimitri. É um detetive notável para alguém tão jovem. Elizabeth é igualmente talentosa. Gostaria que ambos considerassem a possibilidade de fazerem parte da minha equipe, mas é claro que terei que testar vocês antes.

– Testar? — perguntou ela.

– Está pedindo que trabalhemos para você mas quer nos testar antes? — perguntou o irmão, indignado.

– Sim. Tenho que ter certeza de que são realmente capazes de me ajudar. Não costumo trabalhar em casos simples. Também costumo trabalhar com vários casos simultaneamente e espero que meus funcionários façam o mesmo.

– Olha, eu não sei. Nós acabamos de chegar e ainda temos muita coisa para fazer. Se você se deu ao trabalho de nos investigar e nos considera tão capazes, não deve se incomodar em aguardar um pouco, não é? — respondeu ele.

– Não, claro que não. Apenas quero que pensem no assunto e...

– Eu aceito! — disse Elizabeth.

– Lisa!

– Perfeito. Entraremos em contato com você em breve. Compreendo que tem coisas a acertar e nós também, pode nos dar seu telefone?

– Sim, espere — disse ela pegando um papel.

– Lisa, espere mais um pouco! Você não pode aceitar a primeira oferta que aparece à sua frente. Tenha mais calma, vamos procurar outros lugares primeiro — disse o irmão em alemão.

– Não, estou curiosa, quero tentar. Se me lembro bem, você não ficou nessa de comparar empregos quando foi chamado pra trabalhar pela primeira vez

– Mesmo assim, espere um pouco...

– Garanto-lhes que sou de confiança e um dos melhores que encontrarão — disse Ryuzaki, também em alemão. Os irmãos olharam-no, surpreso.

– Aqui está — disse a jovem entregando ao detetive um papel com seu nome, e-mail e número do celular.

– Obrigado, entrarei em contato assim que possível. Quanto a você Dimitri, peço que....

– Aqui está — disse o garçom, interrompendo a conversa, trazendo uma enorme bandeija na mão. Cada um recebeu seu prato. Ryuzaki deu um longo e demorado gole em seu milkshake, saboreando cada gota.

– Obrigado — disse ele ao garçom — Como estava dizendo, espero que você pense no assunto, Dimitri — ele colocou a mão no bolço da calça e retirou um pequeno cartão. Estava escrito apenas um número de telefone em baixo revelo. Entregou-o ao austríaco- se aceitar, ligue para este número. Elizabeth, confira sua caixa de e-mails todas as noites, por favor, comunicarei-me com você por lá.

– Tudo bem — disse ela, sorridente.

Ryuzaki dei mais um longo gole em seu milkshake até a bebida acabar.

– Garçom — chamou ele — gostaria de mais um, por favor.

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.